Kotor é um dos cartões-postais mais impressionantes do Adriático: uma cidade medieval de pedra encaixada no fundo da baía de Kotor, entre montanhas que despencam sobre um mar de um azul intenso. Suas muralhas — quase 4,5 km de fortificações venezianas — não cercam só o centro histórico: elas sobem pela encosta do monte São João até uma fortaleza a 260 metros de altura, desenhando uma das silhuetas mais reconhecíveis da Europa. Durante quase quatro séculos foi Cattaro, uma cidade da República de Veneza, e todo o conjunto é Patrimônio da Humanidade da UNESCO desde 1979.
O programa principal é subir à fortaleza de São João (Sveti Ivan) pelas muralhas: cerca de 1.350 degraus de subida, com vistas cada vez mais amplas dos telhados vermelhos do centro histórico, da baía em forma de ferradura e dos cruzeiros ancorados lá embaixo. Dentro das muralhas, um labirinto de vielas e pracinhas de mármore esconde a catedral românica de São Trifão (de 1166), as igrejas ortodoxas de São Lucas e São Nicolau, o Museu Marítimo e dezenas de cafés e palácios venezianos. Do lado de fora, a baía convida a um passeio de barco até Perast e a ilhota de Nossa Senhora das Rochas.
Este guia percorre Kotor com um olhar prático e honesto: como chegar (por Tivat, de ônibus pelo litoral ou de balsa pela boca da baía), quanto custa de verdade subir à fortaleza, como fugir da multidão dos cruzeiros ao meio-dia, o que ver além da muralha e como usar Kotor como base para descobrir toda a Boka Kotorska e o interior de Montenegro. Uma cidade pequena, mas com uma história real fascinante, marcada por Veneza, pelos terremotos e por uma relação secular com o mar.
Kotor nasceu sobre um assentamento ilírio e romano chamado Acruvium, no fundo da baía. Na Idade Média foi cidade autônoma sob Bizâncio e depois, entre 1186 e 1371, fez parte do reino medieval sérvio, quando viveu uma época de esplendor comercial e cultural. Após breves períodos de independência e de domínio húngaro, em 1420 se entregou à República de Veneza, que a governou como Cattaro por quase quatro séculos (até 1797) e ergueu a maior parte das muralhas, igrejas e palácios que vemos hoje. Resistiu a cercos otomanos (1538, 1657) e sobreviveu a terremotos devastadores, sobretudo o de 1667. Com a queda de Veneza, passou para a Áustria, para a breve ocupação napoleônica e de novo para o Império Austro-Húngaro, até se integrar à Iugoslávia após a Primeira Guerra Mundial. Em 15 de abril de 1979, um forte terremoto danificou gravemente o centro histórico e a catedral de São Trifão; nesse mesmo ano a UNESCO inscreveu Kotor e sua baía no Patrimônio da Humanidade e na lista do patrimônio em perigo, da qual saiu após uma restauração exemplar em 2003. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Kotor nasceu onde a montanha mergulha no mar. No canto mais profundo da baía de Kotor, protegido por paredões de rocha de mais de mil metros, houve assentamentos humanos desde tempos muito antigos. O cume do monte São João (Sveti Ivan), que hoje é coroado pela fortaleza, já era fortificado na época ilíria, quando estas costas eram domínio de tribos como os enqueleus e, mais tarde, do reino ilírio que Roma acabaria submetendo. Os ilírios da região eram navegadores habilidosos e, segundo as fontes antigas, piratas temidos do Adriático, uma fama favorecida pela geografia de enseadas escondidas da Boka.
Os romanos incorporaram a área à província da Dalmácia e fundaram ou refundaram aqui uma localidade chamada Acruvium (às vezes Ascrivium), citada por geógrafos antigos como Plínio, o Velho. Situada num ponto estratégico do fundo da baía, um bom refúgio natural para os barcos, a cidade romana foi o embrião da Kotor posterior. Com a divisão do Império, esta costa ficou na órbita do Império Bizantino, e a baía — difícil de atacar, fácil de defender — se consolidou como praça-forte. Daqueles séculos restam poucos vestígios visíveis, mas a lógica do lugar já estava escrita: uma cidade colada à água, guardada por muralhas que subiam a montanha, vivendo do mar.
Durante a Alta Idade Média, Kotor foi uma cidade marítima que soube manobrar entre potências. Nos séculos IX e X, aparece como uma comunidade autônoma sob a soberania nominal de Bizâncio, com seu próprio bispo e uma vida comercial cada vez mais intensa. A cidade negociava com as repúblicas italianas, com Dubrovnik (Ragusa) — sua eterna rival e vizinha — e com o interior dos Bálcãs, de onde chegavam prata, cera, couros e outros produtos que ela reexportava por mar.
Entre 1186 e 1371, Kotor fez parte do reino medieval sérvio da dinastia Nemanjić, e essa etapa foi uma das mais brilhantes da sua história. Sob reis como Estêvão Nemanja e seus sucessores, a cidade manteve amplas liberdades, seu próprio estatuto e sua administração, em troca de lealdade e de servir como principal saída para o mar do Estado sérvio. Prosperaram o comércio, a ourivesaria e a construção: é dessa época a consagração, em 1166, da catedral românica de São Trifão, dedicada ao santo cujas relíquias a cidade venerava desde o século IX e que se tornou seu padroeiro e símbolo. Kotor cunhava moeda, tinha notários e estatutos escritos, e sua frota crescia. Após a desintegração do Império Sérvio, a cidade passou pelas mãos de nobres bósnios e húngaros e por breves períodos de autonomia, sempre buscando o protetor que melhor garantisse seu comércio e sua liberdade. Esse equilíbrio se romperia em favor de uma potência marítima com a qual Kotor compartilhava cultura e horizonte: Veneza.
Em 1420, ameaçada pelos otomanos e pelos vizinhos, a cidade se entregou voluntariamente à República de Veneza, que a governaria — com o nome italiano de Cattaro — até 1797, quase quatro séculos. Foi o período que deu a Kotor seu rosto atual. Veneza integrou a cidade à sua província da Albânia Veneziana e a transformou em uma praça-forte de primeira linha diante do avanço turco. Os engenheiros venezianos ergueram e reforçaram a maior parte das fortificações que hoje admiramos: os quase 4,5 km de muralhas que cercam o centro histórico e sobem até a fortaleza de São João, os portões monumentais e os bastiões. Sobre a Porta do Mar e em muitos edifícios aparece o leão alado de São Marcos, emblema da Sereníssima.
Sob Veneza, Kotor e toda a baía viveram uma era de ouro marítima. As famílias nobres construíram os palácios de pedra lavrada que enchem o centro histórico — os Drago, Pima, Bizanti, Grgurina — e floresceram a navegação e o comércio. A Boka Kotorska formou uma das frotas mercantes mais importantes do Adriático, com capitães e armadores de Kotor, Perast, Dobrota e Prčanj que cruzavam o Mediterrâneo; sua antiquíssima irmandade de marinheiros, a Bokeljska mornarica, com mais de doze séculos de tradição, ainda hoje é um símbolo de identidade. Foi também um tempo duro: os otomanos, donos de quase todo o interior, sitiaram Cattaro em 1538 e de novo em 1657 sem conseguir tomá-la; a peste atacou em 1572; e, sobretudo, o terremoto de 1667 — o mesmo que arrasou Dubrovnik — causou enormes danos e obrigou a reconstruir boa parte da cidade, incluindo os campanários de São Trifão, refeitos em estilo barroco e um pouco assimétricos. Apesar de tudo, Cattaro resistiu, fiel a Veneza até o fim da República.
A queda de Veneza em 1797, pelas mãos de Napoleão, abriu um século de idas e vindas. Pelo Tratado de Campoformio, Kotor e a baía passaram primeiro ao Império Austríaco; depois, nas guerras napoleônicas, a região mudou de mãos várias vezes: houve uma breve ocupação russa e montenegrina (1806-1807), com o apoio da frota do almirante Seniavin e dos montenegrinos do príncipe-bispo Pedro I, e em seguida o controle francês dentro das Províncias Ilírias. Após a derrota definitiva de Napoleão, o Congresso de Viena de 1815 entregou Kotor e toda a Boka ao Império Austríaco, dentro do Reino da Dalmácia.
Sob a Áustria-Hungria, que a governou por um século (1815-1918), a baía foi uma importante base naval. Os austríacos modernizaram algumas defesas e Kotor (Cattaro também para eles) continuou sendo um porto militar e comercial. Em fevereiro de 1918, nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial, a baía foi palco da rebelião de Cattaro, um motim de marinheiros austro-húngaros — cansados da guerra e da fome — que chegaram a hastear bandeiras vermelhas em seus navios antes de serem reprimidos, com alguns dos líderes executados. Terminada a guerra e desmembrado o Império Austro-Húngaro, Kotor e Montenegro passaram a integrar o novo Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que viria a ser a Iugoslávia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade foi anexada pela Itália fascista (que reivindicava a velha Cattaro) e viveu a ocupação e a resistência partisan, até sua libertação em 1944, lembrada em uma placa sobre a Porta do Mar.
O golpe mais recente e traumático veio, mais uma vez, da terra. Na manhã de 15 de abril de 1979, um violento terremoto de magnitude próxima de 7 sacudiu toda a costa montenegrina. Em Kotor, o tremor danificou gravemente o centro histórico: numerosos edifícios desabaram ou ficaram muito comprometidos, e a catedral de São Trifão sofreu danos sérios. Em toda a região morreram cerca de cem pessoas e milhares de construções ficaram inutilizadas. O patrimônio de séculos, que havia sobrevivido a cercos e a outros sismos, de repente se viu em perigo.
A resposta foi extraordinária. Nesse mesmo ano, 1979, a UNESCO inscreveu a 'Região natural e cultural-histórica de Kotor' na lista do Patrimônio da Humanidade e, ao mesmo tempo, na lista do patrimônio em perigo, para mobilizar ajuda internacional. Começou uma restauração longa e meticulosa das muralhas, das igrejas, dos palácios e das praças, que devolveu à cidade seu esplendor. Em 2003, depois de décadas de trabalho, Kotor finalmente saiu da lista do patrimônio em perigo. Em 2017, suas fortificações também foram reconhecidas dentro do sítio transnacional 'Obras de defesa venezianas entre os séculos XV e XVII', que reúne as grandes praças-fortes da Sereníssima.
Hoje Kotor é, ao lado de Dubrovnik, uma das joias do Adriático oriental e um dos destinos mais visitados de Montenegro, país que se tornou independente da Sérvia em 2006. Seu porto recebe grandes cruzeiros e o centro histórico lota no verão, com os problemas de superlotação que isso traz. Mas basta acordar cedo, subir à fortaleza de São João ao amanhecer ou se perder à noite por suas vielas de pedra — vigiadas pelos famosos gatos da cidade — para reencontrar a Kotor de sempre: uma pequena cidade de marinheiros que, encaixada entre a montanha e o mar, contempla sua baía há mais de dois mil anos.