Višegrad é, antes de tudo, uma ponte. A de Mehmed Paša Sokolović: onze arcos de pedra estendidos sobre o verde intenso do Drina desde 1577, obra do genial arquiteto otomano Mimar Sinan e hoje Patrimônio da Humanidade da UNESCO. É uma das pontes mais bonitas e famosas do mundo, e não só pela arquitetura: é a protagonista silenciosa de 'Ponte sobre o Drina', o grande romance de Ivo Andrić que lhe rendeu, em parte, o Prêmio Nobel de Literatura.
A ponte foi encomendada por um grão-vizir do Império Otomano que tinha nascido nesta região e que, ainda criança, foi levado para longe de casa pelo sistema do devşirme (o recrutamento forçado de meninos cristãos). Andrić transformou essa história e os quatro séculos de vidas que passaram pela ponte numa meditação inesquecível sobre a Bósnia, o encontro entre Oriente e Ocidente e a passagem do tempo.
Ao lado da ponte, o cineasta Emir Kusturica ergueu Andrićgrad, uma pequena cidade de pedra dedicada ao escritor, misto de cenário e complexo cultural. E dá para navegar de barco pelo Drina, entrando num cânion espetacular. Este guia mostra como ver tudo, quanto custa, como chegar a partir de Sarajevo ou da Sérvia e por que este canto do leste bósnio merece uma parada, com um olhar também honesto sobre sua história recente.
Višegrad, habitada desde a Antiguidade e documentada no século XV, ficou mundialmente famosa pela ponte sobre o Drina, encomendada em 1577 pelo grão-vizir Mehmed Paša Sokolović — nascido perto daqui e levado ainda menino para Istambul pelo sistema do devşirme — e projetada pelo arquiteto Mimar Sinan. A ponte foi imortalizada por Ivo Andrić, que passou a infância em Višegrad, no romance 'Ponte sobre o Drina' (1945), peça-chave do seu Nobel de 1961. Depois dos períodos otomano, austro-húngaro e iugoslavo, a cidade viveu episódios muito graves na guerra de 1992. Hoje é Patrimônio da UNESCO e abriga o complexo Andrićgrad. A história completa — a ponte, o devşirme, Andrić, as guerras do século XX e o presente — está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The east of the country, along the Drina river: the stone bridge that inspired a Nobel laureate and Bosnia's oldest national park, with its virgin forest and partisan history.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O Drina não é um rio qualquer. Durante séculos, marcou uma das grandes fronteiras da Europa: a linha imaginária entre Oriente e Ocidente, entre o mundo otomano e o cristão, entre os Bálcãs e a Europa Central. E Višegrad, empoleirada em suas margens no leste da Bósnia, cresceu bem em cima dessa linha, no ponto onde uma estrada estratégica atravessava o rio a caminho de Istambul.
A região é habitada desde a Antiguidade (há vestígios de assentamentos ilírios e romanos), e a cidade aparece em documentos do século XV. Com a conquista otomana da Bósnia, concluída em meados desse século, Višegrad virou um enclave de fronteira do Império, passagem obrigatória na rota que ligava Sarajevo e o interior bósnio à Sérvia e à capital otomana.
Esse caráter de limiar, de lugar de trânsito entre dois mundos, definiria Višegrad para sempre. Por aqui passavam caravanas, exércitos, funcionários, mercadores e viajantes; aqui se atravessava o Drina em balsas, com todos os incômodos e perigos de qualquer travessia. A necessidade de uma passagem segura sobre o grande rio daria origem à obra que tornaria a cidade imortal: a ponte.
A história da ponte começa com um drama humano. Em algum momento do século XVI, um menino de uma família sérvia cristã dos arredores de Višegrad foi levado para longe de casa pelos coletores otomanos, dentro do sistema conhecido como devşirme: o 'imposto de sangue' pelo qual o Império recrutava à força meninos cristãos dos Bálcãs, convertia-os ao islã e os formava para o exército (os janízaros) ou para a administração. Aquele menino viria a se chamar Mehmed Paša Sokolović.
Longe de cair no anonimato, Sokolović chegou ao topo: tornou-se grão-vizir do Império Otomano, o homem mais poderoso depois do sultão, sob três soberanos. E, no auge do poder, mandou construir em sua terra natal uma ponte que unisse de uma vez por todas as duas margens do Drina. A obra foi encomendada ao maior arquiteto do Império, Mimar Sinan, o gênio por trás das grandes mesquitas de Istambul e Edirne, e ficou pronta em 1577.
O resultado foi uma obra-prima: 179,5 metros de pedra, onze arcos com vãos de 11 a 15 metros e, no centro, um terraço com bancos, a kapija, pensado como ponto de encontro. A ponte não resolvia só um problema prático; era uma declaração de permanência, uma tentativa de vencer o tempo e a correnteza. A lenda popular, registrada por Andrić, envolveu-a em histórias de sacrifícios e de uma criança emparedada em seus alicerces. Por mais de quatro séculos, a ponte resistiu a cheias, guerras e explosões, e continua de pé. Em 2007, foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO.
A ponte de Višegrad teria sido, sem dúvida, uma notável obra da engenharia otomana. O que a transformou num símbolo universal foi a literatura. Ivo Andrić (1892-1975), nascido em Travnik mas criado em boa parte em Višegrad, passou a infância à sombra dessa ponte, brincando em seus arcos e ouvindo as histórias contadas na kapija. Aquela experiência marcou sua imaginação para sempre.
Em 1945, Andrić publicou 'Na Drini ćuprija' ('A ponte sobre o Drina'), um romance que abrange quase quatro séculos de história, da construção da ponte no século XVI até a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ele acompanha gerações de moradores de Višegrad, muçulmanos, cristãos ortodoxos, católicos e judeus, cujas vidas se cruzam vez após vez sobre aquele terraço de pedra. A ponte é a verdadeira protagonista: testemunha muda e permanente da passagem do tempo, das alegrias e das tragédias de um povo na fronteira dos impérios.
O romance é uma meditação sobre a Bósnia, sobre a convivência e o conflito de seus povos e sobre a fugacidade das vidas humanas diante da permanência da pedra. Em 1961, Ivo Andrić recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em boa medida por essa obra, e se tornou o único Nobel de literatura desta parte da Europa. Desde então, a ponte de Višegrad e o romance são inseparáveis: milhões de leitores no mundo todo conhecem este canto da Bósnia pelas páginas de Andrić, e visitá-lo é, para muitos, uma peregrinação literária.
A ponte e a cidade atravessaram o turbulento século XX dos Bálcãs. Em 1878, com o fim do domínio otomano, a Bósnia passou para a administração austro-húngara, que construiu estradas e a famosa ferrovia de bitola estreita do Drina, integrando Višegrad à rede da Europa Central. O romance de Andrić termina justamente em 1914, quando a eclosão da Primeira Guerra Mundial, desencadeada pelo atentado de Sarajevo, chega à ponte, danificada pelas cargas explosivas dos exércitos em retirada. Foi a primeira vez que a obra de Sinan sofreu destruição parcial; ela seria reparada depois.
Depois da guerra, Višegrad passou a fazer parte do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, depois Iugoslávia. A Segunda Guerra Mundial voltou a ensanguentar o leste da Bósnia: a região foi palco da ocupação, do Estado Independente da Croácia e da guerra feroz entre ustašas, četniks e partisans, com massacres dos dois lados e episódios atrozes na própria ponte e no rio. Alguns arcos foram explodidos de novo e depois reconstruídos.
Na Iugoslávia socialista de Tito, Višegrad viveu décadas de relativa calma. Rio acima, foram construídos a grande represa e o lago de Perućac, que mudaram o regime do rio, e a cidade prosperou modestamente. A ponte, já um monumento protegido, continuou sendo o coração simbólico de uma cidade multiétnica onde conviviam sérvios ortodoxos e bósnios muçulmanos, como nas páginas de Andrić.
A Guerra da Bósnia (1992-1995) escreveu o capítulo mais sombrio da história de Višegrad, e nenhum guia honesto pode omiti-lo. Na primavera e no verão de 1992, quando as forças sérvias assumiram o controle da cidade, a população civil bósnia muçulmana foi alvo de uma campanha de limpeza étnica de extrema brutalidade. Vários milhares de civis bósnios foram assassinados; muitos corpos foram jogados no Drina da mesma ponte que Andrić havia transformado em símbolo de convivência. Houve matanças coletivas, entre elas pessoas trancadas em casas e queimadas vivas, em episódios que tribunais internacionais e nacionais documentaram e julgaram como crimes de guerra e contra a humanidade. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPIJ) condenou vários responsáveis.
Aquela ponte, testemunha silenciosa durante quatro séculos das vidas de todos os povos de Višegrad, virou cenário da aniquilação de uma dessas comunidades. A ironia trágica é evidente demais para ser ignorada: o monumento que a literatura havia erguido como emblema da Bósnia plural foi usado como instrumento de sua destruição. Depois da guerra, a população muçulmana da cidade praticamente desapareceu, e Višegrad passou a fazer parte da República Srpska.
Hoje, Višegrad é um destino turístico consolidado em torno da ponte tombada pela UNESCO e de Andrićgrad, o complexo construído por Emir Kusturica. É um lugar de grande beleza e enorme valor cultural, mas também um lugar de memória: entender sua história completa exige encarar tanto a grandeza da ponte e da obra de Andrić quanto a tragédia de 1992. Visitar Višegrad com essa dupla consciência, a da maravilha e a da ferida, talvez seja a forma mais fiel de honrar o espírito do escritor que fez desta ponte um símbolo da humanidade inteira, com suas luzes e seus abismos.