San Javier (ou San Xavier) tem um lugar de honra na Chiquitania: foi a primeira das missões jesuíticas que a Companhia de Jesus fundou nestas terras baixas, em 1691, e o berço da extraordinária tradição do barroco musical chiquitano. Sua igreja, obra do jesuíta arquiteto e músico Martin Schmid, é uma joia do barroco mestiço, com sua torre entalhada, sua grande galeria de colunas e um interior ricamente decorado com pigmentos naturais.
Mas San Javier não é só o seu templo. A cidade conserva o ambiente sereno das antigas reduções, com sua praça e suas casas com varandas, e os arredores convidam à natureza: cachoeiras como os Tumbos del Suruquizo, águas termais, grutas e mirantes em plena mata chiquitana. É, além disso, terra de pecuária e queijos, com uma fábrica pioneira no país onde se pode ver de perto a produção do queijo crioulo.
Este guia percorre o essencial de San Javier com olhar prático: sua igreja missional (parte do conjunto Patrimônio Mundial da Unesco), sua herança musical, as cachoeiras e termas dos arredores, a experiência queijeira, como chegar e integrá-la ao circuito das missões, onde dormir e comer e dicas para descobrir esta primeira redução chiquitana.
San Javier (San Francisco Xavier) foi a primeira missão jesuítica de Chiquitos, fundada em 31 de dezembro de 1691 pelos padres José de Arce e Antonio de Ribas. Daqui se irradiou todo o sistema de reduções chiquitanas. Em 1730, o jesuíta suíço Martin Schmid —arquiteto, músico e construtor de igrejas missionais— fundou em San Javier a primeira escola de música e a primeira oficina de instrumentos da região, lançando as bases do 'barroco missional'. O atual templo barroco foi erguido por Schmid entre 1749 e 1752. Após a expulsão dos jesuítas em 1767, as comunidades chiquitanas conservaram suas igrejas e sua música. Em 1990, a Unesco declarou o conjunto das Missões Jesuíticas de Chiquitos Patrimônio Mundial. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The great department of the tropical east: Bolivia's economic engine, land of the cambas, home of the celebrated Jesuit Missions of Chiquitos and their baroque music, with the sacred rock of Samaipata, the forests of Amboró and Noel Kempff and the Bolivian Pantanal.
Ler a história de Santa Cruz →Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em San Javier, as crianças do coro leem partituras barrocas compostas há quase três séculos como quem herda um ofício de família, e nas oficinas do povoado ainda se fabricam violinos. Que isso aconteça em um vilarejo pecuário da floresta seca do oriente boliviano não é por acaso: foi aqui que tudo começou. No fim do século XVII, as terras baixas do oriente da atual Bolívia —a Chiquitania— eram uma fronteira remota do império espanhol, habitada por numerosos povos indígenas de línguas diversas, que os conquistadores haviam reunido sob o nome genérico de 'chiquitos': uma região de floresta seca, quente, de grandes distâncias e difícil acesso, onde a presença colonial tinha sido até então fugaz e precária.
Nesse cenário, a Companhia de Jesus empreendeu um de seus projetos missionários mais ambiciosos da América do Sul. Depois da experiência das célebres reduções do Paraguai, os jesuítas decidiram estender seu modelo a Chiquitos: comunidades autossuficientes —as reduções— onde se reuniam indígenas de diferentes povos para evangelizá-los e organizá-los em torno da fé, do trabalho, do artesanato, da agricultura e da música, com alto grau de autonomia em relação ao poder colonial civil.
O ponto de partida de toda essa empreitada foi San Javier. Em 31 de dezembro de 1691, os padres jesuítas José de Arce e Antonio de Ribas fundaram a missão de San Francisco Xavier, a primeira redução de Chiquitos. A partir dela se irradiaria, nas décadas seguintes, todo o sistema missionário chiquitano: San Rafael, San José, Concepción, San Miguel, Santa Ana, San Ignacio de Velasco e outras. San Javier inaugurou, assim, uma das experiências culturais mais originais da América colonial.
Se San Javier é o ponto de partida das missões chiquitanas, também é o berço de um de seus legados mais surpreendentes: o barroco musical. A figura-chave foi o jesuíta suíço Martin Schmid (1694–1772), um homem extraordinário que reunia em uma só pessoa o arquiteto, o construtor e o músico. Schmid chegou a Chiquitos na primeira metade do século XVIII e deixou uma marca que até hoje define a identidade da região.
Em 1730, Martin Schmid fundou em San Javier a primeira escola de música e a primeira oficina de instrumentos musicais da Chiquitania. Sua tarefa inicial foi introduzir a música polifônica barroca: trouxe cópias das partituras do compositor italiano Domenico Zipoli desde Córdoba e um órgão desmontado desde Potosí como modelo para construir outros instrumentos. Compôs e arranjou peças religiosas, fabricou instrumentos e ensinou as crianças indígenas a ler música e a tocar. Desse trabalho nasceu um estilo próprio, o 'barroco missionário', que não foi uma simples cópia dos modelos europeus, mas uma nova maneira de conceber a música, fruto do encontro entre a tradição europeia e a sensibilidade chiquitana.
Schmid também foi o grande arquiteto das igrejas missionárias. Em San Javier ergueu o atual templo barroco entre 1749 e 1752, uma obra-prima do barroco mestiço com sua torre entalhada, sua grande galeria de colunas e seu interior decorado com motivos missionários e pigmentos naturais. O próprio Schmid projetou depois as igrejas de Concepción e San Rafael, entre outras. Seu trabalho combinou a arquitetura católica europeia com técnicas e motivos locais, dando às missões de Chiquitos sua inconfundível marca artística.
O templo que Martin Schmid construiu em San Javier entre 1749 e 1752 é o coração do povoado e uma das grandes joias do barroco mestiço americano. Diferentemente do templo de pedra de San José de Chiquitos, a igreja de San Javier é de madeira, com grandes colunas entalhadas que sustentam sua galeria e seu telhado, e uma torre-campanário que se destaca pela altura e pelos entalhes. O interior exibe uma rica decoração mural com motivos missionários feitos com pigmentos naturais, uma escada entalhada e altares ornamentados.
A igreja era o centro de uma comunidade organizada com notável complexidade. Ao redor da praça se distribuíam as moradias dos indígenas, as oficinas de carpintaria, entalhe, ourivesaria e construção de instrumentos, as escolas e os espaços de trabalho. A música ocupava um lugar central na vida cotidiana e litúrgica: coros e orquestras de crianças e jovens acompanhavam as celebrações, e o repertório barroco era copiado e interpretado constantemente.
Essa organização transformou as reduções de Chiquitos em verdadeiras 'cidades ideais' no meio do mato, onde conviviam a evangelização, o trabalho artesanal, a agricultura e um florescimento artístico singular. San Javier, como a primeira e modelo das missões, foi uma referência desse sistema durante décadas, até que um acontecimento distante veio mudar tudo.
Em 1767, o rei Carlos III da Espanha decretou a expulsão da Companhia de Jesus de todos os seus domínios, e os jesuítas tiveram que abandonar também as missões de Chiquitos. A partida dos padres poderia ter significado o fim do sistema missionário, como aconteceu com tantas reduções do Paraguai e da Argentina, que se despovoaram e viraram ruínas.
Na Chiquitania, porém, aconteceu algo diferente. As comunidades indígenas assumiram o cuidado de seus povoados, seus templos e suas tradições. Os chiquitanos continuaram celebrando suas festas, mantendo suas confrarias e, de maneira decisiva, conservando e transmitindo sua música. Geração após geração, os músicos locais seguiram copiando, interpretando e guardando o repertório barroco herdado dos jesuítas, sem que o mundo exterior tivesse plena consciência disso.
Graças a essa continuidade, as missões de Chiquitos não são hoje ruínas, mas templos vivos e em uso, com uma cultura musical e artesanal em permanente atividade. San Javier conservou sua igreja, sua escola de música e sua identidade de primeira redução. Esse patrimônio imaterial —a música, sobretudo— seria redescoberto e valorizado pelo mundo ao longo do século XX, transformando a Chiquitania em uma referência internacional do barroco americano.
Durante o século XX, os templos missionários chiquitanos, castigados pelo clima tropical e pela passagem do tempo, foram objeto de uma grande campanha de restauração dirigida pelo arquiteto suíço Hans Roth entre as décadas de 1970 e 1990. Roth e sua equipe recuperaram as igrejas —entre elas a de San Javier— com critérios de conservação e com a participação das comunidades, devolvendo a elas seu esplendor barroco.
Esse esforço culminou em 1990, quando a Unesco inscreveu em sua lista de Patrimônio Mundial o conjunto das Missões Jesuíticas de Chiquitos, formado por seis povoados missionários —San Francisco Xavier entre eles—, valorizados como testemunho excepcional da fusão entre a cultura europeia e a indígena americana. San Javier, a primeira de todas, ficou assim reconhecida no mais alto nível do patrimônio mundial.
Paralelamente, a redescoberta do enorme arquivo de partituras barrocas conservado na Chiquitania deu origem, no fim do século XX, ao Festival Internacional de Música Renascentista e Barroca Americana 'Misiones de Chiquitos', que acontece nos anos pares e percorre os povoados missionários com concertos em suas igrejas. San Javier é uma das sedes de destaque, fiel à sua condição de berço do barroco missionário. Hoje o povoado combina esse legado com a vida pecuária e queijeira da região e com um turismo cultural e de natureza em crescimento, mantendo viva, mais de três séculos depois de sua fundação, a herança da primeira missão de Chiquitos.