Cambará do Sul é uma cidadezinha serrana dos Campos de Cima da Serra, no nordeste do Rio Grande do Sul, e a principal porta de entrada para os dois cânions mais espetaculares do sul do Brasil: o Itaimbezinho e o Fortaleza. Cercada por campos de altitude, araucárias, frio e uma paisagem de pampa gaúcho no alto da serra, é um destino de natureza, trekking e vistas de tirar o fôlego.
Sua grande atração são os cânions dos parques nacionais de Aparados da Serra (onde fica o Itaimbezinho) e da Serra Geral (onde fica o Fortaleza), enormes gargantas escavadas no planalto de basalto, com paredões de centenas de metros, cachoeiras que despencam no vazio e mirantes sobre abismos vertiginosos. Somam-se a isso cachoeiras como a Cascata dos Venâncios, a cultura gaúcha dos campos de altitude, as araucárias e um céu limpíssimo, ideal para observar as estrelas.
Este guia percorre o essencial de Cambará do Sul com olhar prático e preços reais: como chegar e se locomover, como visitar os cânions Itaimbezinho e Fortaleza, que outras atrações naturais existem, onde dormir e comer neste canto frio e gaúcho da serra, e como combinar a viagem com a vizinha Praia Grande (SC) e a Serra Gaúcha. Cambará do Sul é cânions, campos de altitude, araucárias e ar puro: a grande experiência de natureza do sul do Brasil.
Cambará do Sul fica nos Campos de Cima da Serra, uma região de planaltos frios do nordeste gaúcho que historicamente foi terra de tropeiros e da pecuária de altitude, com uma forte cultura gaúcha ligada ao campo, ao gado e às araucárias. O nome 'cambará' faz referência a uma árvore da região. A área foi povoada por famílias dedicadas à criação de gado e à exploração da madeira de araucária. Com a criação dos parques nacionais de Aparados da Serra (1959) e da Serra Geral (1992) —que protegem os grandes cânions—, Cambará do Sul se transformou na base do turismo de natureza da região. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Brazil's southernmost state: a disputed frontier of the Pampa and of the Guaraní Jesuit missions, cradle of the gaúcho of mate and churrasco. Land of the Farroupilha Revolution and of Garibaldi, of the German and Italian immigration of the Serra Gaúcha, of wine and of the spectacular canyons of Cambará do Sul.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tem um cartão-postal que resume Cambará do Sul melhor do que qualquer folheto: um campo aberto, coberto de geada branca ao amanhecer, com uma araucária solitária recortada contra o céu, e a poucos metros, sem aviso nenhum, o chão simplesmente some num abismo de setecentos metros. É um dos poucos lugares do Brasil onde faz frio suficiente para congelar o pasto e onde, minutos depois, dá para espiar um cânion que não deve nada aos grandes cânions do mundo. Esse contraste — pampa gaúcho de altitude e garganta vertiginosa de basalto — é a chave para entender por que esta cidadezinha de apenas alguns milhares de habitantes virou um dos destinos de natureza mais procurados do Sul do Brasil.
Cambará do Sul fica nos Campos de Cima da Serra, uma região de planaltos frios no nordeste do Rio Grande do Sul, a mais de 1.000 metros de altitude, marcada por campos abertos, matas de araucária (os pinheirais) e um clima rigoroso, com invernos muito frios, geadas frequentes e até nevadas ocasionais. É uma paisagem de pampa de altitude, bem diferente do Brasil tropical que imagina quem só conhece as praias do país.
A história do povoamento da região está ligada aos tropeiros e à pecuária de altitude. Por esses campos passavam os antigos caminhos das tropas que levavam gado, sobretudo muares e bovinos, entre o sul do país e as feiras do interior, especialmente a grande feira de Sorocaba. Os campos de altitude, bons para a criação de gado, atraíram estancieiros e pequenos produtores que se fixaram na região.
A cultura local se formou em torno do campo: a criação de gado, o chimarrão, o churrasco, as tradições gaúchas e o aproveitamento da araucária (cuja semente, o pinhão, é um alimento típico do outono e do inverno). O nome 'Cambará' vem de uma árvore da região. Assim nasceu uma comunidade serrana, gaúcha e camponesa, marcada pelo frio e pela altitude.
A grande virada na história de Cambará do Sul veio com a proteção dos cânions que cercam o município. O Parque Nacional de Aparados da Serra, que protege o famoso cânion Itaimbezinho, foi criado em meados do século XX (em 1959) e é um dos parques nacionais mais antigos do Brasil. O objetivo era preservar o espetacular conjunto de cânions escavados no planalto de basalto, onde a Serra Geral despenca abruptamente em direção à planície costeira, além da sua Mata Atlântica, das araucárias e da fauna.
Mais tarde, nas últimas décadas do século XX, foi criado o Parque Nacional da Serra Geral, que protege outros cânions da região, entre eles o imponente Fortaleza. Juntos, os dois parques formam um dos conjuntos de cânions mais impressionantes da América do Sul, com paredões de centenas de metros, cachoeiras que despencam no vazio e mirantes de tirar o fôlego.
A proteção desses parques mudou a vocação de Cambará do Sul: de cidade pecuária e madeireira a base do turismo de natureza. A exploração da araucária, antes importante, foi dando lugar à conservação, e os cânions se tornaram o principal recurso da região.
Os cânions que fazem a fama de Cambará do Sul são resultado de uma história geológica de centenas de milhões de anos. O planalto onde fica a região é formado por grossas camadas de basalto, uma rocha vulcânica originada por enormes derrames de lava que aconteceram no período Cretáceo, há cerca de 130 milhões de anos, quando o supercontinente Gondwana começava a se fragmentar e a América do Sul se separava da África. Esses derrames sucessivos empilharam camadas de rocha com centenas de metros de espessura, que hoje formam a Serra Geral.
Com o passar do tempo, o soerguimento do terreno e, principalmente, a erosão dos rios foram esculpindo gargantas profundas nesse planalto de basalto. A água, ajudada pelas fraturas naturais da rocha e pelo clima rigoroso de altitude, foi desgastando a borda da serra onde ela cai bruscamente em direção à planície costeira, formando os espetaculares cânions do Itaimbezinho, do Fortaleza e outros. Os paredões quase verticais, de várias centenas de metros, mostram os diferentes derrames de lava sobrepostos.
Essa origem explica o drama da paisagem: um planalto de campos de altitude que termina de repente num abismo, com cachoeiras que despencam no vazio pelas paredes de basalto. É um patrimônio geológico de valor internacional, e entender como ele se formou ajuda a perceber, lá dos mirantes, a escala do tempo profundo que esculpiu esses gigantes de pedra.
Com a consolidação dos parques nacionais, Cambará do Sul se firmou como a principal porta de entrada para os grandes cânions do Sul do Brasil e como um dos destinos de ecoturismo e turismo de aventura mais valorizados da região. A proximidade do Itaimbezinho e do Fortaleza, somada à paisagem de campos de altitude, araucárias e cachoeiras, atrai visitantes que curtem trilhas, fotografia e natureza.
A cidade desenvolveu uma estrutura de pousadas rurais, restaurantes de comida campeira e agências de turismo que organizam passeios aos cânions e a outras atrações. A região também ficou conhecida pelo céu limpo, ideal para observar estrelas, e pela experiência do frio serrano, uma raridade no Brasil.
Hoje Cambará do Sul combina sua herança gaúcha e camponesa com o papel de capital dos cânions. A gestão dos parques, com sistemas de reserva e limite de vagas, busca conciliar o turismo crescente com a conservação de um patrimônio natural único. Junto com a vizinha Urubici e a Serra Gaúcha, faz parte da grande rota de natureza do Sul do Brasil.
A outra protagonista silenciosa da história de Cambará do Sul é a araucária (Araucaria angustifolia), o pinheiro-brasileiro que há um século cobria boa parte dos Campos de Cima da Serra e que hoje sobrevive principalmente dentro dos limites dos parques nacionais. Durante grande parte do século XX, a Mata de Araucárias foi devastada pela indústria madeireira: a madeira de araucária, macia e fácil de trabalhar, abasteceu serrarias em toda a região e foi exportada em grande escala, a ponto de a espécie acabar classificada como criticamente ameaçada de extinção. O que hoje o visitante fotografa como paisagem típica — aqueles pinheiros de copa achatada, feito guarda-chuvas, recortados contra o céu dos campos — é na verdade o que restou de uma mata que quase sumiu.
Dessa mesma araucária vem o pinhão, a semente comestível que cai das pinhas entre abril e julho e que é a base de uma culinária de estação muito enraizada na serra: pinhão assado na brasa, cozido com sal, em sopas, em risotos e até em doces. As 'festas do pinhão' realizadas em vários municípios da região (incluindo a vizinha São Francisco de Paula) giram em torno dessa semente, que durante gerações foi um alimento de subsistência para as comunidades rurais dos campos de altitude, incluindo os povos indígenas kaingang que habitavam originalmente estas terras antes da chegada dos colonos.
Quanto à fauna, os cânions e campos de Cambará do Sul são território de espécies que viraram símbolo da conservação local: o gato-do-mato, o veado-campeiro e, sobretudo, aves como o papagaio-de-peito-roxo, uma espécie endêmica e ameaçada que depende diretamente da araucária para se alimentar e fazer ninho. O destino dessa ave — cuja população despencou junto com a mata de araucárias — é um lembrete de por que a proteção desses parques, longe de ser um capricho burocrático, foi decisiva para salvar um ecossistema inteiro.
O crescimento do turismo também trouxe seus próprios problemas de gestão. Durante anos, o acesso aos parques foi relativamente livre, com ingressos comprados na portaria e sem um limite claro de visitantes por dia. Isso começou a mudar quando a demanda — impulsionada pelas redes sociais, onde as fotos do Itaimbezinho e do Fortaleza viralizaram — ultrapassou a capacidade das trilhas e dos mirantes, gerando filas, pressão sobre a infraestrutura e preocupação entre os técnicos do ICMBio (o órgão federal que administra os parques nacionais do Brasil) com o impacto ambiental.
A resposta foi a concessão da administração da visitação (a área de uso público, não a conservação em si) a uma empresa privada, a Urbia, que desde 2021 cuida da venda de ingressos, dos horários de entrada escalonados e do sistema de vagas online para Aparados da Serra e Serra Geral. O modelo gerou debate — há quem questione a privatização da gestão turística em áreas protegidas —, mas também permitiu organizar o fluxo de visitantes, financiar melhorias em trilhas e mirantes e manter um controle mais rígido sobre quantas pessoas entram por dia num ecossistema frágil.
Para o visitante de hoje, isso se traduz num detalhe bem prático: já não basta ir até Cambará do Sul e aparecer na portaria do parque. É preciso reservar a entrada com antecedência pela plataforma oficial, escolher um horário e respeitá-lo. É um incômodo pequeno perto do que está em jogo: o equilíbrio entre mostrar ao mundo uma das paisagens mais impressionantes da América do Sul e evitar que esse mesmo sucesso acabe desgastando o que a torna única.