Žilina não costuma aparecer nos folhetos, e é justamente por isso que surpreende. É uma cidade de porte médio, animada e cheia de personalidade, cujo centro histórico gira em torno de uma joia rara: a praça Mariánske námestie, um quadrado quase perfeito rodeado de arcadas nos quatro lados, com casas burguesas coloridas e galerias que abrigam cafés e lojas. É uma das praças com arcadas mais bonitas e singulares da Eslováquia, um lugar feito para passear sem pressa.
Mas o grande trunfo de Žilina é a localização. Aqui, onde se encontram os rios Váh e Kysuca e se cruzam as rotas do norte, a cidade é a melhor base para descobrir um dos cantos mais espetaculares do país: o maciço da Malá Fatra, com o desfiladeiro de Vrátna e seus picos; o castelo de Strečno, empoleirado num penhasco à beira do rio; o castelo de Budatín, com seu curioso museu da funilaria de arame (o 'drotárstvo', a arte do arame típica da região); e, um pouco mais longe, o imponente castelo de Orava.
Este guia percorre Žilina com olhar prático: o que ver no centro histórico e no castelo de Budatín, como organizar os passeios a Strečno, à Malá Fatra e a Orava, e como aproveitar sua condição de entroncamento ferroviário para circular pelo norte da Eslováquia. É uma cidade que funciona ao mesmo tempo como destino e como acampamento-base para a montanha e os castelos.
Žilina fica num cruzamento de caminhos e rios habitado desde a Antiguidade, num ponto estratégico do norte do antigo Reino da Hungria. A cidade medieval cresceu graças ao comércio ao longo do Váh e obteve privilégios importantes: em 1321 recebeu direitos de cidade real, e do início do século XV data o 'Žilinská kniha' (Livro de Žilina), um documento notável que inclui textos administrativos e os primeiros registros em língua eslovaca, muito valorizado na história cultural do país. Povoada por eslovacos e colonos alemães, Žilina prosperou como centro artesanal e comercial. Nos séculos XIX e XX, a chegada da ferrovia e da indústria a transformou num importante entroncamento de transportes e numa cidade fabril (com a indústria têxtil e, mais tarde, a automobilística). A tradição da funilaria de arame ou 'drotárstvo' — a arte de trabalhar o arame — tornou esta região famosa, e hoje é preservada no museu do castelo de Budatín. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Danube west and the Váh valley: the coronation capital on the riverbank, the Roman rock at Trenčín with its inscription from the year 179, and Žilina, the industrial gateway to the mountainous north.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Žilina nasceu onde a geografia praticamente obrigava o surgimento de uma cidade: no ponto em que os rios Váh e Kysuca se encontram, ao pé das montanhas do noroeste da atual Eslováquia, num cruzamento de rotas que ligavam as planícies do sul à Silésia, à Morávia e à Polônia. Esse ponto estratégico foi habitado desde a pré-história, e na Alta Idade Média havia aqui povoados eslavos que aproveitavam o vau e o comércio fluvial.
Com a consolidação do Reino da Hungria, ao qual esta região pertenceu durante séculos, o lugar foi ganhando importância como ponto de passagem e de mercado. A primeira menção escrita a Žilina data do século XIII. Como em muitas outras cidades da Europa Central da época, à população eslava original somaram-se colonos alemães, atraídos pelos privilégios comerciais e artesanais, que trouxeram seu saber urbano e suas formas de organização em guildas. Dessa mistura de gentes surgiu a cidade medieval, com sua praça do mercado, suas igrejas e suas oficinas.
O século XIV foi decisivo para Žilina. Em 1321, a cidade recebeu o título de cidade real livre dentro do Reino da Hungria, um estatuto que lhe dava autonomia, direitos de mercado e vantagens comerciais. Esse privilégio impulsionou seu desenvolvimento como centro artesanal e mercantil: as guildas prosperaram, a vida urbana se organizou em torno da praça e a cidade se tornou um polo do comércio ao longo do Váh.
Dessa época vem um dos documentos mais valiosos da história cultural eslovaca: o 'Žilinská kniha', ou Livro de Žilina, um registro municipal iniciado no começo do século XV. Nele estão reunidas normas jurídicas — incluindo uma versão do direito urbano de Magdeburgo — e anotações sobre a vida da cidade. Seu enorme valor está no fato de conter alguns dos textos administrativos mais antigos escritos numa forma inicial da língua eslovaca (a partir da primeira metade do século XVI), o que o torna uma peça-chave para o estudo das origens do eslovaco escrito. O Livro de Žilina é, de certa forma, um símbolo do despertar da consciência linguística e cultural da região muito antes da era moderna.
Os séculos XVI e XVII foram tempos difíceis para Žilina, assim como para todo o norte do Reino da Hungria. Depois da derrota húngara para os otomanos em Mohács (1526), a região passou para a Monarquia dos Habsburgo, num clima de instabilidade. Embora os turcos não tenham chegado até aqui, a cidade foi afetada pelas guerras e revoltas dos nobres húngaros contra os Habsburgo, pelos conflitos religiosos da Reforma e da Contrarreforma e por epidemias e incêndios que atingiam a população de tempos em tempos.
Apesar das adversidades, Žilina manteve seu caráter de cidade artesanal e comercial. Nessas terras montanhosas do noroeste eslovaco criou raízes um ofício singular que tornaria a região famosa: o 'drotárstvo', a arte da funilaria e do arame. Os 'drotári' eram artesãos ambulantes que fabricavam e consertavam utensílios de cozinha e criavam objetos trançando e moldando arame e chapa metálica. Diante da pobreza das terras de montanha, muitos homens da região partiam por meses ou anos para exercer o ofício por todo o Império Austro-Húngaro e, mais tarde, pela Europa e até pela América. O drotárstvo virou uma marca de identidade da região de Žilina e um capítulo comovente de sua história social, hoje preservado no museu do castelo de Budatín.
A grande transformação de Žilina veio com a ferrovia. No fim do século XIX, a cidade se tornou um importante entroncamento ferroviário do Império Austro-Húngaro: por aqui passavam as linhas que ligavam Budapeste e o sul à Silésia, à Boêmia e ao norte, e as rotas do Váh se cruzavam com as que subiam rumo aos passos de montanha. Essa posição de encruzilhada, que definia a cidade desde a Idade Média, se multiplicou com os trens, e Žilina cresceu rapidamente em população e importância.
A ferrovia trouxe a indústria. Instalaram-se fábricas — têxteis, químicas, de celulose — e a cidade se encheu de operários, engenheiros e de uma burguesia industrial que construiu bairros elegantes como Bôrik, com suas mansões ajardinadas. No período entreguerras, já dentro da nova Tchecoslováquia criada em 1918, Žilina continuou se modernizando e ganhou arquitetura funcionalista; dessa época é a notável sinagoga neológica projetada pelo arquiteto alemão Peter Behrens nos anos 1930, hoje transformada em centro de arte contemporânea. A cidade se firmava como um dos principais centros urbanos e industriais do norte eslovaco.
O século XX trouxe a Žilina, como a toda a Eslováquia, episódios luminosos e trágicos. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a Eslováquia transformada em Estado fantoche da Alemanha nazista, a comunidade judaica da cidade — numerosa e ativa, como mostra sua grande sinagoga — foi perseguida e deportada; a Žilina judaica praticamente desapareceu no Holocausto, uma das feridas mais profundas de sua história. A região também participou da resistência e do Levante Nacional Eslovaco de 1944 contra a ocupação.
Sob o regime comunista instaurado depois da guerra, Žilina continuou crescendo como cidade industrial e ferroviária, com novos bairros de blocos residenciais e uma forte base fabril. A Revolução de Veludo de 1989 pôs fim pacificamente ao comunismo e, com a separação entre a Tchéquia e a Eslováquia em 1993, Žilina passou a fazer parte da nova Eslováquia independente como uma de suas grandes cidades.
Nas últimas décadas, a cidade viveu um novo impulso econômico, ligado sobretudo à indústria automobilística, que a transformou num polo industrial do norte do país. Ao mesmo tempo, Žilina valorizou seu patrimônio: sua singular praça com arcadas, o castelo de Budatín com seu museu da funilaria, a recuperação da sinagoga como espaço cultural e seu papel de porta de entrada para a Malá Fatra e para os castelos do norte. Fiel à sua origem, Žilina continua sendo o que sempre foi: uma encruzilhada, agora também entre a tradição e a modernidade, entre a cidade do trabalho e a montanha que a cerca.