O Parque Nacional Yoho é um dos tesouros menos lotados das Montanhas Rochosas canadenses: ele se estende pela vertente ocidental da divisória continental, na Colúmbia Britânica, logo do outro lado da divisa com Banff (Alberta). O nome vem de uma exclamação de espanto na língua cree, e faz jus às paisagens: cachoeiras estrondosas, lagos de um verde esmeralda, picos imponentes e um dos sítios fósseis mais importantes do mundo, o Burgess Shale.
Apesar do tamanho relativamente modesto e da sombra que os vizinhos Banff e Jasper fazem sobre ele, Yoho concentra atrações de primeira linha: o Lago Esmeralda (Emerald Lake), de águas verdes cercadas de montanhas; as Takakkaw Falls, uma das cachoeiras mais altas do Canadá; a Ponte Natural sobre o rio Kicking Horse; e os célebres fósseis do Burgess Shale, Patrimônio da Humanidade, que preservam organismos marinhos de mais de quinhentos milhões de anos. O parque faz parte do conjunto de parques das Rochosas Canadenses declarado Patrimônio da Humanidade.
Este guia percorre Yoho com um olhar prático: o que ver e fazer entre cachoeiras, lagos e fósseis, e como organizar a visita, muitas vezes combinada com Banff e Lake Louise, que ficam ali do lado. É o destino ideal para quem quer o espetáculo das Rochosas com um pouco menos de multidão, num cantinho de natureza pura cortado pela Trans-Canada Highway.
A região de Yoho foi território de povos originários das Rochosas e do planalto interior. Sua história moderna está ligada à ferrovia: a Canadian Pacific Railway atravessou a área no fim do século XIX pela difícil passagem do Kicking Horse, onde mais tarde foram construídos os famosos túneis em espiral (Spiral Tunnels). O parque foi criado em 1886, um dos mais antigos do Canadá. Em 1909 foi descoberto o sítio fóssil do Burgess Shale, uma janela excepcional para a vida marinha do Cambriano que revolucionou a paleontologia. Hoje Yoho faz parte do conjunto de Parques das Montanhas Rochosas Canadenses, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of the Canadian Pacific: land of the Haida and Coast Salish coastal peoples, of the Fraser gold rush and the railway, of temperate rainforests, Rocky Mountains and cities such as Vancouver and Victoria.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Os povos cree tinham uma única palavra para o que se sente ao olhar estas montanhas: 'Yoho', uma exclamação de espanto, algo como 'que maravilha!'. É difícil encontrar um nome mais honesto para um parque nacional. Na vertente ocidental das Montanhas Rochosas, do lado da Colúmbia Britânica, Yoho concentra em apenas 1.310 km² cachoeiras de 250 metros, lagos cor de esmeralda, uma das passagens ferroviárias mais ousadas do continente e o sítio de fósseis que reescreveu a história da vida na Terra. E, mesmo assim, continua sendo o irmão tranquilo e menos visitado das Rochosas.
Durante milênios, esta região foi território de povos originários das Rochosas e do planalto interior, que a atravessavam em seus deslocamentos sazonais, acompanhando a caça e as estações do ano. Já a história moderna do parque está intimamente ligada à ferrovia transcontinental. No fim do século XIX, a Canadian Pacific Railway, no esforço de unir o Canadá de costa a costa, precisou cruzar as Rochosas pela difícil passagem do rio Kicking Horse. O traçado descia por uma encosta tão íngreme — a temida 'Big Hill' — que se tornava perigosa para os trens.
Foi nesse contexto de abertura do território que, em 1886, foi criada a reserva que daria origem ao Parque Nacional Yoho, um dos mais antigos do Canadá, apenas um ano depois do primeiro, Banff. A chegada da ferrovia não só permitiu o acesso, como a própria Canadian Pacific promoveu o turismo de montanha, construindo hospedagens e atraindo viajantes e montanhistas para esses lugares até então quase inacessíveis.
A descida pela 'Big Hill', na passagem do Kicking Horse, foi uma das maiores dores de cabeça da Canadian Pacific Railway. A inclinação era tão forte que provocou acidentes e exigia manobras de frenagem extremamente arriscadas. Para resolver o problema, no início do século XX foi realizada uma das obras de engenharia ferroviária mais engenhosas da América do Norte: os Túneis em Espiral (Spiral Tunnels).
A solução foi escavar túneis em forma de espiral dentro das próprias montanhas, para que os trilhos fizessem grandes voltas dentro da rocha e ganhassem ou perdessem altitude de forma mais gradual, suavizando a inclinação. O resultado é tão curioso que os trens, muito longos, às vezes parecem cruzar consigo mesmos: a locomotiva saindo de um túnel enquanto os últimos vagões ainda nem entraram.
Os Túneis em Espiral, inaugurados por volta de 1909, viraram uma atração por si só. Hoje há mirantes junto à Trans-Canada Highway de onde, com paciência, dá para ver um trem passando e desenhando a espiral, um espetáculo que une a grandiosidade das Rochosas à engenhosidade humana. São um testemunho vivo da epopeia ferroviária que abriu esta região para o resto do país.
A descoberta que deu a Yoho fama científica mundial veio em 1909, quando o paleontólogo americano Charles Walcott encontrou, no alto das montanhas do parque, um afloramento de rocha de extraordinária riqueza em fósseis: o Burgess Shale. O que torna o sítio excepcional é que ele conserva, com um nível de detalhe impressionante, não só as partes duras, mas também os tecidos moles de animais marinhos de mais de quinhentos milhões de anos, do período Cambriano.
Esses fósseis oferecem uma janela única para a chamada 'explosão cambriana', o momento geológico em que surgiram, num intervalo relativamente curto, os grandes grupos de animais que povoariam os mares. Criaturas estranhas e, muitas vezes, sem parentesco claro com as formas atuais ficaram preservadas nessas rochas, transformando nossa compreensão da história inicial da vida e tornando o Burgess Shale um dos sítios paleontológicos mais célebres e estudados do planeta.
Seu valor científico foi um dos motivos pelos quais Yoho, junto com outros parques das Rochosas, foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Para protegê-lo, o acesso aos principais afloramentos é rigorosamente restrito e só é permitido em caminhadas guiadas oficiais, nas quais é proibido coletar fósseis. Assim, o Burgess Shale continua sendo, ao mesmo tempo, um destino de natureza e um laboratório da evolução a céu aberto.
Se a ferrovia e os fósseis deram a Yoho sua história, a água lhe deu sua forma. O Lago Esmeralda (Emerald Lake), o maior do parque, deve sua incrível cor verde à 'farinha de rocha': um pó finíssimo de sedimento que as geleiras moem contra a montanha e arrastam até o lago, onde fica em suspensão e refrata a luz em tons de esmeralda. Ele foi 'descoberto' para os olhos europeus em 1882 por Tom Wilson, o mesmo guia que revelou ao mundo o lago Louise, enquanto procurava cavalos perdidos. A Canadian Pacific não demorou a construir ali um lodge para seus passageiros, que até hoje recebe visitantes à beira do lago.
Um pouco mais ao norte rugem as Takakkaw Falls, com uma queda de cerca de 254 metros que as coloca entre as cachoeiras mais altas do Canadá. Elas são alimentadas pelo degelo da geleira Daly, por isso o volume de água aumenta à medida que o verão avança: em junho e julho, viram uma torrente ensurdecedora. O nome, também de origem cree, significa 'é magnífico' — mais uma vez, os povos originários escolheram a palavra exata. A estrada de acesso, a Yoho Valley Road, tem uma sequência de curvas tão fechadas que os ônibus grandes precisam manobrar em várias etapas, e só abre na temporada de verão.
E ainda tem o Lake O'Hara, o santuário alpino que muitos consideram o cantinho mais bonito das Rochosas: um anfiteatro de lagos turquesa, campos de altitude e picos com geleiras, cortado por uma rede de trilhas lendárias. Justamente por ser tão frágil, o acesso é limitado a um ônibus com reserva por sorteio, e essa restrição, longe de afastar os viajantes, preservou um silêncio que quase não existe mais no resto das Rochosas. Os três — lago, cachoeira e vale — são obra paciente do gelo e da água, e explicam por que Yoho, apesar do tamanho modesto, guarda algumas das paisagens mais memoráveis do país.
Ao longo do século XX, Yoho consolidou seu duplo valor: o de uma paisagem de montanha excepcional e o de um tesouro científico de primeira linha. A proteção de sua natureza — geleiras, lagos como o Esmeralda, cachoeiras como as Takakkaw, vales alpinos como o do Lake O'Hara — foi sendo aprimorada, e áreas frágeis como a do próprio Lake O'Hara passaram a ter regras de acesso restrito (com cotas e transporte controlado) para proteger o ambiente alpino da pressão turística.
Em 1984, Yoho foi inscrito pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, primeiro pelo Burgess Shale e depois como parte do conjunto dos Parques das Montanhas Rochosas Canadenses (junto com Banff, Jasper, Kootenay e os parques provinciais de Mount Robson, Mount Assiniboine e Hamber). Esse reconhecimento internacional celebra tanto a beleza de suas paisagens glaciais quanto seu valor geológico e paleontológico universal.
Hoje, Yoho é administrado pela Parks Canada, que equilibra a conservação com a visitação responsável. Apesar de ser cortado pela Trans-Canada Highway e pela ferrovia, ainda tem cantos de natureza quase intocada e recebe menos gente que o vizinho Banff, o que o torna um destino querido por quem quer conhecer as Rochosas com um pouco mais de tranquilidade. O vilarejo de Field, dentro do parque, continua sendo uma pequena comunidade de montanha que atende viajantes e cientistas.
Para o visitante, Yoho oferece uma combinação única: a grandiosidade alpina das Rochosas, a epopeia da ferrovia que abriu a região e a chance de espiar, no Burgess Shale, os primórdios da vida animal na Terra. Um parque pequeno em tamanho, mas imenso em significado, cujo nome cree — essa exclamação de espanto — continua sendo a melhor descrição do que se sente ao percorrê-lo.