A Laguna Humantay é um dos passeios de um dia mais populares a partir de Cusco: uma lagoa glacial de águas turquesa intensas, encaixada ao pé do nevado Humantay, na cordilheira de Vilcabamba. Fica a cerca de 4.200 m de altitude, cercada por paredões de rocha e gelo, e o contraste da água brilhante com a geleira e o céu deixa uma imagem difícil de esquecer.
Geograficamente, a lagoa fica ao pé do nevado Humantay (cerca de 5.473 m) e bem perto do imponente Salkantay (6.270 m), uma das montanhas sagradas mais importantes da cosmovisão andina. Aliás, o Humantay é a primeira grande parada do célebre Salkantay Trek, a rota alternativa de vários dias até Machu Picchu; mas também pode ser visitado de forma independente em um único dia.
A visita clássica é um tour de dia inteiro que sai de madrugada de Cusco. Depois de cerca de 3 horas de viagem, chega-se a Soraypampa, o ponto de partida, e de lá se sobe a pé entre 1 hora e 1 hora e meia até a lagoa. A caminhada é curta, mas exigente por causa da altitude, então convém chegar bem aclimatado (o ideal é ter passado vários dias em Cusco ou no Vale Sagrado). O ingresso para a área é pago à parte e é barato. Leve roupas de frio em camadas, protetor solar forte, água e, se precisar, você pode contratar um cavalo de apoio para parte da subida.
A Laguna Humantay é uma lagoa de origem glacial: formou-se e é alimentada pelo degelo do nevado Humantay, na cordilheira de Vilcabamba. Sua cor turquesa vem dos minerais e sedimentos finos arrastados pela geleira. Tanto o Humantay quanto o vizinho Salkantay são apus, montanhas sagradas para as comunidades andinas, que fazem oferendas à Pachamama. Mais detalhes na página de história.
Ler a história completa ↓The 'navel of the world': capital of the Inca empire and today the archaeological capital of the Americas, gateway to Machu Picchu, the Sacred Valley and the Vilcanota range.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A Laguna Humantay fica na cordilheira de Vilcabamba, no distrito de Mollepata, a cerca de 4.200 metros acima do nível do mar. É uma lagoa de origem glacial: nasceu e se mantém graças ao degelo do nevado Humantay, que se ergue sobre ela com suas paredes de rocha e gelo a uns 5.473 metros. Bem perto, o Salkantay, de 6.270 metros, domina o horizonte, um dos picos mais altos e imponentes da região.
O que mais cativa o visitante é a cor da água: um turquesa intenso, quase irreal, que muda de tom conforme a luz do dia. Essa tonalidade se deve à 'farinha glacial', partículas finíssimas de rocha que a geleira tritura e arrasta até a lagoa; suspensas na água, elas dispersam a luz e produzem esse verde-azulado luminoso. Com sol e céu limpo, o contraste entre a água, a rocha escura e o gelo branco é de tirar o fôlego.
Lagoas como esta são comuns nos Andes glaciais, mas a Humantay se destaca pela beleza e pela acessibilidade relativa a partir de Cusco. É também um lembrete vivo do recuo das geleiras: essas lagoas crescem e mudam à medida que o gelo derrete, um processo que a ciência associa ao aquecimento global e que está transformando a paisagem de alta montanha em todo o Peru.
Para as comunidades andinas, o Humantay e o vizinho Salkantay não são apenas montanhas: são apus, espíritos tutelares da natureza, protetores do território e de quem vive nele. O Salkantay, em particular, está entre os apus mais importantes da região de Cusco, e seu nome é associado à ideia de montanha 'selvagem' ou indomável. A lagoa, aos pés da geleira, participa dessa sacralidade: a água, a neve e a montanha fazem parte de um mundo carregado de significado espiritual.
Essa dimensão se faz visível no local. É comum encontrar apachetas -pequenos montes de pedras empilhadas- que peregrinos e visitantes levantam como oferenda e como pedido de bom caminho. Também são feitos 'pagos' ou despachos à Pachamama (a Mãe Terra): oferendas de folhas de coca, sementes e outros elementos com que as comunidades agradecem e pedem equilíbrio. Quem visita a lagoa entra, sem nem sempre saber, num espaço que para os moradores locais é profundamente sagrado.
Ter isso em mente muda a atitude do viajante. Além da foto turquesa, vale se comportar com respeito: não jogar lixo, não entrar na água, seguir as trilhas e entender que se está num lugar venerado. A cosmovisão andina concebe a natureza como um todo vivo com o qual é preciso se relacionar com reciprocidade; chegar à Humantay com esse olhar faz da visita uma experiência muito mais rica do que um simples passeio.
A Laguna Humantay está intimamente ligada ao Salkantay Trek, uma das trilhas mais famosas do Peru e a principal alternativa à Trilha Inca clássica para chegar a Machu Picchu a pé. O trekking, de vários dias, atravessa paisagens que vão das geleiras de altitude à ceja de selva, contornando o apu Salkantay, e costuma começar justamente em Soraypampa, o mesmo ponto de onde se sobe até a lagoa.
Por isso, para muitos caminhantes, a Humantay é a primeira grande recompensa do percurso: no primeiro dia chega-se a Soraypampa, deixa-se a bagagem no acampamento e sobe-se até a lagoa, seja no fim da tarde ou na manhã seguinte, antes de seguir rumo à passagem do Salkantay. Essa combinação de esforço, altitude e beleza dá o tom de toda a travessia.
Mas não é preciso se comprometer com vários dias de trekking para conhecê-la. A lagoa se popularizou enormemente como passeio de um dia saindo de Cusco, acessível para viajantes que não farão o trekking completo. Essa dupla condição -etapa de uma grande travessia e, ao mesmo tempo, passeio independente- explica boa parte de sua fama atual e da quantidade de gente que a visita todos os dias na alta temporada.
Mollepata e Soraypampa foram, durante séculos, território de comunidades camponesas falantes de quíchua, dedicadas ao pastoreio de altitude e ao trânsito de tropeiros, que usavam essas quebradas como parte das rotas de troca entre a serra e a ceja de selva de Cusco, rumo aos vales cocaleiros de La Convención. O próprio traçado do Salkantay Trek recupera, em boa medida, antigos caminhos de mulas usados por gerações de camponeses e comerciantes muito antes de existir o turismo.
A chegada de visitantes à região se acelerou a partir do final do século XX, quando o número crescente de viajantes em Cusco e a saturação da cota diária da Trilha Inca clássica -limitada por regulamentação estatal para proteger o santuário de Machu Picchu- impulsionaram rotas alternativas. O Salkantay Trek, com seu percurso de vários dias à sombra do apu de mesmo nome, tornou-se a opção mais popular entre essas alternativas, e Soraypampa passou de pasto de criação a um ponto logístico com acampamentos, domos e serviços turísticos.
A Laguna Humantay, que até então era conhecida sobretudo pelos próprios comuneros e pelos caminhantes do trekking, começou a ser divulgada como passeio independente de um dia já na década de 2010, aproveitando a relativa proximidade de Cusco e a espetacularidade de suas fotografias. Em poucos anos, deixou de ser uma parada secundária do trekking e virou um dos ícones turísticos mais reproduzidos do Peru, comparável em popularidade a Machu Picchu ou à Montanha das Sete Cores.
Há um paradoxo incômodo por trás do cartão-postal turquesa: a Laguna Humantay é tão bonita, em parte, porque a geleira que a alimenta está morrendo. Lagoas glaciais como esta se formam e crescem quando o gelo recua e a água do degelo se acumula na bacia que a própria geleira escavou. A cada verão austral em que o nevado Humantay perde massa, a lagoa recebe mais água e mais 'farinha glacial', essa suspensão de rocha finíssima que lhe dá a cor. Em outras palavras, boa parte do que o viajante fotografa é o rastro de um gelo em desaparecimento.
Os números são contundentes. Segundo a Autoridade Nacional da Água (ANA) do Peru, a Cordilheira de Vilcabamba —o maciço que coroa o Salkantay e o Humantay— perdeu cerca de 63,6 % de sua superfície glacial (uns 21,91 km²) nas últimas quatro décadas. No caso específico do Salkantay, estudos sobre a bacia do rio Aobamba documentaram que sua cobertura de gelo caiu de 8,59 km² em 1963 para 3,98 km² em 1998, uma perda próxima de 54 % em apenas 35 anos. O Peru concentra cerca de 70 % das geleiras tropicais do planeta, e são justamente as geleiras tropicais as mais sensíveis ao aquecimento global, porque vivem o ano todo perto do ponto de fusão.
Esse recuo não é apenas um dado para cientistas. Projetos como 'Glaciares 513' —executado pela ONG Care em Cusco e Huaraz com assistência da Universidade de Zurique— estudaram durante anos como a desglaciação acelerada, impulsionada pela mudança climática, pelo desmatamento e por outros fatores, ameaça o abastecimento de água de comunidades inteiras e até a geração da central hidrelétrica de Machu Picchu, rio abaixo. As lagoas novas que o gelo deixa, além disso, podem se tornar um risco: quando enchem demais ou quando um desprendimento de rocha ou gelo cai dentro delas, geram avalanches de água e lama capazes de devastar os vales.
Por isso, subir hoje até a Laguna Humantay tem algo de privilégio e algo de alerta. O viajante contempla uma paisagem que seus avós teriam visto com muito mais gelo e que seus netos, quase com certeza, verão bem diferente. Entender essa dimensão —que o turquesa é também um termômetro do planeta— transforma a caminhada em algo mais que uma foto: num testemunho direto de como a mudança climática está reescrevendo, geleira por geleira, o teto dos Andes.