Hokitika é a essência selvagem e criativa da Costa Oeste: uma cidadezinha entre o mar da Tasmânia e os Alpes do Sul, com uma praia de troncos prateados varridos pelas ondas, pores do sol incendiários e um letreiro gigante de driftwood escrito 'HOKITIKA', onde todo mundo tira foto. É a capital mundial do pounamu (o jade neozelandês), e suas ruas principais estão cheias de galerias e ateliês onde dá para ver os escultores trabalhando a pedra sagrada dos māori.
O grande ímã natural da região é a Hokitika Gorge, um cânion a meia hora da cidade onde o rio desce com uma cor turquesa leitosa, tingida pela 'farinha de rocha' glacial dos Alpes; uma ponte pênsil e uma trilha fácil em meio à mata nativa fazem dele um dos cartões-postais mais fotografados da Costa Oeste. Somam-se a isso o glowworm dell (uma gruta gratuita de vaga-lumes na beira da cidade), o Treetop Walk sobre a copa da floresta e o National Kiwi Centre.
Hokitika surgiu de repente durante a corrida do ouro de 1865, quando chegou a ser a cidade mais populosa da Nova Zelândia, com mais de 100 bares e um porto tão movimentado quanto perigoso, coalhado de naufrágios. Mas muito antes disso já era um centro milenar de extração e trabalho do pounamu para os māori de Poutini Ngāi Tahu. Hoje é um lugar tranquilo, artístico e autêntico, perfeito como parada na rota da Costa Oeste ou como destino em si para quem busca jade, natureza e boa comida selvagem.
A foz do rio Hokitika foi durante séculos um centro māori de extração e trabalho do pounamu (jade), a pedra sagrada do povo Poutini Ngāi Tahu, protegida pelo taniwha Poutini. Em 1860, os chefes assinaram o Arahura Deed, vendendo quase 3 milhões de hectares da Costa Oeste à Coroa por 300 libras. Em 1864-1865, a descoberta de ouro transformou a cidade na mais populosa do país, com um porto febril e perigoso onde dezenas de navios naufragaram. A história completa, do jade māori à corrida do ouro, está na página de história.
Ler a história completa ↓The wild western coast of the South Island, ancestral home of Ngāi Tahu pounamu (greenstone), transformed by the 1864 gold rush and by coal. A remote rainforest shoreline where the Franz Josef and Fox glaciers come down almost to the sea, and where the stacked rocks of Punakaiki stand.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir um povoado, antes do ouro e dos navios, a foz do rio Hokitika já era um dos lugares mais importantes da Ilha Sul. Durante séculos, esta costa foi o coração do pounamu, o jade verde que só é encontrado na vertente ocidental dos Alpes, e cujo nome -Te Waipounamu, 'as águas do jade'- batiza toda a Ilha Sul.
A história do pounamu é contada por meio de Poutini, o taniwha guardião, um ser sobrenatural que percorre as águas desta costa protegendo o mauri, a força vital, da pedra. Segundo a tradição, Poutini se apaixonou por uma mulher, Waitaiki, e fugiu com ela rumo ao sul; perseguido, transformou-a em pounamu e a deixou no leito do rio Arahura, logo ao norte de Hokitika. Por isso o Arahura guarda o jade mais fino, e por isso os māori desta costa se chamam Poutini Ngāi Tahu, em homenagem ao taniwha. O grupo local, Ngāti Waewae, é até hoje o guardião (kaitiaki) destas terras e da sua pedra.
O pounamu não era uma simples mercadoria: era taonga, tesouro herdado, com nome e genealogia próprios. Era esculpido em enxós, anzóis, armas cerimoniais (mere) e pingentes (hei-tiki, koru), e viajava por rotas comerciais que cruzavam os Alpes rumo ao leste e ao norte da ilha. A foz do Hokitika era um centro de extração e trabalho da pedra, um lugar de conhecimento acumulado ao longo de gerações. Quando os europeus chegaram, não encontraram um vazio: encontraram uma economia milenar do jade que eles mal começavam a entender.
A primeira grande mudança não veio com o ouro, e sim com um documento. Em 1860, os chefes de Poutini Ngāi Tahu assinaram o chamado Arahura Deed, pelo qual vendiam à Coroa quase toda a Costa Oeste -cerca de três milhões de hectares- com exceção de pequenas reservas para os māori. O preço: 300 libras.
O valor, irrisório até para a época, reflete o padrão de espoliação que marcou as compras de terras na Ilha Sul. A Coroa adquiriu territórios imensos por quantias mínimas e com promessas de reservas, escolas e hospitais que em grande parte nunca foram cumpridas. Os Ngāi Tahu passariam mais de um século reivindicando justiça por esses acordos, numa das queixas mais longas da história neozelandesa, até o acordo do Tratado de Waitangi de 1998, que reconheceu formalmente as injustiças e ofereceu uma reparação.
Há, no entanto, uma exceção notável nessa história de perdas. O pounamu -a pedra que deu identidade e sustento a esses povos- foi recuperado legalmente em 1997, quando a Ngāi Tahu (Pounamu Vesting) Act devolveu ao iwi a propriedade de todo o jade em estado natural do seu território tribal. A pedra sagrada de Poutini voltou, pelo menos em termos legais, às mãos de seus guardiões. É por isso que o jade autêntico vendido hoje em Hokitika está ligado aos Ngāi Tahu, e comprar em ateliês sérios é parte de respeitar essa história.
Tudo mudou com um brilho. Em 1864, dois māori -Ihaia Tainui e Haimona Taukau- encontraram ouro perto do rio Taramakau, e a notícia desencadeou uma das corridas do ouro mais frenéticas da história neozelandesa. No fim daquele ano já havia cerca de 1.800 garimpeiros na Costa Oeste, e em 1865 chegou uma avalanche de mineiros e comerciantes do mundo todo. Uma cidade inteira brotou do nada na foz do Hokitika em questão de meses.
O número é impressionante: em 1866, Hokitika era o assentamento mais populoso da Nova Zelândia, com mais de 25.000 pessoas, mais de 100 bares e um porto fervilhando de atividade. Entre 1864 e 1867, uns 37.000 garimpeiros entraram pelo seu porto, e ruas de lama se encheram de hotéis, teatros, bancos e jornais praticamente da noite para o dia. Era o coração do boom aurífero da Costa Oeste (a West Coast Gold Rush), uma sociedade instantânea, cosmopolita e caótica, com uma forte presença irlandesa que deixou sua marca até hoje.
Mas a riqueza tinha um preço brutal. O porto de Hokitika, na boca de um rio traiçoeiro cheio de bancos de areia, foi ao mesmo tempo o mais movimentado e o mais perigoso do país: entre 1865 e 1867 foram registrados 108 encalhes e 32 navios perdidos. Os naufrágios eram tão frequentes que viraram parte da paisagem. O ouro fácil se esgotou rápido, como em todas as corridas do ouro, e a população despencou tão depressa quanto havia crescido; muitos seguiram para novas jazidas, deixando para trás uma cidade que tinha sido, por um instante, a maior da Nova Zelândia.
Quando o ouro acabou, Hokitika precisou se reinventar. A economia se voltou para a madeira nativa -rimu, kahikatea- que abundava na floresta da Costa Oeste, para a pecuária e para o trabalho com o pounamu, que nunca deixou de ser a marca registrada da região. O porto, antes febril, foi perdendo importância à medida que a ferrovia e as estradas conectavam melhor a costa, e a cidade se acomodou num ritmo tranquilo de comunidade pequena e isolada, com aquele caráter independente e calejado que define os 'Coasters', os moradores da Costa Oeste.
O prédio da torre do relógio, os antigos bancos e armazéns da rua Tancred, o cais histórico e os vestígios do porto são testemunhas da era dourada. A cidade conservou seu traçado de vila mineira e sua escala humana, enquanto a floresta e o mar continuavam ditando o ritmo da vida. Longe das grandes rotas turísticas do século XX, Hokitika manteve uma autenticidade que muitos outros lugares perderam.
O jade, enquanto isso, viveu um novo florescimento. Ao longo do século XX, Hokitika se consolidou como o centro da arte do pounamu na Nova Zelândia, com gerações de escultores -māori e pakeha- que mantiveram viva a tradição de trabalhar a pedra. As galerias do centro, onde dá para ver os artistas dando forma ao jade, são herdeiras diretas de um ofício milenar que começou com os Poutini Ngāi Tahu.
A Hokitika contemporânea vive do seu caráter: uma cidade pequena, criativa e selvagem, que fez do isolamento uma virtude. A praia de troncos prateados, com o enorme letreiro de driftwood e os pores do sol mais espetaculares do país sobre o mar da Tasmânia, virou uma imagem icônica da Nova Zelândia. No verão, o concurso de esculturas Driftwood & Sand transforma a areia numa galeria a céu aberto.
O grande evento do ano é o Wildfoods Festival, todo segundo sábado de março, um festival de comida selvagem onde se provam larvas de huhu, frutos do mar raros e ingredientes extremos, entre música e fantasias; nascido em 1990 como uma celebração pequena, hoje atrai mais de 10.000 pessoas e colocou Hokitika no mapa nacional. Some-se a isso atrações que quase não custam nada, como o Glow-worm Dell, uma gruta de vaga-lumes na beira da cidade, ou a deslumbrante Hokitika Gorge, com seu rio turquesa leitoso tingido pela farinha de rocha glacial.
Por trás do cartão-postal, a história continua viva. Os Ngāti Waewae, o hapū local dos Ngāi Tahu, reafirmaram seu papel de guardiões da terra e do pounamu, e o jade esculpido e vendido hoje em Hokitika carrega a genealogia de Poutini e Waitaiki. A cidade que foi capital efêmera do ouro, porto de naufrágios e centro milenar do jade condensa, em poucos quarteirões à beira-mar, várias das grandes histórias da Ilha Sul: a do taniwha guardião, a da espoliação e da reparação, e a de uma comunidade que aprendeu a florescer à beira da floresta mais chuvosa do país.