Santa Cruz de la Sierra é a cara mais tropical e pujante da Bolívia. Longe da imagem andina de altiplano e montanhas que muita gente associa ao país, aqui tudo é planície quente, vegetação exuberante e um ritmo de vida descontraído e caloroso. É a maior cidade da Bolívia e seu grande motor econômico, uma metrópole que cresceu vertiginosamente e que hoje combina arranha-céus, shoppings e bairros modernos com um centro antigo de casas baixas, galerias com colunas e pátios que conservam o sabor da antiga aldeia cruceña.
A cidade se organiza de um jeito muito particular: em 'anéis' concêntricos numerados do centro para fora, um guia simples para se orientar em meio ao crescimento. No coração de tudo está a Plaza 24 de Septiembre, com sua catedral, suas preguiças dormindo nas árvores e o vaivém de uma sociedade camba orgulhosa de sua identidade: aberta, alegre, apaixonada pela boa mesa, pelo calor e pela festa. O Carnaval cruceño, a música, a cumbia e o sorriso fácil fazem parte do caráter local.
Este guia percorre Santa Cruz com um olhar prático e caloroso, mas também a apresenta como o que ela realmente é para o viajante: a grande porta de entrada para o oriente boliviano. Daqui se chega às joias da região: as Missões Jesuíticas de Chiquitos (Patrimônio Mundial da Unesco), o sítio arqueológico de Samaipata, o Parque Nacional Amboró com sua biodiversidade, as dunas de Lomas de Arena e muito mais. Santa Cruz é base, descanso e trampolim para descobrir uma Bolívia tropical que surpreende a todos.
A história de Santa Cruz começa longe de onde hoje está a cidade. Foi fundada em 1561 pelo capitão espanhol Ñuflo de Chaves, que vinha do Paraguai em busca de uma rota e de um assentamento no coração do continente; a primeira Santa Cruz de la Sierra foi erguida a cerca de 200 km a leste da atual, perto da zona de San José de Chiquitos, numa região que então fazia parte da governação vinculada ao Rio da Prata e ao Paraguai. Pela pressão indígena e pela falta de água e de recursos, a cidade foi sendo transferida para o oeste até se estabelecer, no fim do século XVI, junto ao rio Piraí, no local atual, à beira da planície. Durante séculos foi uma cidade isolada e de fronteira, longe dos grandes centros andinos do Alto Peru, dedicada à pecuária, à agricultura e ao contato com os povos do oriente. Os jesuítas deixaram uma marca indelével na região com suas missões de Chiquitos e de Moxos. Só no século XX, com a chegada da ferrovia, das estradas, do petróleo e do grande impulso do agronegócio, Santa Cruz decolou e se transformou na cidade mais dinâmica e populosa da Bolívia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The great department of the tropical east: Bolivia's economic engine, land of the cambas, home of the celebrated Jesuit Missions of Chiquitos and their baroque music, with the sacred rock of Samaipata, the forests of Amboró and Noel Kempff and the Bolivian Pantanal.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tem uma coisa que surpreende todo mundo que chega pela primeira vez a Santa Cruz de la Sierra pensando na Bolívia dos livros de história: aqui não tem altiplano, nem ponchos de lã, nem montanhas nevadas. Tem calor, planície e selva. E essa Bolívia tropical tem uma história própria, tão antiga quanto a andina, que começa muito antes de qualquer espanhol pisar na região. As terras baixas do oriente boliviano eram habitadas por uma grande diversidade de povos indígenas, muito diferentes das culturas do altiplano. Na região que hoje cerca Santa Cruz viviam povos das planícies e das florestas tropicais, como os chané (de filiação aruaque), os chiriguanos ou guaranis que tinham migrado do leste e, mais ao norte e nordeste, os grupos que os espanhóis reuniriam sob o nome de 'chiquitos'.
Esses povos viviam da agricultura da mandioca, do milho e de outros cultivos tropicais, da caça, da pesca e da coleta, organizados em aldeias espalhadas pela imensa planície e pelas florestas. Tinham línguas, crenças e modos de vida próprios do mundo amazônico e chaquenho, e mantinham entre si relações de troca e também de conflito. A fronteira oriental do império inca chegou a encostar nessa região, mas os Andes e as terras baixas eram mundos diferentes.
A chegada dos europeus transformaria profundamente esse universo. A região viraria palco de expedições, alianças, resistências e, mais tarde, o coração de um dos experimentos missionários mais notáveis da América colonial: as reduções jesuíticas de Chiquitos e de Moxos, que reuniram e reorganizaram muitos desses povos em torno dos povoados-missão.
A cidade de Santa Cruz de la Sierra foi fundada em 26 de fevereiro de 1561 pelo capitão espanhol Ñuflo de Chaves. Chaves era um conquistador que tinha chegado ao continente pelo Rio da Prata e pelo Paraguai, e que avançou rumo ao oeste e ao norte em busca de terras, riquezas e de uma rota que ligasse as províncias do Prata ao Alto Peru. Nesse contexto de expedições pelo coração da América do Sul, fundou a primeira Santa Cruz.
O detalhe que mais surpreende o viajante é que essa primeira cidade não ficava onde hoje está a moderna Santa Cruz, e sim bem mais a leste, numa zona próxima da atual San José de Chiquitos, a uns 200 quilômetros da localização atual. O nome 'de la Sierra' fazia referência às serras perto daquele primeiro assentamento. A cidade nasceu como um posto avançado numa região de fronteira, distante e isolada, no limite entre o mundo andino e as terras baixas.
Nas décadas seguintes, as dificuldades foram enormes: a pressão dos povos indígenas, as distâncias, a falta de recursos e as disputas entre os próprios espanhóis fizeram com que a cidade fosse se mudando para o oeste. No fim do século XVI, Santa Cruz se instalou de forma definitiva na localização atual, junto ao rio Piraí, mais perto dos Andes e da rota para o Alto Peru. Assim, a Santa Cruz que conhecemos hoje é herdeira direta daquela fundação de 1561, mesmo tendo mudado de lugar.
Um dos capítulos mais fascinantes da história do oriente boliviano é o das missões ou reduções jesuíticas. No fim do século XVII e ao longo do XVIII, a Companhia de Jesus desenvolveu nas terras baixas, ao norte e a leste de Santa Cruz, dois grandes sistemas missionários: o de Moxos (no atual Beni) e o de Chiquitos (no atual departamento de Santa Cruz). Os jesuítas reuniram numerosos povos indígenas dispersos em povoados-missão organizados, onde se combinavam a evangelização, o trabalho agrícola e pecuário e o ensino de artes e ofícios.
As missões de Chiquitos foram especialmente notáveis. Ali se ergueram igrejas de madeira entalhada, com fachadas pintadas e retábulos dourados, fruto da colaboração entre missionários europeus e artesãos indígenas. Desenvolveu-se, além disso, uma extraordinária tradição musical: o ensino da música barroca europeia se misturou com a sensibilidade local, dando origem a um repertório riquíssimo que, surpreendentemente, se conservou durante séculos nos arquivos dos povoados. Essa herança é celebrada hoje no Festival Internacional de Música Barroca de Chiquitos.
A expulsão dos jesuítas dos domínios espanhóis, em 1767, marcou o fim dessa etapa, mas não apagou sua marca. Diferentemente das ruínas de outras missões do continente, várias igrejas de Chiquitos sobreviveram e foram restauradas no século XX. Em reconhecimento ao seu valor excepcional, as Missões Jesuíticas de Chiquitos foram declaradas Patrimônio Mundial da Unesco em 1990. São, junto com a própria cidade, uma das grandes razões para visitar a região de Santa Cruz.
Durante a maior parte do período colonial e boa parte do século XIX, Santa Cruz de la Sierra foi uma cidade relativamente pequena, isolada e de fronteira. Enquanto o eixo do poder colonial no Alto Peru girava em torno de Potosí e sua prata, de Chuquisaca (Sucre) e de La Paz, no mundo andino, Santa Cruz ficava longe, separada por distâncias enormes, estradas ruins e a barreira da geografia. Era uma sociedade voltada para a pecuária, a agricultura tropical e o contato com os povos do oriente.
Esse isolamento marcou profundamente a identidade cruceña. Longe dos centros de decisão, a região desenvolveu um caráter próprio, autônomo e de forte enraizamento local: o do 'camba', o habitante do oriente, com seu jeito de falar, sua música, sua cozinha e sua maneira de viver o calor e a abundância da terra. A cidade manteve seu traçado de casas baixas com galerias e pátios, adaptado ao clima, e um ritmo de vida pausado, bem diferente do das cidades andinas.
Depois da independência da Bolívia, em 1825, Santa Cruz passou a integrar a nova república, mas continuou sendo durante décadas uma região periférica em relação ao poder central andino. A grande mudança só chegaria no século XX, quando o país decidiu integrar de verdade seu oriente ao resto do território, com estradas, ferrovias e o aproveitamento dos recursos da região. Só então a velha cidade de fronteira começaria sua surpreendente transformação.
A transformação de Santa Cruz no século XX é uma das mais espetaculares da Bolívia. Depois da Guerra do Chaco (1932-1935), que deixou o país consciente da importância estratégica do seu oriente, e a partir das grandes reformas de meados do século, o Estado boliviano apostou em integrar e desenvolver a região. A construção de rodovias que ligaram Santa Cruz a Cochabamba e ao resto do país, e de ferrovias que a uniram ao Brasil e à Argentina, rompeu o isolamento de séculos.
A essa integração se somou o impulso econômico. A descoberta e a exploração de petróleo e gás natural no oriente e, sobretudo, o extraordinário desenvolvimento da agroindústria (soja, cana-de-açúcar, pecuária, algodão e outros cultivos) transformaram o departamento de Santa Cruz no grande celeiro e motor econômico da Bolívia. A planície fértil, antes pouco aproveitada, virou uma das zonas produtivas mais importantes do país.
O resultado foi um crescimento demográfico e urbano vertiginoso. Santa Cruz deixou de ser uma tranquila cidade de fronteira, de poucas dezenas de milhares de habitantes, para se tornar a cidade mais populosa da Bolívia, com mais de um milhão e meio de habitantes (e mais ainda somando sua região metropolitana). A cidade se organizou nos seus característicos 'anéis' concêntricos e atraiu migração de todo o país. Hoje combina a pujança de uma metrópole moderna, cheia de negócios e shoppings, com o centro histórico e a identidade camba que sobrevivem no seu coração. De vilarejo esquecido a capital econômica do país: essa é a surpreendente trajetória de Santa Cruz em apenas um século.
A Santa Cruz de hoje é uma cidade que olha para o futuro sem perder sua identidade. O termo 'camba', como são conhecidos os cruceños e, em geral, o povo do oriente boliviano, condensa todo um jeito de ser: aberto, caloroso, festivo, desenvolto, orgulhoso da sua terra, do seu clima e dos seus costumes. É uma identidade nascida de séculos de vida no trópico, longe do mundo andino, e enriquecida pela contribuição de povos indígenas, criollos e, no século XX, de migrantes de todo o país e do exterior.
Essa cultura se expressa de muitas formas. Na cozinha, com pratos como o majadito, o locro, o zonzo e os cuñapés, e a abundância de frutas tropicais. Na música e na festa, com o famoso Carnaval cruceño, um dos mais vistosos da Bolívia, cheio de comparsas, cor e alegria. Na fala, com seu sotaque e suas expressões próprias. E numa vida social que gira em torno da família, da rua, da praça e do encontro no fim da tarde, quando o calor dá uma trégua.
Ao mesmo tempo, Santa Cruz é hoje uma metrópole moderna e cosmopolita, polo de negócios e de serviços, com uma população que continua crescendo. Essa tensão e, ao mesmo tempo, fusão entre o tradicional e o moderno, entre o centro histórico de galerias e os anéis de avenidas e shoppings, faz parte do seu caráter. Para o viajante, Santa Cruz é a porta calorosa do oriente boliviano: o lugar de onde se parte para descobrir as Missões de Chiquitos, Samaipata, o Amboró e a Amazônia, mas também um destino com personalidade própria, onde se respira essa Bolívia tropical que poucos esperam encontrar.