Košice é a grande cidade do leste da Eslováquia, a segunda do país e, para muitos, a mais elegante. Seu coração é uma rua-praça monumental, a Hlavná ulica, um eixo largo e alongado que se abre no centro para acolher a maior catedral gótica da Eslováquia, uma fonte cantante, um teatro do século XIX com ar vienense e uma sequência de palácios, igrejas e cafés. Passear por ela, de mesinha em mesinha, é entender por que Košice foi Capital Europeia da Cultura em 2013.
Por trás dessa fachada burguesa pulsa uma história riquíssima: Košice foi uma das cidades mais importantes do reino da Hungria, recebeu em 1369 um dos primeiros brasões concedidos a uma cidade na Europa e foi durante séculos um cruzamento de povos — eslovacos, húngaros, alemães, rutenos, judeus, ciganos — cuja marca aparece na arquitetura, na cozinha e no caráter cosmopolita. Aqui repousam os restos do príncipe Francisco II Rákóczi, herói da luta húngara contra os Habsburgo.
Este guia percorre Košice com olhar prático: como chegar a este extremo oriental do país, o que ver no centro histórico — a catedral de Santa Isabel, a rua Hlavná, os museus, o tesouro de ouro medieval —, onde comer e dormir, e como usá-la de base para explorar o leste eslovaco, uma das regiões com mais patrimônio e menos lotadas da Europa Central.
Košice tem raízes medievais: cresceu num cruzamento de rotas comerciais e em 1290 já aparece como cidade. Sua importância era tamanha que em 1369 o rei Luís I da Hungria lhe concedeu um brasão próprio, um dos primeiros dados a uma cidade na Europa. Durante a Idade Média prosperou graças ao comércio e às guildas, e ergueu a imponente catedral gótica de Santa Isabel. Foi palco das lutas entre os Habsburgo e os príncipes da Transilvânia, e capital dos movimentos de independência húngaros; aqui está enterrado Francisco II Rákóczi. Cidade multiétnica de eslovacos, húngaros, alemães e uma grande comunidade judaica — dizimada no Holocausto —, depois de 1918 passou à Tchecoslováquia, com um breve retorno à Hungria durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, o 'Programa de Košice' definiu o rumo do pós-guerra tchecoslovaco. Industrializada sob o comunismo com sua grande siderúrgica, hoje é uma cidade universitária e cultural que foi Capital Europeia da Cultura em 2013. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The medieval east of the Saxon towns: Košice and its Gothic cathedral, the vast ruins of Spiš Castle, the tallest carved altar in the world in Levoča, the intact square of Bardejov and the gorges of the Slovak Paradise.
Ler a história de The east: Spiš, Košice and Levoča →Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Košice nasceu onde os caminhos se cruzavam. Situada no vale do rio Hornád, em um ponto de passagem entre o norte montanhoso e as planícies do sul, e na rota comercial que ligava o reino da Hungria à Polônia e ao Báltico, a cidade cresceu desde a Idade Média graças ao comércio. Povoada por eslavos, húngaros e colonos alemães (os chamados saxões), Košice aparece mencionada como localidade por volta de 1230 e logo obteve privilégios de cidade, que lhe deram autonomia, mercados e o direito de se cercar de muralhas.
Sua ascensão foi rápida. No século XIV, Košice já era uma das cidades mais ricas e populosas do reino da Hungria, com poderosas guildas de artesãos e comerciantes. O marco simbólico dessa importância chegou em 1369, quando o rei Luís I da Hungria concedeu à cidade um brasão de armas próprio: trata-se de um dos primeiros brasões outorgados a uma cidade — e não a uma pessoa ou família — em toda a Europa, um documento heráldico pioneiro que Košice conserva com orgulho como símbolo de sua antiguidade e de sua importância.
A prosperidade medieval ficou registrada em pedra. Entre o final do século XIV e o início do XVI foi erguida a catedral de Santa Isabel, a maior igreja gótica da Eslováquia, financiada pela riqueza mercantil da cidade e dedicada a Santa Isabel da Hungria. Ao redor dela cresceu o centro histórico monumental que hoje admiramos, com sua longa rua-praça, suas guildas e seus palácios.
Os séculos XVI e XVII foram turbulentos para Košice. Depois da derrota húngara para os otomanos em Mohács (1526), o reino da Hungria se dividiu e ficou preso entre três forças: os Habsburgo da Áustria, o Império Otomano e o principado da Transilvânia. Košice, importante demais para não ser cobiçada, mudou de mãos várias vezes e foi palco das guerras entre os Habsburgo católicos e os príncipes húngaros protestantes da Transilvânia, que buscavam preservar a independência e a liberdade religiosa.
A cidade foi tomada por líderes rebeldes como Estêvão Bocskai e Gabriel Bethlen, e viveu episódios de forte tensão religiosa, incluindo o martírio, em 1619, de três padres católicos — os chamados mártires de Košice, canonizados séculos depois. Košice se tornou um bastião dos movimentos de resistência húngara contra Viena, e seu nome ficou ligado às grandes insurreições da nobreza húngara.
A figura que melhor encarna esse papel é Francisco II Rákóczi, príncipe da Transilvânia e líder da grande insurreição anti-Habsburgo de 1703-1711. Embora tenha morrido no exílio na Turquia, seus restos mortais foram repatriados em 1906 e sepultados na catedral de Santa Isabel de Košice, onde repousam hoje em uma cripta que é local de peregrinação para húngaros e eslovacos. A cidade ficou assim gravada na memória da luta pela liberdade húngara.
Durante o século XIX, sob o Império Austro-Húngaro, Košice — conhecida então pelo nome húngaro, Kassa, e pelo alemão, Kaschau — se modernizou e ficou mais bonita. Foi construído o elegante Teatro Estatal, abriram-se bulevares, chegou a ferrovia e a cidade ganhou o ar burguês centro-europeu que a rua Hlavná ainda conserva. Foi um centro administrativo, comercial e cultural da Alta Hungria (a atual Eslováquia).
O mais característico de Košice era seu caráter multiétnico. Em suas ruas conviviam eslovacos, húngaros, alemães, rutenos e uma numerosa e próspera comunidade judaica, que trouxe comércio, indústria, profissões liberais e uma intensa vida cultural, e que construiu várias sinagogas. Havia também população cigana (roma). Essa mistura de línguas, religiões e tradições deu à cidade uma riqueza e uma tolerância que marcaram sua identidade, ainda que não isenta de tensões nacionais, sobretudo no contexto da política de magiarização do Estado húngaro.
O fim da Primeira Guerra Mundial e a queda do Império Austro-Húngaro mudaram radicalmente o mapa. Em 1918-1919, Košice passou a fazer parte da nova Tchecoslováquia, deixando de ser uma cidade húngara para se tornar parte de um Estado eslavo. A mudança de soberania, a nova fronteira e as tensões entre as comunidades marcariam as décadas seguintes.
O período entreguerras foi frágil. Em 1938, pela Primeira Arbitragem de Viena, a Alemanha nazista e a Itália fascista entregaram Košice e o sul da Eslováquia novamente à Hungria, que ocupou a cidade. Sob domínio húngaro e em plena guerra mundial, a comunidade judaica de Košice foi perseguida e, na primavera de 1944, a imensa maioria de seus membros foi deportada para Auschwitz-Birkenau, onde foram assassinados. A aniquilação daquela comunidade, uma das mais importantes da região, foi uma perda irreparável que a cidade lembra com memoriais sóbrios.
A guerra deixou outra marca decisiva. Em abril de 1945, recém-libertada pelo Exército Vermelho, Košice foi por algumas semanas a capital provisória da Tchecoslováquia. Ali foi proclamado o chamado Programa de Košice, o documento que estabeleceu as bases do novo Estado tchecoslovaco do pós-guerra, com um peso crescente dos comunistas e com a expulsão e a transferência forçada de parte das populações alemã e húngara. Foi um momento-chave na história do país.
Sob o regime comunista instaurado em 1948, Košice se transformou por completo. A construção da gigantesca siderúrgica VSŽ (os Altos-Fornos da Eslováquia Oriental) nos anos 1960 transformou a cidade em um grande polo industrial e multiplicou sua população, que passou de dezenas de milhares para mais de duzentos mil habitantes. Enormes conjuntos de prédios residenciais foram erguidos ao redor do núcleo histórico. A velha cidade mercantil virou industrial e operária, sem perder totalmente seu centro histórico monumental.
A Revolução de Veludo de 1989 pôs fim ao regime comunista na Tchecoslováquia e, em 1993, a dissolução pacífica do país deu origem à República Eslovaca independente, com Košice como sua segunda cidade e capital indiscutível do leste. A transição trouxe a reestruturação da grande indústria — a siderúrgica passou para mãos privadas —, o crescimento das universidades e dos serviços e uma progressiva recuperação do centro histórico, com cada vez mais ruas só para pedestres.
O reconhecimento internacional chegou em 2013, quando Košice foi Capital Europeia da Cultura, um título que impulsionou a restauração do patrimônio, a criação de novos espaços culturais — como a transformação de antigos quartéis e fábricas em centros de arte — e a projeção europeia da cidade. Košice mostrou ao continente sua elegante rua Hlavná, sua catedral, seus museus e sua vibrante vida cultural.
Hoje, Košice é uma cidade universitária, tecnológica e cultural, orgulhosa de sua história multiétnica e de seu papel como coração do leste eslovaco. Conserva tradições singulares, como a Maratona Internacional da Paz, a mais antiga da Europa, disputada pela primeira vez em 1924. Porta de entrada para os tesouros do leste — a região de Spiš, Levoča, Bardejov, o Paraíso Eslovaco —, combina a profundidade de uma história de séculos com a vitalidade de uma cidade jovem e aberta, muito diferente da turística Bratislava e, para muitos viajantes, mais autêntica.