A Basílica de São Pedro é o maior e mais importante templo do cristianismo, e um dos pontos altos da arte de todos os tempos. Ela se ergue sobre a colina vaticana, no lugar onde, segundo a tradição, foi enterrado o apóstolo Pedro, a quem Jesus chamou de 'pedra' sobre a qual edificaria sua Igreja. Entrar em São Pedro é mergulhar num espaço de proporções colossais —186 metros de comprimento, uma nave que impressiona— coroado pela cúpula de Michelangelo, e no qual trabalharam, ao longo de mais de um século, os maiores gênios do Renascimento e do Barroco: Bramante, Rafael, Michelangelo, Maderno e Bernini.
Lá dentro esperam algumas das obras mais célebres da história da arte: a Pietà de Michelangelo, esculpida quando o artista tinha apenas 24 anos, hoje protegida atrás de um vidro; o gigantesco baldaquino de bronze de Bernini, que se ergue sobre o altar papal; a Cátedra de São Pedro, também de Bernini, em meio a uma explosão de luz dourada; e, nas grutas lá embaixo, os túmulos de dezenas de papas. Sob o altar-mor, no ponto exato da basílica, fica o que a tradição identifica como o túmulo do próprio São Pedro.
Este guia prático explica como aproveitar a visita: quando ir para evitar as filas da segurança, quais obras não perder, como funciona o código de vestimenta (rigoroso, com ombros e joelhos cobertos), como subir à cúpula e como reservar a visita à Necrópole. A entrada na basílica é gratuita, algo que surpreende muita gente: o que se paga é a subida à cúpula e a visita guiada aos Scavi, que é agendada à parte.
A basílica atual não é a primeira: sobre o túmulo de São Pedro, o imperador Constantino mandou erguer, por volta dos anos 319-333, uma grande basílica paleocristã, a antiga São Pedro, que ficou de pé por mais de mil anos. Arruinada e ultrapassada, o papa Júlio II decidiu, no início do século XVI, demoli-la e construir uma nova e colossal: em 1506 foi lançada a pedra fundamental, segundo o projeto de Bramante. A obra se estendeu por mais de 120 anos e passou pelas mãos de Rafael, Antonio da Sangallo e, sobretudo, Michelangelo, que a partir de 1547 projetou a grande cúpula. Carlo Maderno alongou a planta e ergueu a fachada, e a basílica foi consagrada em 1626 por Urbano VIII. Depois, Gian Lorenzo Bernini lhe deu sua cara barroca definitiva com o baldaquino, a Cátedra e a colunata da praça. A história completa, com o túmulo do apóstolo e os séculos de construção, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The monumental heart of the Vatican: St. Peter's Basilica, raised over the apostle's tomb, Michelangelo's dome and the great elliptical square embraced by Bernini's colonnade.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tudo começa com um túmulo. No século I, a colina vaticana, na margem direita do Tibre, era uma área dos arredores de Roma ocupada por jardins, por um circo mandado construir por Calígula e Nero (onde, segundo a tradição, muitos cristãos foram martirizados depois do incêndio de Roma do ano 64) e por uma necrópole, um cemitério pagão com ruas de pequenos mausoléus. Em algum ponto dessa encosta, por volta do ano 64 ou 67, teria sido enterrado Pedro, o pescador da Galileia que os evangelhos apresentam como o primeiro dos apóstolos e a quem Jesus, segundo o relato, chamou de 'a pedra' sobre a qual edificaria sua Igreja.
Durante os dois primeiros séculos, em tempos de perseguição, esse túmulo foi um lugar de veneração discreta para os cristãos de Roma. Por volta do ano 160, ergueu-se sobre ele um pequeno monumento, o chamado 'Troféu de Gaio', mencionado pelas fontes antigas. A memória de que Pedro estava enterrado exatamente ali foi transmitida de geração em geração, e seria essa lembrança que, séculos mais tarde, decidiria a localização da maior igreja da cristandade, num lugar pouco prático (uma encosta que precisou ser nivelada), só porque a tradição insistia que o apóstolo jazia bem ali embaixo.
No século XX, entre 1939 e 1950, escavações ordenadas pelo papa Pio XII trouxeram à luz essa antiga necrópole sob a basílica e o monumento sobre o túmulo. Em 1968, Paulo VI anunciou que tinham sido identificados alguns restos ósseos que a pesquisa considerava, com razoável probabilidade, como sendo os do apóstolo. Esse nível arqueológico é hoje a Necrópole (Scavi), que pode ser visitada com reserva e guia.
A virada veio com Constantino, o primeiro imperador a legalizar e proteger o cristianismo. Por volta de 319-333, Constantino mandou erguer sobre o túmulo de Pedro uma grande basílica, que a história conhece como a 'antiga São Pedro' ou basílica constantiniana. Foi uma obra monumental: para construí-la, foi preciso cortar parte da colina e aterrar boa parte da necrópole pagã, sempre respeitando o ponto exato do túmulo, que ficou sob o altar. Era uma basílica de cinco naves, precedida por um grande átrio, com capacidade para milhares de peregrinos.
Por mais de mil anos, essa basílica foi um dos grandes centros de peregrinação da cristandade. Ali, no Natal do ano 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno como imperador, um fato decisivo da história europeia. Gerações de papas, imperadores e reis foram enterrados ou coroados entre suas paredes, que foram se cobrindo de mosaicos, capelas e monumentos.
Mas, com os séculos, o edifício se deteriorou: as paredes se inclinavam, as estruturas ameaçavam ruir e o estilo paleocristão tinha ficado antiquado diante do esplendor do Renascimento. No fim do século XV, o papa Nicolau V já pensava em reformá-la. A decisão radical, no entanto, seria tomada no início do século XVI por um papa de enorme ambição: Júlio II resolveu demolir a venerável basílica de Constantino e construir no lugar uma nova, a maior já vista. Nem todos concordaram: derrubar mil anos de história sagrada foi uma decisão polêmica.
Em 18 de abril de 1506, o papa Júlio II colocou a pedra fundamental da nova Basílica de São Pedro, segundo o projeto de Donato Bramante, o grande arquiteto do Renascimento. Bramante concebeu um edifício de planta central em forma de cruz grega (com os quatro braços iguais), coroado por uma enorme cúpula inspirada no Panteão de Roma. Sua ambição era tanta que ele começou a demolir a velha basílica com tamanha energia que ganhou o apelido de 'Maestro Ruinante'. Quando ele morreu, em 1514, a obra mal tinha começado.
Em seguida vieram alguns dos maiores artistas da época. Rafael assumiu o comando e propôs alongar a planta em forma de cruz latina; depois intervieram Baldassare Peruzzi e Antonio da Sangallo, o Jovem, cada um com seu próprio projeto, num vaivém de ideias que se arrastou por décadas. A virada decisiva veio em 1547, quando o papa Paulo III colocou Michelangelo, já com mais de 70 anos, à frente da obra. Michelangelo voltou à ideia de planta central de Bramante, simplificou e unificou o projeto e desenhou a grande cúpula que coroa o edifício: uma obra-prima de engenharia, de casca dupla, inspirada na de Brunelleschi em Florença, porém mais alta e esbelta.
Michelangelo morreu em 1564 sem ver sua cúpula concluída; ela estava erguida só até o tambor. Quem a finalizou foram seus discípulos Giacomo della Porta e Domenico Fontana, que a fecharam em 1590, sob o papa Sisto V, deixando-a um pouco mais alta do que o previsto. Com cerca de 136 metros de altura até a cruz, continua sendo a cúpula mais alta do mundo e o símbolo inconfundível de Roma no horizonte.
No século XVII, a Igreja da Contrarreforma queria uma basílica que impressionasse e acolhesse as multidões, e isso reabriu o velho debate entre planta central e planta em cruz latina. A cruz latina venceu: o papa Paulo V encarregou Carlo Maderno de alongar o edifício com uma grande nave em direção à entrada e de erguer a monumental fachada, concluída por volta de 1614-1626. Esse prolongamento tem uma consequência curiosa que se nota na visita: vista da praça, a longa nave 'esconde' em parte a cúpula de Michelangelo, que só aparece inteira de longe. Em 18 de novembro de 1626, o papa Urbano VIII consagrou solenemente a nova basílica, 120 anos depois da colocação da pedra fundamental.
O artista que deu a São Pedro sua alma barroca foi Gian Lorenzo Bernini, escultor e arquiteto genial que trabalhou ali durante décadas. É dele o Baldacchino, o colossal dossel de bronze de quase 30 metros sobre o altar papal (1623-1634); é dele a Cátedra de São Pedro, o trono dourado envolto numa glória de luz no fundo da abside (1657-1666); e é dele, sobretudo, a grande colunata elíptica que abraça a Praça de São Pedro, um dos espaços urbanos mais perfeitos já projetados.
Com Bernini, a basílica e sua praça foram concebidas como uma grande cenografia religiosa, pensada para comover o fiel e proclamar a grandeza da Igreja. O resultado é a obra coletiva de mais de um século e meio de trabalho, em que se sucederam papas, arquitetos e estilos, do Alto Renascimento ao Barroco triunfante.
Com a criação do Estado da Cidade do Vaticano em 1929, por meio dos Pactos de Latrão assinados entre a Santa Sé e o Estado italiano, a basílica passou a ficar dentro de um Estado soberano, o menor do mundo, embora fisicamente continue cercada por Roma. Desde então, São Pedro é o grande palco da vida da Igreja Católica: ali são celebradas as grandes liturgias de Natal e Páscoa, as canonizações, os funerais dos papas e as missas de início de pontificado. Na praça, toda quarta-feira, o Papa faz a Audiência Geral, e todo domingo reza o Ângelus.
A basílica foi testemunha de momentos que marcaram a história contemporânea: o Concílio Vaticano II, inaugurado em seu interior em 1962; o longo pontificado de João Paulo II e o atentado que ele sofreu na praça em 1981; e as grandes concentrações de fiéis e turistas que, sobretudo nos Anos Santos ou Jubileus, lotam a esplanada. Não é só um monumento: é um templo vivo, em uso permanente, o que exige respeitar o silêncio, o recolhimento e o código de vestimenta durante a visita.
Em 1984, a Unesco incluiu a Cidade do Vaticano (com a basílica, a praça, os palácios e os Museus) na lista do Patrimônio Mundial, reconhecendo seu valor artístico e espiritual único. Todo ano, dezenas de milhões de peregrinos e visitantes do mundo inteiro passam por suas portas. Poucos edifícios condensam tanto: sobre o humilde túmulo de um pescador da Galileia ergue-se a maior igreja do cristianismo, fruto do gênio de Bramante, Rafael, Michelangelo e Bernini, e símbolo de vinte séculos de história religiosa e artística.