Mônaco-Cidade, 'a Rocha', é o coração histórico e a alma do Principado: um promontório de calcário debruçado sobre o Mediterrâneo, coroado pelo Palácio do Príncipe e cortado por ruelas medievais que parecem paradas no tempo. Aqui, neste rochedo fácil de defender à beira-mar, a dinastia Grimaldi instalou sua sede em 1297 e nunca mais saiu: sete séculos de soberania ininterrupta fazem de Mônaco uma das monarquias mais antigas do mundo.
Lá em cima, na Rocha, o agito dos cassinos e dos megaiates fica para trás. O que se encontra é um centro histórico só para pedestres, com fachadas ocre e rosadas, pracinhas escondidas, a praça do Palácio com seus canhões e sua troca da guarda diária, a Catedral onde repousam os príncipes e onde fica o túmulo de Grace Kelly, e o imponente Museu Oceanográfico pendurado no penhasco. Dos Jardins de Saint-Martin, a vista do mar aberto é de tirar o fôlego.
Este guia percorre a Rocha com olhar prático: como subir sem se cansar usando os elevadores públicos gratuitos, o que ver e quanto custa cada ingresso, a que horas é a troca da guarda e como combinar a visita com o resto de Mônaco. É o ponto de partida obrigatório para entender o que é este pequenino país e por que ele fascina há séculos.
A Rocha é habitada desde a Antiguidade: gregos e lígures conheciam este promontório, e uma lenda o associa a Hércules (o porto se chamava Portus Herculis Monoeci). Gênova ergueu aqui uma fortaleza em 1215. A data de fundação do Mônaco atual é 8 de janeiro de 1297, quando François Grimaldi, apelidado de 'Malizia', se disfarçou de frade franciscano para entrar no castelo e tomá-lo de surpresa: por isso o brasão monegasco mostra dois frades com espada. Depois de idas e vindas, os Grimaldi compraram o senhorio em 1419 e desde então reinam sobre a Rocha. O velho castelo virou palácio; a atual catedral neorromânica foi erguida em 1875 sobre uma igreja anterior de São Nicolau; e no século XX a Rocha foi cenário do conto de fadas de Rainier III e Grace Kelly. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Monaco: the fortified Rock where the Grimaldi dynasty was born, home to the Prince's Palace and the Oceanographic Museum, with Port Hercules in La Condamine at its feet.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tudo começa pela pedra. Antes de existirem os cassinos, os iates e os príncipes de conto de fadas, havia apenas um promontório de calcário que avançava mar adentro: um rochedo fácil de defender, com um porto natural abrigado, no ponto exato onde os Alpes despencam sobre o Mediterrâneo. Essa Rocha ('le Rocher') é a origem física de Mônaco e continua sendo hoje o coração do país.
O lugar foi habitado e frequentado desde a Antiguidade. Os lígures, povo nativo dessa costa, ocupavam a região quando chegaram os navegadores gregos de Marselha (Massalia), que fundaram entrepostos ao longo do litoral. Da Antiguidade vem também o nome. Uma tradição associa a Rocha a Hércules: dizia-se que o herói tinha passado por aqui em uma de suas viagens e que recebia culto em um templo, de modo que o porto ficou conhecido na época romana como Portus Herculis Monoeci, o 'porto de Hércules Monoikos'. Esse epíteto grego, Monoikos, que pode ser traduzido como 'aquele que vive sozinho' ou 'casa única', talvez em alusão a um templo isolado, é o que, deformado pelos séculos, acabou dando origem a 'Monaco', 'Mônaco'. Os romanos incorporaram a costa ao seu império e traçaram a Via Julia Augusta, que passava pela vizinha La Turbie, onde ainda se ergue o Troféu dos Alpes, monumento romano que celebrava a submissão dos povos alpinos.
Com a queda de Roma e os séculos sombrios que vieram depois, a costa ficou exposta a invasões e ao despovoamento. A Rocha de Mônaco, porém, nunca perdeu seu valor estratégico: quem a controlasse dominava um trecho-chave da rota marítima entre a Itália e a Provença.
A história documentada da Mônaco medieval começa em 1215. Naquele ano, a poderosa República de Gênova, que disputava com Pisa o domínio do mar Tirreno e da Ligúria, assumiu o controle da área e começou a construir uma fortaleza no alto da Rocha para proteger a costa e seus interesses comerciais. Em volta do castelo foi crescendo um pequeno povoado. Aquela fortaleza genovesa é o núcleo do qual, transformado e ampliado várias vezes, nasceria o atual Palácio do Príncipe.
Mas Gênova não vivia em paz consigo mesma. Como boa parte da Itália, estava dilacerada pelo conflito entre guelfos e gibelinos: os partidários do Papa (guelfos) e os do imperador do Sacro Império (gibelinos). As grandes famílias genovesas se alinhavam a um ou outro lado e guerreavam pelo poder na cidade. Entre essas famílias havia uma, guelfa, que a história uniria para sempre a esta rocha: os Grimaldi.
Expulsos de Gênova nas lutas entre facções, os Grimaldi guelfos procuraram aliados e refúgios ao longo da costa. E puseram os olhos em Mônaco, controlada pelos gibelinos. A tomada da Rocha não seria um cerco glorioso, mas um golpe de astúcia que viraria lenda fundadora.
A data de fundação de Mônaco é precisa: 8 de janeiro de 1297. Naquela noite de inverno, um genovês guelfo chamado François Grimaldi apareceu diante do portão da fortaleza da Rocha, então em mãos gibelinas, disfarçado de frade franciscano, pedindo abrigo para passar a noite. Os guardas, sem desconfiar de um humilde monge, abriram. Já lá dentro, Grimaldi sacou a espada que escondia sob o hábito e, junto com seus homens escondidos, dominou a guarnição e abriu os portões para o resto de seus soldados. A Rocha caiu por meio de um truque.
Esse François Grimaldi entrou para a história com o apelido de 'Malizia' ('o Malicioso', 'o Astuto'), justamente por causa da artimanha. O episódio ficou gravado no imaginário e na heráldica do Principado: o brasão de armas de Mônaco mostra dois frades empunhando espadas, em memória daquela noite, sob o lema 'Deo Juvante' ('com a ajuda de Deus'). É difícil encontrar um país cujo emblema nacional celebre, com tanta franqueza, um ato de astúcia militar.
A tomada de 1297 não consolidou de imediato o domínio dos Grimaldi: a Rocha mudou de mãos várias vezes nas décadas seguintes, no vaivém das guerras genovesas. A posse definitiva veio um século depois. Em 1419, os Grimaldi compraram o senhorio de Mônaco da Coroa de Aragão, que na época tinha direitos sobre a região, e a partir daí sua soberania sobre a Rocha nunca mais foi interrompida. Essa linhagem que começou com um falso frade reina ainda hoje, mais de setecentos anos depois: é uma das dinastias governantes mais antigas do mundo.
Durante séculos, os Grimaldi governaram a Rocha como senhores e depois como príncipes, num delicado jogo de equilíbrio entre as grandes potências vizinhas: França, Espanha, Piemonte-Sardenha. Mônaco foi sucessivamente aliada e protegida de uns e de outros, sempre tentando preservar sua independência pela arte da diplomacia e pelo seu tamanho insignificante, que a tornava mais útil como zona-tampão neutra do que como conquista.
O castelo genovês foi trocando de pele a cada época. Os Grimaldi o transformaram em uma residência senhorial e depois em um palácio renascentista e barroco, com seu pátio de honra, sua escadaria de mármore de Carrara e suas galerias decoradas com afrescos de artistas italianos. Em 1543, a praça resistiu a um cerco das frotas franco-otomanas. A Revolução Francesa bateu forte: entre 1793 e 1814, Mônaco foi anexada pela França, os Grimaldi foram destituídos e o palácio virou quartel e asilo. A queda de Napoleão devolveu o trono à família, primeiro sob protetorado do Piemonte-Sardenha e, a partir de 1861, da França, por meio de um tratado que definiu as relações que ainda hoje ligam os dois países.
A Rocha sempre manteve sua condição de sede do poder. Ali estavam, e estão, o Palácio, residência oficial do soberano; a igreja principal, elevada à categoria de catedral quando Mônaco ganhou sua própria diocese; o governo e as instituições. Enquanto Monte Carlo, do outro lado do porto, se enchia de cassinos e hotéis no século XIX, a Rocha continuou sendo a Mônaco histórica, institucional e religiosa, a que guarda a memória da dinastia.
Se a Rocha tem hoje um dos museus mais impressionantes do Mediterrâneo, deve isso a um príncipe fora do comum: Alberto I (1848-1922). Militar de formação e cientista por vocação, Alberto I foi um verdadeiro pioneiro da oceanografia. Organizou e financiou dezenas de expedições científicas pelo Atlântico, pelo Mediterrâneo e pelo Ártico a bordo de seus próprios iates, sondando profundezas, mapeando correntes e coletando espécies marinhas numa época em que o fundo do mar ainda era um mistério quase total.
Para abrigar e divulgar o resultado dessas expedições, Alberto I mandou construir no flanco sul da Rocha o Museu Oceanográfico, um edifício monumental em estilo neobarroco agarrado ao penhasco, com uma fachada de quase noventa metros que despenca a pique sobre o mar. Foi inaugurado com grande pompa em 29 de março de 1910. O museu foi, e continua sendo, um templo laico dedicado ao conhecimento do oceano, com seu famoso aquário, suas salas de instrumentos e esqueletos de baleia e seu instituto de pesquisa. Décadas depois, o comandante Jacques Cousteau o dirigiria por muitos anos, dando continuidade a essa vocação pioneira.
Alberto I não foi só um homem da ciência. Também impulsionou a paleontologia e a antropologia (fundou institutos e museus) e se destacou como pacifista numa Europa que caminhava para a Primeira Guerra Mundial. Sob seu reinado, em 1911, Mônaco ganhou ainda sua primeira Constituição, dando um passo da monarquia absoluta rumo a uma monarquia com divisão de poderes. A estátua do príncipe de capa de chuva e boné de marinheiro que hoje vigia os Jardins de Saint-Martin lembra esse soberano que olhou para o mar não para exibir riqueza, mas para entendê-lo.
O século XX deu à Rocha seu capítulo mais romântico e mais triste. Em 1956, o príncipe Rainier III se casou com a atriz americana Grace Kelly, estrela de Hollywood dirigida por Alfred Hitchcock. A cerimônia civil aconteceu em 18 de abril no Salão do Trono do Palácio e a religiosa no dia seguinte, 19 de abril, na Catedral da Rocha, diante de cerca de 700 convidados (entre eles Cary Grant, Ava Gardner e Aristóteles Onassis) e acompanhada por cerca de 30 milhões de pessoas no mundo todo pela televisão. A imprensa a batizou de 'o casamento do século'. Grace Kelly, transformada na princesa Grace, deu a Mônaco uma aura de glamour que multiplicou sua fama e seu apelo turístico.
O conto de fadas terminou em tragédia. Em 13 de setembro de 1982, enquanto dirigia por uma das estradas sinuosas das alturas de Mônaco, a princesa Grace sofreu um acidente, aparentemente provocado por um AVC ao volante, e morreu no dia seguinte. Seu funeral, em 18 de setembro, na mesma catedral onde havia se casado, comoveu o mundo. Ela foi sepultada na cripta dos Grimaldi, onde seu túmulo, simples e sempre florido, continua sendo um dos lugares mais visitados da Rocha. Ao seu lado descansa hoje Rainier III, falecido em 2005, junto aos príncipes da dinastia.
Desde 2005 reina Alberto II, filho dos dois e digno herdeiro da veia oceanográfica de seu bisavô Alberto I: ele se dedicou a causas ambientais e à proteção dos oceanos. Sob seu reinado, Mônaco continuou crescendo, inclusive ganhando terreno do mar, como no recente bairro de Mareterra, sem perder sua identidade. E no centro de tudo, imutável, continua a Rocha: o rochedo onde um frade com espada fundou, numa noite de janeiro de 1297, um dos Estados mais singulares e persistentes da história da Europa.