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O Parque Nacional Saltos del Guairá guarda uma das histórias mais impressionantes —e melancólicas— da natureza sul-americana. Seu nome evoca os Saltos del Guairá, conhecidos no Brasil como Sete Quedas: um conjunto colossal de cataratas sobre o rio Paraná que, por sua enorme vazão, chegaram a ser consideradas as mais caudalosas do mundo, muito superiores em volume de água às célebres Cataratas do Iguaçu.
Aqueles saltos lendários desapareceram no início da década de 1980, submersos sob as águas do reservatório da usina de Itaipu. Hoje, onde rugiam as cataratas, estende-se o grande lago artificial do Paraná, e o lugar se transformou em um espaço de memória natural: um parque e uma cidade —Salto del Guairá, capital do departamento de Canindeyú— que conservam no nome e na identidade a lembrança daquela maravilha perdida.
Este guia percorre a região de Saltos del Guairá com um olhar prático e honesto: o que significou o desaparecimento das cataratas, o que dá para ver e fazer hoje em torno do reservatório de Itaipu e da cidade fronteiriça de Salto del Guairá, como chegar a esse canto do leste paraguaio e como combinar a visita com os demais atrativos do Alto Paraná e da Tríplice Fronteira. Um destino para refletir sobre a relação entre desenvolvimento e natureza, diante de uma das paisagens que o progresso transformou para sempre.
Os Saltos del Guairá (as Sete Quedas) foram um conjunto monumental de cataratas sobre o rio Paraná, na fronteira entre o Paraguai e o Brasil. Por sua vazão descomunal, eram consideradas por muitos as cataratas mais caudalosas do mundo, com um volume de água que superava amplamente o das Cataratas do Iguaçu. Durante séculos foram um marco geográfico da região, conhecido pelos povos guaranis e depois por exploradores e viajantes. Seu destino mudou com a construção da usina binacional de Itaipu: no início da década de 1980, com o enchimento do reservatório, as cataratas ficaram submersas sob as águas e desapareceram. A decisão gerou debate e dor, especialmente do lado brasileiro, onde o lugar havia sido protegido. Hoje a região conserva o nome na cidade de Salto del Guairá, capital de Canindeyú, e na memória daquela paisagem perdida. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓O departamento da mata atlântica e da fronteira oriental: terra da Reserva da Biosfera do Mbaracayú e do povo aché, das desaparecidas cataratas do Guairá, da colonização 'brasiguaia' e das grandes plantações de soja, com Salto del Guairá como capital fronteiriça.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Imagine uma cachoeira tão poderosa que seu estrondo era ouvido a mais de trinta quilômetros de distância, e cuja vazão superava com folga o dobro da do Niágara. Ela existiu, e não faz tanto tempo: até 1982, na fronteira entre o Paraguai e o Brasil, o rio Paraná despencava nos Saltos del Guairá —conhecidos no Brasil como Sete Quedas—, um dos espetáculos naturais mais colossais que a América do Sul já teve. Hoje, onde rugia toda aquela água, há silêncio e um lago parado. Esta é a história da maravilha que o século XX apagou do mapa.
O mais extraordinário dos Saltos del Guairá era sua vazão. Estima-se que despejavam cerca de 49 milhões de litros de água por segundo através de 18 saltos agrupados em sete grandes quedas —daí o nome Sete Quedas—, com a maior delas beirando os 40 metros de altura. Por esse volume, eram consideradas as cataratas mais caudalosas do mundo, com mais do dobro da vazão do Niágara e muito acima das célebres Cataratas do Iguaçu. A força da água, a névoa permanente que subia das gargantas e o rugido contínuo formavam uma paisagem impressionante, que deixava sem palavras todos os que a viam.
Durante séculos, esses saltos foram um marco geográfico da região, conhecidos pelos povos guaranis —de cuja língua vem o nome 'Guairá'— e, mais tarde, por exploradores, viajantes e naturalistas. Eram um ponto de referência no curso do grande rio Paraná e um emblema natural dessa área no coração da América do Sul. O escritor austríaco Stefan Zweig, que os visitou na década de 1930, ficou deslumbrado com sua grandeza, e ao longo do século XX o lugar se tornou um destino turístico que atraía visitantes de todo o continente.
O nome 'Guairá' tem raízes guaranis e está profundamente ligado à história da região. Toda essa área do leste, sobre o alto curso do Paraná, foi território de povos de língua guarani muito antes da chegada dos europeus. Para eles, o grande rio e seus saltos eram parte essencial da paisagem, da mitologia e da vida cotidiana.
Nos tempos coloniais, a região do Guairá ganhou relevância histórica: aqui os jesuítas fundaram, no começo do século XVII, um conjunto de reduções (as 'missões do Guairá'), que reuniam populações guaranis. Essas missões, porém, foram arrasadas pelas incursões dos bandeirantes paulistas, que vinham do Brasil em busca de indígenas para escravizar, o que obrigou a um dramático êxodo dos guaranis e dos jesuítas rumo ao sul. Assim, o nome Guairá ficou associado tanto à geografia dos saltos quanto àquele capítulo trágico da história das missões.
O topônimo sobreviveu à passagem dos séculos e ao próprio desaparecimento das cataratas: hoje ele é mantido pela cidade paraguaia de Salto del Guairá, no departamento de Canindeyú, e pela cidade brasileira de Guaíra, uma de frente para a outra às margens do reservatório. O nome é, de certo modo, a memória viva de uma paisagem e de uma história que as águas não conseguiram apagar por completo.
O destino dos Saltos del Guairá ficou selado com a decisão do Paraguai e do Brasil de construir a usina hidrelétrica binacional de Itaipu sobre o rio Paraná. O acordo entre os dois países foi assinado em 1973 (Tratado de Itaipu) e as obras avançaram ao longo da década. A usina, que seria uma das maiores do mundo, precisava formar um enorme reservatório a montante para alimentar suas turbinas, e esse reservatório alcançaria justamente a área onde ficavam as cataratas.
O fim chegou em outubro de 1982. No dia 13 de outubro de 1982, fechadas as comportas de Itaipu, as águas do reservatório começaram a subir e, em apenas catorze dias, cobriram por completo os saltos. Em pouco mais de duas semanas, um dos espetáculos naturais mais caudalosos do planeta —o que havia assombrado por séculos— ficou sepultado sob o grande lago artificial. Nos meses anteriores, milhares de pessoas peregrinaram para se despedir das cataratas; calcula-se que só nos últimos dias dezenas de milhares de visitantes chegaram ao local, e uma tragédia marcou aquele adeus quando uma ponte pênsil liberada para os turistas desabou, causando mortes.
A inundação dos saltos gerou um profundo debate e muita dor, especialmente do lado brasileiro, onde o lugar era protegido como parque nacional (o Parque Nacional de Sete Quedas, criado em 1961). Houve protestos, campanhas para salvar as cataratas e tentativas desesperadas de despedida em massa do lugar. O caso ficou como um dos exemplos mais citados da tensão entre o desenvolvimento energético e a conservação do patrimônio natural na América do Sul, e ainda hoje, no Paraguai, há quem reivindique uma reparação pela perda daquele patrimônio único.
Depois do desaparecimento das cataratas, o nome e a memória do lugar ficaram encarnados na cidade de Salto del Guairá, capital do departamento de Canindeyú, no extremo leste do Paraguai. Debruçada sobre o reservatório de Itaipu e situada bem na fronteira com o Brasil, em frente à cidade brasileira de Guaíra, a cidade carrega no próprio nome a lembrança dos saltos perdidos.
Salto del Guairá se desenvolveu como um ativo centro comercial de fronteira e como sede administrativa de Canindeyú. Sua vida cotidiana gira em torno do comércio com o Brasil, da atividade agrícola da região e da sua condição de cidade fronteiriça. O reservatório, que cobre o local das cataratas, é hoje parte da sua paisagem e da sua economia, com navegação, pesca e balneários.
Para o visitante, a cidade funciona como porta de entrada para um lugar de memória singular: o sítio onde a natureza ofereceu uma de suas maravilhas mais colossais e onde o progresso a fez desaparecer. Conhecer Salto del Guairá é, em boa medida, lembrar o que havia ali e refletir sobre o que significou sua perda, diante das águas tranquilas que hoje ocupam o lugar do antigo estrondo.
A história dos Saltos del Guairá vai além do dado geográfico para se tornar um símbolo. Seu desaparecimento é um dos casos mais citados na hora de refletir sobre o custo ambiental das grandes obras de infraestrutura e sobre a tensão entre o desenvolvimento —neste caso, a geração de energia limpa e abundante de Itaipu— e a conservação de um patrimônio natural irrepetível.
Para muitos, a perda daquelas que foram consideradas as cataratas mais caudalosas do mundo foi um sacrifício difícil de justificar; para outros, o preço inevitável de uma obra que transformou a economia do Paraguai e do Brasil. Esse debate segue vivo e faz parte da consciência ambiental da região, alimentando a reflexão sobre como equilibrar progresso e natureza no futuro.
Em termos turísticos, a área oferece hoje um 'turismo de memória': não se visitam as cataratas —porque elas já não existem—, mas o lugar onde estiveram, o reservatório que as cobre e a cidade que guarda seu nome. A isso se somam os atrativos do circuito do leste paraguaio (Itaipu, Ciudad del Este, o Salto do Monday, as Cataratas do Iguaçu). Visitar os Saltos del Guairá é, assim, um exercício de memória e reflexão diante de uma paisagem que o século XX transformou para sempre.