Cortada por rios e ligada por pontes, Recife é a capital de Pernambuco e uma das cidades mais vibrantes e cheias de personalidade do Nordeste brasileiro. É chamada de 'a Veneza brasileira' por seus canais, suas pontes e sua relação íntima com a água: o Atlântico de um lado, os rios Capibaribe, Beberibe e Tejipió do outro, e os arrecifes de arenito que lhe deram o nome e que durante séculos protegeram o seu porto. É uma cidade de história densa — portuguesa, holandesa, africana e indígena —, de cultura transbordante e de uma energia contagiante, principalmente no Carnaval.
O coração histórico é o Recife Antigo, o Bairro do Recife: a ilha portuária onde a cidade nasceu. Ali fica o Marco Zero, o ponto zero de onde tudo é medido, com o Parque das Esculturas de Francisco Brennand debruçado sobre o mar; a Rua do Bom Jesus, eleita uma das ruas mais bonitas do mundo, que abrigou a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel; o Paço do Frevo, templo do ritmo que é Patrimônio da Humanidade; e o Cais do Sertão, museu dedicado a Luiz Gonzaga e à cultura do sertão. Caminhar pelo Recife Antigo é ler cinco séculos de história entre fachadas coloridas e velhos trilhos de bonde.
Mas Recife é muito mais: é o castelo do Instituto Ricardo Brennand, com uma das maiores coleções de armas brancas do mundo e pinturas de Frans Post sobre o Brasil holandês; é a onírica Oficina Cerâmica Francisco Brennand, com suas milhares de esculturas de cerâmica; é a longa praia de Boa Viagem (onde, atenção, existe risco real de tubarões e trechos onde não se deve entrar no mar); é a herança de Maurício de Nassau e da Mauritsstad holandesa; e é a porta de entrada para a deslumbrante Olinda, patrimônio da UNESCO logo ali, e para as piscinas naturais de Porto de Galinhas. Tudo regado a frevo, maracatu e a uma das cozinhas mais saborosas do país.
O nome Recife vem dos arrecifes de arenito ('recifes', do árabe 'ár-raçif') que formam uma barreira natural diante da costa e que transformaram o lugar em um porto abrigado. Antes da chegada dos portugueses, o litoral era habitado por povos originários, sobretudo da família tupi. A colonização europeia começou quando a Coroa portuguesa criou a capitania de Pernambuco e seu primeiro donatário, Duarte Coelho, fundou Olinda em 1535 no alto das colinas, enquanto aos seus pés, junto à água, crescia o modesto 'Arrecife dos Navios', o porto que abastecia a economia do açúcar, base da riqueza colonial graças aos enormes engenhos e ao trabalho forçado de africanos escravizados. Entre 1630 e 1654, Pernambuco foi ocupada pelos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais. O período mais lembrado é o governo de Maurício de Nassau (Johan Maurits van Nassau-Siegen), que entre 1637 e 1644 transformou o lugar em uma verdadeira cidade planejada, a Mauritsstad, com ruas, pontes, jardins, palácios, um observatório astronômico e uma notável tolerância religiosa que permitiu, entre outras coisas, a primeira sinagoga das Américas. Depois da saída de Nassau, a resistência luso-brasileira cresceu na chamada Insurreição Pernambucana e, com as decisivas Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), os holandeses foram derrotados; em 1654 capitularam definitivamente. Já no Brasil independente, Recife foi berço de movimentos rebeldes como a Revolução Pernambucana de 1817, de caráter republicano. Com o tempo, a cidade se consolidou como grande capital do Nordeste e forjou uma identidade cultural fortíssima, com o frevo e o maracatu como bandeiras e um Carnaval que tem no Galo da Madrugada o maior bloco de rua do mundo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of the sugar-growing Northeast: the richest captaincy of the colony, stage of Nassau's Dutch Brazil and of the Guararapes battles, hotbed of the greatest republican rebellions of the Empire. Land of frevo and maracatu, of the handsome pair Recife and Olinda, and of the ocean jewel of Fernando de Noronha.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Existe uma cidade brasileira cujo nome não vem de um santo, nem de um rei, nem de um rio, mas de uma parede de pedra submersa. Recife se chama assim por causa dos recifes: uma barreira de rocha de arenito que corre paralela à costa e que, durante séculos, serviu de muralha natural para abrigar os barcos. Antes da chegada dos portugueses, este litoral era habitado por povos originários da família tupi, que viviam da pesca, da coleta e do cultivo da mandioca entre os rios, os manguezais e o mar. Mas foi essa linha de rocha diante da orla que decidiu o destino do lugar: a origem do nome e da própria cidade.
A palavra 'recife' (antigamente 'arrecife') deriva do árabe 'ár-raçif', que significa pavimento, calçada, linha de recifes, dique ou cais. As primeiras menções documentais aparecem muito cedo: no diário de Pero Lopes de Sousa, que por volta de 1532 chama o porto natural de 'Barra dos Arrecifes', e no Foral de Olinda (1537), em que o primeiro donatário, Duarte Coelho, o chama de 'Arrecife dos Navios'. Mais tarde, um mapa de João Teixeira Albernaz I (1618) o registra como 'Lugar do Recife'.
O recife não foi só um nome: foi a chave econômica do lugar. Essa barreira de rocha criava um ancoradouro abrigado, um porto natural onde os barcos podiam carregar e descarregar protegidos das ondas. Por isso, desde o século XVI, o 'Arrecife dos Navios' se tornou o porto por onde saía a riqueza da capitania de Pernambuco, enquanto a vila senhorial crescia no alto, em Olinda. No começo do século XVII, o porto do Recife era um dos mais movimentados da América portuguesa, o que também o transformou em alvo de corsários franceses, ingleses e holandeses.
Na primeira metade do século XVI, a Coroa portuguesa organizou a colonização do Brasil por meio do sistema de capitanias hereditárias. A capitania de Pernambuco foi concedida a Duarte Coelho Pereira, que chegou em 1535 e fundou Olinda, no alto de umas colinas com vista para o mar, como sede senhorial da capitania. Aos pés de Olinda, junto à água, foi crescendo o modesto porto do 'Arrecife dos Navios', que funcionava como saída marítima da vila.
Pernambuco se tornou rapidamente uma das regiões mais ricas da América portuguesa graças a um único produto: o açúcar. O clima, o solo da zona da mata e a proximidade do porto fizeram da região um gigantesco complexo açucareiro, com dezenas de engenhos que produziam açúcar para o mercado europeu. Essa riqueza foi construída sobre a base brutal do trabalho escravo: primeiro a submissão dos povos indígenas e, sobretudo, a deportação em massa de africanos escravizados, cuja mão de obra sustentou a economia colonial durante séculos e cuja herança cultural é hoje parte central da identidade pernambucana.
Durante o ciclo do açúcar, Olinda concentrava o poder, a nobreza da terra (os 'senhores de engenho') e as grandes igrejas, enquanto o Recife crescia como bairro portuário e comercial, habitado por mercadores, marinheiros, artesãos e trabalhadores. Essa tensão entre a vila aristocrática da colina e o porto agitado lá embaixo marcaria a história da região por muito tempo. A prosperidade açucareira, além disso, atraiu a cobiça de outras potências europeias: no começo do século XVII, os holandeses puseram os olhos em Pernambuco.
Atraída pela riqueza açucareira, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC) invadiu Pernambuco em fevereiro de 1630. Uma poderosa frota — da ordem de sessenta e sete navios e milhares de homens, sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Loncq — tomou Olinda e o Recife, e os holandeses se estabeleceram na região. Começava assim um período de domínio holandês sobre o Nordeste brasileiro que se estenderia, com altos e baixos, até 1654: o 'Brasil holandês' ou 'Nova Holanda'.
O grande protagonista dessa etapa foi Johan Maurits van Nassau-Siegen, conhecido no Brasil como Maurício de Nassau, que governou a colônia entre 1637 e 1644. Em vez de uma simples ocupação militar, Nassau empreendeu a transformação do Recife em uma verdadeira cidade planejada, a 'Mauritsstad' (Cidade Maurícia), erguida sobre a ilha de Antônio Vaz. Foi, segundo os historiadores, a primeira cidade das Américas a passar por um processo de planejamento urbano: traçou ruas, abriu canais, construiu pontes que uniam as ilhas, ergueu palácios (como o Vrijburg e o da Boa Vista) e jardins, e instalou um observatório astronômico e uma estação meteorológica, considerados os primeiros criados por europeus na América.
Nassau cercou seu governo de artistas e cientistas. Pintores como Frans Post (o primeiro paisagista europeu a retratar a paisagem americana) e Albert Eckhout, e naturalistas como Georg Marcgraf e Willem Piso, documentaram a flora, a fauna, as paisagens e os povos do Brasil holandês, deixando um legado científico e artístico extraordinário. Outro traço notável do seu governo foi uma ampla tolerância religiosa: sob o domínio holandês, os judeus sefarditas — muitos deles antigos 'cristãos-novos' obrigados a se converter — puderam praticar abertamente sua fé e fundaram no Recife a Kahal Zur Israel (por volta de 1636), considerada a primeira sinagoga das Américas. O Recife de Nassau foi, por um breve período, uma cidade cosmopolita e singular no Novo Mundo.
O governo tolerante e relativamente próspero de Nassau não se sustentou. Em 1644, Maurício de Nassau renunciou e voltou para a Europa, e a administração da Companhia, mais rígida e focada em cobrar dívidas dos produtores, deteriorou as relações com os 'senhores de engenho' locais, em sua maioria portugueses e católicos. O contexto também mudou na Europa: em 1640, Portugal havia recuperado sua independência da Coroa espanhola (a Restauração portuguesa), o que reacendeu o desejo de expulsar os holandeses do Brasil.
Em 1645 estourou a chamada Insurreição Pernambucana, um levante dos colonos luso-brasileiros contra o domínio holandês. A resistência reuniu figuras que se tornariam símbolos do Nordeste e do Brasil: João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros (da elite local), Henrique Dias (líder de um regimento de negros) e Filipe Camarão (um chefe indígena potiguar). A união de brancos, negros e indígenas na luta contra os holandeses ganhou, com o tempo, um forte valor simbólico como momento fundador de uma identidade brasileira.
O ponto de virada foram as duas Batalhas dos Guararapes, travadas nos Montes Guararapes, perto da atual Jaboatão dos Guararapes. A primeira, em 19 de abril de 1648, e a segunda, em 16 de fevereiro de 1649, terminaram ambas com a derrota das forças holandesas. Essas vitórias foram decisivas e quebraram o poder holandês na região. Depois de anos de cerco e resistência, os holandeses finalmente capitularam em 1654, pondo fim a quase um quarto de século de domínio holandês no Nordeste. Pernambuco voltou ao controle português, e a experiência deixou uma marca profunda na memória e no orgulho regional.
Expulsos os holandeses, o Recife continuou crescendo como porto e centro comercial, até superar Olinda em importância e se tornar, com o tempo, a capital de Pernambuco e uma das grandes cidades do Brasil. Essa ascensão do porto sobre a vila aristocrática já havia alimentado, no começo do século XVIII, tensões como a Guerra dos Mascates (1710-1711), entre os comerciantes do Recife e a nobreza de Olinda. Com o passar dos séculos, a cidade se firmou como metrópole do Nordeste.
O Recife foi, além disso, berço de movimentos políticos rebeldes. O mais célebre é a Revolução Pernambucana de 1817, um movimento de caráter republicano e separatista — o último da época colonial — que estourou no Recife em 6 de março de 1817. Os revolucionários depuseram o governador, instauraram um governo provisório e proclamaram uma república, com uma Lei Orgânica que estabelecia a igualdade de direitos, a tolerância religiosa e a liberdade de imprensa e de consciência. A nova república chegou a receber o apoio da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de parte do Ceará, mas foi sufocada pela Coroa. Entre seus líderes estiveram Domingos José Martins, Cruz Cabugá e o padre João Ribeiro. Pernambuco voltaria a se rebelar em 1824, com a Confederação do Equador.
Além da política, a identidade mais duradoura do Recife se forjou na sua cultura popular. No começo do século XX nasceu o frevo, um ritmo e uma dança urbana, frenética e acrobática, surgida nas ruas do Recife a partir da mistura da marcha, do maxixe e da capoeira; a sombrinha do frevo, hoje símbolo da festa, teria começado como instrumento de defesa dos capoeiristas que acompanhavam as bandas. Em 2012, a UNESCO declarou o frevo Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ao lado dele, o maracatu — de raiz afro-brasileira, com seus tambores, suas 'nações' e seus reis e rainhas — é outra das grandes manifestações culturais pernambucanas. Tudo isso converge no Carnaval do Recife e de Olinda, um dos mais autênticos do país, cujo símbolo máximo é o Galo da Madrugada, criado em 1978 e registrado no Livro dos Recordes Guinness como o maior bloco carnavalesco do mundo em número de participantes.