Há lugares que parecem pertencer a outro tempo, e Canaima é um deles. No coração da Guiana venezuelana, dentro de um dos parques nacionais maiores e mais antigos do planeta, abre-se um mundo de tepuis — essas mesetas colossais de paredes verticais e topo plano —, rios de águas tingidas de avermelhado pelo tanino da selva, praias de areia rosada e cachoeiras que caem do céu. O acampamento de Canaima, às margens de sua laguna salpicada de quedas d'água, é a base de uma das viagens de natureza mais impressionantes da América do Sul.
O Parque Nacional Canaima, Patrimônio Mundial da Unesco desde 1994, protege uma paisagem geológica única: os tepuis são fragmentos de um antiquíssimo maciço rochoso, com quase dois bilhões de anos, que a erosão esculpiu até deixá-los como ilhas no céu, cada uma com sua própria flora e fauna. De um deles, o Auyantepuy, precipita-se o Salto Ángel (Kerepakupai Vená), a cachoeira de maior queda ininterrupta do mundo. E todo esse território é, além disso, o lar ancestral do povo pemón, para quem os tepuis são montanhas sagradas, morada dos espíritos.
Este guia percorre Canaima com um olhar prático e maravilhado: como chegar a este destino remoto, o que ver na laguna e em suas cachoeiras, como é o passeio ao Salto Ángel, como se locomover de curiara pelos rios, onde dormir e o que levar em conta para uma viagem à selva profunda. Canaima não é um destino fácil nem de improvisar, mas quem chega até aqui descobre uma das paisagens mais impressionantes da Terra e a sensação de estar pisando num mundo verdadeiramente perdido.
O Parque Nacional Canaima foi criado em 1962 e ampliado depois até cobrir cerca de 30.000 km², o que o torna um dos parques nacionais mais extensos do mundo; em 1994 foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco pelo valor excepcional de seus tepuis. Essas mesetas rochosas, formadas por arenitos pré-cambrianos de quase dois bilhões de anos, são o coração do Escudo das Guianas e deram origem ao termo 'tepui', palavra da língua pemón que costuma ser traduzida como 'casa dos deuses' ou 'morada dos espíritos'. A região é o território ancestral do povo pemón, que vive aqui desde muito antes da chegada dos europeus e que considera sagrados os tepuis, habitados — segundo sua cosmovisão — pelos espíritos mawari. O nome 'Canaima' também tem um forte significado na cultura pemón. O grande marco do século XX foi o avistamento aéreo, na década de 1930, do Salto Ángel, que cai do Auyantepuy, pelo aviador americano Jimmie Angel, que lhe deu fama mundial. O desenvolvimento turístico de Canaima, ligado à criação do parque e à abertura de acampamentos junto à laguna, fez do lugar um dos grandes destinos de natureza da Venezuela. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Venezuela's largest state: home of the tepuis and Angel Falls — the world's tallest waterfall — of La Gran Sabana and the Pemón people, of Bolívar's Angostura Address, of Orinoco gold, of the Guri dam and the heavy industry of Ciudad Guayana.
Ler a história de Bolívar →Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Canaima começa muito antes de qualquer ser humano: começa nas profundezas do tempo geológico. Os tepuis —aquelas mesetas colossais de paredes verticais e topo plano que dominam a paisagem— são formados por arenitos pré-cambrianos de uma antiguidade impressionante, estimada em cerca de um bilhão e setecentos milhões a dois bilhões de anos. Pertencem ao Escudo das Guianas, uma das massas de rocha mais antigas e estáveis do planeta, que em seu momento fez parte do supercontinente Gondwana.
O que hoje vemos como platôs isolados foi, originalmente, uma enorme e contínua plataforma de rocha. Ao longo de eras geológicas inimagináveis, a erosão da água e do vento foi desgastando e fraturando essa plataforma, arrastando o material mais mole e deixando em pé apenas os blocos mais resistentes. O resultado são os tepuis: gigantescas 'ilhas' de rocha que se elevam abruptamente, centenas de metros, sobre a selva e a savana ao redor, separadas entre si e das terras baixas por paredões verticais.
Essa formação tão particular explica a grandiosidade da paisagem, mas também algo mais profundo: o isolamento. Durante milhões de anos, os topos dos tepuis ficaram incomunicáveis do mundo lá embaixo, transformando-se em laboratórios naturais da evolução. É essa antiguidade e esse isolamento que fazem dos tepuis e de Canaima um patrimônio geológico e biológico único, reconhecido mais tarde pela humanidade inteira.
O isolamento dos topos dos tepuis durante milhões de anos teve uma consequência extraordinária para a vida. Separados do mundo lá embaixo por paredões de rocha, expostos a um clima próprio de chuva, neblina e solos pobres, esses cumes se transformaram em ilhas ecológicas onde a evolução seguiu seu próprio caminho. O resultado é um altíssimo grau de endemismo: numerosas espécies de plantas e animais que vivem no topo de um tepui —ou de alguns poucos— e que não existem em nenhum outro lugar da Terra.
Nesses ecossistemas singulares prosperam plantas carnívoras (que capturam insetos para compensar a pobreza do solo), bromélias e orquídeas endêmicas, espécies de anfíbios escuros adaptados à rocha e uma flora estranha e delicada moldada por milhões de anos de isolamento. Cada tepui pode abrigar seu próprio conjunto de espécies, o que multiplica o valor científico do conjunto. Para os biólogos, os topos dos tepuis são um tesouro da evolução.
Esse caráter de 'mundos perdidos' —cumes inacessíveis onde sobrevive uma natureza diferente e antiquíssima— alimentou o imaginário universal. As explorações de naturalistas e viajantes do século XIX pela região da Gran Sabana e dos tepuis, e os relatos sobre essas mesetas inalcançáveis, inspiraram obras da literatura de aventuras que imaginaram em seus topos a sobrevivência de um mundo pré-histórico. Canaima ficou assim associada, para sempre, à ideia do mundo perdido.
Muito antes de chegarem exploradores, aviadores ou turistas, esta terra já tinha donos: o povo pemón, uma etnia indígena da família linguística caribe que habita a Gran Sabana e a Guiana venezuelana desde tempos imemoriais. Os pemón conhecem este território como ninguém —seus rios, suas selvas, suas savanas, seus tepuis— e construíram em torno dele toda uma cultura, uma língua e uma cosmovisão.
Para os pemón, os tepuis não são simplesmente montanhas: são lugares sagrados, moradas de espíritos. A própria palavra 'tepui' vem da língua deles e costuma ser traduzida como 'casa dos deuses' ou 'morada dos espíritos'. Segundo sua cosmovisão, os topos e as profundezas dos tepuis são habitados por seres espirituais —os mawari e outras forças—, por isso muitos desses lugares inspiram respeito e reverência, e não são pisados de qualquer jeito. A paisagem inteira é tecida de relatos míticos que explicam a origem das quedas-d'água, dos rios e das montanhas.
Muitos dos nomes de Canaima vêm do pemón, a começar pela própria palavra 'Canaima' e por 'Kerepakupai Vená', o nome indígena do Salto Ángel. Essa presença ancestral é fundamental: o turismo que hoje se desenvolve na região se apoia em grande medida em guias, baquianos e operadores pemón, herdeiros desse conhecimento milenar do território. Reconhecer o povo pemón é reconhecer os verdadeiros guardiões deste 'mundo perdido'.
O acontecimento que projetou Canaima para o mundo inteiro foi o avistamento do Salto Ángel, a cachoeira mais alta do planeta, que despenca do topo do Auyantepui. Embora os pemón conhecessem o salto desde sempre e o chamassem de Kerepakupai Vená, e embora exploradores anteriores —como o espanhol Félix Cardona— o tenham avistado do ar nos anos 1920, foi um aviador americano quem lhe deu fama internacional e acabou lhe dando seu nome ocidental.
Esse aviador era Jimmie Angel (James Crawford Angel), um piloto aventureiro que sobrevoava a região em busca, segundo a lenda, de um rio de ouro. Em novembro de 1933, durante um de seus voos, avistou a imponente queda-d'água que se desprendia do Auyantepui. Anos mais tarde, em 1937, Angel tentou pousar seu avião, o 'Río Caroní', no topo do tepui; a aeronave ficou atolada no terreno pantanoso do cume, e ele e seus acompanhantes tiveram que descer a pé durante dias até voltar à civilização. Aquele avião ficou lá em cima como relíquia da façanha.
De Jimmie Angel —'Ángel' em espanhol— o Salto Ángel tomou seu nome. A medição oficial de sua altura foi realizada em 1949, em uma expedição ligada à National Geographic Society, que confirmou que se tratava da cachoeira de maior queda ininterrupta do mundo, com cerca de 979 metros de altura total. A partir de então, o Salto Ángel se tornou um ícone mundial e o grande ímã turístico de Canaima, símbolo da Venezuela perante o planeta.
O reconhecimento institucional da grandeza de Canaima chegou no século XX. Em 1962, o Estado venezuelano criou o Parque Nacional Canaima para proteger este território excepcional. Com o tempo, seus limites foram ampliados até abranger cerca de 30.000 quilômetros quadrados —uma área comparável à de países pequenos—, o que o coloca entre os parques nacionais mais extensos do mundo. O parque protege um vasto conjunto de tepuis, selvas, savanas, rios e cachoeiras no sudeste do estado Bolívar, incluindo a Gran Sabana e o Auyantepui com o Salto Ángel.
O grande impulso internacional chegou em 1994, quando a Unesco inscreveu o Parque Nacional Canaima na lista do Patrimônio Mundial. A distinção reconheceu seu valor universal excepcional: a espetacularidade e a antiguidade de suas formações geológicas (os tepuis e seus paredões verticais, entre as paisagens mais singulares do planeta), a importância de seus processos geológicos e biológicos, e a riqueza de sua biodiversidade e de seu endemismo. Canaima passou assim a integrar o seleto grupo dos lugares que a humanidade considera patrimônio de todos.
A proteção e o reconhecimento, porém, convivem com desafios. A mineração ilegal, os incêndios, a pressão sobre os recursos e as dificuldades de gestão ameaçam a integridade desse patrimônio, especialmente em algumas áreas do parque. Preservar Canaima —sua geologia antiquíssima, sua vida única e o território do povo pemón— é um dos grandes desafios ambientais da Venezuela. Para o viajante, conhecer Canaima é também assumir a responsabilidade de cuidar dele: visitá-lo com respeito, apoiar o turismo comunitário e contribuir para que este 'mundo perdido' continue existindo.