Bornholm é uma ilha que parece de outro país. Perdida no Báltico, mais perto da Suécia e da Polônia do que de Copenhague, essa 'ilha do sol' dinamarquesa tem luz, paisagem e personalidade próprias. No norte há falésias e rochas de granito. No interior, florestas e campos ondulados. No sul, longas praias de areia branquíssima. E a costa é pontilhada de vilas de pescadores com casinhas coloridas. É um dos cantos mais queridos pelos próprios dinamarqueses para passar as férias.
A história está presente em cada canto. Bornholm conserva suas famosas igrejas redondas (rundkirker), templos-fortaleza medievais únicos no mundo, brancos e maciços, que serviam ao mesmo tempo de igreja e de refúgio defensivo. No norte da ilha domina a silhueta de Hammershus, a maior ruína de fortaleza medieval do norte da Europa. Ela fica no alto de uma falésia com vista para o mar. É um lugar impressionante, carregado de séculos de cercos e intrigas.
Mas Bornholm também é sabor e arte. Nas suas defumadoras (røgeri) se prepara o arenque defumado, o prato estrela da ilha. Os ateliês de cerâmica, vidro e artesanato fizeram dela um polo criativo. E a natureza convida a caminhar, pedalar e tomar banho de mar. Este guia percorre o essencial de Bornholm com um olhar prático e caloroso: o que ver, quanto custa, como chegar a essa ilha do Báltico e como se locomover por ela para aproveitar cada um dos seus tesouros.
Bornholm, ilha de granito no coração do mar Báltico, é habitada desde a pré-história. Seus numerosos petróglifos (gravuras rupestres) da Idade do Bronze e seus monumentos megalíticos comprovam isso. Na época viking e medieval, foi um ponto estratégico e comercial. Na Idade Média, a ilha passou muito tempo sob o controle do arcebispado de Lund (então dinamarquês, hoje sueco). Foi ele que construiu a grande fortaleza de Hammershus, cujas origens remontam ao século XIII. As singulares igrejas redondas, do século XII, serviam de templo e de refúgio fortificado contra ataques. O tratado de Roskilde, de 1658, cedeu Bornholm à Suécia. Os ilhéus protagonizaram então uma célebre revolta e conseguiram devolver a ilha à coroa dinamarquesa em 1660, um episódio de orgulho local. Durante a Segunda Guerra Mundial, Bornholm foi ocupada pela Alemanha nazista. No fim da guerra, em maio de 1945, foi bombardeada pela União Soviética, que a ocupou até 1946 antes de devolvê-la à Dinamarca. Na era moderna, a ilha viveu da pesca (com suas defumadoras de arenque), da agricultura e da extração de granito. Cada vez mais, vive também do turismo e de uma cena florescente de artesanato, cerâmica e gastronomia. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Bornholm é, antes de tudo, uma ilha de granito surgida em pleno mar Báltico, e essa natureza rochosa marcou sua história desde a pré-história. A ilha é habitada há milhares de anos, como mostram seus inúmeros monumentos: dólmens e túmulos megalíticos do Neolítico e, principalmente, os famosos petróglifos (helleristninger), gravuras rupestres da Idade do Bronze entalhadas nas rochas, com figuras de barcos, rodas solares e pegadas, testemunho dos cultos e da vida dos antigos habitantes. Essas gravuras, espalhadas pela ilha, estão entre as mais importantes do norte da Europa.
Na Antiguidade, Bornholm foi um enclave com identidade própria. Seu nome já foi associado aos 'burgúndios', um povo germânico que, segundo algumas teorias, teria tido aqui uma de suas origens antes de migrar para o continente. Durante a Idade do Ferro e a época das grandes migrações, a ilha manteve contatos comerciais por todo o Báltico, como mostram os ricos achados arqueológicos de ouro e objetos de luxo encontrados em seu solo.
Na era viking (séculos VIII-XI), Bornholm ocupou uma posição estratégica nas rotas marítimas do Báltico, entre a Escandinávia, as terras eslavas e o Leste. A ilha fez parte do mundo viking com seus assentamentos, seu comércio e sua navegação. Esse passado antigo e viking, gravado na pedra e enterrado em seus campos, é a primeira camada de uma história longa e singular, a de uma ilha que sempre olhou para o mar que a cerca.
A Idade Média deixou em Bornholm dois de seus tesouros mais singulares, ambos nascidos da mesma necessidade: se defender. Numa ilha exposta em pleno Báltico, à mercê de piratas e das disputas entre as potências da região, a arquitetura não podia ser só bonita: tinha que proteger. Foi assim que surgiram, no século XII, as famosas igrejas redondas (rundkirker), templos de planta circular, brancos e maciços, com paredes grossíssimas, que serviam ao mesmo tempo como local de culto, depósito de mantimentos e refúgio fortificado para a população em caso de ataque. A ilha conserva quatro delas — Østerlars, Nylars, Nyker e Olsker —, únicas no mundo pela forma e pela função.
O grande símbolo defensivo da ilha, porém, é Hammershus, a maior ruína de fortaleza medieval do norte da Europa, erguida sobre uma falésia no extremo norte de Bornholm. Suas origens remontam ao século XIII, quando o poderoso arcebispado de Lund — que na época controlava a ilha — a construiu para afirmar seu domínio e projetar seu poder sobre o Báltico. Ao longo da Idade Média, Bornholm foi alvo de uma longa disputa pelo seu controle entre o arcebispado de Lund, a coroa dinamarquesa e as cidades hanseáticas, e Hammershus esteve no centro dessas disputas, mudando de mãos em cercos e conflitos.
Essa condição de peça cobiçada marcou a história medieval da ilha: Bornholm era um ponto estratégico que todos queriam dominar. As igrejas redondas e Hammershus são o testemunho em pedra daqueles séculos de insegurança, em que os ilhéus viviam de olho no mar, atentos a qualquer inimigo. Hoje, esses monumentos são as grandes atrações históricas de Bornholm e a porta de entrada para entender seu passado medieval.
Um dos episódios de que Bornholm mais se orgulha aconteceu em meados do século XVII, no contexto das guerras entre a Dinamarca e a Suécia. Depois de uma derrota dinamarquesa, o tratado de Roskilde de 1658 obrigou a Dinamarca a ceder amplos territórios à Suécia, entre eles as províncias da Escânia (Skåne) e também a ilha de Bornholm. Da noite para o dia, os bornholmeses passaram a ser súditos suecos, contra a sua vontade, e as autoridades suecas assumiram o controle da ilha.
Mas os ilhéus não se conformaram. Em dezembro de 1658, estourou em Bornholm uma revolta contra o domínio sueco. O comandante sueco da ilha, Johan Printzensköld, foi morto pelos rebeldes na cidade de Rønne, num episódio que virou lenda local. A insurreição deu certo: os bornholmeses expulsaram os suecos e, num gesto carregado de simbolismo, decidiram entregar a ilha de volta à coroa dinamarquesa, ao rei Frederico III, com a condição de que Bornholm nunca mais fosse cedida nem separada da Dinamarca. Assim, em 1660, a ilha voltou oficialmente à soberania dinamarquesa.
Esse episódio — uma revolta popular que, por conta própria, devolveu um território ao seu país — é único na história da Dinamarca e motivo de orgulho para os bornholmeses, que o lembram como prova de sua firme identidade dinamarquesa. Enquanto a Escânia ficou definitivamente nas mãos suecas, Bornholm voltou a ser dinamarquesa por decisão dos próprios habitantes, e assim continua até hoje. A história de 1658-1660 explica em boa parte o forte sentimento de pertencimento da ilha e seu lugar especial dentro da Dinamarca.
O século XX trouxe a Bornholm um dos capítulos mais dramáticos de sua história. Assim como o resto da Dinamarca, a ilha foi ocupada pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1940. Por sua posição estratégica no Báltico, Bornholm teve certa importância militar para os alemães, que instalaram guarnições e estruturas na ilha, entre elas postos de radar.
O drama veio nos últimos dias da guerra na Europa. Quando a Alemanha se rendia e o resto da Dinamarca era libertado, em maio de 1945, a guarnição alemã de Bornholm, comandada por um oficial que se recusou a se render às forças soviéticas (que avançavam pelo Báltico), manteve sua resistência. Em resposta, a aviação soviética bombardeou nos dias 7 e 8 de maio de 1945 as cidades de Rønne e Nexø, causando destruição e vítimas e levando à evacuação de parte da população. Foi um golpe trágico, justamente quando a paz chegava à Europa.
Depois do bombardeio, as tropas soviéticas desembarcaram e ocuparam Bornholm. Ao contrário de outros territórios que ficaram sob controle soviético por décadas, a ilha foi devolvida à Dinamarca: as forças soviéticas se retiraram em abril de 1946, após quase um ano de ocupação, e Bornholm voltou plenamente à soberania dinamarquesa. Rønne e Nexø foram reconstruídas, em parte com ajuda sueca, com fileiras de casas características do pós-guerra. Esse episódio, com a ocupação nazista, o bombardeio soviético e o retorno à Dinamarca, deixou uma marca profunda na memória da ilha e é parte essencial de sua história recente, sempre tratada com a seriedade que suas vítimas merecem.
Depois das turbulências do século XX, Bornholm se reinventou como destino de natureza, arte e gastronomia, sem perder seu caráter de ilha trabalhadora e autêntica. Durante gerações, a economia se baseou na pesca — com os característicos defumadouros de arenque, cujas chaminés brancas pontilham o litoral —, na agricultura e na extração de granito, a pedra que forma a ilha e que foi usada em construções por toda a Dinamarca. Essas atividades tradicionais convivem hoje com novas fontes de renda.
Nas últimas décadas, a ilha virou um polo criativo e gastronômico de destaque. Sua luz especial e sua tranquilidade atraíram artistas e artesãos, e Bornholm é hoje famosa por seus ateliês de cerâmica, vidro e artesanato, com uma forte identidade de design, e por sua cena gastronômica: pequenos produtores de queijos, embutidos, mostarda, doces, cervejas e chocolates, restaurantes que trabalham com produtos locais — alguns com reconhecimento internacional — e, claro, o arenque defumado e o clássico 'Sol over Gudhjem'. A ilha ganhou fama de pequeno paraíso 'foodie' do Báltico.
Acima de tudo, Bornholm é hoje a 'ilha do sol' (Solskinsøen), um dos destinos de férias mais queridos pelos dinamarqueses e cada vez mais conhecido fora do país. Sua combinação de patrimônio histórico — Hammershus, as igrejas redondas, as vilas de pescadores —, natureza variada — falésias de granito, florestas, praias de areia branca como Dueodde —, gastronomia e arte faz dela um lugar singular, com personalidade própria dentro da Dinamarca. A rocha do Báltico que já foi cobiçada por arcebispos, reis e exércitos é agora um refúgio luminoso para curtir a paisagem, o sabor e a calma. Essa é a última, e mais amável, etapa de sua longa história.