Capilla del Monte é uma vila serrana no extremo norte do Valle de Punilla, em Córdoba, famosa em toda a Argentina por duas coisas: o imponente Cerro Uritorco, o pico mais alto das Sierras Chicas, e sua fama de epicentro místico, esotérico e ufológico, alimentada por décadas de relatos sobre avistamentos de óvnis e energias especiais. Essa mistura de natureza e mistério dá ao lugar um caráter único.
Mas, além das lendas, Capilla del Monte é um destino de natureza espetacular: a subida ao Uritorco, os balneários de águas cristalinas, as impressionantes formações rochosas de Los Terrones e o vale de Ongamira, com sua história dos povos originários, fazem da região um paraíso para o trekking, o descanso e a conexão com a paisagem serrana. A cidade, com seu clima tranquilo e alternativo, completa a experiência.
Este guia percorre o essencial de Capilla del Monte com um olhar prático: o Cerro Uritorco e sua subida, os balneários e rios, as formações rochosas e os vales dos arredores, a cidade e sua atmosfera mística, e como se deslocar por este cantinho do norte de Punilla, um dos mais singulares das serras de Córdoba.
A região de Capilla del Monte foi habitada pelos comechingones, povo originário das serras de Córdoba, que deixou sua marca em gravuras, pictografias e sítios arqueológicos como os do vale de Ongamira. O nome da cidade vem de uma antiga capela erguida no monte serrano na época colonial. Com a chegada da ferrovia e o auge do turismo serrano no início do século XX, Capilla del Monte se desenvolveu como vila de descanso. Na segunda metade do século XX, ganhou fama como centro místico e ufológico, sobretudo a partir de relatos de avistamentos de óvnis em torno do Cerro Uritorco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The landlocked province of sierras and rivers: Comechingón land founded by Cabrera in 1573, seat of the oldest university in the country and of the great Jesuit legacy, cradle of the University Reform and of the Cordobazo, capital of sierra tourism and of cuarteto.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes dos óvnis, antes dos buscadores de energia e das histórias de cidades subterrâneas, o Uritorco já era uma montanha sagrada. Os primeiros a venerá-lo não chegaram em ônibus de turismo: viveram milênios nestas serras. Eram os comechingones, um dos povos originários mais singulares do centro da Argentina, famosos por algo que surpreendeu os próprios cronistas espanhóis. Eram serranos de barba, um traço raríssimo entre os povos americanos, e moravam em habitações semissubterrâneas escavadas na terra para se proteger do frio da serra. Praticavam a agricultura, a caça e a coleta, e deixaram uma rica marca cultural em forma de pictografias, gravuras e locais sagrados espalhados pelas serras. O próprio nome do morro lembra essa raiz: 'Uritorco' vem das línguas originárias da região, e a montanha já era um lugar de cerimônias muito antes de alguém falar em energias cósmicas.
Nos arredores da atual Capilla del Monte, o vale de Ongamira concentra parte desse legado. Seus paredões de rocha e suas grutas guardam vestígios da presença comechingona e foram cenário de episódios de resistência indígena durante a conquista espanhola. Hoje Ongamira é um lugar carregado de história e de uma atmosfera especial, onde a paisagem de formações rochosas se une à memória dos povos originários.
Essa herança comechingona faz parte profunda da identidade da região. Topônimos, lendas e sítios arqueológicos lembram que estas serras foram, durante séculos, território de um povo que as habitou e as considerou sagradas, muito antes da chegada das capelas coloniais e, mais tarde, dos relatos místicos do século XX.
A origem do nome e do próprio povoado remonta a meados do século XVII, quando o governador da Cidade de Córdoba concedeu terras, em forma de mercê real, ao colonizador espanhol Bartolomé Jaimes. Nesse território, Jaimes fundou uma estância e ergueu um oratório que batizou de Estancia de San Antonio de la Capilla del Monte. Como a pequena construção religiosa ficava sobre uma colina, com o tempo o lugar passou a ser chamado simplesmente de 'la capilla del monte' (a capela do morro) pelos moradores da região. Em 1695, o capitão Antonio de Cevallos construiu uma capela de adobe nesse mesmo terreno, no local onde hoje fica a Paróquia de San Antonio de Padua, dando continuidade física àquele primeiro oratório colonial.
Durante quase dois séculos, porém, Capilla del Monte não passou de uma aldeia isolada de casebres dispersos, longe de qualquer circuito relevante da colônia e, depois, da nascente Argentina independente. A verdadeira virada só veio no fim do século XIX, pelas mãos de uma figura decisiva: Adolfo Doering, um naturalista de origem alemã que, depois de percorrer e estudar a região, promoveu ativamente seu desenvolvimento como destino de veraneio para a elite de Córdoba. Em 1892, Doering criou e presidiu a primeira Comissão de Moradores, o embrião institucional do futuro município, que ganharia forma oficial com o nome de Capilla del Monte em 1897. Ou seja: o povoado que hoje associamos ao mistério e ao esotérico tem, em suas origens documentadas, uma história bem terrena de mercês reais, oratórios de adobe e comissões de moradores do fim do século XIX.
O grande impulso seguinte, como em todo o Valle de Punilla, veio com a chegada da ferrovia no início do século XX. O trem conectou a região à cidade de Córdoba e ao resto do país, e abriu de vez as serras ao turismo. Foi essa época que consagrou Punilla como destino de descanso e de saúde, graças ao clima seco e ameno, com hotéis e casas de veraneio surgindo por toda a região. Capilla del Monte, no extremo norte do vale e ao pé do imponente Cerro Uritorco, se desenvolveu como vila serrana turística, com seus balneários de rio, suas paisagens e sua tranquilidade. Durante boa parte do século XX foi, antes de tudo, um pacato povoado de veraneio nas serras, até que um novo fenômeno transformou completamente sua fama.
Na segunda metade do século XX, Capilla del Monte ganhou uma notoriedade muito particular, que a diferencia de qualquer outra vila serrana da Argentina: a fama de epicentro místico, esotérico e ufológico. O protagonista dessa fama é o Cerro Uritorco, o pico mais alto das Sierras Chicas, em torno do qual se multiplicaram os relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados, luzes estranhas e supostas energias especiais.
Diversos episódios e testemunhos ao longo das décadas, divulgados pela imprensa, por livros e pelo boca a boca, foram construindo a imagem de Capilla del Monte como um ponto de encontro entre o terreno e o desconhecido. O povoado virou destino de ufólogos, místicos, buscadores de experiências espirituais e curiosos de todo tipo, atraídos pela promessa de fenômenos inexplicáveis e de uma energia especial no morro.
Independentemente da veracidade desses relatos, que pertencem mais ao terreno da crença e da lenda do que ao da ciência, o fato é que essa fama transformou profundamente a identidade turística de Capilla del Monte. Hoje o povoado combina seu atrativo natural (a subida ao Uritorco, os balneários de rio, as formações rochosas, o vale de Ongamira) com um ambiente alternativo e místico, com feiras, terapias e lojas esotéricas, que o tornam único no panorama das serras de Córdoba.
Se há um episódio que cristalizou a fama ufológica de Capilla del Monte, foi o de 9 de janeiro de 1986. Naquela noite, moradores do povoado afirmaram ter visto luzes estranhas nas encostas do Uritorco e, na manhã seguinte, apareceu no morro uma marca ou 'pegada' chamuscada na vegetação, de formato alongado e com vários metros de extensão. O fato teve enorme repercussão na mídia argentina e atraiu pesquisadores, curiosos e jornalistas de todo o país, consolidando o morro como símbolo do fenômeno óvni na Argentina.
Mas a mitologia do Uritorco não nasceu em 1986: os primeiros testemunhos sobre a suposta cidade subterrânea de Erks datam da década de 1940, quando grupos de moradores começaram a contar histórias de viajantes que diziam ter chegado a essa cidade secreta sob o morro. O termo ERKS, acrônimo popularizado como 'Encuentro de Remanentes Cósmicos Siderales' (Encontro de Remanescentes Cósmicos Siderais), só foi cunhado décadas depois pelo guru Ángel Cristo Acoglanis, que afirmava ter recebido revelações de um suposto mestre extraterrestre chamado Saaruma sobre essa cidade intraterrena. Segundo o relato místico que se popularizou a partir dos anos 80, Erks seria uma metrópole luminosa e avançada, habitada por seres espiritualmente superiores e alheios ao nosso mundo, que teriam se instalado sob o Uritorco para 'forjar a semente humana'. Nenhuma evidência física sustenta essas afirmações, mas a lenda continua viva e é, junto com a pegada de 1986, o outro grande pilar do imaginário místico do morro.
A esses relatos somaram-se outras histórias e crenças sobre o Uritorco, alimentando uma cultura local que o povoado soube integrar à sua oferta turística em vez de resistir a ela. Embora não exista nenhuma evidência científica desses fenômenos, que pertencem ao âmbito da crença e do folclore contemporâneo, eles fazem parte legítima da identidade cultural de Capilla del Monte, tanto quanto a geologia do morro ou a herança comechingona do vale.
Desde então, Capilla del Monte combina duas almas que convivem sem conflito: a do destino de natureza serrana, com trilhas, balneários de rio e formações rochosas, e a do polo místico e alternativo, com feiras esotéricas, terapias holísticas, encontros de ufologia e um festival anual dedicado ao fenômeno óvni que lota o povoado todo verão. Essa dualidade, longe de tirar sua seriedade, lhe dá uma identidade inconfundível no mapa turístico argentino e a transforma em um dos destinos mais singulares das serras de Córdoba: um lugar onde dá para subir uma montanha real de quase 2.000 metros pela manhã e, à tarde, ouvir histórias sobre uma cidade de outra dimensão que supostamente existe sob essa mesma montanha.