Coober Pedy é um daqueles lugares que parecem saídos de um filme de ficção científica, e de fato saíram: suas paisagens lunares aparecem em 'Mad Max 3', 'Priscilla, a Rainha do Deserto' e 'Eclipse Mortal' ('Pitch Black'). Em pleno coração árido da Austrália Meridional, essa cidadezinha mineira é a 'capital mundial da opala', de onde sai boa parte da opala preciosa de qualidade do planeta. Mas o que a torna realmente única é que as pessoas vivem debaixo da terra: perto da metade dos moradores ocupa casas escavadas na rocha, os famosos 'dugouts', onde a temperatura fica fresca e constante enquanto lá fora o termômetro passa dos 40 graus.
O nome vem do termo aborígine kokatha 'kupa piti', que costuma ser traduzido como 'buraco do homem branco', uma descrição tão literal quanto poética do que os mineiros europeus começaram a fazer aqui a partir de 1915, quando um garoto de catorze anos encontrou a primeira opala. Desde então, Coober Pedy se encheu de poços, montes de entulho esbranquiçado e túneis: são mais de um quarto de milhão de bocas de mina nos arredores. Sob essa superfície perfurada pulsa uma comunidade extraordinariamente multicultural, com mineiros vindos do mundo todo depois da Segunda Guerra Mundial.
Este guia te leva por Coober Pedy com um olhar prático e curioso: como descer a uma casa subterrânea e à impressionante igreja ortodoxa sérvia escavada na pedra, como entender a mineração de opala nas minas-museu, onde tentar a sorte 'noodleando' no meio do entulho, como fugir para o surreal Kanku-Breakaways e a Moon Plain, e como dormir em um hotel debaixo da terra. É um destino estranho, extremo e fascinante, uma das experiências mais marcianas que a Austrália oferece.
Coober Pedy nasceu em 1º de fevereiro de 1915, quando o jovem Willie Hutchison, de catorze anos, encontrou opala na região durante uma expedição de mineração do pai. A jazida ficou conhecida primeiro como Stuart Range Opal Field e só em 1920, com a abertura da agência dos correios, adotou o nome Coober Pedy, do termo kokatha 'kupa piti'. Depois da Primeira Guerra Mundial, soldados que voltavam do front (muitos com experiência em trincheiras) entraram na mineração e começaram a escavar moradias subterrâneas para aguentar o calor, dando origem à cultura dos 'dugouts'. O boom do pós-guerra, depois de 1945, atraiu ondas de imigrantes europeus, que transformaram a cidade em um caldeirão de nacionalidades. A terra onde ela fica é Country tradicional dos povos kokatha, antakirinja matu-yankunytjatjara, arabana e yankunytjatjara. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The only Australian colony founded without convicts: established in 1836 as an experiment in free, planned settlement on the land of the Kaurna people. Home to Adelaide, the city of churches and festivals, to Barossa Valley Shiraz and to a red outback that hides the opal of Coober Pedy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existir uma única boca de mina, a terra onde hoje fica Coober Pedy já tinha donos e uma história milenar. É Country tradicional de vários povos aborígenes da região: os kokatha, os antakirinja matu-yankunytjatjara, os yankunytjatjara e, numa área mais ampla, os arabana. Para essas nações do deserto, aquilo não era um descampado vazio, mas um território cortado por rotas, fontes de água, locais sagrados e recursos, ligado às histórias do Tjukurpa (o Dreaming, ou Sonho), a trama de leis, relatos ancestrais e responsabilidades sobre a terra que organiza a vida dos povos do Deserto Ocidental.
Um dos dados mais reveladores é que, muito antes da febre da opala, gente do Deserto Ocidental viajava de muito longe até a serra de Stuart Range para tirar pedra de suas pedreiras: o quartzo e outras rochas eram matéria-prima muito valorizada para fabricar machados, facas pequenas e ferramentas. Ou seja, essa região já era, séculos atrás, um lugar de extração, comércio e troca de longa distância entre povos. Chega a ser irônico que a palavra que daria nome à cidade, na língua kokatha, se refira justamente a 'buracos' cavados na terra.
O vínculo dos Primeiros Povos com essa paisagem não se interrompeu com a chegada dos mineiros: continua vivo. Em 1975, a comunidade aborígene local adotou o nome 'Umoona' ('vida longa', por causa da árvore mulga) para sua organização, e esse nome batiza hoje uma das minas-museu da cidade. O Kanku-Breakaways Conservation Park, com seu nome na língua local, é cogerido com o povo antakirinja matu-yankunytjatjara, dono tradicional desses platôs. Entender Coober Pedy exige começar por aqui: reconhecer que o deserto que parece 'lunar' e desabitado foi, e continua sendo, um Country com guardiões.
A história moderna de Coober Pedy tem uma data exata e um protagonista improvável. Em 1º de fevereiro de 1915, um pequeno grupo de garimpeiros chamado New Colorado Prospecting Syndicate acampava na região. Na verdade, eles procuravam ouro, sem sorte, um pouco mais ao sul, e naquele dia estavam atrás de algo mais urgente no deserto: água. Foi então que Willie Hutchison, filho de catorze ou quinze anos de um dos homens, encontrou na superfície alguns pedaços de opala. Essa descoberta casual, de um adolescente que procurava água, ia fundar uma das cidades mais estranhas do planeta.
A notícia se espalhou e a jazida começou a atrair garimpeiros. No início, o lugar ficou conhecido como Stuart Range Opal Field, em referência à serra e ao explorador John McDouall Stuart, que tinha cruzado a região décadas antes. Os primeiros pioneiros da mineração de opala, entre eles os irmãos O'Neill e Fred Blakeley, não só cavaram poços: introduziram uma ideia que definiria a cidade para sempre, a de viver debaixo da terra, em 'dugouts' escavados na rocha macia para fugir do calor arrasador do deserto.
O nome 'Coober Pedy' só se tornou oficial em 1920, com a abertura da agência dos correios. Vem das palavras kokatha 'kupa piti', que costumam ser traduzidas como 'buraco do homem branco' ou 'buracos dos brancos', em referência direta à atividade mineradora dos recém-chegados. Poucos topônimos descrevem tão bem, e com tanta ironia, o que um lugar é: uma paisagem perfurada por milhares de buracos cavados por forasteiros em busca de uma pedra preciosa.
A característica que faz de Coober Pedy um lugar único no mundo — as pessoas morarem debaixo da terra — tem uma raiz histórica concreta e comovente. Depois da Primeira Guerra Mundial, soldados australianos que voltavam do front, muitos deles veteranos das trincheiras da Europa, foram buscar trabalho nas minas de opala, que na época cresciam rapidamente. Aqueles homens traziam da guerra uma habilidade inesperada: sabiam cavar, escorar e viver abaixo da superfície. Usar essa experiência para escavar moradias frescas na rocha foi quase natural, e a prática do 'dugout' se consolidou.
A lógica é implacável e bonita ao mesmo tempo: num lugar onde o termômetro passa dos 40 °C no verão (com recorde de 48,3 °C) e chove apenas uns 144 mm por ano, a solução mais inteligente não foi erguer prédios e refrigerá-los, mas escavar para dentro. Debaixo da terra, a temperatura se mantém estável e agradável, em torno de 23-25 °C, o ano inteiro, sem ar-condicionado. Com o tempo, os moradores levaram para baixo praticamente tudo: casas com quartos, cozinhas e salas de estar, lojas, hotéis, bares, museus e até igrejas inteiras, como a impressionante igreja ortodoxa sérvia escavada a 17 metros de profundidade.
Essa arquitetura da necessidade transformou Coober Pedy num fenômeno cultural. Morar numa casa sem janelas, com paredes de arenito à vista, em silêncio e a temperatura constante, deixou de ser uma raridade para virar o modo de vida normal de cerca de metade da população. Já a paisagem na superfície ficou marcada por milhões de montes esbranquiçados de entulho e mais de um quarto de milhão de bocas de mina: um terreno tão perigoso (pelos poços verticais sem sinalização) quanto fotogênico, que o cinema logo descobriu para filmar cenários de outros planetas.
Se tem algo que distingue socialmente Coober Pedy é sua extraordinária mistura de origens. Depois da Segunda Guerra Mundial, a cidade virou um ímã para refugiados, veteranos e imigrantes do sul e do leste da Europa que buscavam refazer a vida longe de um continente devastado. Gregos, italianos, sérvios, croatas, húngaros, poloneses e muitos outros chegaram atraídos por uma promessa democrática e selvagem: nas minas de opala, qualquer um com uma pá, coragem e sorte podia enriquecer, não importava de onde viesse nem que língua falasse. Em alguns momentos do pós-guerra, até 60 % dos mineiros de Coober Pedy tinham ascendência do sul ou do leste da Europa.
Essa onda explica por que, numa cidadezinha minúscula perdida no deserto, convivem hoje igrejas ortodoxas sérvias, capelas católicas, tavernas gregas, sobrenomes de meia Europa e uma identidade orgulhosamente multicultural. Cada comunidade levou sua cultura para debaixo da terra: a igreja ortodoxa sérvia de Santo Elias, escavada na rocha a partir de 1993, com seus santos entalhados e seus vitrais, é o símbolo mais eloquente de como a fé e a identidade desses imigrantes criaram raízes literalmente dentro da pedra do deserto australiano.
Enquanto isso, Coober Pedy se firmava como 'capital mundial da opala': de seus campos saiu (e sai) boa parte da opala preciosa de qualidade do mundo, incluindo a célebre Olympic Australis, uma das maiores opalas gema já encontradas, com cerca de 17.000 quilates. A mineração continuou sendo, durante décadas, uma loteria de trabalho duro e solitário, com histórias de fortunas feitas e perdidas num mesmo poço. Esse espírito de fronteira, mistura de cobiça, esperança e camaradagem entre nações, ainda hoje é a alma da cidade.
Com pouco mais de 1.400 habitantes (censo de 2021), Coober Pedy vive hoje de uma combinação de mineração de opala, que continua, ainda que com altos e baixos, e de um turismo cada vez mais consciente da sua singularidade. As pessoas continuam chegando pela Stuart Highway ou de avião para ver com os próprios olhos uma cidade que se esconde debaixo da terra: dormir num dugout, descer numa mina-museu, percorrer igrejas subterrâneas, procurar opalas com as mãos no entulho ('noodling') e jogar golfe num campo sem um fio de grama, muitas vezes à noite e com bolas luminosas.
A paisagem dos arredores, quase lunar, é uma atração por si só e já foi cenário de dezenas de filmes e séries: 'Mad Max Beyond Thunderdome', 'Priscilla, a Rainha do Deserto', 'Pitch Black' e 'Until the End of the World', entre outros, aproveitaram os platôs do Kanku-Breakaways, a planície pedregosa do Moon Plain e a Dog Fence (a cerca antidingo mais longa do mundo, que passa por aqui). Coober Pedy se vende, com humor, como 'o outro planeta' que dá para visitar sem sair da Terra.
Ao mesmo tempo, a cidade enfrenta os desafios de qualquer comunidade remota do outback: água e energia caras, isolamento, calor extremo e a necessidade de diversificar a economia para além de um mineral cujo preço oscila. Mas seu encanto continua intacto e é difícil de igualar: é um lugar onde a engenhosidade humana respondeu a um ambiente hostil se enfiando literalmente debaixo da terra, e onde convivem, em poucos quilômetros de deserto perfurado, a cultura milenar dos Primeiros Povos e dezenas de nações vindas do mundo todo atrás de uma pedra que aprisiona o arco-íris.