A Praça de São Pedro é uma das obras-primas do urbanismo de todos os tempos e a porta de entrada para o maior templo do cristianismo. Quando você sai das ruazinhas do Borgo ou da Via della Conciliazione e desemboca de repente nessa enorme elipse, a sensação é inesquecível: dois braços gigantescos de colunas parecem se abrir para abraçar os visitantes, com a fachada da basílica ao fundo, o obelisco egípcio cravado no centro e o murmúrio das duas fontes. Bernini a concebeu justamente como 'os braços maternais da Igreja' que acolhem os fiéis.
Não é só um espaço bonito: é um lugar cheio de vida e de história. Aqui se reúnem centenas de milhares de pessoas para ver o Papa nas grandes celebrações; aqui se anuncia ao mundo, com a famosa fumaça branca da chaminé da Capela Sistina e o 'Habemus Papam', a eleição de um novo pontífice; aqui João Paulo II rezou e foi baleado em 1981. Toda quarta-feira e todo domingo, a praça volta a se encher de peregrinos do planeta inteiro.
Este guia prático conta o que observar na praça — o obelisco milenar, as 284 colunas, as fontes, os pontos onde a colunata se alinha em uma única fileira como num passe de mágica —, como assistir a uma Audiência Papal ou ao Angelus, quando há menos gente e como emendar a visita com a basílica e a cúpula. O acesso é livre e gratuito: só é preciso passar pelo controle de segurança se você quiser entrar na basílica.
A praça foi projetada por Gian Lorenzo Bernini entre 1656 e 1667, por encomenda do papa Alexandre VII, para dar à Basílica de São Pedro um espaço à altura, onde reunir os fiéis e de onde o Papa pudesse abençoar as multidões. Bernini resolveu um problema difícil — um terreno irregular diante de uma fachada larga demais — com uma ideia genial: uma grande praça elíptica cercada por uma colunata de quatro fileiras, coroada por 140 estátuas de santos, que se abre como dois braços. No centro, colocou um obelisco egípcio que já estava no Vaticano desde a Antiguidade (tinha presidido o circo de Nero) e que em 1586 havia sido transferido com enorme esforço para aquele lugar. A história completa, do obelisco dos faraós à cenografia barroca de Bernini, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The monumental heart of the Vatican: St. Peter's Basilica, raised over the apostle's tomb, Michelangelo's dome and the great elliptical square embraced by Bernini's colonnade.
Ler a história de The Basilica and the Square →Um guia que mora no lugar conta em meia hora o que nenhuma placa explica. Nós buscamos na Civitatis: com guia em espanhol e reserva online sem complicação. Em Roma eles têm mais de 50 passeios. E aqui tem free tours: você reserva sem pagar nada e no final dá ao guia o que achar justo, então experimentar não custa nada. Aqui embaixo deixo três para você ver do que se trata: toque em qualquer uma e abrem todas.
Saem de Roma, a 3 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de a praça existir, este canto da colina vaticana era um lugar de espetáculos e de morte. No século I, os imperadores Calígula e Nero tinham aqui um circo, uma pista para corridas de bigas. Para enfeitar a 'spina' central desse circo, Calígula mandou trazer do Egito um obelisco de granito vermelho, esculpido séculos antes e sem hieróglifos, que tinha ficado na cidade de Heliópolis. Esse obelisco — o mesmo que hoje domina a praça — foi transportado por mar em um navio descomunal, uma proeza que já impressionou os romanos da época.
Nesse circo, segundo a tradição cristã, aconteceram as perseguições de Nero contra os cristãos depois do grande incêndio de Roma do ano 64, e ali ou nas proximidades teria sido crucificado o apóstolo Pedro, de cabeça para baixo a seu próprio pedido, por se considerar indigno de morrer como Cristo. Enterrado na necrópole vizinha, seu túmulo se tornaria, séculos depois, o centro da basílica e, por extensão, da praça. Assim, o obelisco que hoje vemos no eixo da Piazza San Pietro foi, segundo esse relato, testemunha silenciosa do martírio do apóstolo.
Durante séculos, enquanto se erguia e depois se demolia a antiga basílica de Constantino, o obelisco permaneceu fincado em seu lugar original, de lado, meio esquecido. Seria preciso esperar até o fim do Renascimento para que alguém tivesse coragem de movê-lo e dar a ele o lugar central que ocupa hoje.
Em 1585, o enérgico papa Sisto V decidiu que o velho obelisco devia ser levado para o centro da esplanada que se abria diante da nova basílica, ainda em obras. A tarefa parecia impossível: era preciso mover um monólito de granito de uns 25 metros e cerca de 330 toneladas sem quebrá-lo, algo que não se tentava desde a Antiguidade. A missão ficou com o arquiteto e engenheiro Domenico Fontana, que projetou um sistema colossal de andaimes, cabrestantes, roldanas e cordas.
A operação, realizada em 1586, mobilizou centenas de trabalhadores, dezenas de cavalos e inúmeros guinchos. Primeiro, o obelisco foi baixado da base original, deitado com cuidado; depois, arrastado sobre roletes até o novo local e, por fim, erguido de novo. Foi um verdadeiro acontecimento na Roma da época. A lenda mais famosa conta que Sisto V, para evitar distrações fatais, ordenou silêncio absoluto ao público sob pena de morte; no momento crítico do içamento, as cordas começaram a superaquecer com a tensão e quase cederam, até que um marinheiro de Sanremo chamado Bresca gritou 'Água nas cordas!' ('Acqua alle funi!'), desobedecendo à ordem mas salvando a manobra. Como recompensa, a família dele teria recebido o privilégio de fornecer as palmas do Vaticano para o Domingo de Ramos.
Já de pé, o obelisco foi 'cristianizado': retiraram a antiga esfera de bronze do topo (que, segundo a tradição, guardava as cinzas de Júlio César) e o coroaram com uma cruz que, dizem, contém uma relíquia da Vera Cruz. O obelisco pagão dos faraós ficava assim consagrado, pronto para se tornar o coração da futura praça.
A praça como a conhecemos nasceu entre 1656 e 1667, por encomenda do papa Alexandre VII a Gian Lorenzo Bernini, o gênio absoluto do Barroco romano, que àquela altura já tinha deixado na basílica o baldaquino e a Cátedra. O objetivo era duplo: dar à fachada da basílica um espaço digno e monumental, e criar um lugar capaz de reunir multidões enormes para que o Papa pudesse abençoá-las, tanto da loggia central da fachada quanto da janela do Palácio Apostólico.
Bernini enfrentou um problema difícil. A fachada de Maderno era larga e baixa demais, e o terreno tinha forma irregular. A solução dele foi de uma genialidade que ainda hoje impressiona: em vez de uma praça quadrada, traçou uma grande elipse abraçada por uma colunata de quatro fileiras de colunas dórico-toscanas — 284 colunas e 88 pilastras —, arrematada por uma balaustrada com 140 estátuas de santos. Antes dessa elipse, colocou um espaço trapezoidal que se liga à fachada e corrige opticamente suas proporções, fazendo-a parecer mais esbelta.
O próprio Bernini explicou o sentido da obra: a colunata representa 'os braços maternais da Igreja', que se abrem para acolher os fiéis, reconciliar os que se afastaram e chamar os que ainda não creem. A geometria tem uma precisão matemática impressionante: a elipse tem dois focos, marcados por discos no piso, de onde as quatro fileiras de colunas parecem alinhadas em uma só. O obelisco de 1586 ficou no centro, e as fontes — a de Maderno, de 1613, e a que Bernini acrescentou por volta de 1677 para dar simetria — sobre cada um dos focos. O resultado é um dos espaços urbanos mais perfeitos já concebidos.
Durante quase três séculos, chegava-se à praça de Bernini pelo labirinto de ruelas medievais do bairro de Borgo, a 'Spina di Borgo', de modo que a enorme elipse se abria de repente diante do visitante, produzindo um efeito surpresa que muitos consideravam parte essencial do gênio de Bernini. Tudo mudou depois dos Pactos de Latrão de 1929, que reconciliaram o Estado italiano com a Santa Sé e criaram a Cidade do Vaticano. Para celebrar essa 'conciliação', o regime de Mussolini abriu, entre 1936 e 1950, uma grande avenida em linha reta, a Via della Conciliazione, demolindo a Spina di Borgo.
A operação foi muito polêmica: varreu um bairro histórico inteiro e, segundo os críticos, destruiu o efeito surpresa que Bernini buscava, deixando a praça exposta de longe. Em troca, criou a vista frontal mais famosa e fotografada de São Pedro, com a cúpula de Michelangelo dominando o eixo da avenida. É a imagem que hoje associamos ao Vaticano.
Ao longo dos séculos XX e XXI, a praça se consolidou como o grande palco da vida da Igreja e como um dos espaços mais reconhecíveis do planeta. Nela se reúnem centenas de milhares de pessoas nas grandes celebrações e nos momentos históricos: os funerais dos papas, as canonizações, as jornadas dos jubileus. Foi aqui que, em 13 de maio de 1981, o papa João Paulo II sofreu um atentado enquanto cumprimentava a multidão do papamóvel, e sobreviveu. E é aqui, diante dos olhos do mundo, que se anuncia com a fumaça branca e o 'Habemus Papam' a eleição de cada novo pontífice.
Hoje a Praça de São Pedro é muito mais que uma obra de arte do Barroco: é um espaço vivo, que pulsa no ritmo da vida da Igreja e da atenção mundial. Toda quarta-feira, a Audiência Geral reúne peregrinos de todos os continentes para ver o Papa; todo domingo ao meio-dia, o Angelus reúne os fiéis sob a janela do Palácio Apostólico; e nas grandes festas — Natal, Semana Santa, Pentecostes — a esplanada fica completamente lotada. É também o lugar de onde o Papa concede a bênção 'Urbi et Orbi', à cidade de Roma e ao mundo inteiro.
A praça faz parte, junto com a basílica, os palácios e os Museus, do conjunto da Cidade do Vaticano inscrito pela Unesco na lista do Patrimônio Mundial em 1984, em reconhecimento ao seu valor artístico e espiritual excepcional. Seu desenho influenciou inúmeras praças e projetos urbanos posteriores, e sua imagem é uma das mais difundidas do planeta, presente em transmissões de TV acompanhadas por bilhões de pessoas a cada acontecimento papal.
Para o visitante, a praça oferece uma mistura única: a grandiosidade monumental da colunata e do obelisco, a sensação de estar no coração de um Estado soberano minúsculo, o murmúrio das fontes e a possibilidade, se você acertar o dia, de ver o Papa. É a antessala perfeita da basílica e um daqueles lugares que, mesmo vistos mil vezes em fotos, surpreendem quando a gente pisa neles pela primeira vez. Um espaço onde a geometria de Bernini, o granito de um faraó e vinte séculos de história religiosa se encontram a céu aberto.