Bitola é a cidade mais europeia da Macedônia do Norte, e não faltam motivos para se gabar. Segunda cidade do país, capital da planície da Pelagônia e antiga 'cidade dos cônsules', conserva um ar elegante e cosmopolita herdado dos tempos em que foi uma das praças mais importantes dos Bálcãs otomanos: aqui chegaram a ter consulado doze potências europeias, e por suas ruas passeavam diplomatas, oficiais e comerciantes de meio continente. Esse passado deixou uma arquitetura senhorial de fachadas neoclássicas e modernistas que hoje fazem de Bitola uma cidade para caminhar sem pressa.
O palco dessa vida é a Shirok Sokak, a 'rua larga' para pedestres, um bulevar de cafés, palacetes e lojas que é o coração social de Bitola e um dos passeios mais agradáveis do país. Ao redor sobrevivem a Torre do Relógio, um dos maiores bazares otomanos dos Bálcãs, mesquitas, igrejas e museus. E a apenas uns dois quilômetros, entre os campos da Pelagônia, fica Heraclea Lyncestis, a cidade antiga fundada por Filipe II da Macedônia, com seus teatros e seus mosaicos paleocristãos entre os mais bem conservados do mundo.
Este guia percorre o essencial e o prático de Bitola: como chegar a partir de Skopje e Ohrid, quanto custam os ingressos de Heraclea e dos museus, o que ver na Shirok Sokak e no bazar, como fugir para a montanha de Pelister e onde comer e dormir na cidade dos cônsules. Uma dica: reserve uma tarde para o ritual do café na Shirok Sokak, o costume mais bitolense de todos, e uma manhã para se perder entre os mosaicos de Heraclea.
A história de Bitola é longa e senhorial. Nos arredores, Heraclea Lyncestis foi fundada por Filipe II da Macedônia por volta do século IV a.C. e prosperou depois como cidade romana na Via Egnatia, com teatro, termas e basílicas paleocristãs de mosaicos esplêndidos. A cidade medieval eslava cresceu junto a numerosos mosteiros, dos quais tirou seu nome: 'Bitola' deriva de 'obitel' (mosteiro), e os otomanos a chamaram de Manastır. Sob domínio otomano, do século XIV ao XX, Bitola viveu sua época de ouro como capital do vilaiete de Monastir e como uma das cidades mais importantes dos Bálcãs: chegou a ter consulados de uma dúzia de potências europeias, o que lhe rendeu o apelido de 'cidade dos cônsules'. Em sua Academia Militar estudou, no início do século XX, o jovem Mustafa Kemal, futuro Atatürk. Depois das guerras balcânicas de 1912-1913, Bitola passou para a Sérvia e depois para a Iugoslávia, enquanto a nova fronteira com a Grécia a separava de seu hinterland natural, dando início a um longo declínio. Na Primeira Guerra Mundial esteve na linha de frente de Salônica e sofreu bombardeios intensos. Hoje é a elegante segunda cidade da Macedônia do Norte. A história completa, com nomes e datas, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The region facing Greece: elegant Bitola, the city of consuls, the ancient ruins of Heraclea founded by Philip II, and Prilep, the tobacco town at the foot of Marko's Towers.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Bitola começa com uma cidade que não levava o seu nome. A uns dois quilômetros do centro atual, Filipe II da Macedônia, o pai de Alexandre, o Grande, fundou por volta de meados do século IV a.C. a cidade de Heraclea Lyncestis, batizada em homenagem ao herói grego Héracles. Situada na fértil planície da Pelagônia e, mais tarde, sobre a Via Egnatia, a grande estrada romana que ligava o Adriático a Constantinopla, Heracleia prosperou durante séculos como um importante entroncamento de rotas. Tinha teatro, termas e, na época paleocristã, basílicas cujos mosaicos de piso estão entre os mais belos do mundo antigo.
Heracleia entrou em declínio depois das invasões dos séculos VI e VII, quando povos eslavos e ávaros arrasaram a região e a vida urbana romana desmoronou. Os novos habitantes eslavos se instalaram um pouco mais ao norte, perto dos rios que descem da montanha Baba, e ali, com o tempo, surgiu um novo povoado. O nome já revela o seu caráter: 'Bitola' vem da antiga palavra eslava 'obitel', que significa mosteiro ou morada monástica, porque a região era cheia de igrejas e mosteiros. Foi desse mesmo sentido que os otomanos tiraram o nome pelo qual conheceriam a cidade durante séculos: Manastır, 'o mosteiro'.
Assim, no subsolo e na memória de Bitola convivem duas cidades: a Heracleia antiga, grega e romana, cujos mosaicos ainda encantam os visitantes, e a Bitola medieval eslava, nascida à sombra de seus mosteiros. Sobre essa dupla raiz se ergueria, na época otomana, uma das grandes cidades dos Bálcãs.
Bitola caiu sob domínio otomano por volta do fim do século XIV, e foi com os turcos que viveu sua época de maior esplendor. Com o nome de Manastır, tornou-se um centro administrativo, comercial e militar de primeira linha e chegou a ser a capital de um extenso vilaiete (província) que abrangia boa parte da Macedônia otomana e regiões vizinhas. Sua posição estratégica nas rotas que ligavam o interior dos Bálcãs a Salônica e ao Mar Egeu fez dela uma praça próspera de mercadores, artesãos e funcionários.
A cidade se encheu de mesquitas, hamams, madraçais e de um dos maiores bazares dos Bálcãs, com seu Bezisten murado. Mas o mais singular da Manastır otomana tardia era o seu caráter cosmopolita: no século XIX, quando o Império Otomano se abria com desconfiança para a Europa, as grandes potências instalaram consulados na cidade para vigiar seus interesses numa região instável. Chegou a haver consulados de uma dúzia de países, entre eles Áustria-Hungria, França, Grã-Bretanha, Rússia, Itália, Sérvia e Grécia, e daí vem o famoso apelido de Bitola: 'a cidade dos cônsules'.
Essa presença diplomática e comercial transformou a cara da cidade. Ao lado dos minaretes otomanos surgiram palacetes neoclássicos e edifícios de estilo europeu ao longo da 'rua larga', Shirok Sokak, que virou o passeio elegante de uma cidade onde conviviam turcos, macedônios, aromenos (valáquios), judeus sefarditas, albaneses e gregos. No fim do século XIX, Manastır era uma das cidades mais populosas, ricas e europeias dos Bálcãs otomanos.
O peso militar e cosmopolita de Manastır fez dela, no começo do século XX, um dos focos da efervescência política que sacudia o Império Otomano. Em sua prestigiosa Academia Militar (Askeri İdadi) se formava a jovem oficialidade turca, e por suas salas passou, entre 1896 e 1899, um cadete chamado Mustafa Kemal, o homem que duas décadas depois fundaria a Turquia moderna e entraria para a história como Atatürk, 'o pai dos turcos'. Em Bitola, o jovem Mustafa Kemal mergulhou nas ideias nacionalistas e modernizadoras que circulavam pela cidade, e o prédio da sua academia é hoje um museu muito visitado por peregrinos turcos.
Manastır também foi um centro do movimento dos Jovens Turcos, os oficiais reformistas que em 1908 lideraram a revolução que obrigou o sultão a restaurar a Constituição. E foi nos seus arredores que estourou, em 1903, a Revolta de Ilinden, a grande insurreição dos revolucionários macedônios contra o poder otomano, duramente reprimida. A região fervia com nacionalismos rivais (búlgaro, grego, sérvio, macedônio) que disputavam o futuro da Macedônia otomana na chamada 'luta pela Macedônia'.
Aquele mundo multiétnico e cosmopolita estava, sem saber, à beira do abismo. As Guerras Balcânicas de 1912-1913 redesenhariam o mapa por completo e mudariam para sempre o destino da próspera Manastır, que deixaria de ser uma capital otomana para se tornar uma cidade de fronteira.
Na Primeira Guerra Balcânica (1912), as tropas sérvias tomaram Manastır, que passou a fazer parte do Reino da Sérvia com o nome eslavo de Bitola. A derrota otomana pôs fim a cinco séculos de domínio turco, mas também abriu uma fase difícil para a cidade. A nova fronteira traçada com a Grécia separou Bitola de Salônica e do seu interior natural, do qual dependiam seu comércio e sua prosperidade, e deu início a um longo declínio do qual a cidade levaria décadas para se recuperar.
O golpe mais devastador veio com a Primeira Guerra Mundial. Entre 1916 e 1918, Bitola ficou bem na linha da frente da Macedônia (a frente de Salônica), disputada entre as potências da Entente e as forças búlgaras e alemãs. A cidade foi tomada pelas tropas aliadas sérvias e francesas em novembro de 1916, mas passou quase dois anos sob fogo de artilharia e bombardeios, a poucos quilômetros das trincheiras. Bairros inteiros ficaram em ruínas e boa parte da população teve que fugir. Bitola pagou um preço altíssimo pelo seu azar geográfico.
Depois da guerra, a cidade foi integrada ao novo Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, depois Iugoslávia. A emigração, sobretudo da sua histórica comunidade aromena e judaica, esvaziou parte do antigo esplendor cosmopolita. E a Segunda Guerra Mundial trouxe a ocupação e, com ela, a deportação e o extermínio da comunidade sefardita de Bitola, uma das mais antigas dos Bálcãs, quase inteiramente aniquilada no campo de Treblinka em 1943. Daquele mosaico de povos que tinha feito a grandeza de Manastır restavam, depois das guerras do século XX, apenas a lembrança e a arquitetura.
Na Iugoslávia socialista de Tito, Bitola se recuperou aos poucos como capital regional do sul da República da Macedônia, com alguma indústria e uma vida cultural notável. Com a independência do país em 1991, a cidade passou a fazer parte da atual Macedônia do Norte, da qual é a segunda maior cidade e uma das mais queridas pelo seu caráter.
Quem visita Bitola hoje encontra uma cidade que soube conservar, apesar de todas as desgraças do século XX, a elegância dos seus tempos de glória. Shirok Sokak continua sendo um bulevar de cafés e palacetes onde as pessoas passeiam ao entardecer no clássico 'korzo' balcânico; a Torre do Relógio, o velho bazar e as mesquitas lembram os séculos otomanos; e as ruínas de Heraclea Lyncestis, com seus mosaicos deslumbrantes, ligam a cidade à Antiguidade de Filipe II. É uma cidade onde o Oriente e a Europa Central andam de mãos dadas como em poucos lugares.
Bitola vive hoje, em boa parte, dessa herança e do seu papel de capital cultural do sul, com universidade, teatros, festivais de cinema e música e uma gastronomia caprichada. A memória da 'cidade dos cônsules', do cadete Atatürk, das comunidades desaparecidas e das guerras que a marcaram continua presente nas suas ruas. Percorrer Bitola é ler, nas fachadas e nas pedras, dois mil anos de história balcânica: a de uma cidade que foi grega, romana, otomana e europeia, e que conserva, com dignidade e charme, a elegância melancólica de quem já viveu dias maiores.