Wanaka é o que muita gente procura quando viaja para a Ilha Sul: as paisagens incríveis de Queenstown, mas sem o frenesi. Às margens de um lago alpino de um azul profundo, cercada pelas montanhas do Parque Nacional Mount Aspiring, esta cidade de clima descontraído combina aventura de primeira com uma calma de interior que encanta. Aqui se vem para fazer trilha, esquiar, remar no lago, provar vinhos e, acima de tudo, respirar.
Seu símbolo é humilde e famoso no mundo inteiro: um salgueiro solitário que cresce dentro da água, na beira do lago, conhecido como #ThatWanakaTree, provavelmente a árvore mais fotografada da Nova Zelândia. A poucos minutos fica a trilha de Roys Peak, cuja vista do lago lá do alto virou um dos cartões-postais mais icônicos do país, e o excêntrico Puzzling World, um parque de ilusões de ótica e labirintos que é uma instituição local desde 1973.
Este guia percorre o melhor de Wanaka com informações concretas e verificadas: quais trilhas valem a pena e quanto exigem, quanto custa o Puzzling World, onde fica a famosa árvore, como chegar de Queenstown pelo passo de montanha mais alto do país, onde esquiar no inverno e como se locomover sem ônibus urbano. Para você descobrir por que muita gente, depois de conhecer as duas, fica com Wanaka.
Wanaka é Wānaka para o povo Ngāi Tahu, que visitava este lago sazonalmente para caçar, pescar e, sobretudo, de passagem rumo à costa oeste em busca de pounamu (jade); o rio Clutha / Mata-au era uma de suas rotas de comércio. Os acampamentos sazonais foram abandonados após o ataque de um grupo guerreiro do norte em 1836. Os colonos europeus chegaram na década de 1850 com as grandes fazendas de ovelhas, e a cidade, surgida junto com a corrida do ouro de Cardrona (1862), se chamou primeiro Pembroke antes de recuperar seu nome māori em 1940. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The “Edinburgh of the South”: settled by Scottish Presbyterians of the Free Church in 1848 around Dunedin, it became the country’s richest province with the 1861 gold rush. Land of Ngāi Tahu, of the alpine lakes of Queenstown and Wanaka, and of the adventure capital of the world.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O lago que hoje atrai caminhantes e fotógrafos do mundo inteiro foi, durante séculos, um ponto de passagem em uma das grandes redes de comércio da Nova Zelândia māori. Para o povo Ngāi Tahu, a iwi (tribo) que domina a Ilha Sul, e para as tribos que vieram antes dela (Waitaha e Kāti Māmoe, depois absorvidas pelos Ngāi Tahu), este lago era Wānaka, e fazia parte de um mundo de trilhas sazonais que ligavam o interior montanhoso ao litoral.
Os māori não viviam o ano todo junto ao lago: o inverno do interior é duro. Eles vinham no verão, em expedições organizadas, para caçar aves (incluindo a grande moa, antes de sua extinção), pescar e coletar mahika kai (recursos naturais e culturais, de peixes a plantas). Mas o grande motor dessas viagens era o pounamu, o jade neozelandês, o material mais valioso de toda a sua cultura, usado para fazer ferramentas, armas e adornos sagrados como o hei-tiki. O pounamu só era encontrado na costa oeste (Te Tai Poutini), e Wānaka ficava no caminho: os rios e vales da região, especialmente o grande rio Clutha / Mata-au, que nasce no lago, eram rotas para levar o jade de volta rumo ao leste e ao sul.
Essa vida de trânsito sazonal foi interrompida de forma abrupta e violenta. Em 1836, um grupo guerreiro do norte — parte das chamadas Guerras dos Mosquetes, que devastaram toda a Nova Zelândia quando algumas iwi conseguiram armas de fogo europeias — chegou até a região e atacou os acampamentos. Depois da incursão, os Ngāi Tahu abandonaram seus assentamentos sazonais do lago Wānaka, e quando os primeiros europeus chegaram, poucos anos depois, encontraram uma paisagem que parecia vazia, sem perceber que estavam pisando em uma terra habitada e percorrida havia séculos.
O primeiro europeu a ver esta região foi Nathanael Chalmers, guiado terra adentro em 1853 pelos chefes Reko e Kaikōura — o mesmo Chalmers que também foi o primeiro a ver o lago Wakatipu. Atrás dos exploradores vieram, como em todo o interior da Ilha Sul, os runholders: colonos que ficavam com enormes concessões de terra para criar ovelhas. A partir da década de 1850, o alto vale do Clutha foi se enchendo de grandes fazendas (high country stations), e a paisagem de pastos e montanhas começou a se povoar de rebanhos.
Como em tantos lugares de Otago, o que acelerou tudo foi o ouro. Em 1862 descobriu-se ouro no vizinho vale de Cardrona, e muitos mineiros chegaram para tentar a sorte, dando vida a pequenos assentamentos na região. O local atual de Wanaka foi demarcado (survey) em 1863, e logo surgiu um povoado para abastecer mineiros e fazendeiros. Curiosamente, mal tinha sido fundado com o nome de Wanaka, o assentamento foi rebatizado um mês depois como Pembroke, em homenagem ao filho mais novo do conde de Pembroke, um nobre britânico sem nenhuma relação com o lugar.
Durante décadas, o povoado se chamou Pembroke e cresceu devagar como centro rural e de serviços, à sombra do declínio do ouro. Só em 1940 recuperou oficialmente seu nome original māori, Wanaka, devolvendo ao lugar o nome que lhe tinham dado seus primeiros habitantes. Foi uma mudança pequena no papel, mas significativa: o reconhecimento de que a história deste lago não começava com os colonos britânicos, e sim muito antes, com os viajantes do pounamu.
Atrás de Wanaka se ergue um mundo de montanhas que definiu boa parte de sua história posterior: o maciço que culmina no Tititea / Mount Aspiring (3.033 m), o 'Matterhorn do sul', um dos picos mais elegantes e cobiçados do país. No fim do século XIX e começo do XX, enquanto o povoado cochilava como centro rural, essas montanhas começaram a atrair exploradores, pastores de altitude e os primeiros montanhistas, que abriram rotas por vales glaciais quase inexplorados. A região foi ganhando, aos poucos, fama de território de aventura séria, muito antes do turismo de massa.
Essa riqueza natural foi protegida formalmente em 1964, quando foi criado o Parque Nacional Mount Aspiring / Tititea, um vasto território de mais de 3.500 km² de montanhas, geleiras, vales e floresta nativa que cerca Wanaka pelo norte e pelo oeste. Com o parque, a região se consolidou como uma das grandes portas de entrada para o mundo alpino da Ilha Sul, com trilhas lendárias como a Routeburn (compartilhada com Fiordland), o Rob Roy Glacier ou a subida ao Roys Peak, e com o nome māori Tititea ('pico reluzente') recuperando seu lugar ao lado do europeu.
O reconhecimento da história māori da região deu um salto decisivo em 1998, com o Ngāi Tahu Claims Settlement Act, um dos grandes acordos do Tratado de Waitangi. Esse acordo reparou, ainda que parcialmente, séculos de espoliação: reconheceu formalmente as injustiças sofridas pelos Ngāi Tahu em toda a Ilha Sul, incluiu um pedido de desculpas da Coroa, uma compensação financeira e, algo muito importante para lugares como Wanaka, a restauração de nomes māori e o reconhecimento do vínculo ancestral da iwi com lagos, rios e montanhas. O lago Wānaka e seus arredores deixaram de ser apenas uma paisagem 'descoberta' por colonos para voltar a fazer parte da longa memória dos viajantes do pounamu que o cruzavam rumo à costa do jade.
Durante quase todo o século XX, Wanaka foi exatamente o que sua fama atual promete: um povoado tranquilo. Enquanto a vizinha Queenstown, a uma hora de estrada de montanha, se lançava a construir um império turístico de adrenalina, Wanaka continuou sendo sobretudo um destino de férias de verão das famílias neozelandesas. Os kiwis vinham com suas lanchas e barracas passar as férias de verão à beira do lago, num clima descontraído de bach (a casa de veraneio neozelandesa), pescaria e banhos na água gelada. Era um segredo local, sem aeroporto nem grandes hotéis.
Duas coisas mudaram o destino de Wanaka nas últimas décadas. A primeira foi o esqui: o desenvolvimento das estações de Treble Cone (a maior da Ilha Sul) e Cardrona transformou a região em uma das melhores bases de esportes de inverno do país, atraindo esquiadores e snowboarders da Austrália e do mundo todo, e enchendo o povoado de vida na temporada fria. A segunda foi, simplesmente, a beleza do lugar e as redes sociais: o humilde salgueiro do lago, #ThatWanakaTree, e a vista do Roys Peak viraram imagens virais que deram a volta ao planeta e colocaram Wanaka no mapa de milhões de viajantes.
Hoje Wanaka vive uma tensão conhecida de muitos povoados bonitos: como crescer sem perder a alma. O turismo e a chegada de neozelandeses em busca de qualidade de vida fizeram disparar a população e os preços dos imóveis, e na alta temporada o povoado lota. Mas Wanaka continua defendendo, com certo orgulho, sua identidade de alternativa serena a Queenstown: o lugar aonde se vem para caminhar pelas montanhas do Parque Nacional Mount Aspiring, esquiar, tomar um café de frente para o lago sem pressa. No fundo, continua sendo o que sempre foi: um lugar de passagem obrigatória rumo à beleza, como quando os viajantes do pounamu cruzavam suas margens rumo à costa do jade.