Trebinje é a surpresa mediterrânea da Bósnia e Herzegovina: uma cidade ensolarada de plátanos centenários, vinhedos e pedra clara, a um pulo de Dubrovnik, mas com metade dos preços e sem multidões. Aqui o ritmo desacelera: o pessoal passa as tardes debaixo das árvores da praça, em cafés onde um espresso custa pouco mais de um euro, e o centro histórico otomano convida a se perder entre ruelas e muralhas.
É também terra de vinho e de mosteiros. Nas colinas ao redor da cidade se destacam a Hercegovačka Gračanica — uma igreja bizantina recente, mas digna de cartão-postal, com vistas espetaculares — e o antigo mosteiro de Tvrdoš, onde os monges produzem vinhos autóctones Vranac e Žilavka que podem ser degustados. Pelo vale serpenteia o Trebišnjica, um dos rios subterrâneos mais longos da Europa, cruzado pela elegante ponte otomana de Arslanagić.
Este guia conta como aproveitar Trebinje hoje: o que ver no centro histórico e nas colinas, quanto custam as coisas (é um dos lugares mais baratos da região), como chegar de Dubrovnik ou de Mostar e por que vale a pena dormir lá em vez de passar só algumas horas. Uma cidade para saborear devagar, com uma taça de vinho local na mão.
Trebinje aparece nas fontes bizantinas como Tribunia (Travunia), um principado medieval eslavo. Fez parte do reino sérvio medieval, caiu sob domínio otomano em 1466 e virou praça-forte da Herzegovina; dessa época são o Kastel murado e a ponte de Arslanagić. Em 1878 passou à administração austro-húngara, que a transformou numa elegante cidade-guarnição de ruas arborizadas, praças e escolas. Deu ao mundo o grande poeta e diplomata Jovan Dučić (1871-1943). Depois do século XX iugoslavo e da guerra dos anos 90, hoje é a capital cultural do sul da República Srpska. A história completa — a Travunia medieval, os otomanos, Tvrdoš, os austríacos, Dučić e o presente — está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The rocky, Mediterranean south of the country: Herzegovina, home of Mostar's Stari Most, the turquoise Neretva river, dervishes, vineyards and pilgrimages.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existirem mesquitas, mosteiros ou plátanos na praça, a região de Trebinje já tinha nome e importância. Os geógrafos bizantinos — entre eles o imperador Constantino VII Porfirogêneto, no século X — a mencionam como Travúnia ou Tribúnia, um pequeno principado eslavo que ocupava o interior montanhoso logo atrás da costa adriática, entre as atuais Dubrovnik e a baía de Kotor. A cidade herdou daquele nome antigo o seu topônimo atual.
A Travúnia era terra de fronteira: interior demais para ser plenamente costeira e adriática, próxima demais do mar para se desligar dele. Esteve sujeita à órbita da vizinha Raška (o núcleo do futuro Estado sérvio) e da poderosa república marítima de Ragusa (Dubrovnik), com a qual manteve durante séculos uma relação intensa de comércio e de conflitos. As caravanas que ligavam o interior balcânico ao porto de Ragusa passavam por estes vales, e Trebinje vivia em boa parte desse trânsito.
Na Idade Média, a região foi se integrando às estruturas do reino sérvio medieval dos Nemanjić e, mais tarde, ao senhorio dos Kosača, a poderosa família que governou a Herzegovina no século XV. Aliás, o próprio nome 'Herzegovina' vem do título de duque (herzog em alemão) adotado por Stjepan Vukčić Kosača: 'a terra do herzog'. Trebinje era uma das praças desse ducado montanhoso, católico e ortodoxo ao mesmo tempo, que resistiria até o avanço otomano.
Em 1466, poucos anos depois da queda do reino da Bósnia (1463), os otomanos assumiram o controle da Herzegovina e de Trebinje, que ficaria sob domínio turco por mais de quatro séculos, até 1878. Foi uma época decisiva, que moldou o rosto que a cidade tem até hoje.
Os otomanos ergueram sobre a fortaleza medieval do ban Vir um recinto amuralhado, o Kastel ou Stari Grad, na margem oeste do Trebišnjica: o centro histórico que se visita hoje, com seus portões, suas ruelas e a mesquita otomana. Também construíram, no século XVI, a elegante ponte de Arslanagić sobre o rio, atribuída ao círculo do grão-vizir Mehmed-paša Sokolović, o mesmo mecenas da célebre ponte de Višegrad. A cidade se organizou como praça-forte e mercado (čaršija) na rota para Ragusa.
Mas Trebinje também foi um foco de resistência. A poucos quilômetros, o mosteiro ortodoxo de Tvrdoš — erguido sobre uma igreja do século IV e reconstruído no XVI — tornou-se, a partir do fim do século XVI, o centro da atividade antiotomana da Herzegovina e sede de seus metropolitas ortodoxos. A região sofreu as incursões dos uskoks de Senj e dos bandos de hajduci (bandoleiros e rebeldes) que hostilizavam o poder turco. Tvrdoš foi destruído pelos venezianos em 1694, durante as guerras da época, e só foi reconstruído em 1924; hoje seus monges mantêm viva a antiga tradição vinícola do lugar, produzindo os vinhos Vranac e Žilavka, que se degustam à sombra de seus vinhedos.
Em 1878, depois do Congresso de Berlim, a Bósnia e Herzegovina passou das mãos otomanas para a administração do Império Austro-Húngaro, que a anexaria formalmente em 1908. Para Trebinje, situada na fronteira sul do Império, diante do reino de Montenegro, essa mudança significou uma transformação profunda.
Os austro-húngaros transformaram Trebinje numa elegante cidade-guarnição. Construíram quartéis e uma cadeia de fortificações nas colinas ao redor para vigiar a fronteira montenegrina — entre elas a imponente fortaleza de Strač, erguida entre 1910 e 1916, uma das maiores da Monarquia. Mas também modernizaram a cidade ao estilo centro-europeu: traçaram a rua principal, abriram praças, escolas e parques, plantaram tabaco nos arredores e, sobretudo, plantaram os plátanos que hoje fazem sombra na praça e são um símbolo de Trebinje. Essa mistura de urbanismo austríaco e clima mediterrâneo definiu a cidade tranquila e arborizada que conhecemos hoje.
Dessa Trebinje da virada do século é filho o seu personagem mais ilustre: Jovan Dučić (1871-1943), um dos grandes poetas modernistas sérvios e um notável diplomata iugoslavo, que serviu como embaixador em nove cidades europeias. Seu patriotismo sérvio lhe trouxe problemas com as autoridades austro-húngaras, mas seu prestígio literário foi enorme. Ao longo da vida, reuniu uma valiosa coleção de arte e livros que deixou para sua cidade natal, hoje no Museu da Herzegovina. Dučić pediu para ser enterrado em Trebinje: seus restos mortais, repatriados dos Estados Unidos em 2000, repousam na Hercegovačka Gračanica, construída justamente para cumprir esse desejo.
Após o fim do Império Austro-Húngaro em 1918, Trebinje passou a fazer parte do novo Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, depois chamado Iugoslávia. Como boa parte da Herzegovina, viveu as tensões de um país jovem e multiétnico. A Segunda Guerra Mundial foi duríssima nestas montanhas: a região ficou sob a ocupação italiana e o Estado Independente da Croácia, palco da brutal guerra entre ustaše, chetniks e partisans de Tito, com massacres e represálias que deixaram feridas profundas nas comunidades locais.
Terminada a guerra, Trebinje fez parte da Iugoslávia socialista de Tito, dentro da República da Bósnia e Herzegovina. Foram décadas de relativa paz e de certo desenvolvimento: foram construídas as represas do Trebišnjica (que obrigaram, por exemplo, a transferir pedra por pedra a ponte de Arslanagić em 1965-1966 para salvá-la da inundação do reservatório), e a cidade cresceu como centro regional do sul da Herzegovina.
A desintegração da Iugoslávia e a guerra da Bósnia (1992-1995) voltaram a golpear a região. Trebinje ficou dentro da República Srpska, a entidade servo-bósnia surgida do conflito, e sofreu as tensões étnicas da guerra, com a saída de parte de sua população não sérvia e a destruição de patrimônio, incluindo mesquitas otomanas que depois foram reconstruídas. Foi uma época amarga, cujas cicatrizes ainda se percebem na memória da cidade.
A Trebinje contemporânea se reinventou como um dos passeios mais tranquilos e encantadores da Bósnia e Herzegovina. Capital cultural do sul da República Srpska, ela se apoia em três pilares: seu clima ensolarado (orgulha-se de ter mais de 260 dias de sol por ano), sua tradição vinícola e a proximidade com a turística Dubrovnik, que fica a apenas 30 quilômetros.
O turismo cresceu com inteligência, sem as multidões do litoral: cada vez mais viajantes descobrem que dá para dormir em Trebinje pela metade do preço de Dubrovnik e visitar a cidade dálmata em bate-voltas. Ao mesmo tempo, a rota do vinho da Herzegovina — com Tvrdoš, Vukoje e outras vinícolas — atrai os amantes do enoturismo em busca das variedades nativas Vranac e Žilavka. Os mosteiros das colinas, com a Hercegovačka Gračanica em primeiro lugar, viraram atrativos turísticos além de espirituais, com vistas que resumem toda a cidade e seu vale.
Hoje Trebinje oferece essa rara combinação de história densa e clima descontraído: dá para passar a manhã entre muralhas otomanas e mosteiros, a tarde degustando vinho entre vinhedos e a noite sob os plátanos centenários da praça, com um café baratíssimo na frente e sem nenhuma pressa. É, para muitos viajantes, a face mais luminosa e acolhedora da Herzegovina, e a prova de que alguns dos melhores cantos dos Bálcãs ainda são os menos movimentados.