Se Ohrid é a joia turística do lago, Struga é sua irmã tranquila e luminosa: uma cidade lacustre voltada para a água, atravessada por um rio que nasce do lago mais antigo da Europa e visitada por poetas do mundo inteiro todo mês de agosto. Aqui, na margem norte do Ohrid, o rio Drin Negro (Crn Drim) brota do lago cristalino e segue rumo à Albânia, e ao longo de seus dois braços se estende um centro de calçadões, pontes, salgueiros e cafés onde a vida corre sem pressa.
Struga é, antes de tudo, uma cidade de poesia. Desde 1961 sedia as Noites Poéticas de Struga (Struški večeri na poezijata), um dos festivais de poesia mais antigos e prestigiados do mundo, cujo prêmio máximo — a Coroa de Ouro — já foi entregue a nomes como Pablo Neruda, W. H. Auden, Allen Ginsberg e Seamus Heaney. Não é por acaso: daqui eram os irmãos Miladinov, Dimitar e Konstantin, grandes figuras do renascimento cultural macedônio do século XIX, e é a eles que a cidade presta homenagem todo verão.
Este guia reúne o essencial e o prático de Struga: como chegar a partir de Ohrid e Escópia, quanto custam as coisas, o que ver no centro histórico e nos arredores, onde nadar no lago e como aproveitar as nascentes de Vevčani, o mosteiro de Kalishta e as Noites Poéticas. Uma dica: dê-se o prazer de um jantar à beira do rio ao entardecer, quando o Drin fica dourado e Struga mostra seu lado mais sereno.
A história de Struga é a de um antiquíssimo povoado de pescadores às margens do lago Ohrid, onde o rio Drin Negro sai do lago. Já havia aldeias de palafitas na pré-história, e na época romana o lugar ficava na Via Egnatia, a grande estrada que ligava o Adriático a Bizâncio. Seu nome vem do eslavo 'struga' (desembocadura, correnteza). Sob domínio bizantino e depois otomano, foi uma modesta vila de pescadores famosa pela pesca da enguia e da plašica no escoadouro do lago. Seu grande momento chegou no século XIX, quando Struga se tornou berço do renascimento nacional macedônio: aqui nasceram os irmãos Dimitar e Konstantin Miladinov, compiladores de canções populares e símbolos da luta cultural eslava contra o helenismo e o poder otomano. Konstantin escreveu o célebre poema 'T'ga za jug' ('Saudade do sul'). Em sua homenagem, desde 1961 acontecem as Noites Poéticas de Struga, festival internacional que tornou a cidade conhecida no mundo todo. Depois das guerras balcânicas e da Primeira Guerra Mundial, Struga ficou do lado iugoslavo, e hoje é um tranquilo destino lacustre da Macedônia do Norte. A história completa, com nomes e datas, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The country's spiritual cradle: Lake Ohrid, its Byzantine churches, the Monastery of Saint Naum and Struga, where the Drin flows out of the lake. The heart of Christianity and Slavic culture.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Há cidades definidas por um rio que as atravessa; Struga é definida por um rio que nasce nela. No seu centro, o Drin Negro (Crn Drim) não deságua no lago Ohrid, mas brota dele: a água acumulada durante milênios em um dos lagos mais antigos do planeta encontra aqui sua única saída e parte rumo ao norte, a caminho da Albânia e do mar Adriático. Dessa geografia singular nasce o próprio nome da cidade: do eslavo 'struga', que significa desembocadura ou corrente de água, o ponto por onde o lago transborda.
Esse lugar de passagem da água também foi, desde tempos remotos, um lugar de passagem de pessoas. As margens do Ohrid foram habitadas desde a pré-história por comunidades de pescadores que erguiam vilarejos palafíticos sobre a água, e na região de Struga foram encontrados vestígios desses assentamentos lacustres. A pesca — sobretudo da enguia, que sobe desde o Adriático, e de peixes pequenos como o plašica — marcou durante séculos a vida e a economia do lugar, e até hoje define sua cozinha e sua identidade.
Na época romana, a região era atravessada pela Via Egnatia, a grande estrada imperial que ligava o Adriático a Bizâncio através dos Bálcãs. Struga e a vizinha Lychnidos (a atual Ohrid) eram paradas dessa rota comercial e militar. Assim, desde a Antiguidade, este cantinho do sudoeste macedônio foi uma encruzilhada de caminhos, línguas e culturas, uma condição que marcou toda a sua história.
Com a cristianização e a expansão de Bizâncio, a região do lago Ohrid se tornou um importante centro religioso e cultural do mundo eslavo. Na vizinha Ohrid, os discípulos dos santos Cirilo e Metódio — são Clemente e são Naum — fundaram no fim do século IX uma escola e um bispado que difundiram o alfabeto e a liturgia eslavos, e o lago chegou a ser conhecido como a 'Jerusalém dos Bálcãs' pela quantidade de igrejas e mosteiros. Struga, como vilarejo lacustre dessa órbita, participou daquele florescimento espiritual, do qual dão testemunho mosteiros como o de Kalishta, com suas igrejas escavadas na rocha.
O lugar trocou de mãos várias vezes entre bizantinos, búlgaros e o efêmero Estado sérvio medieval, até que, nos séculos XIV e XV, a conquista otomana avançou de forma imparável. Sob domínio turco, Struga ficou reduzida durante longos séculos a um modesto vilarejo de pescadores e comerciantes, famoso em toda a região por suas pescarias no escoadouro do lago, onde se instalavam armadilhas para enguias. A convivência entre cristãos ortodoxos e muçulmanos, entre macedônios e albaneses, foi formando o mosaico étnico e religioso que ainda caracteriza a cidade.
Durante esses séculos otomanos, Struga foi um lugar tranquilo e meio afastado, mas sua população preservou com tenacidade sua língua, seus cantos e suas tradições. E foi justamente dessa raiz popular, dessas canções transmitidas de geração em geração às margens do lago, que surgiria, no século XIX, a grande contribuição de Struga para a história cultural de todo um povo.
Em Struga nasceram, no início do século XIX, os dois homens que tornariam universal o nome da cidade: os irmãos Dimitar (c. 1810-1862) e Konstantin Miladinov (c. 1830-1862). Eles viveram em pleno despertar das nacionalidades balcânicas, quando os povos eslavos do Império Otomano começavam a reivindicar sua língua e sua cultura diante do domínio turco e diante da influência do clero grego, que controlava a Igreja e o ensino.
Dimitar, professor e ativista, dedicou a vida à educação na língua vernácula e à defesa da identidade do seu povo. Konstantin, o irmão mais novo, estudou em Atenas e depois em Moscou, onde mergulhou no romantismo eslavo e nas ideias de resgate do folclore. Juntos, empreenderam uma obra monumental: a compilação das canções populares de sua terra. Em 1861 publicaram em Zagreb, com o apoio do bispo croata Josip Juraj Strossmayer, o 'Zbornik' ou 'Coletânea de canções populares búlgaras' — assim intitulada na terminologia da época —, um conjunto de centenas de cantos, provérbios e tradições que salvou do esquecimento a voz do povo e que é uma pedra fundamental da cultura macedônia moderna.
A Konstantin se deve, além disso, um dos poemas mais queridos das letras macedônias: 'T'ga za jug' ('Saudade do sul'), escrito longe de casa, no frio do norte, como um canto de saudade do sol, do lago e da terra natal. O destino dos irmãos foi trágico: acusados de agitação pelas autoridades e denunciados ao poder otomano, ambos foram presos em Constantinopla, onde morreram em 1862, provavelmente de tifo, em circunstâncias obscuras. O sacrifício deles os transformou em mártires do renascimento nacional, e Struga, seu berço, em um lugar sagrado da memória cultural.
O legado dos Miladinov fez de Struga uma cidade com vocação literária, e essa vocação se concretizou em 1961, quando foram realizadas pela primeira vez as Noites Poéticas de Struga (Struški večeri na poezijata). O que começou como uma homenagem local aos irmãos poetas se transformou, em poucos anos, em um dos festivais de poesia mais antigos e prestigiados do mundo, um ponto de encontro da poesia internacional em plena Guerra Fria, capaz de reunir vozes do Oriente e do Ocidente no mesmo palco, às margens do lago.
O festival, que acontece todos os anos na terceira semana de agosto, concede seu prêmio máximo, a Coroa de Ouro (Zlaten venec), a um grande poeta vivo pelo conjunto da obra. A lista de premiados é um quem é quem da poesia contemporânea: Pablo Neruda, W. H. Auden, Léopold Sédar Senghor, Eugenio Montale, Allen Ginsberg, Ted Hughes, Seamus Heaney, Yehuda Amichai e muitos outros receberam a coroa em Struga. Cada edição inclui leituras, encontros, publicações e a imagem icônica do festival: a leitura de poemas sobre a ponte que cruza o rio Drin, com o público nas duas margens.
Graças às Noites Poéticas, uma pequena cidade lacustre dos Bálcãs virou um nome reconhecido no mapa cultural do mundo. Todo mês de agosto, Struga mostra que a poesia pode ser um assunto popular e festivo, e que a memória de dois irmãos mortos em uma prisão otomana há um século e meio continua viva em cada verso lido à beira d'água.
Depois das Guerras Balcânicas (1912-1913) e da Primeira Guerra Mundial, Struga passou a fazer parte do Reino da Iugoslávia e, mais tarde, da Iugoslávia socialista de Tito, como parte da República da Macedônia. Com a independência do país em 1991, passou a integrar a atual Macedônia do Norte. Ao longo do século XX, a cidade cresceu como destino de veraneio e como centro de uma região agrícola e pesqueira, sem nunca perder seu ar de cidadezinha voltada para o lago.
Hoje Struga é um destino turístico tranquilo, a face serena do lago Ohrid diante da mais monumental e movimentada Ohrid. Sua população, uma mistura de macedônios e albaneses, mantém viva uma convivência multiétnica que reflete o mosaico de todo o sudoeste do país. A vida gira em torno do rio Drin e de seu calçadão, das praias de água cristalina, do mercado e dos restaurantes de peixe onde se serve a famosa truta de Ohrid, espécie endêmica de um lago que é Patrimônio da Humanidade e um laboratório vivo da evolução.
E, acima de tudo, Struga continua sendo a cidade da palavra. Todo verão, quando a poesia toma conta de suas ruas e de sua ponte, a terra dos Miladinov reafirma seu lugar singular na cultura dos Bálcãs: um cantinho pequeno e luminoso onde o lago vira rio e onde, há mais de um século e meio, a memória é cultivada em verso. Visitar Struga é se debruçar sobre essa dupla corrente — a da água e a da palavra — que a torna inconfundível.