Milford Sound —Piopiotahi em te reo māori— é, para muita gente, o lugar mais espetacular de toda a Nova Zelândia, e não é exagero de folheto: o escritor Rudyard Kipling o chamou de 'a oitava maravilha do mundo'. Imagine um fiorde esculpido por geleiras onde penhascos verticais de mais de 1.200 metros despencam direto na água escura, coroados pelo pico Mitre (Rahotu), e onde, depois da chuva, surgem do nada centenas de cachoeiras escorrendo pelos paredões de rocha. É uma paisagem que parece feita para te deixar sem palavras.
O coração da experiência é o cruzeiro pelo fiorde, de uma ou duas horas, que te leva até a boca do mar da Tasmânia e de volta, passando sob cachoeiras permanentes como Stirling e Bowen, com focas tomando sol nas rochas, golfinhos e, às vezes, pinguins-de-fiordland. Mas a viagem começa muito antes: a Milford Road (SH94), a partir de Te Anau, é uma das estradas cênicas mais bonitas do planeta, com lagos espelhados, vales glaciais e o drama do Homer Tunnel escavado na rocha.
Este guia explica tudo o que é prático e verificado: quanto custa cada tipo de cruzeiro, como chegar a partir de Queenstown ou Te Anau (e por que vale a pena dormir perto), quando ir —inclusive por que a chuva pode ser uma bênção—, o que levar para um lugar sem posto de gasolina nem sinal, e como respeitar este fiorde sagrado para o povo Ngāi Tahu. Para que a sua visita a Piopiotahi seja tão épica quanto o lugar merece.
Milford Sound é Piopiotahi para o povo Ngāi Tahu, tangata whenua da Ilha Sul. O nome lembra um piopio, uma ave hoje extinta que, segundo a tradição, voou até o fiorde em luto após a morte do herói Māui. Os māori o usavam como corredor sazonal e vinham buscar takiwai, uma variedade de pounamu (jade), em Anita Bay. O caçador de focas galês John Grono o batizou de Milford Haven em 1823, em homenagem à sua terra natal no País de Gales; o escocês Donald Sutherland foi o primeiro colono europeu, em 1877. Em 1998, como parte do acordo do Tratado de Waitangi com os Ngāi Tahu, recuperou seu nome duplo oficial Milford Sound / Piopiotahi. A história completa —Piopiotahi, o pounamu, Grono, Sutherland e o Homer Tunnel— está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Murihiku, “the last joint of the tail”: the far south of the country, land of Kāi Tahu, of the first sealers and whalers, and of the vast, untouched Fiordland National Park, with sublime Milford Sound. Offshore lies remote Stewart Island (Rakiura), realm of the wild kiwi and the southern lights.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes que qualquer europeu pusesse os pés — ou um remo — nestas águas negras, o fiorde já tinha um nome carregado de tristeza e de mito: Piopiotahi. Para o povo Ngāi Tahu, a principal iwi (tribo) da Ilha Sul e tangata whenua (donos da terra) de toda Fiordland, este lugar guarda uma das histórias mais poéticas de sua cosmologia. 'Piopiotahi' significa, literalmente, 'um único piopio'. O piopio era uma ave nativa parecida com um sabiá, hoje infelizmente extinta. Segundo a tradição, quando o grande herói e semideus Māui morreu tentando conquistar a imortalidade para a humanidade, um único piopio voou até este fiorde remoto para chorar sua morte. O nome é, portanto, um monumento ao luto pelo sonho impossível de vencer a morte.
Os Ngāi Tahu não viviam de forma permanente no fiorde — o clima é extremo e a chuva, brutal —, mas o conheciam intimamente e o usavam como um corredor sazonal. Chegavam por mar e por terra em busca de recursos e, sobretudo, de um tesouro: o pounamu (jade ou greenstone), o material mais sagrado da cultura māori. Em Anita Bay, perto da boca do fiorde, havia um afloramento de takiwai, uma variedade translúcida de pounamu muito valorizada para pingentes e adornos. As rotas de comércio do jade cruzavam toda a Ilha Sul, e este canto selvagem era um de seus pontos-chave.
Não é por acaso que o fiorde leva hoje oficialmente o nome duplo de Milford Sound / Piopiotahi. Em 1998, depois de anos de reivindicações, o governo neozelandês assinou com os Ngāi Tahu um histórico acordo do Tratado de Waitangi que, entre muitas reparações, restaurou os nomes māori de cerca de 90 lugares da Ilha Sul, reconhecendo finalmente a profundidade da conexão entre esta iwi e sua terra. Piopiotahi voltou a aparecer nos mapas ao lado do nome europeu e, com ele, a memória do pássaro em luto.
Curiosamente, um dos fiordes mais impressionantes do mundo passou quase despercebido pelos primeiros exploradores europeus. James Cook, que percorreu esta costa em 1770 e 1773, navegou em frente à entrada de Milford, mas não entrou: a boca do fiorde é estreita e enganosa e, vista do mar, parece uma simples fenda nos penhascos. Cook seguiu adiante, sem suspeitar da maravilha que se escondia lá atrás.
O primeiro europeu de que se tem registro a entrar de fato foi o caçador de focas galês John Grono, por volta de 1823. Grono, que vinha das ilhas do Pacífico perseguindo focas, encontrou abrigo no fiorde e o batizou de Milford Haven, em homenagem a Milford Haven, o porto de seu País de Gales natal. Com o tempo, o nome virou Milford Sound. Durante décadas, o fiorde continuou sendo território quase exclusivo de caçadores de focas e baleeiros que aproveitavam seu abrigo natural.
Quem deu um rosto humano a Milford foi Donald Sutherland, um aventureiro escocês de vida digna de romance — tinha sido soldado e caçador de fortuna — que em 1877 se instalou no fiorde disposto a viver na solidão. Ficou conhecido como 'o eremita de Milford'. Sutherland explorou a região, descobriu as espetaculares cachoeiras que hoje levam seu nome (Sutherland Falls, entre as mais altas do país) e, junto com o guia Quintin McKinnon, começou a levar os primeiros turistas pelo que se tornaria a célebre Milford Track. No fim do século XIX, as histórias sobre a beleza sobrenatural de Piopiotahi já corriam o mundo e chegaram até aos ouvidos de Rudyard Kipling, que a consagrou como 'a oitava maravilha do mundo'.
Durante quase toda a sua história moderna, só era possível chegar a Milford Sound a pé, pela extenuante Milford Track de vários dias, ou por mar. Chegar de carro era impossível: entre o mundo habitado e o fiorde erguia-se a muralha da cordilheira Darran, sem passagem possível. A ideia de abrir uma estrada parecia loucura, até que um homem ficou obcecado por ela.
Em 1889, foi identificado um ponto onde a montanha era mais 'fina': o divisor entre os vales do rio Hollyford e do rio Cleddau. Mas só em 1935, em plena Grande Depressão, o governo neozelandês colocou em marcha o projeto de atravessá-la com um túnel, em parte como plano de trabalho para desempregados. A obra foi épica e trágica. Turmas de homens começaram a escavar o granito duríssimo à mão, com picaretas, pás e explosivos, vivendo em acampamentos isolados sob chuvas torrenciais e avalanches que mataram vários trabalhadores. O avanço era de poucos metros por mês.
O Homer Tunnel — batizado assim em homenagem a William Homer, um dos primeiros a propor a rota — levou 19 anos para ficar pronto. Interrompido pela Segunda Guerra Mundial e pelas condições brutais, só foi aberto ao tráfego em 1954: 1,2 km de túnel escuro, estreito e em declive, escavado no coração da montanha. De repente, Milford Sound ficou ligado por estrada a Te Anau e ao resto do país, e o fiorde deixou de ser privilégio de caminhantes e marinheiros para se tornar acessível a qualquer um com um carro.
O túnel mudou Milford para sempre, mas não o domou por completo: continua sendo de mão única controlada por semáforos, a estrada que leva até ele costuma fechar no inverno por risco de avalanches, e o fiorde mantém seu caráter selvagem. Cada visitante que hoje atravessa o Homer Tunnel em poucos minutos passa, sem saber, sobre o esforço e as vidas dos homens que abriram caminho na montanha.
O século XX transformou Milford Sound de segredo de exploradores em um dos ícones turísticos da Nova Zelândia, mas também trouxe uma consciência crescente de que era preciso protegê-lo. Em 1952 foi criado o Parque Nacional Fiordland, hoje o maior do país, com mais de 12.500 km², um território imenso de fiordes, montanhas, lagos e floresta temperada quase virgem. Milford é apenas o seu canto mais famoso e acessível.
O reconhecimento culminou em 1990, quando Fiordland passou a fazer parte de Te Wāhipounamu – South West New Zealand, uma área declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO por seus valores naturais excepcionais: paisagens glaciais de importância mundial, florestas antigas e espécies únicas como o kea (o papagaio alpino mais inteligente do mundo), o takahē (uma ave que se acreditava extinta e foi redescoberta em Fiordland em 1948) e o raro pinguim-de-fiordland. O nome 'Te Wāhipounamu' significa 'o lugar do pounamu', uma referência direta à conexão ancestral māori com esta terra.
Hoje Milford Sound / Piopiotahi recebe entre meio milhão e um milhão de visitantes por ano, o que traz um desafio enorme: como compartilhar um lugar tão frágil e sagrado com tanta gente sem estragá-lo. Discutem-se limites ao número de barcos, melhorias na estrada e uma gestão que respeite tanto a natureza quanto os valores Ngāi Tahu. A iwi, parceira na administração da área, defende uma visão de 'reimaginar Piopiotahi' que coloque no centro a história e a espiritualidade māori do fiorde, e não apenas o seu cartão-postal. Porque por trás do pico Mitre e das cachoeiras há uma história muito mais profunda: a do pássaro que voou até aqui para chorar, a do jade sagrado, a dos homens que cavaram uma montanha e a de um lugar que continua nos lembrando como somos pequenos diante da natureza.