Salta é chamada de "la Linda" e, depois de caminhar poucas quadras a partir da Plaza 9 de Julio, você entende o porquê. É uma das cidades coloniais mais bem conservadas da Argentina: galerias com arcos, casarões com pátios sombreados, igrejas barrocas pintadas de cores fortes e um morro verde que a abraça pelo leste. Fundada em 1582, ela conserva um centro histórico que dá para percorrer a pé, com a catedral, o Cabildo e a imponente Igreja de São Francisco a poucos passos uns dos outros.
Mas Salta não é só cartão-postal colonial. É a porta de entrada para o Noroeste profundo: daqui saem os passeios para a Quebrada de las Conchas e Cafayate (vinhos de altitude), para Cachi pela Cuesta del Obispo e o Parque Nacional Los Cardones, para as Salinas Grandes e para a Quebrada de Humahuaca, em Jujuy. E da estação da cidade parte a modalidade ônibus-trem-ônibus do famoso Tren a las Nubes, que sobe até o Viaduto La Polvorilla, a mais de 4.200 metros.
A cidade também guarda duas joias que a tornam única: o MAAM, onde estão conservadas as Crianças do Llullaillaco — três múmias incas com mais de 500 anos, as mais bem preservadas do mundo —, e uma vida noturna que pulsa no ritmo do folclore nas peñas da rua Balcarce. Junte a isso as empanadas salteñas com recheio cortado na faca, o locro e a humita, e você tem um destino que conquista pelos olhos, pelos ouvidos e pelo estômago.
Salta foi fundada em 16 de abril de 1582 por Hernando de Lerma com o nome de San Felipe del Valle de Lerma, para proteger o caminho entre o Río de la Plata e as minas de prata de Potosí. Três séculos depois, foi palco-chave da independência: Martín Miguel de Güemes e seus gauchos infernales barraram, uma após a outra, as invasões realistas vindas do norte. Para conhecer a fundação colonial, a saga de Güemes e a história das Crianças do Llullaillaco, leia nossa página sobre a história de Salta.
Ler a história completa ↓Salta la Linda: the colonial jewel of the northwest, Diaguita land of the Calchaquí Valleys, setting of Güemes and his gaucho war, of the high-altitude wines of Cafayate and of the legendary Tren a las Nubes.
Ler a história de Salta →Saem de Cabra Corral, a 54 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
A cidade de Salta foi fundada em 16 de abril de 1582 pelo licenciado Hernando de Lerma, governador de Tucumán, com o nome de San Felipe del Valle de Lerma (em homenagem ao rei Filipe II e ao seu próprio sobrenome). Lerma era um sevilhano formado em direito, um dos poucos conquistadores letrados da sua época, e escolheu um ponto estratégico no fértil vale de Lerma, a pouco mais de mil e cem metros de altitude.
A fundação não foi por acaso. A Coroa precisava garantir o longo caminho que ligava o Rio da Prata às riquíssimas minas de prata de Potosí (hoje na Bolívia). Salta nascia como uma parada-chave desse corredor: protegia o trânsito de mercadorias e documentos, oferecia descanso às caravanas e consolidava o domínio espanhol sobre um território onde os povos originários resistiam com força. Com o passar dos anos, o nome foi se simplificando na fala popular até ficar, simplesmente, Salta.
A trajetória do seu fundador, porém, terminou em tragédia: Lerma governou com mão de ferro, acumulou inimigos e denúncias pelos seus excessos, foi destituído, enviado preso para a Espanha e morreu na prisão. Já a cidade que ele fundou prosperaria durante séculos.
Durante os séculos XVII e XVIII, Salta se tornou uma das cidades mais importantes do norte do vice-reino. Sua localização a transformou em um grande centro comercial: aqui acontecia a famosa feira de mulas, onde se compravam e vendiam dezenas de milhares de animais que depois subiam carregados rumo ao Alto Peru. Essa economia de tropeiros e caravanas trouxe riqueza e uma identidade própria, a meio caminho entre o mundo andino e o platino.
Daquela prosperidade colonial seguem de pé as construções que hoje são a alma do centro histórico: o Cabildo — um dos mais bem conservados do país, com sua galeria dupla de arcos —, a Catedral, a igreja e convento de San Francisco com sua torre vermelha e dourada, e o antigo convento de San Bernardo, com seu portal entalhado em madeira de alfarrobeira. É um conjunto que mistura o barroco espanhol com a mão de obra e a sensibilidade indígena, dando origem a esse estilo caloroso e terroso que os visitantes associam a "la Linda".
Salta também foi sede de poder político e religioso do norte e sempre manteve um forte senso de tradição, que se nota até hoje nas suas festas, na sua música e na sua devoção ao Señor e à Virgen del Milagro.
Se há uma figura que define Salta, é a de Martín Miguel de Güemes (1785-1821). Nascido na cidade, em uma família abastada, ele se tornou o grande defensor do Noroeste durante a guerra pela independência argentina. Quando os exércitos patriotas não conseguiam sustentar a frente norte, Güemes organizou os gaúchos — homens do campo, cavaleiros habilidosos e conhecedores do terreno — em uma força popular que mudou o rumo da guerra.
Com sua célebre divisão de "Infernales", vestidos de vermelho intenso (o famoso rojo punzó), Güemes barrou uma após a outra as invasões realistas que desciam do Alto Peru. Não fez isso com grandes batalhas campais, mas com o que ficou conhecido como a "guerra gaúcha": emboscadas, ataques surpresa, assédio constante e depois a dispersão no mato. Essa tática de guerrilha, sustentada durante anos pela população de Salta a um custo enorme, protegeu a retaguarda dos exércitos de San Martín e permitiu consolidar a independência.
Güemes morreu em 17 de junho de 1821, depois de ser baleado em uma emboscada realista: é o único general argentino morto em ação de guerra pela independência. Hoje seus restos descansam no Panteón de las Glorias del Norte, na Catedral de Salta, e todo 17 de junho a cidade o homenageia com guardas gaúchas e vigílias. O imponente monumento equestre ao pé do Cerro San Bernardo o retrata olhando para o horizonte que defendeu.
Muito antes da chegada dos espanhóis, o atual território de Salta fez parte do extremo sul do Império Inca. Dessa presença inca vem a descoberta arqueológica mais impressionante da cidade, hoje guardada no MAAM (Museo de Arqueología de Alta Montaña).
Em 1999, uma expedição liderada pelo antropólogo Johan Reinhard e pela arqueóloga argentina Constanza Ceruti chegou ao cume do vulcão Llullaillaco, a quase 6.700 metros de altitude, na puna de Salta, na fronteira com o Chile. Lá encontraram os corpos de três crianças incas — conhecidas como La Doncella, El Niño e La Niña del Rayo, de cerca de 15, 7 e 6 anos — junto a um riquíssimo enxoval de tecidos, estatuetas de ouro e prata e oferendas. O frio extremo e o ar seco da altitude as conservaram de tal forma que são consideradas as múmias mais bem preservadas do mundo: parecem adormecidas, não fossilizadas.
As três crianças fizeram parte de um ritual sagrado do Império Inca. A explicação mais aceita entre os especialistas é que se tratou de uma cerimônia de capacocha (ou capac hucha): oferendas solenes às divindades, ligadas a momentos importantes do Estado inca e às colheitas, nas quais eram entregues crianças e jovens escolhidos. Levadas em peregrinação até o cume do vulcão e deixadas no santuário de altitude, eram consideradas intermediárias entre a comunidade e os deuses.
No MAAM, apenas uma das três múmias fica em exposição por vez, dentro de uma câmara que reproduz as condições de frio e baixa oxigenação do cume, para preservá-las. A peça exposta é trocada a cada poucos meses. É uma visita tão impactante quanto respeitosa, que convida a refletir sobre a cosmovisão andina sem reduzi-la a uma simples curiosidade turística.
A Salta do século XXI conseguiu algo pouco comum: crescer como cidade moderna sem perder seu centro histórico nem sua identidade. "La Linda" é hoje uma das grandes capitais turísticas do Norte argentino, porta de entrada para a Quebrada de Humahuaca, os vales Calchaquíes, Cafayate e a puna, e base natural para clássicos como o Tren a las Nubes.
Seu patrimônio segue vivo não só na pedra de igrejas e cabildos, mas também no dia a dia: as empanadas cortadas na faca, o locro e a humita; a devoção multitudinária ao Milagro todo mês de setembro; as guardas gaúchas em homenagem a Güemes; e, acima de tudo, o folclore. Nas peñas da rua Balcarce — do Balderrama à La Casona del Molino — a zamba e a chacarera não são espetáculo para turista, mas uma forma de estar junto que os salteños mantêm como algo próprio.
Esse encontro entre o colonial, o andino e o gaúcho é o que faz de Salta um destino que não se visita apenas: se escuta, se canta e se saboreia. Conhecer sua história — de Lerma a Güemes, dos incas do Llullaillaco às peñas de hoje — é a melhor maneira de entender por que esta cidade é tão querida por quem vive nela e por quem a visita.