O Amazonas não é uma cidade: é o rio mais caudaloso do planeta e, para muitos viajantes, a viagem da vida. Nasce nos Andes peruanos e cruza o continente de oeste a leste até desaguar no Atlântico, perto de Belém. Sua vazão média gira em torno de 209.000 a 224.000 metros cúbicos por segundo, cerca de um quinto de toda a água doce que os rios do mundo despejam nos oceanos: mais que o Nilo, o Yangtzé e o Mississippi juntos. Sua bacia, a maior do mundo, abrange uns 7 milhões de quilômetros quadrados. Percorrê-lo é entrar numa escala difícil de imaginar até você estar diante dela.
No Brasil, o Amazonas se vive sobretudo a partir da água. Aqui não há estradas ligando a maioria das cidades e vilarejos: o rio É a estrada. Por isso, a forma mais autêntica (e mais barata) de viajar é embarcar num barco regional de vários andares, armar sua rede no convés e se deixar levar durante dias entre Manaus, Santarém e Belém, no meio de famílias ribeirinhas, galinhas, motos e cachos de banana. No outro extremo estão os cruzeiros boutique e os lodges flutuantes de selva, que oferecem a mesma paisagem com cabine, guia bilíngue e passeios em lancha pequena. As duas formas valem a pena; você escolhe conforme o orçamento e a vontade de aventura.
O que você vai ver não se parece com nada. O Encontro das Águas, onde o Rio Negro escuro e o Solimões cor de café correm lado a lado sem se misturar. Os botos-cor-de-rosa (golfinhos de rio) surgindo ao lado da lancha. As vitórias-régias, folhas circulares de até três metros flutuando nos lagos. Jacarés, preguiças, tucanos, macacos, garças. A floresta alagada (igapó), que deixa você navegar entre as copas das árvores. E, acima de tudo, a vida ribeirinha: as casas de palafita, as crianças acenando da margem, os mercados flutuantes. O Amazonas é paisagem, fauna e gente, tudo ao mesmo tempo e numa escala que muda a sua cabeça.
Durante milhares de anos, o Amazonas foi o eixo da vida de centenas de povos originários, que se deslocavam, comerciavam e viviam sobre suas águas muito antes de qualquer europeu. O primeiro a percorrê-lo inteiro foi o espanhol Francisco de Orellana, que entre 1541 e 1542 desceu, por acaso, dos Andes até o Atlântico; nessa viagem, seu cronista, o frei Gaspar de Carvajal, relatou um combate contra mulheres guerreiras que lutaram ao lado dos homens de um povo ribeirinho, e isso inspirou o nome do rio, em alusão às amazonas da mitologia grega. Séculos depois chegaram os grandes naturalistas (La Condamine, Humboldt, Spix e Martius, Bates, Wallace, Spruce, Agassiz), que revelaram ao mundo a biodiversidade amazônica. Entre o fim do século XIX e o começo do XX, o ciclo da borracha encheu o rio de barcos a vapor e transformou Manaus e Belém em cidades opulentas da belle époque. Hoje o rio ainda é tema de um velho debate científico: se é ou não o rio mais longo do mundo, em disputa com o Nilo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Brazil's largest state, the heart of the Amazon rainforest: land of dozens of Indigenous peoples, of the rubber boom that raised the Manaus opera house, of the Meeting of the Waters and of a Free Trade Zone that turned the capital into an industrial hub in the middle of the jungle.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de qualquer europeu sonhar com a Amazônia, o grande rio já era o eixo da vida de centenas de povos. Durante milhares de anos, comunidades indígenas habitaram suas margens e seus afluentes e organizaram toda a sua existência em torno da água: o rio era a despensa (pesca, tartarugas, frutos), a rota (a canoa como único 'caminho') e o centro de um comércio que percorria distâncias enormes entre o oceano e os Andes.
Por muito tempo, imaginou-se a Amazônia pré-colombiana como uma floresta quase vazia, habitada por pequenos grupos dispersos. A pesquisa arqueológica das últimas décadas mudou esse quadro: hoje se sabe que ao longo do rio, sobretudo nas áreas de várzea (a planície fértil que alaga todo ano), viveram sociedades numerosas e complexas, com grandes aldeias, manejo da paisagem e produção de cerâmica elaborada. As primeiras crônicas europeias, aliás, descrevem margens densamente povoadas, com povoados contínuos e senhorios organizados.
Essa população originária foi dizimada com rapidez brutal após a chegada dos europeus, sobretudo pelas epidemias de doenças novas e pela violência e escravização. Mas sua marca continua viva: na língua (muitíssimos nomes de lugares, plantas e animais da Amazônia vêm do tupi e de outras línguas indígenas), na culinária, no conhecimento da floresta e na cultura dos ribeirinhos de hoje, herdeiros dessa longa relação entre as pessoas e o rio.
O primeiro europeu a percorrer o rio de ponta a ponta chegou quase por acidente. Em 1541, o espanhol Francisco de Orellana se juntou à expedição de Gonzalo Pizarro que, partindo de Quito, buscava o lendário 'País da Canela' a leste dos Andes. Quando a fome e a falta de provisões deixaram a expedição à beira do desastre, Orellana foi enviado rio abaixo com um bergantim para buscar comida. A correnteza, porém, tornou a volta impossível: em 26 de dezembro de 1541, sem conseguir retornar, Orellana aceitou seguir em frente rumo ao desconhecido com cerca de 50 homens e um frade dominicano, Gaspar de Carvajal, que deixou a crônica da viagem.
Durante meses eles desceram o rio gigante, entre margens povoadas, encontros pacíficos e combates. Em 26 de agosto de 1542, depois de uma travessia extraordinária, chegaram ao Atlântico: era a primeira navegação registrada do Amazonas, dos Andes ao mar. O relato de Carvajal, com seus exageros e seus espantos, foi durante séculos a principal janela europeia para a floresta.
O nome do rio nasceu de um desses episódios. Carvajal narrou um combate, por volta de meados de 1542, contra um povo ribeirinho entre cujos guerreiros lutavam mulheres, que ele descreveu como altas, de pele clara e ferozes, capazes de lutar como dez homens. Orellana, educado nos clássicos, associou essas guerreiras às amazonas da mitologia grega, as lendárias mulheres combatentes, e passou a chamar a correnteza de 'o rio das Amazonas'. Assim, um combate e um mito grego deram nome ao rio mais caudaloso do mundo.
Depois dos conquistadores vieram os cientistas, e com eles a Amazônia deixou de ser terra de lendas para se tornar um dos grandes laboratórios naturais do mundo. Quem abriu a travessia, no século XVIII, foi o francês Charles Marie de La Condamine, que em 1743-1744 desceu o Amazonas depois de suas medições geodésicas nos Andes: fez o primeiro mapa científico moderno do rio e enviou à Europa uma das primeiras amostras de borracha, antecipando o que dois séculos depois transformaria a região.
No início do século XIX, o prussiano Alexander von Humboldt, ao lado do botânico francês Aimé Bonpland, explorou o Orinoco e demonstrou sua ligação com o rio Negro através do canal de Casiquiare; sua obra e seu olhar inspiraram toda uma geração de naturalistas. Entre 1817 e 1820, os bávaros Johann Baptist von Spix (zoólogo) e Carl Friedrich Philipp von Martius (botânico) percorreram o Amazonas e voltaram a Munique com milhares de espécimes; Martius dedicou depois décadas à sua monumental 'Flora Brasiliensis'.
O capítulo mais célebre foi escrito pelos naturalistas vitorianos. Em 1848, os ingleses Henry Walter Bates e Alfred Russel Wallace chegaram juntos ao Amazonas; logo se juntou a eles o botânico Richard Spruce. Wallace desenvolveria, em paralelo a Darwin, a teoria da seleção natural; Bates passou onze anos na floresta, descreveu milhares de espécies novas e formulou o conceito de mimetismo (o 'mimetismo batesiano'), que deu apoio precoce à teoria da evolução, tudo reunido em seu clássico 'The Naturalist on the River Amazons'. Mais tarde, o suíço-americano Louis Agassiz somou sua própria expedição. Graças a eles, o mundo começou a entender que o Amazonas era o sistema vivo mais diverso do planeta.
Entre o fim do século XIX e o início do XX, o Amazonas viveu sua transformação mais vertiginosa: o ciclo da borracha. A revolução industrial e, sobretudo, a invenção do pneu dispararam a demanda mundial por látex, e a Amazônia era então praticamente a única fonte de borracha do planeta. Pelo rio passaram a circular barcos a vapor carregados de látex rumo ao Atlântico, que voltavam com pessoas, mercadorias e ideias da belle époque europeia.
Essa enxurrada de dinheiro transformou Manaus e Belém, nos dois extremos do trecho brasileiro do rio, em vitrines da belle époque em plena floresta. Manaus, situada estrategicamente às margens do rio Negro, ganhou o apelido de 'Paris dos Trópicos': teve luz elétrica, bondes e água encanada antes de muitas capitais europeias, ergueu mansões suntuosas e construiu sua joia, o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896-1897 com mármore de Carrara, aço de Glasgow e móveis de Paris. Em 1902, engenheiros britânicos inauguraram o famoso porto flutuante de Manaus, uma solução que permitia operar o ano todo, apesar de o nível do rio subir e descer vários metros entre as estações, e que consolidou a cidade como grande polo logístico capaz de receber navios oceânicos.
O esplendor foi tão deslumbrante quanto frágil. A partir de 1876, sementes de seringueira levadas clandestinamente da Amazônia deram origem a imensas plantações no Sudeste Asiático (Malásia, Ceilão), muito mais eficientes. Quando essa borracha asiática inundou o mercado a partir de 1912, os preços despencaram e a economia amazônica da borracha entrou em colapso. Manaus e Belém mergulharam em uma longa decadência, e o rio voltou a uma vida mais silenciosa, até novos ciclos no século XX.
Que o Amazonas é o rio mais caudaloso do planeta, ninguém discute: ele despeja uma vazão média de cerca de 209.000 a 224.000 metros cúbicos por segundo na foz, perto de um quinto (cerca de 20%) de toda a água doce que os rios do mundo lançam nos oceanos, mais do que o Nilo, o Yangtzé e o Mississippi somados. Sua bacia, de uns 7 milhões de quilômetros quadrados, também é a maior do mundo. Isso está fora de dúvida.
O que se discute há mais de um século é o seu comprimento e, em especial, se ele é ou não mais longo que o Nilo. O problema é que medir um rio não é tão simples quanto parece: é preciso decidir onde ele começa (qual dos muitos riachos andinos é 'a' nascente) e onde termina (a foz do Amazonas é um delta gigantesco e discutível). Pequenas diferenças nesses critérios mudam o resultado em centenas de quilômetros. Por isso os números variam tanto: o comprimento 'clássico' que costuma ser citado gira em torno de 6.400 km, mas medições recentes diferentes o esticam até uns 6.575-7.062 km.
A nascente mais aceita durante quase um século foi o nevado Mismi, nos Andes peruanos, que alimenta o rio Apurímac. Em 2014, um estudo liderado pelo explorador James 'Rocky' Contos propôs uma nascente ainda mais distante, nas cabeceiras do rio Mantaro, o que aumentaria o comprimento do rio. Com a medição e a nascente adequadas, vários trabalhos sustentam que o Amazonas superaria o Nilo e seria o rio mais longo do mundo; outros, e recordes como o Guinness, continuam dando o título ao Nilo. A discussão segue aberta e, em parte, é semântica: depende de onde você decide que um rio 'começa' e 'termina'.