Rio Branco é a capital do Acre, o estado mais ocidental da Amazônia brasileira, uma terra de floresta densa, rios sinuosos e uma história tão singular quanto apaixonante. Às margens do rio Acre, perto da tríplice fronteira com a Bolívia e o Peru, esta cidade cresceu no embalo do ciclo da borracha e de uma epopeia que poucas regiões do Brasil podem contar: a de um território que era boliviano e que, no começo do século XX, passou a ser brasileiro depois de uma verdadeira revolução dos seringueiros.
É também a terra de Chico Mendes, o seringueiro e líder ambientalista assassinado em 1988, que virou símbolo mundial da luta pela floresta e pelos povos que vivem nela. Essa dupla identidade — a da borracha e da fronteira, e a da defesa da Amazônia — impregna Rio Branco, uma cidade de calor, rios e miscigenação, onde convivem a memória dos seringais, a cultura amazônica e a energia de uma capital de fronteira aberta para o Pacífico.
Em um ou dois dias dá para ver o essencial: o centro histórico às margens do rio Acre, com o Mercado Velho (o coração gastronômico da cidade), o Palácio Rio Branco e seu museu sobre a epopeia acreana, a Praça da Revolução e as pontes iluminadas. Com mais um dia, dá para ir até Xapuri, onde está preservada a casa em que Chico Mendes viveu e foi assassinado. Não é um destino de roteiros de massa, mas oferece uma das histórias mais fascinantes da fronteira amazônica, uma gastronomia saborosa de raiz indígena e nordestina, e a porta de entrada para a floresta e para os caminhos que ligam o Brasil ao Pacífico pela Rodovia Interoceânica.
A região do Acre foi habitada por inúmeros povos indígenas e, durante o período colonial e boa parte do século XIX, fez parte do território da Bolívia, numa área de limites imprecisos em plena floresta. Tudo mudou com o ciclo da borracha: no fim do século XIX, milhares de migrantes brasileiros, sobretudo nordestinos castigados pelas secas, chegaram a estes seringais para extrair o látex da seringueira. Quando os brasileiros se tornaram maioria num território boliviano, estouraram os conflitos, que desembocaram na Revolução Acreana, liderada, entre outros, por José Plácido de Castro. Depois da guerra, a Bolívia cedeu o Acre ao Brasil pelo Tratado de Petrópolis (1903), em troca de compensações que incluíram a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. O Acre passou a ser primeiro território federal e, em 1962, estado da federação brasileira, com Rio Branco como capital. A cidade cresceu às margens do rio Acre como centro do comércio da borracha e, depois do seu declínio, viveu novos ciclos econômicos e migratórios. Nas décadas de 1970 e 1980, o Acre foi palco da luta dos seringueiros para defender a floresta contra o desmatamento, encarnada na figura de Chico Mendes, assassinado em 1988, que transformou o estado em símbolo mundial do ambientalismo e deu origem às reservas extrativistas. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Brazil's westernmost state, deep in Amazonia: land of peoples of the Pano family, of seringueiros from the Northeast and of the environmentalist Chico Mendes. It was Bolivian until its settlers brought it into Brazil under the Treaty of Petrópolis of 1903.
Ler a história de Acre →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Rio Branco não pode ser entendida sem a do Acre, uma das regiões de história mais singular de todo o Brasil. Antes da chegada dos europeus e durante séculos, esta terra de floresta densa, no extremo sudoeste da Amazônia, era habitada por numerosos povos indígenas de diferentes etnias e línguas, que viviam da caça, da pesca, da coleta e do cultivo em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.
Durante o período colonial e boa parte do século XIX, o Acre fez parte — pelo menos no papel — do território da Bolívia, em uma zona de limites imprecisos e mal definidos em plena floresta, longe dos centros de poder. Os tratados coloniais entre as coroas ibéricas e, depois, os acordos entre Brasil, Bolívia e Peru deixavam essas terras remotas em uma situação ambígua, pouco explorada e praticamente sem presença efetiva dos Estados.
Essa ambiguidade fronteiriça, somada à riqueza natural da região — e muito especialmente à abundância de seringueiras, produtoras da cobiçada borracha —, seria o estopim de um conflito que mudaria para sempre o destino do Acre. A chegada em massa de migrantes brasileiros atraídos pelo 'ouro branco' da borracha, no fim do século XIX, desencadeou uma série de acontecimentos que acabariam transformando este território boliviano em uma nova terra brasileira.
No fim do século XIX, a demanda mundial por borracha — impulsionada pela industrialização e pela nascente indústria automobilística — desencadeou na Amazônia a 'febre da borracha', um dos ciclos econômicos mais intensos da história do Brasil. A região do Acre, com sua enorme abundância de seringueiras, tornou-se um dos grandes centros de produção do cobiçado látex, o 'ouro branco' da floresta.
Para extrair a borracha era preciso mão de obra, e ela veio sobretudo do Nordeste do Brasil. Milhares e milhares de migrantes nordestinos, castigados pelas terríveis secas que assolavam sua região (em especial a grande seca do fim do século XIX), migraram para a Amazônia atraídos pela promessa de riqueza nos seringais. Lá se tornaram seringueiros, coletores de borracha que viviam em condições duríssimas, endividados no sistema dos 'barracões' e dos patrões, embrenhados na floresta para sangrar as árvores.
Esse fluxo migratório em massa teve uma consequência política decisiva: o território do Acre, formalmente boliviano, foi povoado majoritariamente por brasileiros. Em poucos anos, seringueiros e comerciantes brasileiros eram a esmagadora maioria da população de uma terra que pertencia à Bolívia. Quando o governo boliviano tentou afirmar sua soberania e cobrar impostos sobre a produção de borracha, o choque com essa população brasileira se tornou inevitável, e a faísca do conflito se acendeu.
O conflito entre a população brasileira do Acre e a soberania boliviana explodiu em uma verdadeira guerra no início do século XX: a Revolução Acreana. Os seringueiros e colonos brasileiros, insatisfeitos com o governo boliviano e com a intenção de explorar a região por meio de um consórcio internacional (o Bolivian Syndicate), pegaram em armas. A revolução teve várias fases, e entre seus líderes se destacou José Plácido de Castro, um gaúcho que comandou as forças acreanas e se tornou figura central da epopeia.
Depois dos confrontos e das proclamações de um 'Estado Independente do Acre', o governo brasileiro — com a diplomacia liderada pelo Barão do Rio Branco, célebre chanceler — interveio para resolver a questão pela via negociada. O resultado foi o Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, pelo qual a Bolívia cedeu o território do Acre ao Brasil. Em troca, o Brasil entregou à Bolívia uma compensação financeira, um pequeno território fronteiriço e, sobretudo, o compromisso de construir uma ferrovia — a futura Madeira-Mamoré — que desse à Bolívia uma saída para seus produtos contornando as cachoeiras do rio Madeira.
Assim, por meio de uma combinação de revolução popular e diplomacia, o Acre passou a fazer parte do Brasil. A cidade de Rio Branco — cujo nome homenageia justamente o Barão do Rio Branco, artífice do tratado — consolidou-se como o principal centro do novo território. A epopeia da incorporação do Acre ficou gravada no imaginário acreano e é celebrada até hoje na Praça da Revolução e nos memoriais da cidade.
Depois de sua incorporação ao Brasil em 1903, o Acre foi organizado primeiro como Território Federal, administrado diretamente pelo governo central, dado o isolamento da região e sua anexação recente. Durante essas décadas, a economia do território continuou girando em torno da borracha, com os altos e baixos próprios do ciclo: o auge do fim do século XIX e início do XX, a crise quando as plantações do Sudeste Asiático quebraram o monopólio amazônico e uma breve retomada durante a Segunda Guerra Mundial.
A cidade de Rio Branco, às margens do rio Acre, foi crescendo como capital do território e centro do comércio, da administração e da vida social da região. A cidade se desenvolveu em torno do rio, que a dividia em distritos depois unidos por pontes, e foi concentrando os serviços e as instituições do Acre.
O reconhecimento pleno veio em 1962, quando o Território Federal do Acre foi elevado à categoria de estado da federação brasileira, com Rio Branco como capital. Essa elevação consolidou a cidade como o coração político, econômico e cultural do Acre. A partir de então, e especialmente com a abertura de rodovias como a BR-364, que a ligaram ao resto do país, Rio Branco viveu novos processos de crescimento e migração, transformando-se na capital moderna de um dos estados mais singulares do Brasil.
Nas últimas décadas do século XX, o Acre e sua capital se tornaram palco de uma luta que teria repercussão mundial: a defesa da floresta amazônica diante do avanço do desmatamento. O protagonista dessa história foi Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes (1944-1988), um seringueiro nascido no Acre que se tornou sindicalista e líder ambientalista.
A partir dos anos 1970 e 1980, a expansão da pecuária e o desmatamento ameaçaram os seringais dos quais viviam as comunidades extrativistas. Chico Mendes organizou a resistência pacífica dos seringueiros por meio dos 'empates', ações em que as famílias se colocavam fisicamente na frente para impedir a derrubada da floresta. Sua luta uniu a defesa do meio ambiente à dos direitos e dos modos de vida das populações tradicionais, e propôs um modelo inovador: as reservas extrativistas, áreas onde a floresta é conservada ao mesmo tempo em que se permite seu uso sustentável por quem vive nela.
A projeção internacional de Chico Mendes fez dele uma figura incômoda para os interesses ligados ao desmatamento, e em dezembro de 1988 ele foi assassinado em sua casa em Xapuri, no Acre. Sua morte causou comoção mundial e transformou Chico Mendes em um símbolo global do ambientalismo e da luta pela Amazônia. Seu legado continua vivo nas reservas extrativistas (uma das quais leva seu nome), em instituições de conservação e na memória do Acre, onde Rio Branco homenageia esse filho da floresta que deu a vida para protegê-la.