No coração da Amazônia brasileira, onde o rio Tapajós, de águas verde-azuladas, encontra as águas barrentas do gigantesco rio Amazonas, fica Santarém, a grande cidade do oeste do Pará. Fundada sobre uma antiga aldeia indígena, é uma das cidades mais antigas da Amazônia e, durante séculos, foi parada obrigatória da navegação entre Belém e Manaus. Hoje combina seu ar de cidade ribeirinha tranquila com o papel de porta de entrada para algumas das paisagens mais surpreendentes da floresta.
Seu maior tesouro está logo ali: Alter do Chão, a vila ribeirinha de praias de areia branca apelidada de 'Caribe amazônico', com sua famosa Ilha do Amor. Mas Santarém oferece muito mais: o fenômeno do Encontro das Águas em frente à sua orla, onde Tapajós e Amazonas correm lado a lado sem se misturar; a Floresta Nacional do Tapajós, com árvores gigantes e comunidades tradicionais; as praias de rio que surgem na estação seca; e a possibilidade de embarcar em um barco de linha para viver a autêntica travessia amazônica em rede.
Este guia percorre Santarém com um olhar prático e acolhedor: como se locomover, o que ver na cidade e nos arredores, como chegar a Alter do Chão e à floresta, onde dormir e comer, e quando viajar para encontrar as praias no seu melhor momento. Santarém é a Amazônia menos lotada, aquela que ainda se vive no ritmo do rio.
Muito antes da chegada dos europeus, a região de Santarém era habitada pelos tapajós (ou tapajô), um povo indígena que desenvolveu uma das culturas ceramistas mais notáveis da Amazônia pré-colombiana, a chamada cultura tapajônica, conhecida por suas elaboradas peças de cerâmica. Os portugueses chegaram à área no século XVII; em 1661 os jesuítas fundaram ali uma missão (a aldeia dos tapajós) e, em 1758, o local foi elevado à categoria de vila com o nome de Santarém, em homenagem à cidade homônima de Portugal. Por sua localização na confluência do Tapajós com o Amazonas, Santarém se tornou um porto e centro comercial fundamental da Amazônia. Durante o ciclo da borracha, entre o fim do século XIX e o início do XX, viveu um período de prosperidade. Um capítulo curioso de sua história é a chegada, após a Guerra de Secessão americana, de colonos confederados do sul dos Estados Unidos que se instalaram na região. No século XX, Santarém cresceu com a navegação amazônica, a pesca, a exploração madeireira e, mais recentemente, o avanço da soja pela rodovia BR-163 e pelo porto graneleiro, o que gerou debates sobre o impacto ambiental na floresta. Hoje é a principal cidade do oeste do Pará e a base do turismo de natureza da região. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The great state of the eastern Amazon: gateway of the Amazon River to the Atlantic, with Belém and its Ver-o-Peso, the island of Marajó and its buffaloes, and the freshwater beaches of Alter do Chão, the 'Amazonian Caribbean'.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes da chegada dos europeus, a região onde hoje fica Santarém era habitada pelos tapajós (ou tapajó), um povo indígena que deu nome ao grande rio Tapajós e que desenvolveu uma das culturas mais notáveis da Amazônia pré-colombiana. Eles viviam na confluência do Tapajós com o Amazonas, um ponto de enorme riqueza pesqueira e estratégica, e formavam uma sociedade numerosa e complexa, descrita pelos primeiros cronistas europeus como populosa e bem organizada.
O legado mais impressionante desse povo é a chamada cultura tapajônica, conhecida sobretudo por sua cerâmica. Os tapajós produziram peças de grande elaboração e beleza —vasos, estatuetas, cariátides e os célebres 'muiraquitãs' (amuletos de pedra verde em forma de animais)—, decoradas com figuras humanas e animais modeladas e aplicadas. Essas peças estão entre as expressões cerâmicas mais sofisticadas da Amazônia antiga e hoje são conservadas em museus, incluindo o acervo do Centro Cultural João Fona, na própria Santarém.
A descoberta desses vestígios, junto com as chamadas 'terras pretas' (terras escuras antrópicas, muito férteis, formadas pela ocupação humana milenar), alimentou a ideia de que a Amazônia abrigou populações muito mais numerosas e organizadas do que se acreditou durante muito tempo. A região de Santarém é, nesse sentido, uma das chaves para entender a profundidade histórica da ocupação humana na floresta.
A presença portuguesa estável na confluência do Tapajós com o Amazonas começou no século XVII, no contexto da expansão pela Amazônia que partia de Belém, fundada em 1616. Em 1661, o padre jesuíta António Vieira impulsionou a instalação de uma missão religiosa na aldeia dos índios tapajós, com o objetivo de catequizar a população originária e consolidar o domínio da Coroa portuguesa na região do baixo Amazonas.
Aquela missão, conhecida como a aldeia dos Tapajós, foi o embrião da futura cidade. Durante quase um século, o local funcionou como aldeamento indígena sob administração religiosa, num período marcado pelas tensões entre os projetos missionários, os interesses dos colonos e o impacto das doenças e da pressão sobre as populações nativas.
A mudança de status veio no século XVIII, no contexto das reformas do Marquês de Pombal, que reorganizaram a Amazônia portuguesa, expulsaram os jesuítas e transformaram muitas aldeias missionárias em vilas civis. Em 1758, o local foi elevado à categoria de vila com o nome de Santarém, em homenagem à cidade portuguesa homônima, situada às margens do rio Tejo. Com esse nome e essa categoria, passou a integrar a rede de vilas que a Coroa promovia para afirmar sua soberania sobre o imenso território amazônico.
Durante o século XIX, Santarém cresceu no ritmo da economia amazônica e, sobretudo, do auge da borracha. Entre o fim do século XIX e o começo do XX, a febre do látex extraído das seringueiras transformou toda a Amazônia: cidades como Manaus e Belém viveram uma prosperidade espetacular, e Santarém, por sua posição estratégica como porto sobre o Amazonas, se beneficiou do intenso tráfego fluvial da época, consolidando-se como centro comercial do oeste paraense.
Um capítulo singular da história santarena começou depois da Guerra de Secessão dos Estados Unidos (1861-1865). Com a derrota dos estados do sul, um grupo de colonos confederados decidiu emigrar em vez de viver sob a nova ordem, e várias centenas se instalaram em diferentes regiões do Brasil, onde o imperador Dom Pedro II incentivava a imigração. Um desses núcleos se estabeleceu na região de Santarém, atraído pelas terras e pelas promessas de um recomeço. Embora muitos tenham acabado voltando ou se dispersando, deixaram marcas em sobrenomes e na memória local da região.
O ciclo da borracha entrou em crise no começo do século XX, quando as plantações do Sudeste Asiático —desenvolvidas a partir de sementes levadas da Amazônia— quebraram o monopólio brasileiro e derrubaram os preços. Santarém, como toda a região, passou então por tempos mais difíceis, mas manteve seu papel de porto e de centro de serviços do baixo Amazonas, sustentado pela pesca, pela agricultura e pelo comércio fluvial.
Ao longo do século XX, Santarém se firmou como a principal cidade do oeste do Pará e um polo da navegação amazônica. A pesca, a exploração madeireira, a agricultura e o comércio fluvial sustentaram seu crescimento, enquanto a cidade ampliava sua população e seus serviços e se conectava a Belém e Manaus pelos grandes barcos de linha que até hoje percorrem o Amazonas.
Um ponto de virada veio com a integração por terra. A construção e, já no século XXI, a pavimentação da rodovia BR-163, que liga Santarém ao sul de Mato Grosso atravessando a Amazônia, transformou a economia regional ao conectar o porto santareno à fronteira agrícola do Centro-Oeste brasileiro. A instalação de um grande porto graneleiro para a exportação de soja transformou Santarém numa saída estratégica da produção agrícola rumo aos mercados internacionais.
Esse desenvolvimento trouxe consigo um intenso debate ambiental e social. A expansão da soja e da fronteira agropecuária, junto com o avanço da rodovia, foi associada a pressões sobre a floresta, ao desmatamento e a conflitos por terra com comunidades tradicionais e indígenas. Ao mesmo tempo, a região fortaleceu iniciativas de conservação e de turismo de natureza —como a Floresta Nacional do Tapajós e o ecoturismo de Alter do Chão—, que buscam um modelo de desenvolvimento compatível com a preservação amazônica. Santarém vive hoje essa tensão entre o agronegócio, a conservação e o turismo, numa das regiões mais sensíveis do planeta.
Se no passado a história de Santarém girou em torno dos indígenas, das missões, da borracha e do comércio fluvial, nas últimas décadas um novo capítulo a transformou: o do turismo de natureza. O protagonista dessa virada é Alter do Chão, a vila ribeirinha às margens do Tapajós que, graças às suas praias de areia branca e águas verde-azuladas que surgem na época da seca, deixou de ser uma tranquila vila de pescadores para se tornar um dos destinos mais cobiçados da Amazônia brasileira.
O apelido de 'Caribe amazônico' e o reconhecimento de sua beleza —incluindo menções em veículos internacionais que destacaram suas praias de rio— colocaram Alter do Chão e Santarém no mapa do turismo. A Ilha do Amor, os passeios de barco pelo Tapajós e pelos igapós e a proximidade da Floresta Nacional do Tapajós transformaram a região numa referência em ecoturismo e turismo de base comunitária, em que as comunidades tradicionais participam oferecendo guias, hospedagem e artesanato.
Assim, Santarém reúne hoje várias identidades: a do porto histórico e cidade de serviços do oeste paraense; a do polo do agronegócio conectado pela BR-163; e a da porta de entrada para uma paisagem amazônica de praias, floresta e rios que atrai viajantes do mundo todo. Essa convivência entre desenvolvimento e conservação, entre a cidade e a floresta, resume bem o lugar que Santarém ocupa na Amazônia contemporânea.