Ecaterimburgo é a grande cidade dos Urais, a cadeia de montanhas desgastadas que separa a Europa da Ásia e que a Rússia enxerga como sua coluna vertebral. A poucos quilômetros do centro, um obelisco marca a linha imaginária onde um continente termina e o outro começa, e dá para ficar com um pé em cada um. A cidade nasceu em 1723 como uma fábrica-fortaleza para explorar o ferro e o cobre da região, e essa alma industrial e prática continua pulsando sob seus arranha-céus de vidro, suas avenidas largas e seus bairros operários de vanguarda soviética.
Mas se Ecaterimburgo tem um lugar na história mundial, é por causa de uma noite trágica: a de 16 para 17 de julho de 1918, quando o último czar, Nicolau II, sua esposa, seus cinco filhos e seus criados foram fuzilados pelos bolcheviques no porão de uma casa da cidade. Nesse terreno ergue-se hoje a enorme Igreja sobre o Sangue Derramado, e num bosque próximo, em Ganina Yama, sete capelas de madeira lembram cada membro da família imperial. É um destino de peregrinação e memória que atrai viajantes de todo o país.
Além dos Romanov, Ecaterimburgo surpreende pela energia urbana: é uma das capitais da arquitetura construtivista, com prédios dos anos 1920 e 1930 que parecem navios e máquinas; tem o Centro Yeltsin, um dos museus mais modernos da Rússia; mirantes sobre o skyline a partir do arranha-céu Vysotsky; e uma cena de cafés, arte de rua e música que a deixa com cara jovem. Vale dizer sem drama: por causa da guerra na Ucrânia e das sanções, viajar para a Rússia hoje tem particularidades (não há voos diretos a partir do Ocidente, os cartões estrangeiros não funcionam). Este guia é informativo e cultural; informe-se sobre a situação atual e as recomendações oficiais antes de decidir.
Ecaterimburgo foi fundada em 1723 por ordem de Pedro, o Grande, como uma usina siderúrgica e fortaleza às margens do rio Iset, por iniciativa do estadista Vasily Tatishchev e do engenheiro de origem alemã Wilhelm de Gennin, e batizada em homenagem à imperatriz Catarina I (Ekaterina). Durante dois séculos foi o grande centro de mineração e metalurgia dos Urais e um entroncamento de rotas rumo à Sibéria. Em julho de 1918, na casa Ipatiev, na cidade, os bolcheviques fuzilaram o czar Nicolau II e toda a sua família. Rebatizada de Sverdlovsk em 1924 em homenagem ao dirigente bolchevique Yakov Sverdlov, foi uma potência industrial soviética, uma 'cidade fechada' para estrangeiros durante a Guerra Fria por causa de suas fábricas de armamentos (perto daqui foi derrubado, em 1960, o avião espião U-2 americano) e a cidade natal de Boris Yeltsin. Em 1991 recuperou o nome original. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Ecaterimburgo não nasceu de uma aldeia nem de um mosteiro, como tantas cidades russas, mas de uma decisão industrial. No começo do século XVIII, Pedro, o Grande, precisava de ferro e cobre para suas guerras e sua marinha, e os montes Urais, a longa cordilheira que separa a Europa da Ásia, estavam repletos de minério. Em 1720, o czar enviou à região Vasili Tatíschev, um estadista esclarecido, para organizar a mineração e a metalurgia. Tatíschev escolheu um ponto às margens do rio Iset e propôs erguer ali uma grande usina siderúrgica.
A obra-chave foi uma represa — que hoje os moradores chamam carinhosamente de Plotinka —, cuja construção foi concluída em 1723 sob a direção de outro personagem decisivo: Wilhelm de Gennin, um engenheiro de origem alemã a serviço da Rússia. A água represada do Iset dava força motriz aos martelos e foles da usina. Aquela fábrica murada, com suas oficinas, seus operários e sua guarnição, foi o embrião da cidade. Ela foi batizada de Ekaterinburg em homenagem à imperatriz Catarina I (Ekaterina), esposa de Pedro, o Grande, e ao mesmo tempo colocada sob a proteção de santa Catarina, padroeira da mineração.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, Ecaterimburgo foi o coração do império metalúrgico dos Urais: ferro, cobre, ouro, pedras semipreciosas e malaquita saíam de suas minas e oficinas. Por aqui passava também a grande estrada da Sibéria, a rota terrestre que ligava a Rússia europeia ao vasto Oriente, e por ela marchavam também os presos e exilados a caminho das colônias penais siberianas. A cidade se tornou uma encruzilhada entre dois mundos, a porta da Ásia.
Poucas cidades têm uma geografia tão carregada de simbolismo quanto Ecaterimburgo. Os montes Urais são a divisa clássica entre a Europa e a Ásia, e a cidade fica justamente na sua vertente oriental, a um passo dessa linha imaginária. Para os russos, cruzar os Urais sempre significou alguma coisa: deixar para trás a Rússia europeia e mergulhar na imensidão siberiana, onze fusos horários de florestas, estepes e rios até o Pacífico.
Essa condição de limiar ficou marcada na paisagem. Em 1837, quando o futuro czar Alexandre II percorreu o país ainda como herdeiro, acompanhado de seu tutor, o poeta Vasili Jukovski, foi erguido perto da cidade o primeiro obelisco que marcava a fronteira entre os dois continentes. Com os anos, vieram diferentes versões do marco — uma de mármore coroada por uma águia dourada, destruída depois da Revolução; outra de granito, em 1926 — e hoje vários monumentos pontuam a divisa. O mais visitado, a uns 17 quilômetros do centro, virou um ritual para os viajantes, que param com uma perna de cada lado da linha: um pé na Europa e outro na Ásia.
O impulso definitivo para o crescimento da cidade veio no começo do século XX com a Ferrovia Transiberiana, a colossal linha férrea que, a partir de 1891, começou a assentar os trilhos que ligariam Moscou ao Pacífico. Ecaterimburgo ficou no seu traçado, e com o trem chegaram a indústria moderna, os bancos, o comércio e uma burguesia próspera que encheu o centro de mansões. Quando estourou a Revolução de 1917, já era uma cidade pujante dos Urais… e estava prestes a entrar para a história pela porta mais trágica.
O episódio que deu a Ecaterimburgo um lugar indelével na história aconteceu no verão de 1918, em plena guerra civil russa. Depois da Revolução de Fevereiro de 1917 e da abdicação do czar Nicolau II, a família imperial — o czar, sua esposa Alexandra, suas quatro filhas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, e o czarevich Alexei, um menino que sofria de hemofilia — foi posta sob prisão e levada de um lugar para outro. Em abril de 1918, os bolcheviques os levaram para Ecaterimburgo e os trancaram numa casa confiscada de um engenheiro chamado Nikolai Ipatiev, que ficaria conhecida como a casa Ipatiev, rebatizada com sinistra frieza de 'casa de destinação especial'.
Na madrugada de 16 para 17 de julho de 1918, com as tropas anticomunistas (os 'brancos') e a Legião Tcheca se aproximando da cidade, e por medo de que a família fosse libertada e virasse bandeira da contrarrevolução, o soviete local ordenou a execução. Nicolau II, sua mulher, seus cinco filhos e quatro empregados foram levados ao porão com o pretexto de uma fotografia e ali fuzilados e executados a sangue-frio. Foi o fim brutal da dinastia Romanov, que havia reinado na Rússia por mais de três séculos.
Os corpos foram levados para os arredores, a um local de mata chamado Ganina Yama, onde os carrascos tentaram destruí-los e escondê-los no poço de uma velha mina; depois os enterraram num lugar próximo, Porosionkov Log. Durante décadas, o paradeiro exato dos restos foi um segredo. Só depois da queda da URSS, em 1991 e de novo em 2007, eles foram encontrados e identificados por meio de exames de DNA. A Igreja Ortodoxa Russa canonizou a família no ano 2000. Hoje, no terreno da casa Ipatiev, ergue-se a Igreja sobre o Sangue Derramado, e em Ganina Yama há um mosteiro com sete capelas de madeira, uma para cada vítima da família. A forma como essa memória é tratada é sóbria e devota: é um lugar de luto, não um espetáculo.
Em 1924, apenas seis anos depois dos fuzilamentos, a cidade foi rebatizada de Sverdlovsk em homenagem a Iakov Sverdlov, um dirigente bolchevique da primeira hora que havia se envolvido, de Moscou, na ordem sobre o destino dos Romanov. Com esse nome, a cidade viveu sua época de maior transformação. Os planos quinquenais de Stálin a transformaram numa das grandes potências industriais da URSS: foi erguida a Uralmash, uma colossal fábrica de maquinário pesado cercada por um bairro operário inteiro, e a cidade se encheu de arquitetura construtivista, a vanguarda soviética dos anos 1920 e 1930, com prédios geométricos e experimentais que até hoje a distinguem.
Durante a Segunda Guerra Mundial, com o front ameaçando o oeste do país, centenas de fábricas e milhões de pessoas foram evacuadas para o leste, e Sverdlovsk, protegida atrás dos Urais, virou um arsenal decisivo da União Soviética: aqui se fabricavam tanques, canhões e munições que abasteciam o esforço de guerra. Essa vocação militar também a marcou na Guerra Fria, quando passou a ser uma 'cidade fechada', proibida para estrangeiros durante quarenta anos por causa de suas fábricas de armamentos e instalações secretas.
Dois episódios daquela época atravessaram a cidade. Em 1960, um avião espião americano U-2, pilotado por Francis Gary Powers, foi derrubado por um míssil soviético nos céus de Sverdlovsk enquanto fotografava instalações militares; o piloto sobreviveu e foi capturado, e o incidente desencadeou uma crise diplomática em plena Guerra Fria. E em 1979, um vazamento acidental de esporos de antraz de uma instalação militar de armas biológicas causou dezenas de mortes, um desastre que a URSS escondeu durante anos. Sverdlovsk era, ao mesmo tempo, orgulho industrial e segredo de Estado.
Desta cidade saiu uma das figuras-chave do fim da URSS: Boris Yeltsin, nascido na região e formado engenheiro em Sverdlovsk, onde fez carreira no Partido Comunista antes de dar o salto para Moscou. Foi justamente Yeltsin quem, como chefe local do partido, recebeu em 1977 a ordem do Politburo de demolir a casa Ipatiev para evitar que ela virasse local de peregrinação monarquista; anos depois, em suas memórias, ele escreveria que 'mais cedo ou mais tarde teremos vergonha deste ato de barbárie'. Yeltsin viria a ser o primeiro presidente da Rússia pós-soviética, e hoje a cidade lhe dedica o moderno Centro Yeltsin, um dos museus mais ambiciosos do país.
Com a queda da União Soviética, em 1991 a cidade recuperou seu nome histórico: voltou a se chamar Ecaterimburgo (a província, por outro lado, continua se chamando Sverdlovsk). Os anos 1990 foram duros, como em toda a Rússia — crise, máfias, indústria em ruínas —, mas desde o começo do século XXI Ecaterimburgo ressurgiu como a grande metrópole do centro do país: arranha-céus de vidro como o Vysotsky, um aeroporto internacional, universidades, uma vida cultural intensa e uma cena jovem de arte, música e cafés.
Hoje Ecaterimburgo é a quarta cidade da Rússia e uma das mais dinâmicas fora das duas capitais. Nela convive todo o seu passado em camadas: a fábrica fundadora junto à Plotinka, as mansões da burguesia da virada do século, a vanguarda construtivista, a memória imperial dos Romanov e o pulso contemporâneo de uma cidade que olha para o futuro. Como o obelisco que a marca, continua sendo um lugar de fronteira: entre a Europa e a Ásia, entre a Rússia industrial e a nova, entre a história e o presente. Vale lembrar, além disso, que a visita acontece num contexto delicado: desde 2022, a guerra na Ucrânia e as sanções internacionais condicionam a viagem à Rússia, e entender seu passado ajuda a olhar com mais profundidade o que hoje se vê às margens do Iset.