Aoraki/Mount Cook é o teto da Nova Zelândia: uma pirâmide de rocha e gelo de 3.724 metros que se ergue sobre os Alpes do Sul, cercada de geleiras, vales esculpidos pelo gelo e outros 18 picos que passam dos 3.000 metros. É a montanha mais alta e sagrada do país, coração de um parque nacional que faz parte da Área de Patrimônio Mundial Te Wāhipounamu, e uma das paisagens de alta montanha mais impressionantes do hemisfério sul.
Ao pé da montanha, o minúsculo Mt Cook Village é a base para explorar o parque. Daqui sai a trilha mais querida da Nova Zelândia, o Hooker Valley Track, um percurso fácil e espetacular que cruza pontes suspensas e termina diante de um lago glacial onde flutuam icebergs, com Aoraki dominando o horizonte. E quando a noite cai, o parque revela outro tesouro: ele faz parte da Aoraki Mackenzie International Dark Sky Reserve, um dos melhores lugares do planeta para ver as estrelas, a Via Láctea e, às vezes, a aurora austral.
Este guia percorre Aoraki/Mount Cook com um olhar prático: como chegar (não há trem nem aeroporto), quais trilhas fazer de acordo com seu tempo e preparo físico (do tranquilo Hooker Valley ao exigente Mueller Hut), quanto custam o passeio de barco entre icebergs da geleira Tasman e as saídas de observação de estrelas, onde dormir numa vila com pouquíssimas vagas e como aproveitar um dos céus mais escuros e estrelados do mundo. Um destino imperdível da Ilha Sul, sagrado para os maoris e arrebatador para qualquer pessoa.
Para o iwi Ngāi Tahu, Aoraki é o tūpuna (ancestral) mais sagrado: segundo a tradição, era um jovem divino que, junto com seus irmãos, virou pedra quando sua canoa naufragou (a Ilha Sul, Te Waka o Aoraki), e seus corpos formaram os Alpes do Sul, com Aoraki como o pico mais alto. O navegador James Cook deu nome à Nova Zelândia em seus mapas, e a montanha recebeu seu nome em 1851 em sua homenagem. A primeira ascensão ao cume foi em 1894. Em 1953, Edmund Hillary, que se formou nestas montanhas, chegou ao topo do Everest. Depois do acordo com os Ngāi Tahu de 1998, a montanha recebeu seu nome oficial duplo: Aoraki/Mount Cook. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The great plain of the South Island, settled by the Anglican “Canterbury Pilgrims” in 1850 around Christchurch, “the garden city”. Land of Ngāi Tahu, of the roof of the country (Aoraki/Mount Cook) and of the dark skies of Tekapo, marked by the devastating earthquakes of 2010-2011.
Ler a história de Canterbury →Saem de Glaciar Franz Josef, a 31 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para o iwi Ngāi Tahu, o povo maori da Ilha Sul, Aoraki não é só uma montanha: é o tūpuna (ancestral) mais sagrado e venerado, o mais alto e poderoso de todos. A tradição conta uma das histórias fundadoras mais importantes da cultura Ngāi Tahu. Aoraki era um jovem divino, filho do Pai Céu (Raki ou Rakinui), que, junto com os irmãos, desceu do céu numa grande canoa (waka) para visitar Papatūānuku, a Mãe Terra. Ao tentar voltar para o céu, a canoa encalhou num recife e virou. Aoraki e os irmãos subiram na lateral da waka virada e, expostos ao vento gelado do sul, se transformaram em pedra.
Segundo essa história, a própria canoa se transformou na Ilha Sul, que por isso leva o nome de Te Waka o Aoraki, 'a canoa de Aoraki'. Os irmãos transformados em pedra formaram os Alpes do Sul (Kā Tiritiri o te Moana, 'o reflexo das águas'), e Aoraki, o mais velho e mais alto, virou o pico mais elevado de todos: a montanha que hoje leva o seu nome. Por isso Aoraki é tapu (sagrado): é um antepassado, um vínculo direto entre os Ngāi Tahu e suas origens divinas, e a fonte do seu mana (prestígio, poder espiritual).
Essa profunda conexão espiritual explica por que o nome e a montanha são tão importantes para os maoris, e por que o respeito a Aoraki é central. Tradicionalmente, por seu caráter sagrado, não se subia até o cume em respeito ao ancestral. Reconhecer que, antes de ser 'a montanha mais alta da Nova Zelândia' ou um destino de montanhismo, Aoraki é um antepassado sagrado e vivo para todo um povo é o ponto de partida indispensável para contar a sua história.
O primeiro europeu a mapear o litoral da Nova Zelândia foi o capitão James Cook, durante sua primeira grande viagem de exploração do Pacífico, em 1769-1770. Cook não chegou a ver a montanha de perto — navegava pela costa —, mas, décadas depois, seu nome acabaria ligado para sempre ao pico mais alto do país. Em 1851, o capitão John Lort Stokes, do navio de reconhecimento HMS Acheron, batizou a montanha de 'Mount Cook' em homenagem a James Cook, e assim ela ficou registrada nos mapas coloniais, ignorando por completo o nome maori Aoraki, que a montanha tinha havia séculos.
Ao longo do século XIX, com a colonização europeia da Ilha Sul e o desenvolvimento da criação de ovelhas nas vastas planícies do Mackenzie Country (batizadas em referência a James 'Jock' McKenzie, um famoso ladrão de ovelhas escocês da região), a área ao pé da montanha começou a ser explorada e frequentada por pastores, exploradores e, logo depois, pelos primeiros montanhistas e turistas. Em 1884 foi construído o primeiro hotel Hermitage, que se tornaria a base do turismo e do montanhismo alpino em Aoraki.
O montanhismo chegou com força no fim do século XIX. A primeira subida bem-sucedida ao cume do Aoraki/Mount Cook foi feita por três neozelandeses — Tom Fyfe, George Graham e Jack Clarke — em 25 de dezembro de 1894, numa conquista histórica que também teve um toque patriótico: eles queriam chegar ao topo antes de um famoso alpinista europeu que estava a caminho. Desde então, Aoraki virou o grande desafio do alpinismo neozelandês e uma escola de montanhismo de fama mundial, embora a subida continue sendo difícil e perigosa, com inúmeras vítimas ao longo dos anos.
O Aoraki/Mount Cook e os Alpes do Sul ocupam um lugar de honra na história do montanhismo mundial, porque foram a escola onde se formou um dos maiores alpinistas de todos os tempos: Sir Edmund Hillary. Esse neozelandês, nascido em Auckland em 1919, aprendeu e aperfeiçoou suas habilidades de montanha nesses Alpes do Sul, escalando o Aoraki e outros picos do país. Foi aqui que ele construiu a experiência e a resistência que o levariam à sua façanha mais famosa.
Em 29 de maio de 1953, Edmund Hillary e o sherpa nepalês Tenzing Norgay se tornaram os primeiros seres humanos a chegar ao cume do Everest, a montanha mais alta do planeta. Foi uma das grandes conquistas do século XX e catapultou Hillary para a fama mundial. Hillary sempre reconheceu a dívida que tinha com os Alpes do Sul e com o Aoraki, onde tinha se tornado montanhista. Por isso, o museu e centro de interpretação do Mt Cook Village leva o seu nome: o Sir Edmund Hillary Alpine Centre, e uma estátua dele contempla, do vilarejo, a montanha que o formou.
A conexão entre o Aoraki e o Everest é motivo de enorme orgulho para a Nova Zelândia e transforma este parque num lugar de peregrinação para os apaixonados por montanha. Gerações de alpinistas seguiram os passos de Hillary, treinando nesses picos. O Aoraki, com suas paredes de gelo e rocha, seu clima traiçoeiro e sua beleza arrebatadora, continua sendo o grande desafio do montanhismo neozelandês e um símbolo da relação desse país com suas montanhas.
A proteção formal da montanha sagrada chegou em 1953, com a criação do Parque Nacional Aoraki/Mount Cook (no mesmo ano em que Hillary chegou ao topo do Everest), que abrange o cume, as geleiras — incluindo a Tasman, a mais longa do país — e os 18 picos com mais de 3.000 metros que cercam o Aoraki. Em 1990, o parque passou a fazer parte da Área de Patrimônio Mundial Te Wāhipounamu, junto com Fiordland, Westland e Mount Aspiring, reconhecida pela UNESCO por seu valor natural excepcional.
Em 2012, a região recebeu outro reconhecimento internacional que a deixou famosa no mundo inteiro: a criação da Aoraki Mackenzie International Dark Sky Reserve, uma das poucas reservas de céu escuro da categoria máxima (Gold Tier) do planeta, que abrange o parque nacional e o vasto Mackenzie Country (incluindo o Lake Tekapo). Graças à ausência de poluição luminosa, ao ar limpo e seco da alta montanha e a uma política de iluminação cuidadosa, o céu do Aoraki está entre os mais escuros e estrelados da Terra, um tesouro tanto para a astronomia profissional quanto para os visitantes que vêm se encantar com a Via Láctea e as estrelas do hemisfério sul.
Um marco fundamental da história recente foi o reconhecimento oficial do nome maori. Por mais de um século, a montanha foi apenas 'Mount Cook' nos documentos oficiais. Mas depois do histórico Ngāi Tahu Claims Settlement Act de 1998 — que resolveu as longas e justas reivindicações do iwi pelos injustos confiscos de terras do século XIX, com um pedido formal de desculpas da Coroa —, a montanha recebeu seu nome oficial duplo: Aoraki/Mount Cook, com Aoraki em primeiro lugar. Foi um gesto de enorme significado, que devolveu à montanha seu nome ancestral e reconheceu a condição sagrada do ancestral para os Ngāi Tahu.
Hoje, o Aoraki/Mount Cook é ao mesmo tempo a montanha sagrada dos maoris, o teto da Nova Zelândia, uma meca do montanhismo, um Patrimônio Mundial e uma das melhores janelas para o cosmos do planeta. Para o viajante, saber que essa pirâmide de rocha e gelo é, para todo um povo, um antepassado divino transformado em pedra, e que o seu céu estrelado é um dos mais limpos do mundo, transforma uma caminhada pelo vale Hooker ou uma noite olhando a Via Láctea em algo muito mais profundo do que uma simples foto de uma montanha bonita.