Maiorca é muito mais do que a ilha de sol e praia que o imaginário popular promete. A maior das Baleares é um mundo em miniatura: uma capital elegante com uma das catedrais góticas mais impressionantes do Mediterrâneo, uma cordilheira declarada Patrimônio Mundial que despenca sobre o mar, vilarejos de pedra encarapitados na montanha, mosteiros onde Chopin passou uma temporada, centenas de enseadas de água turquesa e uma tradição marinheira e agrícola que segue viva sob o burburinho turístico.
A ilha oferece experiências muito diferentes, dependendo do que você procura. Palma, com sua catedral de La Seu debruçada sobre a água, seu centro histórico árabe e seu castelo circular, é uma cidade para curtir sem pressa. A Serra de Tramuntana presenteia com estradas de tirar o fôlego, trilhas, olivais milenares e vilarejos como Valldemossa, Deià ou Sóller, este último ligado a Palma por um trem de madeira centenário. E o litoral se desdobra de praias quilométricas de areia branca a enseadas escondidas entre pinheiros e falésias.
Este guia percorre Maiorca com um olhar prático e honesto: o que ver em Palma e na serra, como chegar às enseadas mais bonitas (e por que algumas têm acesso restrito), como funcionam o trem de Sóller e o ônibus para Formentor, onde comer uma boa ensaimada ou um frito mallorquín, e também como viajar de forma responsável numa ilha que sofre problemas sérios de excesso de turistas. Com um pouco de planejamento, Maiorca rende férias inesquecíveis, longe dos clichês.
A história de Maiorca começa na pré-história com a cultura talaiótica (por volta de 1300 a.C.), que espalhou pela ilha os talaiots, grandes torres de pedra. Fenícios e cartagineses a frequentaram —os fundibulários baleares, temidos guerreiros armados com funda, ficaram célebres em toda a Antiguidade—, até que Roma a conquistou por volta de 123 a.C. pelas mãos de Quinto Cecílio Metelo 'Balearicus', que fundou Palma e Pollentia. Depois da passagem de vândalos e bizantinos, a ilha passou a integrar o mundo muçulmano no início do século X (a partir de 902-903), e Madina Mayurqa floresceu como centro cultural por mais de três séculos. Em 1229, o rei Jaime I de Aragão conquistou a ilha e deu início à etapa cristã e catalã. Em 1276 nasceu o efêmero Reino de Maiorca independente, com Jaime II, até sua reincorporação à Coroa de Aragão em 1343-1349, após a batalha de Llucmajor. Os séculos seguintes trouxeram o flagelo da pirataria berbere e do corso. E a partir dos anos 1950-60, o turismo de massa transformou completamente a ilha, tornando-a um dos grandes destinos da Europa. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Balearics at the heart of the Mediterranean: the talayots of prehistory, Phoenician and Punic Ibiza, the conquest of Mallorca by James I in 1229, centuries of corsairs, and the tourism that transformed them in the twentieth century.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes dos guarda-sóis e dos hotéis, Maiorca foi terra de construtores de pedra e de guerreiros temidos em todo o Mediterrâneo. Os primeiros habitantes chegaram à ilha por volta de 3500 a.C., no Neolítico, mas o grande salto cultural aconteceu por volta de 1300 a.C., com o surgimento da cultura talaiótica, comum a Maiorca e Minorca. Seu nome vem dos talayots, grandes torres troncocônicas de pedra que ainda hoje salpicam a paisagem da ilha, ao lado de outros monumentos megalíticos. Eram sociedades organizadas, com um forte componente guerreiro, que deixaram povoados fortificados e uma arquitetura ciclópica impressionante.
A posição estratégica das Baleares, bem no meio da rota marítima do Mediterrâneo ocidental, logo atraiu os grandes povos comerciantes da Antiguidade. Fenícios e, sobretudo, cartagineses frequentaram suas costas e estabeleceram entrepostos comerciais. Dessa época vem um dos traços mais célebres dos antigos maiorquinos: os fundibulários baleares, guerreiros especialistas no uso da funda, capazes de lançar projéteis de pedra ou chumbo com precisão e força devastadoras. Foram mercenários muito valorizados e lutaram nos exércitos cartagineses —incluindo os de Aníbal— e, mais tarde, nas legiões romanas. Diz a lenda que aprendiam a usar a funda desde crianças, obrigados a acertar a própria comida para poder comer.
O próprio nome das ilhas é tradicionalmente associado a esses guerreiros: 'Baleares' foi relacionado ao grego 'ballein' (lançar, arremessar), embora a origem exata seja discutida. Seja como for, Maiorca entrou na história escrita como uma terra de hábeis fundibulários no tabuleiro das grandes potências do Mediterrâneo.
A incorporação de Maiorca ao mundo clássico veio pelas mãos de Roma. Por volta de 123 a.C., o cônsul Quinto Cecílio Metelo conquistou as Baleares numa campanha que, segundo as fontes, tinha como pretexto acabar com a pirataria que ameaçava o comércio romano na região. A vitória lhe rendeu o apelido honorífico de 'Balearicus'. Roma organizou o território e fundou duas cidades que seriam fundamentais: Palma (a atual capital) e Pollentia (perto da atual Alcúdia, no norte), cujos restos arqueológicos —fórum, teatro, casas— ainda podem ser visitados.
Sob o domínio romano, que se estendeu por séculos, a ilha foi profundamente romanizada: chegaram a língua latina, a videira, a oliveira, as técnicas agrícolas, as estradas romanas e, com o tempo, o cristianismo. Maiorca viveu um longo período de estabilidade e integração ao mundo mediterrâneo romano.
A queda do Império Romano do Ocidente arrastou também as Baleares para séculos turbulentos. No século V, os vândalos, um povo germânico que havia fundado um reino no norte da África, ocuparam as ilhas e as incorporaram aos seus domínios, numa etapa marcada pela instabilidade. No século VI, o imperador bizantino Justiniano as recuperou para o Império Romano do Oriente, no contexto de sua ambiciosa reconquista do Mediterrâneo, e Maiorca ficou ligada, ainda que de forma cada vez mais fraca e distante, a Bizâncio. Foi um período de transição, da Antiguidade tardia para a Idade Média, em que a ilha, exposta e isolada, buscava seu lugar num mundo que mudava em grande velocidade.
No início do século X, Maiorca entrou na órbita do islã. Embora tenha havido incursões e contatos desde o século VIII, a conquista e a integração plena a al-Andalus aconteceram por volta dos anos 902-903, quando as ilhas passaram ao domínio do emirado (depois califado) omíada de Córdoba. Começava assim uma etapa de mais de três séculos que deixaria uma marca profunda e duradoura na ilha.
A capital, rebatizada de Madina Mayurqa (sobre a antiga Palma), floresceu como um importante centro urbano e cultural. Foram erguidos mesquitas, palácios, banhos e um sistema de muralhas; desenvolveu-se uma agricultura avançada graças a sofisticadas técnicas de irrigação —canais, noras, cisternas— que transformaram o campo maiorquino e introduziram novos cultivos. Ainda hoje sobrevivem vestígios dessa época, como os Banhos Árabes de Palma, e boa parte da toponímia e do vocabulário agrícola da ilha tem raiz árabe.
Durante um tempo, as Baleares chegaram a formar uma taifa independente e serviram de base para frotas e, às vezes, para a pirataria que atormentava as costas cristãs do Mediterrâneo. Esse foi, justamente, um dos motivos que levaram os reinos cristãos a voltar os olhos para a ilha. Em 1114-1115, uma grande expedição pisano-catalã atacou Madina Mayurqa e a saqueou, embora não tenha conseguido mantê-la. O destino da Maiorca de al-Andalus seria selado um século depois, quando um jovem e ambicioso rei da Coroa de Aragão pôs os olhos nela.
O ano de 1229 marca a grande virada da história de Maiorca. O rei Jaime I de Aragão, chamado 'o Conquistador', desembarcou na ilha à frente de um grande exército de catalães e aragoneses e, depois de um cerco a Madina Mayurqa, tomou a cidade em 31 de dezembro daquele ano. A conquista representou o fim de mais de três séculos de domínio muçulmano e o começo da Maiorca cristã, catalã na língua, na cultura e nas instituições. Sobre a mesquita principal começou-se a construir, pouco depois, a grande catedral gótica de La Seu. A língua catalã, que os colonos trouxeram consigo, tornou-se a língua própria da ilha e continua sendo até hoje, em sua variante maiorquina.
Com sua morte, Jaime I dividiu seus domínios entre os filhos, e assim nasceu em 1276 o Reino de Maiorca privativo, ou independente, com Jaime II como primeiro rei. Esse reino, que além das Baleares incluía territórios no sul da França (o Rossilhão, a Cerdanha, Montpellier), viveu uma época de esplendor. Jaime II impulsionou a economia, fundou vilas e mandou construir edifícios emblemáticos como o Castell de Bellver, o singular castelo circular de Palma, e o Palau de l'Almudaina.
A independência, no entanto, foi breve e conflituosa. O reino privativo de Maiorca ficou preso entre as tensões com a poderosa Coroa de Aragão, até que o rei Pedro IV de Aragão o reincorporou à força entre 1343 e 1349. O último rei privativo, Jaime III, morreu na batalha de Llucmajor, em 1349, tentando recuperar sua coroa. Desde então, Maiorca passou a fazer parte da Coroa de Aragão e, mais tarde, da Monarquia Hispânica.
Os séculos que se seguiram à reincorporação à Coroa de Aragão foram tempos duros para Maiorca. A ilha sofreu o flagelo constante da pirataria berbere: frotas de corsários do norte da África e do Império Otomano assolavam as costas, saqueavam vilas e capturavam moradores para vendê-los como escravos. Para se defender, os maiorquinos encheram o litoral de torres de vigia (as 'talaies'), que se comunicavam com sinais de fogo e fumaça, e muitas vilas recuaram para o interior, longe da costa perigosa. A própria Maiorca também praticou o corso, com marinheiros que atacavam navios inimigos com licença real.
No plano interno, a Baixa Idade Média e a Idade Moderna trouxeram tensões sociais e econômicas. Houve revoltas populares contra os impostos e os privilégios, como o levante dos 'forans' (os camponeses do interior contra a cidade) no século XV e, sobretudo, a Germania maiorquina de 1521-1523, uma grande rebelião de corporações de ofício e camponeses duramente reprimida. A comunidade judaica e os convertidos (os 'xuetes') sofreram perseguição e discriminação durante séculos.
No plano político, Maiorca seguiu o destino da Coroa de Aragão e depois da Monarquia Hispânica. Durante a Guerra de Sucessão Espanhola, no início do século XVIII, a ilha apoiou majoritariamente o lado austracista; após a vitória dos Bourbon, os Decretos de Nova Planta (1715-1716) aboliram as instituições próprias do reino e centralizaram o poder. A economia continuou sendo eminentemente agrícola e marítima, com o azeite, a vinha, a amêndoa e o comércio como pilares, até bem avançado o século XX. Nada fazia prever a transformação radical que estava por vir.
A grande revolução da Maiorca contemporânea não foi uma guerra nem uma conquista, mas o turismo. A ilha sempre tinha atraído viajantes ilustres —o arquiduque Luís Salvador da Áustria, que a estudou e amou com devoção no fim do século XIX; Chopin e George Sand em Valldemossa; poetas e pintores em Deià—, mas era um fluxo pequeno e seleto. Tudo mudou a partir dos anos 1950 e, sobretudo, dos anos 60, quando a popularização do avião, o aumento do padrão de vida na Europa e uma política decidida de incentivo ao turismo transformaram Maiorca num dos primeiros destinos de sol e praia de massa do mundo.
Em apenas duas décadas, a ilha se transformou por completo. Foram construídos aeroportos, estradas e milhares de hotéis e apartamentos ao longo da costa; áreas antes despovoadas se encheram de complexos turísticos; e milhões de visitantes passaram a chegar todo verão, atraídos pelo clima, pelas praias e pelos preços. O turismo substituiu a agricultura como motor econômico e deu a Maiorca uma prosperidade e uma modernização rapidíssimas, mas também uma urbanização às vezes desordenada e uma forte dependência de um único setor.
Hoje Maiorca recebe muitos milhões de turistas por ano, e o turismo é ao mesmo tempo sua grande riqueza e seu grande desafio. A superlotação no verão, a pressão sobre a água e o território, o encarecimento da moradia para os residentes e a proteção de espaços naturais frágeis geraram um debate intenso e protestos de moradores contra o 'overtourism'. As instituições responderam com medidas como o Imposto de Turismo Sustentável (a ecotaxa), restrições de acesso a lugares saturados como o Cap de Formentor e limites aos aluguéis de temporada. A ilha busca hoje um equilíbrio difícil: continuar vivendo do turismo sem morrer de sucesso, e preservar a Maiorca autêntica —a da Tramuntana, das vilas de pedra e das calas— que encanta o viajante.