Ischigualasto, conhecido popularmente como Vale da Lua, é um dos lugares mais impressionantes da Argentina: um parque provincial de cerca de 63.000 hectares no nordeste de San Juan, onde a erosão esculpiu uma paisagem desolada e lunar de formas impossíveis, em tons de cinza, ocre e avermelhados. Declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco — junto com seu vizinho Talampaya, em La Rioja —, parece outro planeta caído em plena região de Cuyo.
Mas Ischigualasto não é só uma paisagem espetacular: é uma das jazidas paleontológicas mais importantes do mundo. Suas rochas guardam uma sequência quase completa do período Triássico, de mais de 200 milhões de anos atrás, e preservaram os restos de alguns dos primeiros dinossauros e dos ancestrais dos mamíferos. Foi aqui que se descobriu, entre outros, o Herrerasaurus, um dos dinossauros mais antigos que se conhecem. Caminhar por Ischigualasto é viajar ao amanhecer dos dinossauros.
O parque é percorrido em um circuito tradicional de uns 40 km, com veículo próprio e em comboio, seguindo um guia credenciado, com paradas nas geoformas mais famosas: El Submarino, El Hongo, a Cancha de Bochas e o Valle Pintado. Há também passeios de bicicleta, trekkings e, em certas datas, a mágica visita sob a lua cheia. Geologia, paleontologia e silêncio absoluto: Ischigualasto é uma das grandes experiências naturais do país.
O Parque Provincial Ischigualasto protege uma paisagem geológica única e um dos registros do período Triássico mais completos do hemisfério sul. Há mais de 200 milhões de anos, esta região era um ambiente úmido, de rios e vegetação, onde viveram os primeiros dinossauros e os ancestrais dos mamíferos; seus fósseis ficaram preservados nas rochas. Foi declarado área protegida pela província de San Juan em 3 de novembro de 1971 por seu valor paleontológico, e em 30 de novembro de 2000 a Unesco o declarou Patrimônio da Humanidade junto com o vizinho Parque Nacional Talampaya. Aqui foram encontrados dinossauros primitivos como o Herrerasaurus. A história geológica e paleontológica completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of sun and wine in the heart of Cuyo: Huarpe land, birthplace of Sarmiento, rebuilt after the devastating earthquake of 1944, of Syrah wineries, high cordillera and the lunar landscape of Ischigualasto.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender Ischigualasto é preciso viajar bem longe no tempo: mais de 200 milhões de anos atrás, até o período Triássico da era Mesozoica. O que hoje é um deserto árido e desolado era, naquela época, um ambiente muito diferente: uma região úmida cortada por rios, lagoas e vegetação abundante, onde a vida fervilhava. Nesses ecossistemas viveram os primeiros dinossauros e os ancestrais dos mamíferos, num momento-chave da evolução, quando esses grupos estavam apenas começando a se diferenciar.
Durante milhões de anos, os sedimentos arrastados pelos rios foram soterrando os restos daqueles animais e plantas, camada sobre camada, preservando-os na rocha. O resultado é extraordinário: Ischigualasto conserva uma sequência quase completa do período Triássico, uma das mais completas do hemisfério sul e talvez do mundo. É, literalmente, um livro aberto sobre o surgimento dos dinossauros, escrito em pedra.
O grande valor científico de Ischigualasto está nos seus fósseis. Em suas rochas foram encontrados restos de vertebrados triássicos como os rincossauros, os dicinodontes, os cinodontes (ancestrais dos mamíferos) e outros animais que habitaram a região há mais de 225 milhões de anos. Mas o mais famoso são seus dinossauros primitivos, entre os mais antigos conhecidos no planeta.
A história da descoberta tem nomes e datas concretos. Em 1957, os paleontólogos argentinos Galileo Scaglia e Leocadio Soria encontraram os primeiros fósseis do que depois seria chamado de Formação Ischigualasto. No ano seguinte, chegou à região o paleontólogo norte-americano Alfred Romer, de Harvard, que levou parte do material para os Estados Unidos, um episódio que causou certo mal-estar na comunidade científica argentina. Em resposta, o paleontólogo Osvaldo Reig organizou entre 1959 e 1961 suas próprias expedições a Ischigualasto junto com um jovem técnico chamado José Bonaparte —que com o tempo se tornaria um dos paleontólogos mais importantes da Argentina— e com a colaboração fundamental de Victorino Herrera, um guia e tropeiro da região que conhecia o terreno como ninguém e que foi quem mostrou aos cientistas onde encontrar os ossos. Em homenagem a ele, Reig batizou o fóssil mais famoso do local de Herrerasaurus ischigualastensis: um predador bípede de cerca de 230 milhões de anos, um dos dinossauros mais antigos já encontrados no planeta.
A descoberta mais célebre viria mais de três décadas depois. Em 1991, uma expedição liderada pelo paleontólogo argentino Ricardo Martínez e pelo norte-americano Paul Sereno (Universidade de Chicago) encontrou em Ischigualasto os restos de um dinossauro minúsculo, de apenas um metro de comprimento, que quase foi descartado como uma pedra qualquer até que alguém da equipe percebeu que ele tinha dentes. Descrito formalmente em 1993, foi batizado de Eoraptor lunensis —'o ladrão da aurora, da lua'—, em referência tanto à sua antiguidade (231 milhões de anos) quanto ao próprio Vale da Lua. O Eoraptor é hoje um dos candidatos mais fortes ao posto de dinossauro mais primitivo conhecido, uma espécie de elo que ajuda a entender como eram os ancestrais de toda a linhagem que, milhões de anos depois, daria origem ao Tyrannosaurus e ao Argentinosaurus. Entre o Herrerasaurus e o Eoraptor, Ischigualasto se tornou a referência mundial para estudar o surgimento dos dinossauros.
Se os fósseis contam a história da vida, as formas do terreno contam a história da erosão. Durante milhões de anos, a água, o vento e as grandes mudanças climáticas foram desgastando as camadas de rocha sedimentar —de durezas, composições e cores diferentes— depositadas naquela antiga paisagem triássica. O resultado é o espetáculo desolado e lunar que deu ao parque seu apelido popular: o Vale da Lua.
A erosão diferencial —que ataca com mais força as rochas moles e deixa de pé as mais resistentes— esculpiu as formações que hoje impressionam o visitante: o Submarino, o Hongo (o 'Cogumelo'), a misteriosa Cancha de Bochas (um campo coberto de esferas de rocha quase perfeitas), o colorido Valle Pintado. Os tons cinza, ocre, avermelhados e esbranquiçados, e as formas impossíveis, fazem de Ischigualasto uma das paisagens mais estranhas e fotogênicas da Argentina, um lugar que parece de outro planeta.
O reconhecimento do valor excepcional de Ischigualasto levou à sua proteção. Em 3 de novembro de 1971, o Governo da Província de San Juan o declarou área protegida, principalmente pelo seu valor paleontológico, criando o Parque Provincial Ischigualasto, com cerca de 63.000 hectares nos departamentos de Valle Fértil e Jáchal, na divisa com La Rioja.
A consagração internacional veio em 30 de novembro de 2000, quando a Unesco declarou Ischigualasto Patrimônio da Humanidade, junto com o vizinho Parque Nacional Talampaya, em La Rioja. Os dois parques formam uma unidade geológica e paleontológica de relevância mundial. Hoje, Ischigualasto é visitado em circuitos guiados —o tradicional, de carro, além de saídas de bicicleta, trekkings e o mágico passeio de lua cheia—, que permitem conhecer esse testemunho único da origem dos dinossauros e, ao mesmo tempo, preservar seu frágil patrimônio.
Ischigualasto fica em pleno deserto, mas sua cidade-base é exatamente o oposto: San Agustín del Valle Fértil, fundada em 4 de abril de 1788 por Pedro Pablo de Quiroga, deve seu nome à expressão indígena de raiz diaguita 'Chaj-Paj-Nai', que significa 'país verde'. O contraste não é por acaso: enquanto o parque exibe uma paisagem lunar, árida e mineral, a apenas 73 quilômetros a cidade fica num vale serrano de vegetação abundante, vinhedos, olivais e frutas cítricas —limas, laranjas, toranjas—, com um microclima bem mais ameno que o do entorno andino. Essa combinação de opostos, um oásis verde às portas de um deserto lunar, é parte do que torna inesquecível a viagem a essa região de San Juan.
Durante boa parte da sua história, Valle Fértil viveu de uma economia rural tradicional: criação de cabras e gado, cultivo de uva e cereais, e uma vida bastante isolada do resto da província. A declaração de Ischigualasto como área protegida em 1971 e, principalmente, seu reconhecimento como Patrimônio da Humanidade em 2000 mudaram essa equação: a cidade virou a base logística obrigatória para dezenas de milhares de visitantes por ano que chegam para ver o Vale da Lua, o que impulsionou hotéis, pousadas, restaurantes e uma economia de serviços turísticos que hoje convive com a atividade agropecuária de sempre. O Dique de San Agustín, com pesca e passeios de lancha, e o vizinho Parque Natural Valle Fértil, com trilhas e vestígios arqueológicos dos povos originários que habitaram a região antes da chegada dos espanhóis, completam uma oferta que muitos viajantes aproveitam para somar um dia extra antes ou depois de Ischigualasto.
Hoje, todo mês de abril, Valle Fértil comemora o aniversário de fundação com festas que reúnem a comunidade e valorizam essa dupla identidade de 'país verde' e porta para o deserto lunar. Para quem visita o parque, entender essa história ajuda a dimensionar a viagem completa: não se trata só de percorrer formações milenares em um dia, mas de atravessar, em apenas uma hora de estrada, duas paisagens e duas histórias humanas completamente diferentes dentro da mesma província de San Juan.