Existe um cantinho do sul da Bolívia que parece saído de um filme de Velho Oeste, e se chama Tupiza. Encravada num vale entre desfiladeiros e cânions de terra avermelhada, cercada por formações rochosas esculpidas pelo vento e pela água, esta cidade oferece paisagens de um dramatismo cinematográfico: paredões coloridos, agulhas de pedra, cactos e trilhas que dá gosto percorrer a cavalo. Não é por acaso que a região está ligada à lenda dos fora da lei norte-americanos Butch Cassidy e Sundance Kid, que encontraram seu fim não muito longe daqui.
Tupiza é terra de passeios a cavalo: cavalgar entre os desfiladeiros vermelhos, como nos faroestes, é a atividade principal e uma das experiências mais bonitas e acessíveis do sul boliviano. A isso se somam excursões a lugares de nomes evocativos — a Quebrada de Palala com suas agulhas de rocha, o Cañón del Inca, El Sillar — e um clima de povoado tranquilo e autêntico, menos turístico que outros destinos do país, com um clima mais agradável que o do altiplano alto.
Este guia percorre Tupiza com um olhar prático e caloroso: os desfiladeiros e cânions que a cercam, os passeios a cavalo e as caminhadas, a rota de Butch Cassidy e Sundance Kid, seu papel como porta alternativa para o Salar de Uyuni (com o tour de 4 dias) e sua função de passagem entre Argentina e Bolívia. É um destino que surpreende, ideal para quem busca paisagens diferentes, aventura leve e um pedaço de faroeste em pleno coração da América do Sul.
A região de Tupiza tem uma longa história que remonta a tempos pré-hispânicos, quando era habitada por povos andinos — como os chichas — e ficou sob a influência do Império Inca, do qual há vestígios na zona. Durante a época colonial, sua localização no sul do Alto Peru, no caminho entre as terras altas mineradoras e o norte argentino, deu-lhe importância como ponto de passagem de rotas comerciais e de tropeiros. Nas guerras de independência, o sul boliviano foi palco de combates e campanhas. Já no século XX, Tupiza ganhou fama internacional por um episódio lendário: perto daqui, na região mineradora do sul, os célebres fora da lei norte-americanos Butch Cassidy e Sundance Kid teriam encontrado seu fim, depois de fugirem da América do Norte, mortos num tiroteio no povoado de San Vicente (em 1908, segundo a versão mais difundida), o que transformou a zona em parte de sua lenda. Para além do mito, Tupiza viveu da mineração de seu entorno, da agricultura de seus vales e, cada vez mais, do turismo, atraído por suas paisagens de desfiladeiros vermelhos, seus passeios a cavalo e sua condição de porta sul para o Salar de Uyuni. A história completa, com os povos chichas, os incas, a independência e a lenda dos fora da lei, está em nossa página de história.
Ler a história completa ↓The department of silver and of the salt flats: home of the Cerro Rico that financed the Spanish Empire and of the Casa de la Moneda, of the Salar de Uyuni —the largest salt desert in the world and one of the great lithium reserves— and of the colored lagoons of the Eduardo Avaroa Reserve, on the highest and most desolate altiplano in the country, cradle of the hero Eduardo Avaroa.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Na praça principal de Tupiza há uma estátua que resume, sem querer, toda a história desta cidade: a do industrial mineiro José Avelino Aramayo, o homem cuja empresa sofreu, em 1908, o último assalto de Butch Cassidy e Sundance Kid. Que os foras da lei mais famosos do Velho Oeste tenham vindo morrer num canto de desfiladeiros vermelhos do sul da Bolívia não é por acaso: Tupiza sempre foi terra de passagem, de prata e de fronteira. E essa história começa muito antes dos revólveres.
Os primeiros donos destes vales foram os chichas, um povo andino com fama de guerreiro que deu nome a toda a região (as atuais províncias de Sud e Nor Chichas). Viviam da agricultura nos vales do rio Tupiza e seus afluentes, do pastoreio de lhamas e do intercâmbio entre o altiplano e as terras baixas do sul. Quando o Império inca se expandiu para o sul, no século XV, os chichas foram incorporados ao Tahuantinsuyo e ganharam um papel muito concreto: pela sua destreza militar, os incas os usaram como mitimaes, colonos-soldados transferidos para guardar a fronteira sudeste do império diante dos povos não submetidos do Chaco.
Daquela época restam vestígios, caminhos e topônimos —como o próprio Cañón del Inca, nos arredores de Tupiza— que lembram que estes vales foram um dos umbrais meridionais do mundo andino. Essa condição de umbral, de terra que conecta o altiplano com o sul, iria marcar o destino de Tupiza durante os cinco séculos seguintes.
A versão mais difundida sustenta que Tupiza foi fundada em 4 de junho de 1574 pelo capitão Luis de Fuentes y Vargas, o mesmo que semanas depois fundaria a Villa de Tarija, quando atravessava estes vales rumo ao sul. A data é celebrada todo ano como aniversário da cidade, embora os historiadores a discutam: há documentos anteriores que já mencionam um povoado chamado Tupiza, Topeza ou Tupica, o que sugere que o assentamento existia antes de qualquer espanhol o 'fundar'. Seja como for, no fim do século XVI Tupiza já era uma parada consolidada em um dos caminhos mais movimentados da América.
Esse caminho era o que unia Potosí —a cidade da prata, então uma das mais populosas do mundo— com o norte argentino, Salta, Tucumán e, no final, o porto de Buenos Aires. Pelos desfiladeiros de Tupiza passavam tropas de mulas carregadas de prata, mercadorias europeias subindo desde o Rio da Prata, gado, tecidos e viajantes de toda condição. A região tinha, além disso, minas próprias: os cerros dos Chichas escondiam veios de prata explorados em centros como Chocaya, Portugalete e um povoadinho gelado a 4.500 metros chamado San Vicente, que três séculos depois entraria para a lenda por outros motivos.
Em 1776, com a criação do Vice-Reinado do Rio da Prata, toda a região de Chichas passou a depender de Buenos Aires, reforçando essa orientação para o sul que ainda hoje se sente: Tupiza sempre olhou tanto para Potosí quanto para a Argentina. Terra de tropeiros, de comerciantes e de mineiros, chegou ao fim da colônia sendo o que sempre tinha sido: um cruzamento de caminhos por onde tudo passava.
Poucos viajantes que passam por Tupiza sabem que a 25 quilômetros da cidade, num povoadinho junto ao rio de mesmo nome, foi travada a batalha de Suipacha, a primeira vitória patriota de toda a guerra de independência sul-americana. Foi em 7 de novembro de 1810: o Exército Auxiliar enviado pela Primeira Junta de Buenos Aires, sob o comando do general Antonio González Balcarce e acompanhado pelo vogal Juan José Castelli, derrotou ali as tropas realistas que dias antes o haviam rechaçado em Cotagaita. Na vitória foi decisiva a cavalaria local do coronel chicheño Pedro Arraya: os descendentes dos guerreiros chichas voltavam a lutar por sua terra.
Aquele triunfo abriu aos patriotas as portas do Alto Peru, embora a guerra fosse ser longa e cruel: a região viu passar vez após vez os exércitos dos dois lados, sofreu saques e recrutamentos, e forneceu combatentes às guerrilhas das 'republiquetas' que resistiram durante quinze anos no território. Tupiza, pela sua posição sobre o caminho real, foi quartel, butim e ponto de passagem obrigatório de todas as campanhas do sul.
Com a criação da Bolívia em 1825, a região ficou integrada ao departamento de Potosí como terra dos Chichas. O 7 de novembro ainda é comemorado na zona, e o Banco Central da Bolívia cunhou moedas pelo bicentenário de Suipacha: a batalha é um dos orgulhos históricos mais firmes deste canto do país.
Se Tupiza teve uma era de ouro, foi graças a uma família: os Aramayo. José Avelino Aramayo, nascido em 1809 na região dos Chichas, foi um dos pioneiros da mineração moderna boliviana: modernizou a exploração da prata, promoveu ferrovias e estradas, e fundou a casa comercial e mineradora que seus descendentes —seu filho Félix Avelino e seu neto Carlos Víctor— transformariam em um dos três grandes impérios do estanho da Bolívia, ao lado dos de Simón Patiño e Mauricio Hochschild. Os três formavam a chamada 'rosca minera', os barões que dominaram a economia do país até a revolução de 1952.
Diferentemente de Patiño, que operava a partir de Oruro, o coração do império Aramayo esteve sempre no sul: a Compañía Aramayo de Minas en Bolivia explorava os veios de estanho, prata e bismuto dos Chichas —com centros como Chorolque e Quechisla— e teve em Tupiza sua base de operações. A cidade cresceu com a empresa: escritórios, oficinas, moradias para funcionários, e a ferrovia que a partir de 1925 a conectou com Atocha, Uyuni e a fronteira argentina. A estátua de Avelino Aramayo preside até hoje a praça principal de Tupiza, e boa parte da arquitetura do centro data daquelas décadas de auge mineiro.
Foi justamente uma remessa de dinheiro dos Aramayo —a folha de pagamento da mina de Quechisla— que atraiu, em novembro de 1908, dois assaltantes estrangeiros que havia anos fugiam rumo ao sul. Com eles, a história de Tupiza se cruzou para sempre com a do Velho Oeste.
Em 4 de novembro de 1908, num lugar chamado Huaca Huañusca ('vaca morta' em quíchua), dois homens mascarados e armados interceptaram Carlos Peró, funcionário da empresa Aramayo, Francke y Cía., que viajava de Tupiza para a mina de Quechisla levando a folha de pagamento: uns 15.000 bolivianos em dinheiro. O assalto foi rápido, sem um único disparo, e os dois gringos desapareceram entre os desfiladeiros com o dinheiro e uma mula parda da empresa. Eram Robert LeRoy Parker e Harry Alonzo Longabaugh: Butch Cassidy e Sundance Kid, os assaltantes de bancos e trens mais procurados dos Estados Unidos, que havia sete anos fugiam pela América do Sul —primeiro como fazendeiros na Patagônia argentina, depois de novo como bandidos— com os detetives da agência Pinkerton seguindo seu rastro.
A notícia do assalto correu por todo o sul: foram despachadas patrulhas militares e milícias de Tupiza e Uyuni para fechar os caminhos. Dois dias depois, em 6 de novembro, os fugitivos cometeram o erro fatal: entraram no povoadinho mineiro de San Vicente, a 4.500 metros de altitude, para pedir hospedagem e comida. O corregedor desconfiou da mula com a marca dos Aramayo e avisou uma patrulha que pernoitava no povoado, sob o comando do capitão Justo P. Concha. No tiroteio que se seguiu, naquela noite e na madrugada de 7 de novembro, os dois estrangeiros ficaram encurralados no quarto onde estavam hospedados. Ao amanhecer, foram encontrados mortos: um com vários tiros, o outro com um tiro na cabeça, aparentemente disparado pelo próprio companheiro ou por ele mesmo para não caírem vivos.
Os corpos foram enterrados no cemitério de San Vicente sem identificação certa, e aí começou a lenda. A agência Pinkerton deu Parker e Longabaugh como mortos, e a maioria dos historiadores aceita essa versão; mas nos Estados Unidos circularam durante décadas depoimentos de familiares e conhecidos que juravam ter visto Butch Cassidy vivo anos depois. Em 1991, uma expedição forense liderada pelo célebre antropólogo Clyde Snow exumou a tumba atribuída aos bandidos em San Vicente: o DNA não correspondia a nenhum dos dois, mas sim, com toda probabilidade, a um mineiro alemão chamado Gustav Zimmer. O mistério continua aberto, o filme de 1969 com Paul Newman e Robert Redford o tornou imortal, e hoje é possível visitar San Vicente a partir de Tupiza para ficar de pé no lugar onde —talvez— terminou a era dos foras da lei do Oeste.
O cenário de toda esta história é, por si só, um personagem: os desfiladeiros e cânions de terra vermelha que cercam Tupiza devem sua cor a sedimentos ricos em óxidos de ferro, esculpidos durante milhões de anos pela água e pelo vento. A Quebrada de Palala com suas agulhas verticais, El Sillar com seu relevo ondulado quase lunar, o estreito Cañón del Inca e a Puerta del Diablo são o resultado dessa erosão paciente sobre rocha macia, uma paisagem que lembra tanto os desertos do oeste norte-americano que a fama de 'faroeste boliviano' se explica sozinha. Não é preciso forçar a imaginação para entender por que dois foras da lei de Utah e da Pensilvânia se moviam por aqui como em casa.
Durante boa parte do século XX, Tupiza viveu da mineração do seu entorno e da agricultura dos seus vales, com o trem da linha do sul como cordão umbilical entre o altiplano e a fronteira argentina. A decadência mineira após a queda do estanho golpeou a região, mas a partir dos anos noventa o turismo foi assumindo o bastão: primeiro mochileiros que cruzavam da Argentina por Villazón, depois viajantes do mundo inteiro atraídos pelas cavalgadas entre os desfiladeiros —a atividade estrela, no melhor estilo western— e por uma rota que virou clássica: o tour de 4 dias ao Salar de Uyuni saindo de Tupiza, que percorre as lagoas coloridas e a Reserva Eduardo Avaroa no sentido inverso ao circuito tradicional e permite se aclimatar à altitude de forma gradual.
Hoje Tupiza encarna o encontro de todas as suas histórias: a herança guerreira dos chichas, o caminho colonial da prata, a primeira vitória da independência em Suipacha, o império dos Aramayo, a lenda de Butch Cassidy e Sundance Kid e o turismo de aventura contemporâneo. Poucas cidades pequenas da Bolívia condensam tanto passado numa paisagem tão cinematográfica — e essa combinação de faroeste, história e hospitalidade chicheña é exatamente o que faz com que quem passa por Tupiza não a esqueça.