Kazanlak é o coração perfumado da Bulgária: a capital do Vale das Rosas, onde todo mês de maio explodem hectares de rosa damascena que são destilados no óleo de rosa mais valorizado do mundo, e também a porta de entrada para o Vale dos Reis Trácios, uma planície salpicada de túmulos funerários com mais de dois mil anos. Em poucos quilômetros convivem o aroma das rosas, os afrescos de uma tumba Patrimônio da Humanidade e o ouro de um povo antigo e misterioso.
Sua joia é a Tumba Trácia de Kazanlak, do século IV a.C., com uma cúpula pintada em afresco que é uma das obras-primas da arte helenística nos Bálcãs; como o original é muito frágil, a visita é feita a uma réplica exata a poucos metros dali. Perto dali, o Museu de História Iskra guarda o tesouro de Seutes III, rei trácio cuja tumba foi encontrada intacta no túmulo de Goliama Kosmatka, com sua famosa cabeça de bronze e uma coroa de ouro.
Este guia percorre Kazanlak com olhar prático: quais tumbas e museus ver e quanto custam, como funciona o Festival da Rosa e quando vir para vê-lo, onde se destila o óleo de rosa, como chegar de trem ou ônibus saindo de Sófia e Plovdiv e como organizar a visita ao Vale dos Reis Trácios. Um destino onde a história trácia e a tradição das rosas fazem de Kazanlak um lugar único na Europa.
Na planície de Kazanlak floresceu, há mais de dois milênios, um dos centros do poder trácio: aqui ficava Seutópolis, a capital que o rei Seutes III fundou no fim do século IV a.C. nos moldes das cidades helenísticas, hoje submersa sob a represa de Koprinka. Daquela época restam os grandes túmulos do Vale dos Reis Trácios, entre eles a Tumba Trácia de Kazanlak, com seus afrescos, e a tumba intacta de Seutes III em Goliama Kosmatka. Sob domínio otomano, a região ficou famosa por outra riqueza: a rosa damascena, trazida do Oriente, que transformou o vale no grande produtor de óleo de rosa do mundo. O Festival da Rosa é celebrado desde o começo do século XX. Toda essa história, dos reis trácios à indústria das rosas, contamos na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The centre of the country holds Plovdiv, one of the oldest cities in the world, the Revival towns where the 1876 rebellion was born and the Rose Valley with its Thracian tombs.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de Kazanlak existir, a planície fértil entre os Bálcãs e a Sredna Gora foi um dos corações do mundo trácio. Os trácios eram um conjunto de povos indo-europeus que ocupavam boa parte da atual Bulgária, o norte da Grécia e a Turquia europeia. Eram guerreiros temidos e cavaleiros extraordinários. Não deixaram textos próprios, mas deixaram um legado deslumbrante de ouro, prata e tumbas pintadas que até hoje impressiona os arqueólogos.
Nesta região floresceu, no fim do século IV a.C., a cidade de Seutópolis, fundada pelo rei Seutes III por volta de 320 a.C. Seutes era um poderoso soberano dos odrísios, a principal confederação tribal trácia. Ele governou na época turbulenta que veio depois da morte de Alexandre, o Grande, quando os generais macedônios disputavam o seu império. Seutópolis foi planejada à maneira helenística, com muralhas, ruas traçadas em grade, um palácio-santuário e uma ágora. Era uma capital moderna para o seu tempo e mostra o quanto os reis trácios tinham absorvido da cultura grega.
A cidade teve uma vida relativamente curta e acabou destruída e abandonada. A lembrança dela se perdeu durante séculos, até que, nos anos 1950, a construção da represa de Koprinka sobre o rio Tundzha para irrigar o vale levou os arqueólogos a trazê-la de volta à luz. Hoje Seutópolis está submersa sob as águas da represa, nos arredores de Kazanlak, e existe há anos um projeto ambicioso para torná-la visitável de novo. A presença dela explica por que a planície está salpicada de túmulos: era a paisagem sagrada de uma dinastia real.
Ao redor de Seutópolis e de Kazanlak, a planície guarda dezenas e dezenas de túmulos funerários (mogili). São montes de terra que cobrem tumbas de pedra onde a aristocracia trácia era enterrada com suas armas, suas joias e seus cavalos. Pela concentração e pela riqueza, os arqueólogos batizaram a área de Vale dos Reis Trácios, numa referência ao Vale dos Reis egípcio. É um dos conjuntos funerários mais importantes da Antiguidade europeia.
A tumba mais famosa é a Tumba Trácia de Kazanlak, descoberta por acaso em 1944, quando soldados cavavam um abrigo. Sob o túmulo apareceu uma pequena câmara circular com cúpula, do século IV ou do começo do século III a.C., toda coberta de afrescos. A cena principal mostra um banquete funerário: o falecido, sentado, e sua esposa se seguram pelo pulso num gesto de despedida, enquanto servos oferecem frutas e vinho e aparecem cavalos e aurigas. A qualidade do desenho, a expressividade dos rostos e a delicadeza das cores fizeram dela uma obra-prima da arte helenística, e em 1979 a UNESCO a declarou Patrimônio da Humanidade. Como os afrescos originais são extremamente frágeis, a tumba verdadeira continua fechada, e o que se visita é uma réplica exata construída a poucos metros dali.
A outra grande descoberta veio em 2004, quando o arqueólogo Georgi Kitov escavou o túmulo de Goliama Kosmatka e encontrou, quase intacta, a tumba de um rei. O enxoval funerário trazia uma coroa de ouro com folhas de carvalho, um capacete, vasos de prata e armas. Acima de tudo, havia uma impressionante cabeça de bronze de olhar cheio de vida, e foi ela que permitiu identificar o morto: era Seutes III, o fundador de Seutópolis. Essa cabeça é hoje o símbolo do Museu de História Iskra de Kazanlak e uma das obras mais famosas da arte trácia.
O poder trácio se apagou quando Roma estendeu seu domínio pelos Bálcãs. No século I d.C., a região passou a fazer parte do Império Romano, dentro da província da Trácia, e por ali passaram estradas, vilas e pequenos povoados. Mais tarde, com a divisão do império, todo o território passou para Bizâncio. A partir dos séculos VII e VIII, foi sendo incorporado ao nascente Estado búlgaro, fundado por Asparuh em 681. Durante a Idade Média, o vale fez parte dos dois impérios búlgaros que se sucederam, com altos e baixos, guerras e mudanças de fronteira diante de Bizâncio.
No fim do século XIV, a conquista otomana mudou o destino de toda a Bulgária. O país caiu sob o domínio do sultão e ficou dentro do Império Otomano por quase cinco séculos, até 1878. Foi nessa época que nasceu a cidade como a conhecemos. O nome Kazanlak é de origem turca e costuma ser associado à palavra kazan, o caldeirão ou alambique de cobre, justamente o instrumento usado para destilar o óleo de rosa. A região se encheu de aldeias búlgaras e de comunidades turcas, e sob o domínio otomano começou a se desenvolver a indústria que a tornaria famosa no mundo todo.
A rosa que perfuma Kazanlak não é nativa. A rosa damascena (Rosa damascena), variedade da qual se extrai o óleo, veio do Oriente Médio. Provavelmente chegou da Síria e da Pérsia através do Império Otomano, por volta do século XVII. O clima do vale, protegido pelas montanhas, com umidade pela manhã e solos adequados, se mostrou ideal para o cultivo, e logo os campos de rosas se espalharam por toda a planície, dos arredores de Kazanlak até Karlovo.
O óleo de rosa (rozovo maslo) virou um produto de luxo cobiçado no mundo inteiro. São necessárias milhares de flores para obter só alguns gramas de essência. As flores precisam ser colhidas ao amanhecer, antes que o sol evapore o aroma, e destiladas no mesmo dia nos alambiques de cobre. Grama por grama, o preço chegou a superar o do ouro, e o óleo búlgaro ganhou fama de ser o melhor do planeta: até hoje é matéria-prima essencial dos grandes perfumes franceses. Em torno dessa indústria cresceu toda uma cultura de cultivadores de rosas, destiladores e comerciantes, e Kazanlak se tornou a sua capital indiscutível.
A Bulgária foi libertada em 1878, depois da Guerra Russo-Turca. A guerra foi decidida em boa parte no vizinho passo de Shipka, onde russos e voluntários búlgaros resistiram heroicamente ao exército otomano. A partir daí, a produção de rosas se modernizou e se voltou para a exportação. Em 1903 aconteceu pela primeira vez o Festival da Rosa, que com o tempo virou a festa mais famosa da cidade, com sua colheita ritual, seu desfile e a coroação da rainha da rosa.
O século XX trouxe grandes transformações. Durante o período socialista (1944-1989), Kazanlak se industrializou com fábricas de armamentos e de máquinas, que trouxeram população e emprego, enquanto o cultivo da rosa era organizado em cooperativas estatais. O regime também incentivou a arqueologia, e foi nessas décadas que muitas das tumbas trácias foram escavadas e estudadas e que Seutópolis foi resgatada das águas. Depois da queda do comunismo em 1989 e da difícil transição dos anos 1990, a cidade redirecionou parte da economia para o turismo cultural e para a indústria de cosméticos ligada à rosa.
Hoje Kazanlak vive de três grandes patrimônios que a tornam única na Europa. Do subsolo vêm o ouro e as tumbas dos reis trácios, com a Tumba de Kazanlak, Patrimônio da Humanidade, e o tesouro de Seutes III no Museu Iskra. Dos campos vêm a rosa damascena e o óleo que continua sendo exportado para os perfumistas do mundo todo, celebrado a cada primavera no Festival da Rosa. E das montanhas vem a memória de Shipka, símbolo da independência búlgara.
Caminhar por Kazanlak em maio, com o ar carregado do perfume das rosas e os túmulos dos reis se destacando na planície, é olhar ao mesmo tempo para a Antiguidade trácia e para uma tradição viva que perfuma a Europa há séculos. Poucos lugares concentram tanto em tão pouco espaço. Por isso Kazanlak é, mais do que uma cidade, a capital de um vale onde a história e o perfume se confundem.