Arequipa é a 'Cidade Branca', e o apelido faz sentido assim que você a vê: quase todo o centro histórico foi construído em sillar, uma pedra vulcânica branca que brilha sob o sol de altitude. Some a isso o pano de fundo de três vulcões -o Misti, o Chachani e o Pichu Pichu- e você entende por que seu centro antigo é Patrimônio da Humanidade. É uma das cidades mais elegantes e orgulhosas do Peru, com um caráter próprio muito marcante.
Fica a cerca de 2.300 metros acima do nível do mar, bem mais baixo que Cusco ou Puno, então a altitude costuma ser pouco sentida e é um ótimo lugar para se aclimatar aos poucos antes de subir ao altiplano. O clima é um dos mais amáveis do país: sol quase o ano todo e céus limpos, principalmente na temporada seca. Caminhar pela Plaza de Armas, entrar no Monastério de Santa Catalina (uma cidadela dentro da cidade) e se perder pelas ruas de sillar dão para uns dois dias redondos.
Arequipa é também a base natural para o Cânion do Colca, um dos mais profundos do mundo, onde se veem condores planando ao amanhecer. E é uma capital gastronômica por mérito próprio: as picanterías arequipenhas, com seu rocoto relleno, seu chupe de camarones e seu adobo, são uma experiência em si. Reserve um tempo para sentar e comer sem pressa: aqui a comida é identidade.
O vale do Chili já era habitado pelos povos collaguas e depois pelos incas muito antes da chegada dos espanhóis. A fundação espanhola aconteceu em 15 de agosto de 1540, com o nome de 'Villa Hermosa de Nuestra Señora de la Asunta', e no ano seguinte o rei Carlos V lhe concedeu o título de cidade. O sillar vulcânico marcou sua arquitetura desde o início e lhe deu o apelido de Cidade Branca; a história completa está na página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Conta a tradição que um inca, deslumbrado pela beleza e pela fertilidade do vale do rio Chili, aos pés dos vulcões, respondeu ao seu povo com duas palavras quéchuas: 'Ari, qhipay' —'Sim, fiquem'—. Dessa permissão teria nascido o nome de Arequipa. É a versão mais querida e a que os arequipenhos repetem com orgulho, embora os linguistas não a deem totalmente por boa.
Muito antes dessa cena, real ou lendária, o vale já era habitado. Povos collaguas e cabanas cultivavam estas terras com terraços agrícolas, e mais tarde a região passou para a órbita do Império Inca, que valorizou seu clima ameno e seu solo generoso a mais de 2.300 metros de altitude, no limiar entre a costa desértica e o altiplano. Era um lugar de passagem e de cultivo, protegido pela mole do Misti, do Chachani e do Pichu Pichu.
Sobre a origem do topônimo convivem várias hipóteses. Ao lado da romântica 'Ari, qhipay', outros pesquisadores apontam para raízes aimarás que aludiriam a 'lugar atrás do pico' ou à trombeta cerimonial 'ariqquepan'. Não há consenso fechado, e talvez essa ambiguidade, tão andina, seja parte do encanto: uma cidade cujo próprio nome é objeto de debate entre o quéchua e o aimará, os dois grandes idiomas do sul do Peru.
A fundação espanhola de Arequipa aconteceu em 15 de agosto de 1540, comandada pelo capitão Garcí Manuel de Carbajal, por encargo de Francisco Pizarro. A cidade nasceu com o nome de 'Villa Hermosa de Nuestra Señora de la Asunta', em alusão à festa da Assunção da Virgem, celebrada nesse mesmo dia. Foi traçada, como tantas cidades coloniais, em forma de tabuleiro de xadrez ao redor de uma praça principal, no local de um antigo assentamento às margens do Chili.
Apenas um ano depois, em 22 de setembro de 1541, o rei Carlos V (Carlos I da Espanha) concedeu-lhe por Cédula Real o título de 'Muy Noble y Muy Leal Ciudad de Arequipa' e um brasão de armas, reconhecendo sua crescente importância como enclave entre a costa e a serra sul. Sua localização estratégica logo a transformou em um centro comercial fundamental: por Arequipa passava boa parte da prata que descia de Potosí rumo ao porto de Quilca e, mais tarde, de Mollendo e Matarani.
Desde o princípio, os construtores recorreram a um material que tinham à mão em abundância e que definiria para sempre o rosto da cidade: o sillar. Aquela vila fundada por um punhado de espanhóis cresceria, ao longo dos séculos coloniais, até se tornar uma das cidades mais prósperas, devotas e orgulhosas do vice-reino do Peru.
O apelido de 'Cidade Branca' tem uma raiz muito concreta: o sillar, uma pedra vulcânica branca, porosa e leve, extraída de pedreiras próximas associadas à atividade milenar dos vulcões que cercam a cidade, sobretudo o Chachani e o Misti. A pedreira de Añashuayco, um cânion de paredes brancas nos arredores de Arequipa, continua sendo hoje um dos lugares onde se pode ver como esse material é cortado à mão. Desde o século XVI, igrejas, casarões, claustros, muros e portadas foram erguidos com sillar, que dá ao centro histórico sua característica cor clara e luminosa, que brilha quase ofuscante sob o sol de altitude.
O sillar não definiu apenas a estética: também a sobrevivência da cidade. Arequipa está em uma das zonas sísmicas mais ativas do planeta, e a arquitetura de sillar —com muros bem grossos, abóbadas e contrafortes— desenvolveu soluções antissísmicas que ajudaram a manter em pé boa parte do traçado colonial após terremotos devastadores. Sobre essa pedra floresceu ainda o chamado 'barroco mestiço' ou 'escola arequipenha', com fachadas finamente entalhadas nas quais o artesão indígena misturou santos e colunas europeias com flores, frutas, aves e símbolos andinos.
A portada da igreja da Companhia, o claustro de Santa Catalina e os casarões do centro são os grandes expoentes dessa arte em pedra. Entalhar o sillar, macio ao sair da pedreira e mais duro com o passar dos anos, tornou-se um ofício local transmitido de geração em geração. Por isso, mais do que um apelido turístico, 'Cidade Branca' resume a identidade profunda de Arequipa: uma cidade literalmente esculpida na rocha de seus vulcões.
A história de Arequipa também se lê em seus tremores. Assentada entre vulcões e sobre falhas ativas, a cidade foi sacudida repetidas vezes por grandes terremotos que a obrigaram a se reconstruir a partir dos escombros, quase sempre com a mesma pedra branca. Já nos séculos XVI e XVII, sismos e erupções marcaram os primeiros habitantes, que interpretavam esses desastres como a 'fúria dos deuses' ou castigos divinos.
O grande ponto de inflexão foi o terremoto de 13 de agosto de 1868, um dos mais violentos da história do Peru, que destruiu boa parte de Arequipa e do sul andino, e foi seguido de um tsunami na costa. A cidade ficou em ruínas, mas renasceu: muitas das construções e reformas que hoje admiramos, incluindo a reconstrução da Catedral em estilo neoclássico, datam das décadas posteriores a essa catástrofe. Já em pleno século XX, dois sismos consecutivos voltaram a golpeá-la: o de 15 de janeiro de 1958, que deixou cerca de vinte mortos e danificou gravemente as moradias de sillar mais antigas, e o de 13 de janeiro de 1960, que causou mais de sessenta vítimas. Ambos aceleraram mudanças nas técnicas de construção.
Nos tempos recentes, o terremoto de 23 de junho de 2001, de magnitude próxima a 8,4, afetou o sul do Peru e danificou monumentos emblemáticos de Arequipa, como uma das torres da Catedral, que foi restaurada. Essa convivência secular com o terremoto explica muitas coisas de Arequipa: a solidez de sua arquitetura, a espessura de seus muros, a fé intensa de seu povo e esse caráter resiliente de uma cidade acostumada a cair e a se levantar de novo, sempre de branco.
Se algo distingue Arequipa dentro do Peru é sua forte personalidade e seu espírito independente, que lhe rendeu outro apelido: o 'Leão do Sul'. Durante boa parte da época republicana, a Cidade Branca foi um foco recorrente de revoluções, levantes e movimentos políticos que muitas vezes desafiaram o poder centralista de Lima. Revoltas como as de 1834, 1854-1856 ou o apoio a diferentes caudilhos transformaram Arequipa em uma praça politicamente indomável, orgulhosa de sua autonomia.
Esse caráter voltou a se mostrar com força no século XX. Em 1950, um levante popular contra o governo militar da época, com forte participação estudantil, deixou mortos nas ruas e ficou gravado na memória cívica da cidade. E em 1955, uma nova revolução arequipenha ajudou a precipitar o fim da ditadura de Manuel Odría, confirmando o peso político da cidade na vida nacional. Arequipa se orgulhava de ser a 'segunda cidade' do país e de ter voz própria diante da capital.
Esse orgulho regional impregna a identidade arequipenha até hoje: um dialeto próprio com vozes e expressões características (o 'loncco'), uma gastronomia de picanterías defendida com paixão, um hino e até piadas sobre um suposto 'passaporte' arequipenho. Por trás do humor há algo real: Arequipa se sente diferente, um mundo à parte de sillar, vulcões e personalidade, no coração do sul peruano.
No ano 2000, a Unesco declarou o Centro Histórico de Arequipa Patrimônio Cultural da Humanidade. O reconhecimento valorizou justamente essa integração criativa de características europeias e nativas, e considerou sua arquitetura ornamental de sillar um exemplo excepcional da mestiçagem artística na América Latina. A área protegida abrange o traçado fundacional em tabuleiro em torno da Plaza de Armas, com a Catedral, o Mosteiro de Santa Catalina, a igreja da Companhia, dezenas de casarões e templos, e bairros tradicionais como San Lázaro e Yanahuara.
A distinção reforçou o cuidado com o centro antigo e consolidou Arequipa como um dos grandes destinos culturais do Peru, ao lado de Cusco e Lima. Mas, além do título, a cidade conserva um caráter regional muito forte e orgulhoso: os arequipenhos cultivam uma identidade própria, com sua gastronomia de picanterías —rocoto relleno, chupe de camarones, adobo dominguero—, seu dialeto e um profundo senso de pertencimento.
Essa personalidade, somada ao pano de fundo dos vulcões, ao brilho do sillar e a uma história feita de fundações, terremotos e revoluções, faz com que Arequipa pareça uma cidade diferente de qualquer outra do Peru. Caminhar hoje pela sua Plaza de Armas ao entardecer, com o Misti despontando atrás das torres da Catedral, é espiar quase cinco séculos de história esculpidos, literalmente, em pedra branca.