O arquipélago de Estocolmo é um daqueles lugares que resumem a alma de um país. A um passo da capital, a cidade se desfaz na água num rosário interminável de ilhas (umas 30.000, dizem) que se perdem rumo ao mar Báltico. É a grande paisagem de verão da Suécia: casinhas vermelhas de madeira sobre as rochas cinzentas, píeres onde se amarram veleiros, bandeiras azul e amarelo tremulando, pinheirais que chegam até a beira d'água e um silêncio quebrado só pelo motor de um ferry e pelo marulho da água.
Para os suecos, o arquipélago (skärgården) não é só mais um destino turístico: é quase um estilo de vida. Muitas famílias têm ou alugam uma casinha de verão em alguma ilha, e ali passam as férias tomando banho no Báltico (água fria, mas limpa), pescando, colhendo mirtilos e cogumelos no bosque, velejando e comemorando o Midsommar. Visitá-lo é espiar essa Suécia íntima e feliz que vive de frente para o mar.
O melhor é que não precisa nem de carro nem de grandes complicações: do centro de Estocolmo saem ferries que em pouco tempo levam a ilhas de todo tipo, da charmosa Vaxholm ou das vizinhas Fjäderholmarna até a elegante Sandhamn ou a selvagem Utö. Este guia conta como se locomover pelo arquipélago, quais ilhas escolher conforme a sua vontade, quanto custa e como aproveitar ao máximo este paraíso de água e rocha.
O arquipélago de Estocolmo se formou depois da última glaciação: o peso do gelo afundou a terra e, quando ele derreteu, o terreno começou a subir lentamente (um fenômeno chamado soerguimento isostático, que continua até hoje, alguns milímetros por ano), fazendo emergir do mar milhares de ilhas e recifes. Habitado desde a Antiguidade por pescadores e camponeses, o arquipélago foi durante séculos uma linha de defesa natural de Estocolmo contra ataques pelo mar, sobretudo de dinamarqueses e russos; daí fortalezas como a de Vaxholm, que vigiava o acesso à capital. A partir do século XIX e, principalmente, do XX, com a chegada do barco a vapor e depois do tempo livre, as ilhas se transformaram no grande destino de veraneio dos moradores de Estocolmo, que encheram suas margens de casinhas de madeira. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Sweden around Lake Mälaren: pagan Old Uppsala and its thousand-year-old university, Viking Birka, the capital founded by Birger Jarl on the islands of Gamla Stan and the vast Stockholm archipelago with its thousands of islands.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O arquipélago de Estocolmo é, antes de tudo, uma obra da geologia e do gelo. Durante a última glaciação, há mais de 10.000 anos, toda esta região estava coberta por uma camada de gelo de vários quilômetros de espessura, cujo peso descomunal afundou a crosta terrestre. Quando o gelo derreteu, a terra, livre dessa carga, começou a se elevar lentamente, num fenômeno conhecido como soerguimento isostático ou 'landhöjning'. E isso continua acontecendo hoje: a costa ao redor de Estocolmo ainda se eleva vários milímetros por ano.
Esse soerguimento contínuo explica a paisagem única do arquipélago. O que hoje são cerca de 30.000 ilhas, ilhotas e recifes foram, um dia, fundos marinhos que foram emergindo. E o processo não parou: recifes que antes estavam submersos despontam na superfície, canais que antes eram navegáveis ficam mais rasos, e ilhas que estavam separadas vão se unindo com o passar dos séculos. Na época viking, o nível do mar era vários metros mais alto que agora, e muitos lugares que hoje ficam terra adentro eram então costa ou porto.
O resultado é um mosaico único: rochas de granito polidas pelo gelo, arredondadas e lisas ('hällar'), florestas de pinheiros e bétulas que colonizam cada ilha, e um gradiente que vai das grandes ilhas arborizadas perto da cidade até as ilhotas peladas, castigadas pelo vento, na borda externa, de frente para o mar aberto. Essa paisagem, metade terra, metade água, é o cenário de toda a história humana do arquipélago.
O arquipélago é habitado desde tempos muito antigos. Vestígios arqueológicos mostram presença humana há milhares de anos, e na era viking e medieval as ilhas eram passagem obrigatória para o comércio e a navegação que entravam e saíam de Estocolmo e de todo o lago Mälaren. As rotas marítimas para o leste —rumo à Finlândia, aos países bálticos e à Rus— cruzavam o arquipélago, e muitos topônimos e achados arqueológicos lembram aquele tráfego.
A vida nas ilhas foi, durante séculos, dura e austera. Seus habitantes viviam sobretudo da pesca —especialmente do arenque do Báltico (strömming), base da alimentação— e de uma agricultura e uma pecuária difíceis, em solos pobres e com invernos longos. Também caçavam focas, faziam coleta e muitos deles eram práticos ('lotsar'): profundos conhecedores dos intrincados canais, baixios e recifes do arquipélago, que guiavam os barcos entre as ilhas para que não encalhassem. A figura do prático foi essencial durante séculos, quando não havia cartas náuticas confiáveis nem faróis, e deixou uma marca importante na cultura local.
Algumas ilhas desenvolveram atividades próprias. Em Utö, por exemplo, minas de ferro foram exploradas desde a Idade Média —estão entre as mais antigas da Suécia—, o que deu à ilha uma história industrial singular, com seus poços, suas casas de mineiros e seu moinho. Em outras foram erguidas pequenas capelas, tavernas de práticos e postos de alfândega. Era um mundo humilde, muito ligado ao mar e aos ritmos da natureza, que pouco tinha a ver com a vida elegante da capital ali perto.
Durante séculos, o arquipélago foi muito mais que um lugar de pescadores: era a principal linha de defesa de Estocolmo. A capital sueca só podia ser atacada por mar através do labirinto de ilhas e canais, e quem controlasse essas passagens controlava a porta do reino. Por isso, já no século XVI, o rei Gustavo Vasa mandou fortificar o estreito de Vaxholm, o principal acesso à cidade, afundando obstáculos no canal e erguendo defesas.
Assim nasceu a fortaleza de Vaxholm (Vaxholms kastell), que ao longo dos séculos foi sendo reconstruída e reforçada para barrar a passagem das frotas inimigas, sobretudo dinamarquesas e, mais tarde, russas. Em várias ocasiões, o arquipélago foi palco de guerra: durante os conflitos com a Dinamarca e, principalmente, durante as guerras com a Rússia nos séculos XVIII e XIX, quando frotas russas chegaram a saquear vilarejos costeiros. A atual fortaleza de Vaxholm, de meados do século XIX, é um imponente castelo de pedra que hoje abriga um museu sobre a história da defesa costeira sueca.
Essa vocação militar do arquipélago se estendeu até o século XX. Durante a Guerra Fria, com a Suécia neutra, mas muito militarizada e atenta à vizinha União Soviética, foram construídas nas ilhas inúmeras baterias de artilharia costeira, bunkers e posições secretas escavadas na rocha, muitas delas escondidas do público até poucas décadas atrás. Áreas inteiras do arquipélago foram militarizadas, com acesso restrito para estrangeiros. Só depois do fim da Guerra Fria essas defesas foram desativadas e abertas ao turismo. Ainda hoje, algumas instalações militares reconvertidas podem ser visitadas como museus, testemunhas de séculos em que estas ilhas foram o escudo da capital.
A grande transformação do arquipélago chegou no século XIX com duas novidades: o barco a vapor e o tempo livre. O surgimento dos vapores regulares que ligavam Estocolmo às ilhas —o embrião da atual Waxholmsbolaget, fundada em 1869— aproximou de repente o arquipélago da cidade e o colocou ao alcance das classes abastadas. A burguesia e a aristocracia de Estocolmo descobriram então o prazer de veranear à beira-mar, e começaram a surgir elegantes vilas de madeira com varandas e torrezinhas ('sommarvillor') em ilhas como Vaxholm, Sandhamn ou Dalarö, que viraram moda.
Sandhamn, em particular, se tornou o centro da vida náutica sueca: ali se instalou o Real Clube Náutico Sueco (KSSS) e foram organizadas regatas que atraíam a alta sociedade, dando à ilha esse ar chique e marinheiro que ela conserva até hoje. Em torno das vilas floresceram hotéis, restaurantes, casas de banho e uma sofisticada cultura do veraneio, que ficou registrada na pintura e na literatura suecas da época; o escritor August Strindberg, por exemplo, ambientou várias de suas obras no arquipélago.
Ao longo do século XX, com a popularização das férias remuneradas e a melhora do padrão de vida, o veraneio deixou de ser coisa de rico e se democratizou. Milhares de famílias suecas construíram ou compraram sua própria casinha de verão ('sommarstuga') em alguma ilha, pintada de vermelho Falun com os batentes brancos, e com ela veio o ritual de passar ali as férias: nadar no Báltico, colher mirtilos e cogumelos, pescar, remar e celebrar o Midsommar. Esse modelo —a casinha de madeira à beira d'água— se tornou um elemento central do imaginário e da identidade nacional suecos. Hoje o arquipélago combina essa vocação de refúgio de verão com a conservação da natureza e um turismo cada vez mais internacional, mas continua sendo, acima de tudo, o lugar aonde a Suécia vai para ser feliz no verão.