A península de Paria é o extremo nordeste da Venezuela, uma faixa montanhosa e verde do estado de Sucre que avança pelo Caribe quase tocando a ilha de Trinidad. Foi a primeira terra firme americana avistada por Cristóvão Colombo em sua terceira viagem, em 1498, o que a torna um recanto carregado de história e de um atrativo quase mítico.
Paria é uma região de costa virgem, praias solitárias emolduradas por morros cobertos de mata, povoados de pescadores, águas termais e, sobretudo, a terra do cacau fino venezuelano, considerado um dos melhores do mundo. Povoados como Río Caribe, Carúpano, San Juan de las Galdonas ou as praias de Medina e Pui Pui resumem o encanto desta terra pouco visitada.
Este guia percorre o essencial da península de Paria: suas praias virgens, os povoados costeiros, a cultura do cacau, as águas termais e os parques naturais, onde se hospedar e comer, e como se locomover por este canto remoto e belíssimo do leste venezuelano.
A península de Paria foi a primeira terra firme do continente americano avistada por Cristóvão Colombo, em sua terceira viagem, em 1498, quando a batizou de 'Terra de Graça'. Região de cacau fino e povoados de pescadores, o estado de Sucre, onde ela fica, é historicamente um dos grandes produtores de cacau da Venezuela. A história completa está em nossa página de história.
Ler a história completa ↓State of the far northeast: home of Cumaná — the oldest city on the American mainland — birthplace of the Grand Marshal of Ayacucho, land of Araya's salt, Paria's fine cacao, the beaches of Mochima and Venezuela's great fishing industry.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em 1º de agosto de 1498, um navegante com os olhos doentes e esgotado pelo calor do trópico olhava da amurada de sua nau um contorno montanhoso e verdíssimo que se estendia sem fim em direção ao oeste. Era Cristóvão Colombo, e aquela costa —a atual península de Paria, no nordeste da Venezuela— era a primeira terra firme do continente americano que os europeus tinham diante dos olhos. Em suas duas viagens anteriores, Colombo só havia tocado ilhas; acreditava, aliás, que Cuba fazia parte da Ásia. Paria foi outra coisa: o primeiro contato do chamado Velho Mundo com a imensidão da América do Sul, embora o próprio Almirante demorasse a compreender o que havia encontrado.
O que ele percebeu, e deixou escrito com uma emoção quase mística, foi a desmesura do lugar. A água do mar tinha gosto doce pelo enorme caudal que desaguava por perto —vinha, na verdade, do delta do Orinoco, embora Colombo não soubesse—, e nenhum rio de uma simples ilha poderia despejar tanta água. A vegetação era exuberante, o clima suave, as aves cantavam. Colombo concluiu que uma terra tão fértil, tão alta e tão bem irrigada só podia ser um continente imenso, e em suas cartas se atreveu a mais: sustentou que estava perto do 'Paraíso Terrestre' bíblico, situado, segundo seus cálculos, no alto dessa terra. Batizou-a de 'Terra da Graça', o nome com que Paria entrou para a história.
Colombo navegou pelo golfo que se abre entre a península e a ilha de Trinidad —o golfo de Paria—, entrando pelo estreito do sul, a Boca da Serpente, e saindo pelo do norte, a Boca do Dragão, dois nomes que ele mesmo deu a essas passagens temidas por suas correntes. Essa viagem de poucos dias selou para sempre o lugar de Paria na história: o canto da Venezuela onde a América continental foi 'descoberta' pela Europa, e onde um homem convencido de ter contornado o Paraíso levantou âncora sem suspeitar por completo da magnitude do que deixava para trás.
Se Paria é o lugar onde a Europa tocou o continente, Macuro é o ponto preciso desse contato. Esta pequena e remota vila de pescadores, encarapitada no extremo oriental da península e sem acesso por estrada —só se chega de lancha ou por trilha—, reivindica com orgulho o título de primeiro lugar de terra firme americana onde desembarcaram os expedicionários de Colombo, durante aquela terceira viagem de 1498.
A história, porém, tem seus matizes, e vale a pena contá-los com honestidade. O próprio Colombo escreveu que não desceu a terra por estar com problemas de vista; segundo várias fontes, foram seus homens —menciona-se Pedro de Terreros, acompanhado de outros— que teriam posto o pé no continente, tomando água de um riacho e buscando, sem encontrá-los, povoados e gente. A data exata também é discutida entre os cronistas (citam-se tanto 1º de agosto quanto dias do final de maio ou início de agosto de 1498). O que a tradição venezuelana consagrou é que esse desembarque continental ocorreu nas costas de Macuro, e ali hoje se erguem monumentos e uma placa que lembram o fato.
Macuro foi fundada formalmente muito depois, em 1738, como San Carlos Borromeo de Macuro, e no fim do século XIX viveu um breve auge. Hoje é um recanto parado no tempo, de casas baixas diante do mar, aonde peregrinam historiadores e viajantes curiosos que querem estar, literalmente, no lugar onde começou a história continental da América. Seu isolamento —essa mesma dificuldade de acesso que frustrou tantos— é hoje parte de seu encanto e de sua autenticidade.
Muito antes da chegada de Colombo, a península de Paria era habitada por povos indígenas de filiação caribe, entre eles os chaima e os cumanagoto, que viviam da pesca, da caça e de uma agricultura incipiente nos vales férteis da região. Esses povos conheciam bem as correntes marinhas e as rotas para as ilhas próximas, incluindo Trinidad, com a qual mantinham contato por mar.
Após o contato com os espanhóis, a região de Paria e o vizinho golfo de Cariaco se tornaram um dos primeiros cenários de colonização em terra firme americana. Em 1500, apenas dois anos depois do avistamento de Colombo, estabeleceu-se na zona um efêmero assentamento espanhol, e nas décadas seguintes missionários e colonos avançaram sobre o território, fundando povoados e buscando pérolas e outros recursos na costa.
A evangelização e a presença de missões franciscanas e capuchinhas marcaram profundamente a vida da península durante os séculos coloniais, enquanto os povos indígenas resistiam, se misturavam ou eram deslocados. Essa história inicial, pouco conhecida fora da Venezuela, faz de Paria uma região-chave para entender os primeiros contatos entre a Europa e o continente americano.
A península de Paria e o estado de Sucre, ao qual pertence, são um dos grandes territórios do cacau venezuelano, considerado entre os melhores do mundo por seu aroma e finura. O clima úmido, os solos férteis e a tradição acumulada ao longo de séculos fizeram desta região um dos berços do cacau 'fino de aroma', muito apreciado pela indústria chocolateira internacional.
O cultivo do cacau em Paria remonta à época colonial, quando se tornou um dos principais produtos de exportação da região, dando origem a fazendas e a uma economia cacaueira que marcou a vida de povoados como Río Caribe e Carúpano. As grandes casas, os portos cacaueiros e a cultura associada ao 'grão de ouro' moldaram a identidade da zona.
Hoje, essa herança se mantém viva nas fazendas que ainda produzem cacau e nos empreendimentos que elaboram chocolate artesanal. A 'rota do cacau' permite ao viajante conhecer todo o processo —da amêndoa à barra— e degustar um dos grandes tesouros gastronômicos da Venezuela, profundamente ligado à história de Paria.
Além de sua história e de seu cacau, Paria é uma região de natureza generosa e cultura viva. Suas montanhas, cobertas de floresta úmida, estão em parte protegidas pelo Parque Nacional Península de Paria, refúgio de uma rica biodiversidade e de aves, enquanto seu litoral guarda algumas das praias mais virgens e belas da Venezuela, como Medina e Pui Pui, emolduradas por morros e coqueiros.
A zona conserva também águas termais e um entorno propício para o ecoturismo, as caminhadas e a observação da natureza, num ambiente afastado dos grandes circuitos turísticos. Os povoados costeiros, de pescadores e cacauicultores, mantêm um ritmo de vida tranquilo e tradições profundas.
Um dos grandes marcos culturais da região é o Carnaval de Carúpano, um dos mais antigos, famosos e animados da Venezuela, que a cada ano enche de música, blocos e cor esta cidade de Paria. História colombina, cacau fino, praias virgens e carnaval compõem o rico mosaico deste canto nordeste do país.