Aguascalientes, capital do estado de mesmo nome, é uma cidade do Bajío de porte médio, próspera e agradável, famosa em todo o México pela Feria Nacional de San Marcos, considerada a feira mais importante do país. O nome faz referência às fontes de águas termais que brotavam na região. É uma cidade organizada e limpa, com um centro histórico colonial charmoso, jardins bem cuidados e uma qualidade de vida que faz dela uma parada tranquila na rota do Bajío.
Além da feira, Aguascalientes guarda um tesouro cultural: é a terra natal de José Guadalupe Posada, o genial gravurista criador de 'La Catrina', o icônico esqueleto elegante que virou símbolo do Dia dos Mortos mexicano. A cidade presta homenagem a ele com um museu dedicado à sua obra e completa esse fascínio pela morte e seus símbolos com o singular Museo Nacional de la Muerte. Somam-se a isso igrejas coloniais, praças, museus e o traçado peculiar dos bairros, com sua tradição artesanal e vinícola.
Este guia percorre o essencial de Aguascalientes: a Plaza de la Patria e o centro, o Museo José Guadalupe Posada, o Museo Nacional de la Muerte, os jardins e o Cerro del Muerto, a Feira de San Marcos e a gastronomia local. É um destino que brilha especialmente na época da feira, mas que no resto do ano oferece uma experiência colonial tranquila e autêntica, uma boa base para combinar com Zacatecas, Guanajuato ou San Luis Potosí.
Fundada em 1575 como vila no Camino Real de Tierra Adentro, deve seu nome às fontes termais da região. Cresceu como ponto de descanso e comércio entre as regiões mineiras do norte e o centro da Nova Espanha. No século XVIII consolidou-se a feira ligada à festa de San Marcos, hoje a mais célebre do México. É também a terra natal do gravurista José Guadalupe Posada, criador de La Catrina. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em outubro de 1914, no Teatro Morelos de uma cidade do interior, os delegados de Pancho Villa, de Emiliano Zapata e de Venustiano Carranza se sentaram nas mesmas poltronas para decidir, entre discursos inflamados e pistolas na cintura, quem governaria o México. Essa cidade neutra, escolhida justamente porque ninguém a via como território inimigo, era Aguascalientes: a pequena vila de fontes termais que, três séculos e meio antes, tinha nascido para defender os carregamentos de prata no deserto. A história de Aguascalientes é a de um lugar de passagem que acabou se tornando ponto de encontro obrigatório do México.
A fundação de Aguascalientes está intimamente ligada ao grande eixo que estruturou o norte da Nova Espanha: o Camino Real de Tierra Adentro, a rota que ligava a Cidade do México às prósperas regiões mineradoras do norte, como Zacatecas. A vila de la Asunción de las Aguas Calientes foi fundada em 1575 como ponto de descanso, defesa e abastecimento nesse trajeto, numa região conhecida por suas fontes de águas termais, das quais tirou o nome.
O contexto era o da chamada Guerra Chichimeca, o longo conflito entre os colonizadores espanhóis e os povos seminômades do norte. Vilas como Aguascalientes cumpriam uma função estratégica: proteger os comboios de prata e os viajantes contra os ataques, além de servir como centros de povoamento e evangelização.
Aos poucos, a vila foi crescendo graças à sua posição privilegiada no caminho, à fertilidade de suas terras e à disponibilidade de água. Desenvolveu-se uma economia agrícola e comercial que abastecia as regiões mineradoras e aproveitava o trânsito constante de mercadorias e pessoas pela rota do norte.
Uma das tradições que definiriam a identidade de Aguascalientes nasceu no período colonial: a feira ligada à festa de São Marcos Evangelista. O que começou como uma festa religiosa e um mercado em torno do bairro e do templo de San Marcos foi crescendo com o tempo até virar uma feira comercial, agrícola e pecuária de grande importância regional.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a feira se consolidou e ganhou fama. O Jardín de San Marcos, com sua característica balaustrada neoclássica, tornou-se o palco principal das festividades. Aos poucos, a feira foi incorporando espetáculos, jogos, exposições, touradas e brigas de galo, atraindo visitantes de regiões cada vez mais distantes.
Com o passar do tempo, a Feira de San Marcos passou a ser considerada a feira mais importante do México, um acontecimento que a cada primavera transforma a cidade e atrai milhões de pessoas. Essa tradição festiva, nascida de raízes coloniais e religiosas, é hoje a principal marca de identidade de Aguascalientes.
No século XIX, Aguascalientes deu ao mundo um dos artistas mais influentes da história gráfica do México: José Guadalupe Posada, nascido na cidade em 1852. Gravurista e ilustrador prolífico, Posada trabalhou para jornais e folhetos populares, criando milhares de imagens que retratavam com humor, crítica social e um estilo inconfundível os acontecimentos e personagens de sua época.
Sua contribuição mais célebre foram as 'calaveras': gravuras de esqueletos que satirizavam a sociedade, de políticos a personagens populares, ligadas à tradição mexicana do Dia dos Mortos. Entre elas se destaca 'La Calavera Garbancera', um esqueleto feminino enfeitado com um chapéu elegante, que criticava quem renegava as próprias origens para aparentar um refinamento europeu.
Anos depois da morte de Posada, em 1913, o muralista Diego Rivera retomou essa figura, vestiu-a por completo e a batizou de 'La Catrina', transformando-a no ícone universal do Dia dos Mortos mexicano. Assim, uma criação nascida do talento de um gravurista de Aguascalientes se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura mexicana no mundo. A cidade homenageia sua memória no Museo José Guadalupe Posada.
Em plena Revolução Mexicana, depois da queda do ditador Victoriano Huerta, as facções vitoriosas entraram em choque sobre o rumo do país. Venustiano Carranza, chefe do Exército Constitucionalista, convocou uma grande reunião de chefes militares para resolver as diferenças. Como Pancho Villa se recusava a viajar à Cidade do México e os zapatistas desconfiavam de Carranza, ficou combinado realizar a assembleia em terreno neutro: Aguascalientes, cidade que não estava sob o domínio exclusivo de nenhuma facção.
Assim, de 10 de outubro a 9 de novembro de 1914, o Teatro Morelos de Aguascalientes foi sede da Soberana Convenção Revolucionária. Os delegados assinaram uma bandeira como símbolo de compromisso, ouviram os discursos de figuras como Álvaro Obregón e Felipe Ángeles, e em 27 de outubro chegaram os representantes de Emiliano Zapata. A Convenção se declarou soberana, deixou de reconhecer Carranza, elegeu como presidente provisório o general Eulalio Gutiérrez e nomeou Francisco Villa chefe do Exército Convencionista.
Longe de pacificar o país, a Convenção o partiu em dois: convencionistas (villistas e zapatistas) contra constitucionalistas (carrancistas). Villa e Zapata entraram juntos na Cidade do México em dezembro de 1914 —a famosa foto dos dois na cadeira presidencial é daqueles dias—, enquanto Carranza recuava para Veracruz. A guerra entre as facções se prolongaria com um enorme custo humano. Aguascalientes ficou marcada para sempre como o palco daquela tentativa fracassada de unidade: hoje o Teatro Morelos abriga um museu com fotografias originais daquelas jornadas.
Ao longo dos séculos XIX e XX, Aguascalientes se consolidou como capital do estado de mesmo nome, um dos menores do México. A chegada da ferrovia no século XIX foi um divisor de águas: a cidade virou um importante entroncamento ferroviário, com grandes oficinas que impulsionaram seu crescimento industrial e demográfico e que deram origem ao característico Barrio de la Estación.
No século XX, e principalmente nas últimas décadas, Aguascalientes viveu um notável desenvolvimento industrial e atraiu investimentos, sobretudo no setor automotivo, que a transformaram em uma das cidades mais prósperas e com melhor qualidade de vida do país. Esse dinamismo econômico convive com a preservação de seu patrimônio colonial e de suas tradições.
Hoje Aguascalientes combina a modernidade de uma cidade industrial organizada e próspera com o encanto de seu centro histórico, seus bairros tradicionais, seu legado artístico encabeçado por Posada e, acima de tudo, a força da Feira de San Marcos, que a cada ano reafirma seu caráter festivo e seu lugar no coração do Bajío mexicano.