Os Saltos do Moconá são uma das maravilhas naturais mais singulares da Argentina: uma falha geológica no rio Uruguai, no leste da província de Misiones, bem na fronteira com o Brasil, que forma uma cachoeira longitudinal única no mundo. Ao contrário de quase todas as cataratas, que cortam o rio de margem a margem (de forma transversal), aqui a água cai ao longo do leito, paralela ao rio, formando uma parede de água que se estende por vários quilômetros. Do lado brasileiro, os mesmos saltos são conhecidos como Salto do Yucumã.
O grande detalhe é que os saltos nem sempre aparecem: dependem totalmente da vazão do rio Uruguai. Quando chove muito e o rio está cheio, a água cobre a falha e os saltos praticamente somem; quando o rio está baixo, a parede de água surge em todo o seu esplendor, com quedas que vão de poucos metros até seis, oito ou até dez metros em águas muito baixas. Por isso, vale a pena viajar na época seca e consultar a situação do rio antes de ir.
O parque fica cercado de selva paranaense (Mata Atlântica do interior), dentro do Parque Provincial Moconá e da enorme Reserva da Biosfera Yabotí. Para chegar perto da parede de água, há passeios em bote inflável ou lancha que sobem a correnteza margeando a falha, e trilhas para caminhar entre samambaias gigantes, taquaras e árvores centenárias. A cidade de acesso é El Soberbio, uma localidade tranquila às margens do rio Uruguai, de onde saem os passeios.
Morei quase dois anos aqui: fui gerente do Moconá Virgin Lodge, dentro da Reserva da Biosfera Yabotí, com até vinte e duas pessoas sob minha responsabilidade e onze dias na selva para cada quatro em casa.
Ler a minha experiência completa →O nome Moconá vem do guarani e costuma ser traduzido como 'o que tudo engole', em alusão à força do rio ao engolir a água na falha. Os saltos se formaram a partir de uma antiga fratura geológica no leito do rio Uruguai e são compartilhados com o Brasil, onde são conhecidos como Yucumã. A história geológica e cultural completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of the Paraná rainforest and the red earth: home to the famous Jesuit-Guaraní missions, today a World Heritage Site, to the yerba mate that peopled its forests, and to the Iguazú Falls, one of the Seven Natural Wonders of the World.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Imagine um rio que despenca dentro de si mesmo. Não uma catarata que corta o leito de margem a margem, como as do Iguaçu ou do Niágara, mas uma parede de água de quase 3 quilômetros de comprimento que corre paralela à correnteza, como se o rio Uruguai se desdobrasse e uma metade desabasse sobre a outra. É isso que são os Saltos do Moconá, e não existe outro fenômeno igual no planeta: a cascata longitudinal mais extensa do mundo, escondida bem na fronteira entre a Argentina e o Brasil.
Os saltos ficam no leste da província de Misiones, no departamento de San Pedro, cercados pela Mata Atlântica do Parque Provincial Moconá e da Reserva da Biosfera Yabotí. Do lado brasileiro, no Rio Grande do Sul, o mesmo acidente geográfico se chama Salto do Yucumã e é protegido pelo Parque Estadual do Turvo. O extraordinário é a direção em que a água cai: em quase todas as cataratas do mundo o rio é cortado de lado a lado e a água cai de forma transversal ao leito; no Moconá acontece o contrário, a água cai ao longo do rio, no sentido longitudinal, formando uma parede de água que acompanha a correnteza por quilômetros.
A explicação desse fenômeno está debaixo d'água, na geologia do leito do rio Uruguai. Nessa região, o rio corre sobre uma grande falha ou fratura geológica que, em vez de cruzar o leito de um lado ao outro, o percorre no sentido longitudinal. Essa fratura formou um degrau no fundo do rio: de um lado o leito é raso, quase uma plataforma de rocha; do outro se abre um cânion profundo, que em alguns pontos chega a uns 90 metros de profundidade e, segundo as fontes, a cerca de 170 metros nos trechos mais fundos.
O resultado é que a água que vem correndo pela parte rasa do rio 'cai' lateralmente nesse cânion ao longo de toda a linha da falha, em vez de cair numa única frente transversal. Por isso, em vez de uma parede de água que atravessa o rio, forma-se uma parede de água que o acompanha em paralelo por quilômetros. A falha se estende, do lado argentino, entre as fozes do arroio Yabotí e do rio Pepirí Guazú, e é resultado de movimentos geológicos muito antigos sobre os derrames de basalto que formam a região.
Uma particularidade que surpreende muitos visitantes é que os Saltos do Moconá nem sempre estão visíveis: há dias, semanas e até meses em que eles praticamente desaparecem. O motivo é que tudo depende da vazão do rio Uruguai, que varia muito e responde às chuvas de toda a bacia, rio acima, e até à abertura de comportas de represas no Brasil.
Quando chove muito e o rio está cheio, o nível da água sobe acima da falha e a cobre: a parede de água se achata e os saltos quase não se distinguem. Além disso, o passeio de barco e até a entrada no parque podem ser suspensos, porque o caminho cruza arroios como o Yabotí, que alagam. Já quando o rio está baixo — normalmente na época mais seca, no outono e no inverno — a falha fica exposta e os saltos aparecem em todo o seu esplendor. A altura das quedas também muda com a vazão: com o rio baixo, podem chegar a 6 a 8 metros, e até a uns 10 metros em águas excepcionalmente baixas; com o rio alto, ficam reduzidas a poucos metros ou desaparecem. Por isso, para visitar o Moconá não basta escolher bem a temporada: vale a pena consultar a situação do rio nos dias anteriores.
O nome Moconá vem da língua guarani, falada pelos povos originários da mata de Misiones. A tradução mais difundida é 'aquele que tudo engole', em alusão à força com que o rio parece engolir a água ao se precipitar na falha. É um nome bem visual: quem observa a correnteza sumir no degrau de rocha entende na hora essa imagem do rio que devora a água. A seguir, alguns detalhes sobre os nomes do lugar.
Os saltos são protegidos pelo Parque Provincial Moconá, uma área natural da província de Misiones criada para conservar tanto o fenômeno geológico quanto a mata ao redor. O parque, por sua vez, fica dentro da Reserva da Biosfera Yabotí, uma extensa área protegida de cerca de 250.000 hectares reconhecida pela UNESCO, que abriga um dos últimos grandes blocos contínuos de Mata Atlântica do Alto Paraná (ou selva missioneira) que restam na Argentina.
Esse ambiente tem uma biodiversidade notável: árvores centenárias, samambaias arborescentes, taquaras e cipós, além de fauna emblemática como a onça-pintada, a onça-parda, macacos e uma enorme variedade de aves, embora ver os grandes felinos seja muito pouco provável. Para o visitante, o parque oferece um centro de visitantes, trilhas interpretativas que entram na mata e os passeios de barco que, quando a vazão permite, sobem a correnteza para chegar perto da parede de água. A combinação de um fenômeno geológico único com a mata subtropical faz do Moconá um dos destinos de natureza mais especiais do Litoral argentino.
A cidade que funciona como porta de entrada para os saltos é El Soberbio, uma localidade tranquila às margens do rio Uruguai, de frente para o Brasil, no sudeste de Misiones. É uma região de colonização relativamente recente, povoada ao longo do século XX por imigrantes e famílias rurais, com forte marca da produção agrícola da mata. El Soberbio é conhecida como 'a capital nacional das essências' por sua produção de óleos essenciais — citronela, menta e outros —, além de erva-mate e cultivos de roça.
Durante muito tempo os saltos foram quase inacessíveis, conhecidos sobretudo pelos moradores da região e por aventureiros. Com a criação do parque e a melhoria — sempre relativa — das estradas, o Moconá foi se consolidando como destino turístico, embora mantenha um jeito rústico e pouco massificado, muito condicionado pelo clima e pela vazão do rio. Hoje El Soberbio vive em boa parte desse turismo de natureza: oferece hospedagens, lodges no meio da mata, operadores de passeios e passeios de barco, num cenário em que a fronteira com o Brasil, a Mata Atlântica e o rio Uruguai se encontram em volta de um dos espetáculos naturais mais singulares do planeta.