Caldas Novas é, sem rodeios, a capital das águas termais do Brasil: a maior estância hidrotermal do mundo, uma cidade do interior de Goiás construída literalmente ao redor da água quente que brota do chão. Aqui não tem mar nem montanhas nevadas; tem piscinas fumegantes a céu aberto, toboáguas, rios lentos de água morna, spas e resorts onde a atração principal é entrar na água e não sair mais. A água sai do chão entre 40 e 57 graus de forma totalmente natural, sem vulcões no meio, e quase todos os hotéis da cidade têm suas próprias piscinas termais.
Na verdade, o destino tem dois corações bem pertinho um do outro. De um lado, a cidade de Caldas Novas, com dezenas de hotéis, pousadas e resorts com piscinas termais próprias, parques aquáticos urbanos (como o diRoma Acqua Park e o Water Park) e clubes de águas quentes, além de passeios como a histórica Lagoa Quente do Pirapitinga e o Jardim Japonês. Do outro, o distrito vizinho de Rio Quente, a meia hora dali, onde fica o enorme complexo Rio Quente Resorts, com o Hot Park e a Praia do Cerrado, a maior praia artificial de águas quentes naturais do planeta.
É um destino pensado para descansar e para ir em família: dias inteiros na água, recreação para as crianças, gastronomia goiana (o empadão, o pequi, a galinhada) e um ritmo tranquilo. Mas também tem seu lado natureza: o Parque Estadual da Serra de Caldas Novas, primeira unidade de conservação de Goiás, oferece trilhas pelo cerrado, cachoeiras de água fria e um mirante a mais de mil metros de altitude. Caldas Novas combina, assim, o prazer simples de boiar em água morna com um entorno de serras e vegetação do Cerrado que muita gente nem imagina.
A história de Caldas Novas é a história das suas águas quentes. Muito antes dos colonizadores, a região era habitada por povos originários, sobretudo os Caiapó (e também grupos Xavante), que já conheciam e usavam as águas que brotavam mornas da terra. O 'descobrimento' pelos europeus veio em pleno ciclo do ouro: por volta de 1722, expedições da bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva (o Anhanguera), que buscavam ouro pelo sertão goiano, deram com as fontes termais. Mais tarde, em 1777, atribui-se ao bandeirante Martinho (Martim) Coelho de Siqueira o 'redescobrimento' das duas fontes principais —as Caldas de Pirapitinga e as do Córrego das Lavras, estas últimas chamadas de 'Caldas Novas'—, segundo a tradição quando seus cães de caça entraram numa lagoa que fervia. Em 1788 ele obteve uma sesmaria e começou a extração de ouro: os dois fatores que povoaram a região foram justamente o ouro e as águas termais. Durante muito tempo o lugar foi apenas um povoado rural aonde as pessoas iam tomar banhos curativos; só no fim do século XIX as águas começaram a atrair banhistas, e a verdadeira vocação turística decolou a partir dos anos 1970, com os primeiros hotéis com piscinas termais e, em paralelo, o desenvolvimento do vizinho Rio Quente (cujo Hotel Pousada foi inaugurado em 1964). Um marco ambiental importante foi a criação, em 1970, do Parque Estadual da Serra de Caldas Novas, a primeira unidade de conservação do estado, justamente para proteger a serra onde se infiltra a água da chuva que alimenta todo o sistema termal. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The state of the Central-West and the Cerrado: land of the colonial gold of Goiás Velho, of the hot springs of Caldas Novas and of the landscapes of the Chapada dos Veadeiros, one of Brazil's great natural sanctuaries.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A primeira coisa que é preciso entender sobre Caldas Novas é por que a água sai quente do chão. E a resposta surpreende: não existe nenhum vulcão. Durante muito tempo se acreditou que a Serra de Caldas fosse um vulcão extinto, justamente por causa do seu formato elíptico visto de cima, que lembrava a borda de uma cratera. Mas essa hipótese foi descartada há tempos: na região não há rochas vulcânicas. O formato da serra é resultado de processos tectônicos antiquíssimos — dobras da crosta terrestre ocorridas há centenas de milhões de anos —, e não de erupções.
O que acontece de verdade é um fenômeno geotérmico. A água da chuva se infiltra no alto da Serra de Caldas, que se eleva a cerca de mil metros acima do nível do mar. Essa água fria penetra fundo por fraturas nas rochas, sob uma camada de xistos impermeáveis sustentada por quartzitos permeáveis, e desce a mais de mil metros de profundidade. Lá embaixo, ela se aquece com o calor natural que vem do interior da Terra. Depois, aquecida e sob pressão, volta a subir por outras fissuras e brota na superfície morna ou quente, dependendo do poço, entre uns 40 e 57 graus (com medições que em alguns pontos apontam temperaturas ainda mais altas).
Esse sistema é enorme: são mais de 80 poços catalogados que fornecem mais de um milhão de litros de água quente por hora, e por isso Caldas Novas é considerada a maior estância (ou manancial) hidrotermal do mundo. A chave de tudo é a Serra de Caldas: é lá que se capta a água da chuva que alimenta o aquífero. Por isso, proteger essa serra não é um luxo ambiental, e sim uma necessidade: sem essa zona de recarga, o sistema termal deixaria de funcionar. Os geólogos concordam, além disso, que se trata de uma água milenar, infiltrada há centenas ou até milhares de anos.
Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, a região de Caldas Novas já era habitada. Os primeiros habitantes foram povos indígenas, principalmente os Caiapó (Kayapó), e também grupos Xavante. Viviam do rio e do mato: pescavam, caçavam, cultivavam seus alimentos e faziam armas, cerâmica, instrumentos musicais e trabalhos com fibras vegetais. O Cerrado e suas águas eram o mundo deles.
Esses povos conheciam as fontes termais muito antes de qualquer bandeirante. As águas que brotavam mornas ou quentes da terra faziam parte da paisagem do dia a dia. Inclusive, o nome de uma das nascentes mais famosas, Pirapitinga, vem da língua indígena: era o nome dado a um peixe de águas claras que vivia na região, e que costuma ser traduzido como 'peixe branco'. Esse topônimo é uma das marcas que esses povos deixaram no mapa atual.
A chegada dos bandeirantes no século XVIII, em plena corrida do ouro, mudou tudo para sempre. Como aconteceu em boa parte do interior do Brasil, o avanço colonizador expulsou e dizimou as populações originárias. A memória dos Caiapó ficou sobretudo nos nomes e na ideia de que as águas quentes não foram 'descobertas' do nada: elas já faziam parte de um território habitado e conhecido. Reconhecer essa presença anterior é parte de contar com honestidade a história de Caldas Novas.
O 'descobrimento' das águas termais pelos europeus está ligado ao ciclo do ouro e às bandeiras, as expedições que partiam de São Paulo para explorar o interior em busca de metais e mão de obra. Segundo a tradição, por volta de 1722, grupos da bandeira do célebre Bartolomeu Bueno da Silva — o Anhanguera — que percorriam o sertão goiano em busca de ouro encontraram as fontes quentes. Era a época da abertura do Goiás aurífero, e a Coroa portuguesa, ávida por riquezas minerais, tomou nota dessas águas para uma eventual exploração futura.
O marco mais lembrado, porém, é posterior. Atribui-se ao bandeirante Martinho (também citado como Martim) Coelho de Siqueira o 'redescobrimento' das duas fontes principais, por volta de 1777. Conta a lenda que ele estava caçando quando seus cachorros entraram numa lagoa que parecia ferver: foi assim que ele teria reencontrado o fenômeno. Identificou duas nascentes: as Caldas de Pirapitinga e as do Córrego das Lavras, estas últimas batizadas de 'Caldas Novas', para diferenciá-las de outras caldas já conhecidas. Esse nome acabaria batizando a cidade.
Em 1788, Martinho Coelho obteve uma sesmaria (concessão de terras) de três léguas na região de Santa Cruz e começou a extração de ouro nas margens dos córregos. As primeiras moradias nasceram dessa atividade de mineração. Dois fatores, então, explicam o povoamento da região: o ouro encontrado nos cursos d'água e as próprias águas termais. Quando o ouro começou a ficar escasso, foram as águas quentes que, muito tempo depois, dariam a Caldas Novas um destino próprio.
Durante boa parte da sua história, Caldas Novas foi apenas um pequeno povoado rural ao lado das fontes quentes. O pessoal da região usava essas águas para tomar banhos 'curativos': atribuíam a elas propriedades para aliviar dores, relaxar o corpo e melhorar a saúde. Era um termalismo artesanal, caseiro, bem longe dos grandes resorts de hoje.
Só no fim do século XIX as águas começaram a atrair banhistas de fora, que viajavam até o lugar atraídos pela fama das suas propriedades. Do ponto de vista administrativo, o povoado foi ganhando importância aos poucos: em 1857 foi criado o distrito de Caldas Novas (dentro do município de Morrinhos) e, depois de um primeiro pedido negado em 1908, a Lei estadual nº 393, de 5 de julho de 1911, finalmente lhe deu autonomia política, com o coronel Bento de Godoy como primeiro intendente. Assim nasceu a vocação de Caldas Novas como destino de saúde e descanso, um 'tomar as águas' parecido com o das antigas estâncias termais europeias. A ideia de vir se curar e relaxar em águas quentes foi, durante muito tempo, a principal atração do lugar, antes dos toboáguas e das piscinas de ondas.
Vale um esclarecimento honesto, que a própria divulgação turística reconhece: as águas de Caldas Novas e Rio Quente são sobretudo termais e relaxantes, mais do que estritamente 'medicinais' no sentido clínico. O calor e os minerais ajudam no relaxamento muscular e no bem-estar, e por isso o destino se enquadra no turismo de saúde segundo organismos como a Organização Mundial do Turismo; mas não são uma cura milagrosa. Esse lado de bem-estar — banhos, spa, descanso — continua sendo, até hoje, uma das essências do destino, mesmo depois que a cidade se transformou num grande polo de turismo familiar.
O grande salto de Caldas Novas e da vizinha Rio Quente rumo ao turismo de massa aconteceu na segunda metade do século XX. Um marco decisivo foi a inauguração, em 1964, do Hotel Pousada em Rio Quente, junto ao Parque das Fontes: foi o começo da hotelaria organizada em torno das águas quentes. A 'Companhia Thermas do Rio Quente' (popularmente, a Pousada do Rio Quente) foi adquirida em 1979 por grupos empresariais que apostaram forte no desenvolvimento turístico da região.
Em Caldas Novas, a verdadeira explosão veio a partir dos anos 1970, quando foram construídos os primeiros hotéis com piscinas termais. A fama das águas quentes foi se espalhando por todos os estados do Brasil, e no fim dos anos 80 começaram a operar voos fretados que traziam turistas do país inteiro. A cidade se encheu de hotéis, pousadas e resorts, quase todos com suas próprias piscinas termais, e se consolidou como um dos grandes destinos de turismo familiar e de descanso do interior brasileiro.
O complexo Rio Quente Resorts continuou crescendo: em 1997 inaugurou o Hot Park, depois eleito entre os parques aquáticos mais visitados do mundo, e em 2008 abriu a Praia do Cerrado, a maior praia artificial de águas quentes naturais do planeta, abastecida pelas dezoito fontes termais do lugar. Assim, o que tinha começado como um povoado de banhos curativos se transformou num polo turístico que recebe vários milhões de visitantes por ano, com uma economia voltada quase totalmente para a água quente.
O crescimento turístico de Caldas Novas tem uma base ambiental que muitos visitantes nem conhecem: o Parque Estadual da Serra de Caldas Novas (PESCaN), criado em 1970. Foi a primeira unidade de conservação do estado de Goiás, e não se tratou de um gesto decorativo: o objetivo era proteger justamente a área da serra onde se infiltra a água da chuva que, depois de descer e se aquecer nas profundezas, alimenta todo o sistema termal. Em outras palavras, sem essa serra protegida, as águas quentes da região poderiam deixar de brotar.
O parque abrange cerca de 123 km² entre os municípios de Caldas Novas e Rio Quente, a apenas uns 5 km do centro de Caldas Novas, sobre uma serra de topo plano coroada por um grande planalto a mais de mil metros de altitude. É uma unidade de proteção integral, com vegetação típica do Cerrado, trilhas abertas ao público, cachoeiras de água fria — como a Cachoeira da Confusão e a Cachoeira do Paredão — e mirantes com vistas amplas da região.
O reconhecimento da sua importância foi além do âmbito local: em 2005, a Serra de Caldas Novas foi incluída entre os sítios geológicos mais importantes do Brasil pela comissão especializada ligada aos critérios de patrimônio geológico. A criação do parque marcou, além disso, uma mudança de olhar: entender que o turismo de Caldas Novas não se sustenta só com hotéis e parques, mas com a conservação da serra que é, literalmente, a fonte de tudo. É a face natural e, ao mesmo tempo, estratégica de um destino famoso pela sua água quente.