Te Anau é uma cidadezinha tranquila às margens do segundo maior lago da Nova Zelândia, mas sua verdadeira grandeza está no que fica atrás dela: o Parque Nacional Fiordland, um território imenso de montanhas esculpidas por geleiras, fiordes que mergulham no mar, florestas temperadas encharcadas pela chuva e cachoeiras que despencam de paredões de mais de mil metros. É o maior parque nacional do país e faz parte da Área de Patrimônio Mundial Te Wāhipounamu, um dos últimos grandes redutos de natureza selvagem do planeta.
De Te Anau se organiza quase tudo. É a base para visitar Milford Sound (Piopiotahi), o fiorde mais famoso e acessível, e Doubtful Sound (Patea), mais remoto, silencioso e profundo, aonde se chega atravessando o lago Manapouri. Aqui também ficam as famosas cavernas de vaga-lumes de Te Anau, com sua abóbada de estrelas vivas, e começam três das Great Walks da Nova Zelândia: o mítico Milford Track (chamado de 'a caminhada mais bela do mundo'), o Kepler Track e parte do Routeburn.
Este guia percorre Te Anau e Fiordland com olhar prático: como chegar (não há aeroporto nem trem), como escolher entre Milford e Doubtful Sound, quanto custam os cruzeiros e as cavernas de vaga-lumes, que caminhadas fazer de acordo com seu tempo e preparo físico, e quando ir a um lugar onde a chuva não é um problema, e sim um espetáculo, porque enche as montanhas de cachoeiras. É natureza em estado puro, e Te Anau é a porta perfeita para mergulhar nela.
Fiordland é rohe (território ancestral) do iwi Ngāi Tahu e, antes, dos Waitaha e Kāti Māmoe; os maoris percorriam esses fiordes em busca de pounamu (jade), tītī (pardela) e kai moana, e chamavam Milford Sound de Piopiotahi. O navegador James Cook avistou e batizou Doubtful Sound ('Doubtful Harbour') em 1770, em dúvida se conseguiria sair dali a vela. No século XIX chegaram caçadores de focas, baleeiros e garimpeiros de ouro; o explorador escocês Donald Sutherland foi o primeiro morador europeu de Milford. As cavernas de vaga-lumes de Te Anau foram redescobertas em 1948. O parque nacional foi criado em 1952 e em 1990 passou a integrar o Patrimônio Mundial Te Wāhipounamu. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Murihiku, “the last joint of the tail”: the far south of the country, land of Kāi Tahu, of the first sealers and whalers, and of the vast, untouched Fiordland National Park, with sublime Milford Sound. Offshore lies remote Stewart Island (Rakiura), realm of the wild kiwi and the southern lights.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de os mapas europeus desenharem fiordes e montanhas, a vasta terra que hoje chamamos de Fiordland já era conhecida, nomeada e percorrida pelos maoris. Segundo a tradição, os primeiros a chegar à Ilha Sul (Te Waipounamu) foram os povos Waitaha, seguidos pelos Kāti Māmoe e, por fim, pelos Ngāi Tahu, o iwi (nação tribal) que hoje tem o reconhecimento oficial de mana whenua (autoridade ancestral) sobre quase toda a Ilha Sul, incluindo Fiordland. Para eles, esses fiordes não eram uma paisagem vazia, e sim um território vivo, cheio de significado, história e recursos.
A cosmologia maori explica a origem dos fiordes com uma das histórias mais bonitas do país: foi o gigante Tū Te Rakiwhānoa quem esculpiu a costa a golpes de enxó (toki), criando os fiordes como lugares onde as pessoas pudessem viver e encontrar abrigo. O primeiro que ele fez, diz a lenda, foi Piopiotahi (Milford Sound), e as montanhas e vales são a obra inacabada dessa escultura titânica. Esse relato não é um simples mito: ele expressa um conhecimento profundo da paisagem e uma relação espiritual com a terra que passa de geração em geração.
Os maoris viajavam a Fiordland seguindo rotas sazonais, atravessando passos de montanha e remando por lagos e fiordes em busca de recursos valiosos: o pounamu (jade ou pedra verde), material sagrado usado em ferramentas e adornos; o tītī (pardela ou muttonbird), uma ave marinha coletada como alimento; e o kai moana (frutos do mar e peixe). Piopiotahi, o nome maori de Milford Sound, evoca o piopio, uma ave hoje extinta, numa história ligada ao herói Māui. Reconhecer essa presença e esse conhecimento maori milenar é o ponto de partida indispensável para contar a história de Fiordland.
O primeiro europeu a avistar esta costa foi o capitão James Cook, durante suas viagens de exploração do Pacífico. Em 1770, navegando diante da costa de Fiordland, Cook observou a entrada de um fiorde, mas decidiu não entrar: temia que, uma vez lá dentro, os ventos não o deixassem voltar ao mar aberto. Por isso o batizou de 'Doubtful Harbour' ('porto duvidoso'), nome que deu origem ao atual Doubtful Sound. A ironia é que Cook, um cartógrafo tão meticuloso, deixou de explorar um dos fiordes mais espetaculares por pura prudência de marinheiro. Numa viagem posterior, em 1773, ancorou em Dusky Sound, mais ao sul, numa das primeiras estadias prolongadas de europeus na Nova Zelândia.
Depois de Cook vieram os caçadores de focas (sealers) e os baleeiros, no fim do século XVIII e início do XIX, atraídos pelas colônias de lobos-marinhos dos fiordes. Foi uma época dura e violenta: os sealers montavam acampamentos temporários em lugares remotos, às vezes ficando abandonados por meses, e a exploração dizimou as populações de focas. Esses primeiros contatos também tiveram consequências para os maoris, com trocas comerciais, mas também doenças e conflitos.
Em meados do século XIX, com a corrida do ouro que sacudiu Otago e a costa oeste, alguns garimpeiros se aventuraram pelas bordas de Fiordland, mas o terreno acidentado, a chuva constante e a mata densa fizeram com que a região continuasse em grande parte inexplorada e desabitada pelos europeus. Fiordland era, e em boa parte ainda é, um dos últimos grandes territórios selvagens do país: íngreme, úmido e remoto demais para a colonização agrícola que transformou outras regiões.
A história moderna de Milford Sound está ligada a um personagem singular: Donald Sutherland, um escocês aventureiro e solitário apelidado de 'o eremita de Milford'. Sutherland se estabeleceu em Milford Sound em 1877, tornando-se seu primeiro morador europeu permanente, e viveu ali por décadas explorando a região. Em 1880, junto com John Mackay, descobriu as espetaculares Sutherland Falls, uma das cachoeiras mais altas da Nova Zelândia (cerca de 580 metros), que levam o seu nome.
O passo que liga o vale do rio Clinton ao do Arthur — o Mackinnon Pass — foi cruzado pela primeira vez por Quintin McKinnon e Ernest Mitchell em 1888, abrindo a rota que se tornaria a lendária Milford Track. Em 1908, um artigo num jornal de Londres chamou essa trilha de 'the finest walk in the world' ('a melhor caminhada do mundo'), apelido que a acompanha até hoje. A Milford Track, de 53,5 km, atravessa vales glaciais, cachoeiras e o Mackinnon Pass, e continua sendo uma das Great Walks mais disputadas do país, com vagas estritamente limitadas.
Enquanto isso, às margens do lago Te Anau, outro capítulo se abria debaixo da terra: embora os maoris já soubessem da existência de cavernas na região, as Te Anau Glowworm Caves (cavernas de vaga-lumes) foram 'redescobertas' em 1948 por Lawson Burrows, depois de seguir pistas em antigos registros maoris. A abertura delas ao turismo transformou Te Anau em destino e consolidou a cidade como a porta de entrada de Fiordland. Aos poucos, o que tinha sido um território impenetrável começou a atrair viajantes do mundo inteiro, ansiosos para ver com os próprios olhos a beleza arrebatadora dos fiordes.
A proteção formal de Fiordland chegou no século XX. Em 1952 foi criado o Fiordland National Park, que, com mais de 12.500 km², é o maior parque nacional da Nova Zelândia e um dos maiores do mundo. Sua criação reconheceu o que já era evidente: esta era uma das últimas grandes extensões de natureza selvagem intacta do planeta, com valores ecológicos, geológicos e paisagísticos únicos. Em 1990, Fiordland passou a fazer parte da Área de Patrimônio Mundial Te Wāhipounamu ('as águas da pedra verde'), junto com os parques nacionais de Aoraki/Mount Cook, Westland e Mount Aspiring, reconhecida pela UNESCO por seu valor natural excepcional.
Um dos episódios mais emocionantes da história natural de Fiordland também aconteceu em 1948, o mesmo ano da redescoberta das cavernas: o takahē, uma ave que não voa, de plumagem azul e verde, considerada extinta havia décadas, foi redescoberto vivo pelo médico Geoffrey Orbell nas remotas montanhas Murchison, perto de Te Anau. Foi um dos grandes acontecimentos da conservação mundial: uma espécie dada como perdida ressurgindo nas montanhas de Fiordland. Desde então, um intenso programa de conservação luta para salvar o takahē da extinção, e hoje dá para vê-lo no santuário de aves de Te Anau.
Fiordland é hoje um bastião da biodiversidade neozelandesa: abriga populações de kākāpō (o papagaio noturno que não voa, um dos animais mais raros do mundo), de kea (o papagaio alpino), pinguins-de-crista-de-fiordland, golfinhos-nariz-de-garrafa residentes em Doubtful Sound e focas. A luta contra as espécies invasoras (arminhos, ratos, gambás-australianos) é constante para proteger essas aves nativas. O parque combina, assim, uma natureza impressionante com uma das histórias de conservação mais inspiradoras do planeta.
A história de Fiordland não estaria completa sem reconhecer o longo caminho de reparação e ressurgimento do povo Ngāi Tahu. Durante o século XIX, as compras de terras feitas pela Coroa britânica foram muitas vezes injustas, incompletas ou descumpriram o que havia sido prometido, tirando dos Ngāi Tahu grande parte de seu território e de seus recursos. Por mais de um século, o iwi reivindicou reparação por essas injustiças, num dos processos de reivindicação mais longos da história do país.
Essa longa luta culminou em 1998 com o Ngāi Tahu Claims Settlement Act, um acordo histórico entre os Ngāi Tahu e a Coroa que incluiu um pedido formal de desculpas do Estado neozelandês, uma compensação financeira e o reconhecimento da relação especial do iwi com lugares de grande valor cultural (os chamados tōpuni e statutory acknowledgements), muitos deles em Fiordland. O acordo devolveu aos Ngāi Tahu um papel ativo na gestão e proteção de seu rohe (território) e reconheceu oficialmente sua condição de mana whenua sobre a Ilha Sul. Nomes maoris oficiais como Aoraki, Piopiotahi ou Patea fazem parte desse reconhecimento e do ressurgimento do te reo māori (a língua maori).
Hoje, Fiordland vive um equilíbrio delicado entre conservação e turismo. Milford Sound recebe centenas de milhares de visitantes por ano, e as autoridades trabalham para administrar esse fluxo sem prejudicar o frágil ecossistema nem a experiência de natureza selvagem que torna o lugar único. Estão em debate melhorias de infraestrutura, limites de visitantes e uma integração maior do conhecimento e da voz dos Ngāi Tahu na gestão do parque. Para o viajante, saber que esses fiordes foram esculpidos — segundo os ancestrais — pelo gigante Tū Te Rakiwhānoa, percorridos durante séculos pelos maoris em busca de pounamu e hoje protegidos como Patrimônio Mundial transforma um cruzeiro por Milford ou Doubtful em algo muito mais profundo do que um simples passeio: é espiar uma das grandes histórias naturais e humanas do planeta.