Durante 361 dias por ano, Guča é uma cidadezinha tranquila e anônima do centro-oeste da Sérvia, perdida entre as colinas verdes da região de Dragačevo. Mas durante alguns poucos dias de agosto, esse cantinho rural se transforma no lugar mais barulhento, festivo e transbordante de todos os Bálcãs: a capital mundial do trompete. Centenas de milhares de pessoas chegam de todo o país e do exterior para viver o Dragačevski sabor, o Festival de Trompetes de Guča, uma explosão de música de metais, dança, carne assada e alegria desenfreada que não tem comparação.
O festival nasceu em 1961, quando quatro pequenas orquestras de aldeias vizinhas competiram no pátio da igreja da cidade. Desde então não parou de crescer até se tornar o maior festival de brass (música de metais) do mundo, um fenômeno em que as bandas de trompetes — muitas de tradição cigana e balcânica — disputam a Zlatna truba, o Trompete de Ouro, enquanto a multidão dança o kolo, come cordeiro no espeto, bebe rakija e segue os músicos pelas ruas numa festa que não para nem de dia nem de noite.
Este guia percorre o essencial e o prático de Guča: quando acontece o festival, como chegar saindo de Belgrado, o que esperar desses dias de loucura sonora, como viver a competição e a festa, onde dormir e comer, e o que ver em Dragačevo no resto do ano. Um destino que não se parece com nenhum outro: a prova de que, na Sérvia, a música de trompetes não é um espetáculo, e sim uma forma de sentir a vida.
A história de Guča é a de um festival que ficou grande demais para uma cidadezinha. Em 1961, na região rural de Dragačevo, famosa por sua tradição de bandas de trompetes, foi organizado pela primeira vez um concurso: quatro orquestras de aldeias vizinhas competiram no pátio da igreja de São Miguel e São Gabriel de Guča, dentro de uma festa popular ('sabor') de canto e dança. A ideia, sugerida por um jornalista para dar espaço a esse patrimônio musical único, pegou na hora. Ano após ano, o Dragačevski sabor trumpetača ('Congresso de trompetistas de Dragačevo') cresceu em participantes e em público, até se tornar o maior festival de música de metais dos Bálcãs e um dos maiores do mundo, com centenas de milhares de visitantes. A música de trompetes de Guča tem raízes nas bandas militares do século XIX e na riquíssima tradição dos músicos ciganos (romani) da Sérvia e dos Bálcãs, que fizeram do brass balcânico um gênero próprio, popularizado no mundo pelos filmes de Emir Kusturica e por trompetistas lendários. Hoje, a Zlatna truba (Trompete de Ouro) é o prêmio máximo, e ganhar em Guča é a consagração de qualquer músico de metais. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Serbia's deep south and east: Constantine's ancient Naissus, the Roman and Ottoman frontier, dizzying canyons and the loudest trumpet festival in the Balkans.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender Guča é preciso entender primeiro Dragačevo, a região rural que a cerca, uma terra de colinas verdes, prados, bosques e aldeias no centro-oeste da Sérvia. É uma Sérvia profunda, camponesa, de vida tradicional ligada à terra e ao gado, com suas kafanas de vilarejo, suas festas de padroeiro e uma hospitalidade lendária. E é, sobretudo, terra de música: daqui saiu uma das duas grandes escolas de trompete da Sérvia, a 'escola de Dragačevo', que junto com a do sul (a de Vranje) define o som do brass balcânico sérvio.
O trompete chegou a essas regiões no século XIX, pelas mãos das bandas militares. Durante as guerras e levantes sérvios contra os otomanos, o exército do jovem Estado sérvio incorporou instrumentos de metal —trompetes, cornetas, bombardinos— às suas bandas. Quando os soldados camponeses voltavam para suas aldeias, levavam junto os instrumentos e o gosto pelo seu som, e o trompete foi se integrando à música popular das festas, dos casamentos, dos batizados e dos funerais. O que tinha nascido como música de guerra virou música de vida.
Nas mãos dos músicos populares, e muito especialmente dos músicos ciganos (romanis), aquele metal militar se transformou em algo novo e vibrante: uma linguagem capaz de expressar toda a gama de emoções, da melancolia mais profunda à alegria mais desenfreada. As bandas de trompete se tornaram indispensáveis em cada celebração de Dragačevo e de boa parte da Sérvia. Essa riquíssima tradição, viva e enraizada, seria o húmus do qual brotaria, em meados do século XX, o festival que tornaria famoso um pequeno vilarejo chamado Guča.
O festival de Guča tem uma data de nascimento precisa e origens humildes: 16 de outubro de 1961. Naquele dia, no pátio da igreja dos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel, no centro de Guča, aconteceu a primeiríssima competição de trompetes. Participaram apenas quatro orquestras, todas de aldeias vizinhas de Dragačevo. A ideia tinha surgido da iniciativa de dar um espaço próprio, dentro das festas populares da região, a esse patrimônio musical único que eram as bandas de metais.
O concurso foi incorporado a uma festa popular mais ampla, um 'sabor' (assembleia ou congresso festivo) que celebrava o canto, a dança e a cultura de Dragačevo. A combinação funcionou maravilhosamente: a competição de trompetes deu à festa um eixo emocionante, uma rivalidade nobre entre músicos, um motivo para se reunir e celebrar. Aquele primeiro Dragačevski sabor trumpetača ('Congresso de trompetistas de Dragačevo') foi um sucesso imediato entre o pessoal do lugar.
O que nenhum dos presentes em 1961 podia imaginar era no que aquele modesto encontro de quatro bandas se transformaria. Ano após ano, o festival foi crescendo: mais orquestras, mais público, mais fama. De evento local passou a regional, depois nacional e, finalmente, internacional. A semente plantada no pátio de uma igreja de vilarejo germinou até virar uma árvore gigantesca, um dos maiores festivais de música do mundo. Mas, para chegar lá, Guča teve que se tornar o símbolo de algo maior: da alma festiva e musical de todo um povo.
A música que toca em Guča tem nome e história: é o brass balcânico, o som das bandas de metais dos Bálcãs, um dos estilos musicais mais contagiantes e reconhecíveis do mundo. E o seu desenvolvimento deve muitíssimo ao gênio dos músicos ciganos, ou romanis, que ao longo de gerações pegaram os instrumentos das bandas militares e os levaram a níveis extraordinários de virtuosismo e expressividade.
Na Sérvia se formaram duas grandes escolas de trompete com estilos diferentes. A escola de Dragačevo, do oeste, tende a um som mais 'sérvio', ligado às danças kolo e à tradição camponesa. A escola do sul, em torno da cidade de Vranje, perto da Macedônia e da fronteira, tem uma cor mais oriental, com influências otomanas e macedônias, ritmos assimétricos e melodias mais melancólicas e sensuais. Em Guča as duas competem e se misturam, e dessa rivalidade nascem alguns dos momentos mais intensos do festival.
O brass balcânico ganhou fama mundial em grande parte graças ao cinema. Os filmes do diretor Emir Kusturica —com trilhas sonoras de Goran Bregović e de trompetistas lendários— levaram esse som frenético e emocionante às telas do planeta inteiro. Músicos saídos dessa tradição, como o célebre trompetista Boban Marković e sua banda, viraram estrelas internacionais, fizeram turnês pelo mundo e venceram em Guča. Assim, um estilo nascido nas aldeias da Sérvia se transformou em um fenômeno global, e Guča, na sua meca. Ganhar o Trompete de Ouro no festival passou a ser, para qualquer músico de metais balcânico, a consagração máxima.
Com o passar das décadas, o Dragačevski sabor de Guča cresceu até dimensões difíceis de imaginar para quem o viu nascer. Das quatro orquestras de 1961 passou-se a dezenas de bandas que competem depois de se classificar em concursos regionais pelo país inteiro. E do punhado de vizinhos dos primeiros anos chegou-se a números impressionantes: centenas de milhares de visitantes a cada edição, vindos de toda a Sérvia, da região e de meio mundo, que transformam o vilarejo, durante alguns dias de agosto, em uma maré humana.
Guča se consagrou como o maior festival de música de metais do mundo e um dos maiores festivais de qualquer tipo. A competição pelo Zlatna truba (Trompete de Ouro) e pelo título de melhor trompetista é o coração do evento, julgada por especialistas e acompanhada com paixão. Mas em volta dessa competição se desenrola uma festa popular total: bandas tocando por todas as ruas dia e noite, cordeiros e porcos girando nos espetos, rios de cerveja e rakija, e multidões dançando o kolo sem parar, seguindo os músicos e grudando notas de dinheiro na testa deles e nos trompetes como gorjeta.
O festival não ficou livre de altos e baixos nem de polêmicas —os anos noventa das guerras iugoslavas, as tensões sobre o seu caráter, o equilíbrio entre autenticidade e massificação—, mas a sua força vital sempre prevaleceu. Guča virou um símbolo cultural da Sérvia, uma marca reconhecida internacionalmente e um ímã turístico que coloca um vilarejo minúsculo no mapa do mundo todo mês de agosto. É, talvez, a expressão mais pura e transbordante da relação dos sérvios com a música e a festa.
A Guča dos nossos dias vive uma dupla existência extrema. Durante a imensa maioria do ano, é o que sempre foi: um vilarejo pequeno e tranquilo da Sérvia rural, com suas casas, sua igreja, suas kafanas e o ritmo sossegado do campo de Dragačevo. Quem visita fora de temporada encontra um lugar modesto e silencioso, onde é difícil imaginar a maré de gente e de som que o invade em agosto.
Porque durante poucos dias de verão, Guča se transforma por completo e vira a capital mundial do trompete: o maior festival de brass do planeta, uma explosão de música, comida, dança e alegria que não se parece com nada. É uma experiência intensa a ponto de cansar —barulhenta, caótica, avassaladora— e, ao mesmo tempo, profundamente comovente, porque nela pulsa algo genuíno: o amor de todo um povo pela sua música, pela sua festa e pelo seu jeito de estar no mundo. Para muitos viajantes, é a forma mais autêntica de sentir a alma dos Bálcãs.
Além do festival, Guča e Dragačevo são a porta de entrada para uma Sérvia profunda e bonita: a região rural, as lápides entalhadas dos seus cemitérios e o vizinho desfiladeiro de Ovčar-Kablar, o 'Monte Athos sérvio', com seus mosteiros pendurados sobre os meandros do Morava. O contraste entre o recolhimento desses mosteiros e o exagero do festival resume as duas faces de um mesmo povo. Guča mostra que às vezes a identidade de um lugar não está nos seus monumentos, mas em um som: o de um trompete que, nascido nas bandas militares do século XIX e aperfeiçoado por gerações de músicos, continua fazendo as pessoas dançarem e chorarem. Todo mês de agosto, num cantinho das colinas de Dragačevo, esse som convoca o mundo inteiro.