A visita à Necrópole Vaticana, os 'Scavi', é uma das experiências mais exclusivas, emocionantes e difíceis de conseguir de todo o Vaticano. Alguns metros abaixo do piso reluzente da Basílica de São Pedro se esconde outro mundo: uma antiga rua funerária da Roma imperial, com mausoléus decorados, inscrições, mosaicos e sarcófagos, que ficou enterrada e esquecida durante mil e quinhentos anos. Descer até lá é viajar ao século I, à época em que esta colina era um cemitério nos arredores de Roma.
Mas o que torna esta necrópole única é o que existe no seu centro: o que a tradição cristã, apoiada pelas escavações do século XX, identifica como o túmulo do apóstolo Pedro. Toda a Basílica de São Pedro — a maior igreja do cristianismo, com sua cúpula, seu baldaquino e seus séculos de história — foi erguida exatamente sobre este ponto, numa demonstração de continuidade que dá para conferir com os próprios olhos ao ver como o altar papal fica bem em cima do túmulo.
Este guia prático explica o essencial de uma visita tão especial: como reservar (é indispensável solicitar com antecedência à Fabbrica di San Pietro, com vagas muito limitadas), quanto custa, as restrições (idade mínima, proibido fotografar, não indicada para claustrofóbicos) e o que se vê nesse percurso guiado de uma hora que pouquíssimos visitantes de Roma chegam a fazer. É uma visita para quem quer tocar, quase literalmente, os alicerces do cristianismo.
A necrópole nasceu como um cemitério pagão nos arredores da Roma do século I, na encosta da colina vaticana, ao lado do circo de Calígula e Nero, onde a tradição situa o martírio de São Pedro por volta dos anos 64-67. O apóstolo teria sido enterrado ali, num túmulo modesto que logo se tornou local de veneração; por volta do ano 160, foi erguido sobre ele um pequeno monumento. Quando o imperador Constantino construiu a primeira basílica, no século IV, mandou aterrar boa parte da necrópole para nivelar o terreno, preservando sempre o ponto do túmulo. Assim ela ficou soterrada e esquecida até que, entre 1939 e 1950, escavações ordenadas pelo papa Pio XII a trouxeram à luz; em 1968, Paulo VI anunciou que alguns restos haviam sido identificados como os do apóstolo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The other Vatican: the Vatican Museums and the Raphael Rooms, the Sistine Chapel with Michelangelo's ceiling and Last Judgment, and the underground necropolis with the presumed tomb of Saint Peter.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
No século I, a colina vaticana não era o coração do catolicismo, e sim um canto nos arredores de Roma, na margem direita do Tibre, fora do perímetro sagrado da cidade. A lei romana proibia enterrar os mortos dentro dos limites urbanos, por isso os cemitérios ficavam enfileirados ao longo das estradas que saíam de Roma. Na encosta vaticana, ao lado do circo que Calígula e Nero tinham construído para as corridas de bigas, formou-se uma necrópole: uma 'cidade dos mortos' com ruas de mausoléus familiares que foram crescendo entre os séculos I e IV.
Esses mausoléus eram pequenas construções de tijolo, como casas, onde as famílias depositavam as urnas com as cinzas de seus mortos e, mais tarde, quando o sepultamento do corpo se impôs, os sarcófagos. Eram decorados com estuques, pinturas, mosaicos e inscrições com os nomes dos proprietários. A maioria pertencia a famílias pagãs, com a iconografia da religião romana, mas com o tempo começaram a aparecer também sepulturas cristãs, testemunho do lento avanço da nova fé.
Nesse mesmo lugar, segundo a tradição cristã, aconteceu algo que mudaria o destino da colina: por volta do ano 64-67, durante as perseguições de Nero que se seguiram ao grande incêndio de Roma, o apóstolo Pedro teria sido martirizado (crucificado de cabeça para baixo, segundo o relato) no circo vizinho e enterrado em um túmulo humilde desta necrópole. Séculos depois, aquela sepultura modesta se tornaria o centro da maior igreja do mundo.
O túmulo do apóstolo Pedro não passou despercebido para os primeiros cristãos de Roma. Embora em tempos de perseguição a veneração fosse discreta, a lembrança do local exato foi transmitida com cuidado de geração em geração. Por volta do ano 160, ergueu-se sobre a sepultura um pequeno monumento comemorativo, uma espécie de edícula com colunas apoiada em um muro (o chamado 'Muro vermelho'). Esse monumento é conhecido como 'Troféu de Gaio', porque um autor cristão chamado Gaio o mencionou, por volta do ano 200, como o sinal visível que marcava onde Pedro estava enterrado, no Vaticano.
Esse dado é crucial: significa que já no final do século II existia um lugar concreto e reconhecível que a comunidade cristã de Roma identificava com o túmulo do apóstolo, e que esse lugar é o mesmo sobre o qual todo o resto seria construído. Ao redor do monumento, um muro próximo (o 'Muro dos grafites') foi se cobrindo de inscrições deixadas por peregrinos, um testemunho comovente da devoção popular a São Pedro séculos antes de existir qualquer grande basílica.
A continuidade da veneração nesse ponto exato é o que explica uma das decisões mais impressionantes da história da arquitetura: quando chegou a hora de construir uma grande igreja, escolheu-se de propósito este terreno complicado, na encosta de uma colina que precisou ser rebaixada e nivelada, só para que o altar ficasse exatamente sobre o túmulo do apóstolo. Nenhum arquiteto teria escolhido esse terreno por conveniência; ele foi escolhido pela fé.
A virada decisiva veio com Constantino, o primeiro imperador a proteger o cristianismo. Por volta do ano 319-333, Constantino decidiu erguer sobre o túmulo de Pedro uma grande basílica, a primeira São Pedro. Para construir um edifício desse tamanho na encosta da colina, seus engenheiros tiveram que encarar uma obra colossal de nivelamento: cortaram parte da colina de um lado e, do outro, aterraram e soterraram boa parte da necrópole, cobrindo com terra e entulho as ruas de mausoléus para criar uma plataforma horizontal.
Nessa operação, os construtores tiveram um cuidado extraordinário com um ponto: respeitaram e preservaram o monumento sobre o túmulo de Pedro, deixando-o bem embaixo do altar da nova basílica. Ou seja, sacrificaram e soterraram todo o cemitério ao redor, mas protegeram o coração: o túmulo do apóstolo. Além do valor simbólico, esse gesto teve uma consequência feliz para a história: ao ficarem enterrados, os mausoléus da necrópole se conservaram notavelmente bem, protegidos da passagem do tempo, dos saques e das reformas, como uma cápsula do tempo sob a basílica.
Nos séculos seguintes, a necrópole ficou esquecida sob o piso da basílica de Constantino e, mais tarde, sob a nova basílica renascentista e barroca que a substituiu a partir do século XVI. Ninguém mais percorria aquelas ruas de túmulos; sabia-se apenas, pela tradição, que em algum lugar das profundezas estava o sepulcro do apóstolo. Seria preciso esperar até o século XX para que a necrópole voltasse a ver a luz.
A redescoberta da necrópole começou quase por acaso. Em 1939, com a morte do papa Pio XI, decidiu-se sepultá-lo nas Grutas Vaticanas, e durante as obras para preparar seu túmulo, sob o piso da basílica, os operários deram de cara com antigas estruturas romanas. O novo papa, Pio XII, autorizou então uma escavação arqueológica sistemática sob a basílica, um trabalho delicadíssimo que se estendeu, em segredo e com enormes precauções para não danificar as fundações do templo, entre 1940 e 1949.
As escavações trouxeram à luz a rua de mausoléus da necrópole romana, extraordinariamente conservada, e permitiram chegar até a área do túmulo de Pedro, com o 'Troféu de Gaio', o Muro vermelho e o Muro dos grafites. Em 1950, em pleno Ano Santo, Pio XII anunciou que o túmulo do apóstolo tinha sido encontrado, embora com cautela quanto à identificação dos restos. A pesquisa continuou nas décadas seguintes, especialmente pelas mãos da arqueóloga e epigrafista Margherita Guarducci, que estudou os grafites do muro e interpretou em um deles a inscrição grega 'Pedro está aqui'.
Guarducci também relacionou ao túmulo alguns restos ósseos (de um homem de idade avançada e compleição robusta, envoltos em um pano de púrpura e ouro) encontrados em um vão do Muro dos grafites. Com base nisso, o papa Paulo VI anunciou em 1968 que os restos de São Pedro tinham sido identificados com razoável probabilidade. A Igreja sustenta essa identificação como muito provável, enquanto a pesquisa arqueológica mantém, como é natural em um assunto de vinte séculos atrás, uma margem de cautela.
Desde a sua redescoberta, a Necrópole Vaticana recebe um número muito reduzido de visitantes, em visitas guiadas administradas pela Fabbrica di San Pietro por meio do Ufficio Scavi. O motivo de uma cota tão limitada (cerca de 250 visitantes por dia, em grupos pequenos) é a conservação: trata-se de um sítio arqueológico frágil, úmido e delicado, sob o peso da maior igreja do mundo, onde o excesso de gente, o calor e a umidade da respiração humana colocariam em risco afrescos, estuques e inscrições de quase dois mil anos.
Percorrer os Scavi é uma experiência diferente de qualquer outra no Vaticano. Enquanto lá em cima, na basílica, as multidões se aglomeram sob a cúpula de Michelangelo e o baldaquino de Bernini, aqui embaixo, na penumbra e no silêncio, você caminha por uma rua de túmulos romanos que ficou enterrada por quinze séculos, até chegar ao ponto que a tradição identifica com o sepulcro de Pedro. Ver como o altar papal, dezenas de metros acima, fica exatamente sobre esse túmulo faz entender de uma vez toda a lógica do Vaticano: uma basílica colossal construída, camada sobre camada, sobre a sepultura de um pescador da Galileia.
Assim, a Necrópole condensa em uma hora de visita vinte séculos de história: do cemitério pagão da Roma imperial ao martírio de Pedro, da basílica de Constantino à escavação do século XX, e da arqueologia à fé de milhões de peregrinos. É uma das visitas mais difíceis de conseguir em Roma e, para muitos, uma das mais profundas: a chance de tocar, quase literalmente, as fundações sobre as quais o cristianismo se ergueu.