Arthur's Pass é o coração alpino da Ilha Sul: uma passagem de montanha a 920 metros onde a Great Alpine Highway cruza os Alpes do Sul e, ao mesmo tempo, uma minúscula vila de montanha cercada pelo parque nacional mais antigo da Ilha Sul. É o ponto onde o clima seco e dourado de Canterbury se encontra com a floresta temperada e chuvosa da Costa Oeste, e onde o trem panorâmico TranzAlpine faz sua parada mais fotogênica, entre viadutos, desfiladeiros e faias cobertas de neve.
O vilarejo é só um punhado de casas, uma cafeteria-loja, uma estação de trem e um centro de visitantes do DOC (Department of Conservation), mas ao redor se abre um dos melhores territórios de trekking do país: a cachoeira Devils Punchbowl, com 131 metros, o vale Bealey, o exigente cume do Avalanche Peak e dezenas de rotas alpinas. É também um dos poucos lugares do mundo onde você vai cruzar com o kea, o único papagaio alpino do planeta, tão inteligente quanto travesso.
Chegar no TranzAlpine, uma das grandes viagens de trem do mundo, já é uma experiência por si só: você sai de Christchurch, cruza a planície de Canterbury, atravessa desfiladeiros e viadutos e chega à vila cercada de picos. Seja como bate-volta a partir de Christchurch, como parada no caminho para as geleiras da Costa Oeste ou como base para vários dias de trilha, Arthur's Pass é imperdível no interior alpino da Nova Zelândia.
Essa passagem de montanha era uma rota ancestral dos māori Ngāi Tahu para transportar o pounamu (jade) da Costa Oeste para o leste; seu nome tradicional está associado às trilhas de Poutini, o taniwha guardião do jade. Em 1864, o engenheiro Arthur Dobson, guiado pelo conhecimento māori, a 'redescobriu' para os colonos, e durante a corrida do ouro da Costa Oeste foi aberta uma rota de diligências que em 1923 se tornou a linha de trem que hoje o TranzAlpine percorre. O parque nacional, criado em 1929, foi o terceiro da Nova Zelândia. A história completa, do jade māori ao trem panorâmico, está na página de história.
Ler a história completa ↓The great plain of the South Island, settled by the Anglican “Canterbury Pilgrims” in 1850 around Christchurch, “the garden city”. Land of Ngāi Tahu, of the roof of the country (Aoraki/Mount Cook) and of the dark skies of Tekapo, marked by the devastating earthquakes of 2010-2011.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de um engenheiro lhe dar um nome inglês, esta passagem alpina já era uma rodovia. Para os māori de Ngāi Tahu, e para os povos que vieram antes deles na Ilha Sul, Te Waipounamu, as dobras dos Alpes do Sul não eram uma barreira, e sim uma rede de rotas conhecidas, percorridas durante séculos para transportar o tesouro mais precioso do país: o pounamu, o jade verde que só se encontra na Costa Oeste.
O nome māori do próprio jade, Te Waipounamu ('as águas do pounamu'), dá nome a toda a Ilha Sul, e sua origem é contada na história de Poutini, o taniwha guardião que percorre a Costa Oeste protegendo o mauri, a força vital, da pedra. Os rios da vertente ocidental, como o Arahura e o Taramakau, eram as fontes do jade, e as trilhas que cruzavam o divisor de águas alpino, como esta passagem, serviam para levá-lo até os assentamentos do leste. Lá ele era trabalhado e virava enxós, anzóis, armas e hei-tiki. O pounamu era ao mesmo tempo moeda, herança e objeto sagrado. Controlar suas rotas era controlar o poder.
A passagem que hoje chamamos de Arthur's era um desses corredores. Não era uma rota confortável nem muito movimentada. As expedições de caça e comércio a usavam de vez em quando, como o chefe Tarapuhi contaria mais tarde aos agrimensores europeus. Mesmo assim, fazia parte de um conhecimento do território apurado ao longo de gerações. Quando os primeiros colonos 'descobriram' a passagem, na verdade estavam sendo guiados por esse saber ancestral. A montanha nunca esteve vazia: estava mapeada na memória de quem a tinha percorrido muito antes.
No início da década de 1860, a jovem província de Canterbury tinha um problema urgente. Na Costa Oeste, do outro lado dos Alpes, tinham descoberto ouro, e milhares de garimpeiros chegavam pelo mar a um litoral selvagem e isolado. Canterbury precisava de uma rota por terra para ligar Christchurch às jazidas e não perder esse comércio para outras províncias.
Em 1864, o agrimensor-chefe de Canterbury, Thomas Cass, encarregou o jovem engenheiro Arthur Dudley Dobson (1841-1934) de procurar uma passagem da bacia do rio Waimakariri até a Costa Oeste. Foi o chefe māori Tarapuhi quem lhe mostrou onde ficava a passagem que os grupos māori usavam. Acompanhado pelo irmão Edward, Arthur Dobson cruzou o divisor de águas e desceu até o vale do rio Otira. A passagem ganharia o nome dele. Quando a corrida do ouro explodiu com toda a força naquele mesmo ano, a província ofereceu uma recompensa de 200 libras a quem encontrasse a melhor travessia direta. Outro dos Dobson, George, avaliou várias passagens e confirmou que a de Arthur era, de longe, a mais adequada.
O que veio depois foi uma façanha de engenharia vertiginosa. Em apenas um ano, equipes de centenas de operários abriram na picareta e na pá uma estrada para diligências sobre a passagem. Inaugurada em 1866, ela levava passageiros, correspondência e mercadorias entre Christchurch e os campos auríferos da Costa Oeste. As diligências puxadas a cavalo atravessavam um terreno brutal, com rios cheios e ladeiras assustadoras. Durante décadas, essa estrada foi o cordão umbilical entre os dois lados da ilha, e o pequeno povoado da passagem, então chamado Bealey Flats, viveu no ritmo do ouro e das diligências.
O século XX trouxe a ambição da ferrovia. Ligar Canterbury à Costa Oeste de trem exigia perfurar a montanha, e a obra escolhida, o túnel de Otira, virou uma das epopeias de engenharia mais duras da história da Nova Zelândia. Os trabalhos começaram em 14 de janeiro de 1908, e o povoado de Arthur's Pass, que tinha nascido como acampamento de diligências, se transformou em vila de construção do projeto.
O túnel de Otira, de 8,5 quilômetros, atravessaria o divisor de águas dos Alpes do Sul em um declive acentuado. A construção foi desesperadoramente lenta: rocha dura, infiltrações de água e a Primeira Guerra Mundial, que levou os operários e encareceu os materiais. A ferrovia chegou à vila de Arthur's Pass em 1914, mas o túnel só foi concluído em 1923, quinze anos depois do início. Quando finalmente foi inaugurado, era um dos túneis ferroviários mais longos do Império Britânico e do hemisfério sul, e era eletrificado por causa do declive forte e da ventilação.
É por essa linha que hoje passa o TranzAlpine, considerado uma das grandes viagens de trem do mundo. O passageiro de hoje, que cruza confortavelmente em um vagão panorâmico, raramente imagina o preço humano dos trilhos sob seus pés: décadas de trabalho, vidas perdidas, famílias inteiras que viveram e morreram nesses acampamentos de montanha para unir os dois litorais. A natureza também não deu trégua. Em 9 de março de 1929, um terremoto de magnitude 7,1 sacudiu Arthur's Pass, danificou a linha e fechou estradas, um lembrete de que esses Alpes continuam vivos e em movimento.
Em 1929, o mesmo ano do grande terremoto, Arthur's Pass foi declarado parque nacional pelo governador-geral, o terceiro da Nova Zelândia depois de Tongariro e Egmont. A declaração reconhecia o que caminhantes, cientistas e montanhistas já sabiam: que essa travessia alpina guardava um mundo natural extraordinário, com florestas de faias-do-sul, campos alpinos de ranúnculos gigantes, geleiras e uma fauna única.
O símbolo do parque é o kea, o único papagaio alpino do mundo, verde-oliva com reflexos laranja embaixo das asas e uma inteligência impressionante. Os kea fascinavam e ao mesmo tempo irritavam os colonos. Durante décadas foram caçados sob a acusação de atacar ovelhas, com recompensas pagas por seus bicos, até que a ciência mostrou o quanto eram valiosos e raros. Hoje estão protegidos e ameaçados de extinção, com apenas alguns milhares em liberdade, e em Arthur's Pass são as estrelas travessas que abrem mochilas e arrancam as borrachas dos carros nos estacionamentos.
Ao longo do século XX, o parque virou um centro de montanhismo e trilhas, com uma rede de cabanas (huts) do DOC, rotas clássicas como Avalanche Peak e o Bealey Valley, e um centro de visitantes que hoje é um dos mais completos do país. A montanha que antes se atravessava o mais rápido possível passou a ser um destino em si: um lugar para parar, caminhar e olhar.
O último grande capítulo de engenharia chegou em 1999, com a inauguração do viaduto de Otira, uma estrutura de 440 metros que vence a encosta ocidental da passagem, famosa pela instabilidade e pelos deslizamentos. Antes do viaduto, a descida até Otira era um dos trechos de estrada mais temidos da Nova Zelândia, com desmoronamentos frequentes que bloqueavam a rota. Hoje o viaduto é uma parada clássica para fotos na Great Alpine Highway, quase sempre com algum kea pousado em cima dos carros.
Em 1998, o Tratado de Waitangi teve aqui um eco tardio, mas importante: o Ngāi Tahu Claims Settlement Act reconheceu as injustiças históricas sofridas por Ngāi Tahu, o iwi da Ilha Sul. As terras do povo, incluindo essas passagens e as fontes de pounamu, tinham sido compradas pela Coroa no século XIX por valores irrisórios e com promessas que nunca foram cumpridas. Um ano antes, a Ngāi Tahu (Pounamu Vesting) Act de 1997 devolveu a Ngāi Tahu a propriedade legal de todo o pounamu em estado natural do seu território tribal. O jade que antigamente cruzava essas passagens voltou, em termos legais, às mãos de seus guardiões ancestrais.
O Arthur's Pass de hoje é ao mesmo tempo uma vila minúscula, um parque nacional venerado e uma travessia histórica onde convivem várias camadas de tempo: as trilhas do pounamu de Ngāi Tahu, as diligências do ouro, o heroico túnel de Otira, o parque de 1929 e o viaduto moderno. Quem cruza no TranzAlpine, ou quem sobe a pé até Avalanche Peak, percorre não só uma paisagem, mas uma história de conexões entre dois litorais, entre povos e montanhas, que começou muito antes de existir qualquer mapa.