Mljet é a ilha do silêncio e do verde: uma longa espinha arborizada estendida no mar, a noroeste de Dubrovnik, que muitos consideram a ilha mais bonita da Croácia. Coberta de pinheirais que descem até a água, com apenas um punhado de vilarejos e uma natureza quase intacta, é o oposto perfeito do agito da costa. E no seu coração guarda uma raridade geográfica preciosa: dois lagos de água salgada, ligados entre si e ao mar, cercados de floresta.
O terço ocidental da ilha é o Parque Nacional de Mljet, um dos mais antigos da Croácia (1960) e o primeiro parque marinho do país. Seus dois lagos, o Veliko Jezero (lago grande) e o Malo Jezero (lago pequeno), podem ser contornados a pé ou de bicicleta, atravessados de caiaque e aproveitados a nado em águas mornas e transparentes. No meio do lago grande, sobre uma ilhota, ergue-se o antigo mosteiro beneditino de Santa Maria, aonde se chega num barquinho incluído na entrada. É um dos cenários mais serenos e bonitos do Adriático.
Este guia percorre Mljet com olhar prático: como chegar de catamarã saindo de Dubrovnik (a Pomena, Polace ou Sobra) sem errar o porto, quanto custa a entrada no parque e o que ela inclui, como se locomover de bicicleta e caiaque, e o que ver além dos lagos, da gruta que a lenda liga a Ulisses até as praias de areia do sudeste. Também separamos, com honestidade, a história real da ilha dos seus mitos (Calipso, São Paulo), e contamos a curiosa — e instrutiva — história dos mangustos.
Mljet tem uma história tão longa quanto envolta em lendas. Os ilírios a habitaram desde o segundo milênio a.C.; gregos e romanos a conheciam como Melita, e em Polace se conservam ruínas de um palácio romano tardio. A tradição diz que foi a ilha de Calipso (a Ogígia da Odisseia), onde a ninfa reteve Ulisses, e que nela naufragou São Paulo a caminho de Roma; vale esclarecer que as duas são atribuições, não fatos comprovados (Malta também reivindica a 'Melita' de São Paulo). Em 1151 a ilha foi entregue aos monges beneditinos, que no fim do século XII ergueram o mosteiro de Santa Maria na ilhota do lago grande. Depois Mljet ficou ligada à República de Ragusa (Dubrovnik), que a anexou formalmente em 1410 e a integrou ao seu sistema, inclusive às suas célebres quarentenas sanitárias. Em 1910 o mangusto foi introduzido para acabar com as víboras: deu certo, mas ele também devorou grande parte do resto da fauna, um caso clássico de desastre ecológico. Em 1960 foi criado o Parque Nacional. Depois da Áustria, das guerras do século XX, da Iugoslávia socialista e da independência croata nos anos 1990, Mljet é hoje um refúgio de natureza. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Croatia's southernmost tip and its islands: the Republic of Ragusa (Dubrovnik) and its diplomacy, the abolition of the slave trade in 1416, the earthquake of 1667, the islands of Hvar, Korčula and Mljet, island depopulation and the siege of Dubrovnik in 1991.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas ilhas do Adriático carregam tanta lenda quanto Mljet. Antes de ser parque nacional, antes mesmo de ter um nome eslavo, ela foi Melita: era assim que gregos e romanos a conheciam, um topônimo que provavelmente faz referência ao mel ou à abundância de suas florestas.
A ilha é habitada desde tempos muito antigos. Já no segundo milênio a.C., os ilírios se estabeleceram nela, mais precisamente a tribo dos ardieus, marinheiros habilidosos e piratas temidos do Adriático. Com a expansão de Roma, Mljet passou a fazer parte da província da Dalmácia, e do final do período romano sobrevive um testemunho notável: as ruínas de um grande palácio ao lado da atual vila de Polače (cujo nome significa, justamente, 'palácio'), com muros e torres dos séculos III a V d.C. que ainda se erguem entre as casas, além de restos de basílicas paleocristãs.
Mas o que deixou Mljet famosa foram dois mitos, ambos discutidos. O primeiro é greco-latino: a tradição identifica a ilha com Ogígia, o lugar onde, segundo a Odisseia de Homero, a ninfa Calipso manteve Ulisses apaixonado durante sete anos. É por isso que uma espetacular gruta marinha no sul da ilha se chama Caverna de Ulisses. O segundo mito é cristão: Mljet já foi apontada como a 'Melita' onde, segundo os Atos dos Apóstolos, São Paulo naufragou a caminho de Roma, quando uma víbora o mordeu sem lhe causar mal algum. Vale ser claro: as duas atribuições são tradições, não fatos comprovados. Quem reivindica a Melita de São Paulo é sobretudo Malta (que tem esse mesmo nome antigo), e a Ogígia da Odisseia é disputada por várias ilhas do Mediterrâneo. São lendas bonitas que acompanham Mljet há séculos, mas não história documentada.
O episódio que deu a Mljet o seu símbolo mais querido aconteceu na Idade Média, pelas mãos dos monges. Em 1151, a ilha foi entregue à ordem beneditina, vinda da região italiana da Apúlia. Os monges escolheram um lugar de uma serenidade quase irreal: uma ilhota no meio do Veliko Jezero, o grande lago salgado do oeste da ilha, cercada de água e de pinheirais.
Ali, por volta do final do século XII, foram erguidos a igreja e o mosteiro de Santa Maria. As crônicas ligam sua fundação e doação a Desa, um príncipe da casa dos Vojislavljević, que entre 1187 e 1198 teria construído e doado o conjunto aos beneditinos. O mosteiro, com sua igreja românica depois reformada nos estilos gótico e renascentista e seu claustro tranquilo, virou o centro espiritual, cultural e também econômico da ilha: os monges administravam boa parte de Mljet, suas florestas e suas terras.
Durante séculos, a comunidade beneditina foi a verdadeira senhora da ilha, e sua presença deixou uma marca profunda. Com o tempo, depois das reformas e do confisco dos bens eclesiásticos, o mosteiro perdeu a função religiosa e teve vários usos, inclusive o de hotel no século XX. Hoje, restaurado e aberto à visitação, e acessível pelo pequeno barco que atravessa o lago, continua sendo a imagem icônica de Mljet: a pedra clara do mosteiro refletida na água salgada, em meio ao verde da floresta.
A história medieval e moderna de Mljet está ligada de forma inseparável à República de Ragusa, a atual Dubrovnik, a pequena e astuta cidade-Estado que dominou boa parte do sul da Dalmácia. Ragusa foi ampliando seu controle sobre a ilha, primeiro na prática e depois oficialmente: em 1410 anexou formalmente Mljet, que passou a fazer parte do território da República.
Sob Ragusa, Mljet foi um feudo agrícola e florestal, com uma população de camponeses, pastores, pescadores e marinheiros espalhada por pequenas vilas do interior e do litoral. Os encargos feudais e os impostos pesavam sobre os moradores, que mais de uma vez protestaram. A ilha fornecia a Ragusa madeira, sal, vinho, azeite e homens do mar, e sua posição fazia dela um ponto de passagem nas rotas do sul do Adriático.
Ragusa ficou famosa por seu avançado sistema sanitário: foi uma das primeiras repúblicas a instituir quarentenas para conter epidemias, obrigando navios e viajantes suspeitos de trazer a peste a ficar isolados durante semanas antes de entrar na cidade. Ilhas e enclaves do território ragusano, entre eles Mljet, faziam parte desse perímetro sanitário e de controle marítimo. Foi também a época em que se consolidou a fisionomia rural da ilha que ainda hoje se percebe: casarios de pedra, olivais, vinhedos, muros de pedra seca e um ritmo de vida tranquilo, marcado pelo mar e pela floresta.
O século XX deixou em Mljet dois marcos bem diferentes: uma lição de ecologia e a criação de um dos primeiros parques nacionais da Croácia.
A lição de ecologia tem nome de bicho: o mangusto. A ilha estava infestada de víboras, especialmente a venenosa víbora-de-chifre (Vipera ammodytes), que representava um perigo real para camponeses e animais de criação. Em 1910, em busca de uma solução, foram introduzidos mangustos indianos, predadores de serpentes. O plano funcionou… bem demais: os mangustos acabaram com as víboras, mas, sem predadores naturais na ilha, se reproduziram sem controle e passaram a atacar o resto da fauna, devorando aves, ovos, répteis e pequenos animais, e desequilibrando gravemente a natureza de Mljet. Até hoje a ilha convive com os descendentes deles. É um exemplo clássico, citado em livros didáticos, de como a introdução de uma espécie exótica para resolver um problema pode desencadear um desastre maior.
O segundo marco foi no sentido oposto: a proteção da natureza. O valor excepcional do oeste da ilha — os dois lagos salgados, as florestas de pinheiro-de-alepo, o patrimônio do mosteiro — levou à criação, em 11 de novembro de 1960, do Parque Nacional de Mljet, que protege o terço ocidental da ilha. Foi o primeiro parque nacional marítimo da então Iugoslávia e um dos mais antigos da Croácia, pioneiro em reconhecer que a paisagem costeira e submarina merecia a mesma proteção que as montanhas ou os lagos do interior. Desde então, o parque é o coração da identidade de Mljet e o motor do seu turismo de natureza.
Quando a República de Ragusa caiu, em 1808, arrastada pelas guerras napoleônicas, Mljet seguiu o destino do resto da Dalmácia. Depois do breve domínio francês e das Províncias Ilíricas, passou, pelo Congresso de Viena de 1815, para as mãos do Império Austríaco e depois Austro-Húngaro, ao qual pertenceu até 1918. Como em tantas ilhas do Adriático, o século XIX e o começo do XX trouxeram pobreza e emigração: muitos moradores de Mljet deixaram a ilha rumo às Américas e à Austrália em busca de uma vida melhor, e a população ficou reduzida a poucos milhares de pessoas espalhadas por pequenas vilas.
Após a Primeira Guerra Mundial, Mljet passou a integrar o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, depois Iugoslávia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o sul da Dalmácia foi ocupado pelas potências do Eixo e foi palco da luta dos partisans. Terminada a guerra, a ilha fez parte da Iugoslávia socialista de Tito, período em que foi criado o Parque Nacional, em 1960, e em que decolou aos poucos um turismo de natureza, ainda discreto.
Com a desintegração da Iugoslávia, a Croácia declarou independência em 1991 e travou a guerra de independência até 1995. O sul da Dalmácia sofreu duramente com o conflito: a vizinha Dubrovnik foi sitiada e bombardeada, e toda a região viveu anos de tensão e de turismo paralisado. Mljet, mais isolada, não sofreu a destruição da cidade, mas sentiu o golpe econômico daqueles anos. Com a paz restabelecida, e com a entrada da Croácia na União Europeia (2013) e na zona do euro (2023), a ilha reforçou seu papel de refúgio verde: um destino de natureza, silêncio e água cristalina, orgulhoso do seu parque nacional, do seu mosteiro no lago e de uma história em que lenda e realidade se entrelaçam como em poucos lugares do Adriático.