Ptuj é a cidade mais antiga da Eslovênia e uma das mais encantadoras: um centro medieval de telhados vermelhos, vielas de paralelepípedo e casas barrocas às margens do rio Drava, coroado por um castelo que domina a paisagem. Foi a romana Poetovio, um centro que chegou a ter até 40.000 habitantes no auge, e essa antiguidade se sente em cada esquina, do monumento romano de Orfeu às muralhas e torres medievais.
Além de história, Ptuj é vinho, termas e festa. A cidade mantém uma tradição vinícola milenar, com uma adega que guarda vinhos há mais de sete séculos, e é cercada pelas colinas de Haloze e Slovenske Gorice, cobertas de vinhedos. Do outro lado do rio, as Terme Ptuj convidam a um banho termal o ano inteiro. E todo mês de fevereiro Ptuj celebra o Kurentovanje, um dos carnavais mais singulares da Europa, com os Kurent, figuras peludas com chocalhos e máscaras, espantando o inverno.
Este guia ajuda você a aproveitar Ptuj: o que ver no castelo e em seus museus e quanto custa a entrada, como percorrer o centro histórico e seus monumentos romanos e medievais, onde degustar o vinho mais antigo do país, como curtir as termas e como se deslocar de trem SŽ e de ônibus a partir de Maribor ou Liubliana. Uma parada pequena, mas riquíssima, no leste esloveno, ideal para combinar com Maribor.
Ptuj é a cidade documentada mais antiga da Eslovênia, habitada desde a Idade da Pedra. No século I d.C., os romanos a transformaram em Poetovio, um importante centro militar, comercial e administrativo da província da Panônia. A cidade chegou a ter dezenas de milhares de habitantes, legiões aquarteladas e o culto ao deus Mitra; dessa época restam o monumento de Orfeu e vários santuários mitraicos. Depois das invasões e da queda de Roma, a cidade renasceu na Idade Média sob os arcebispos de Salzburgo, que ergueram o castelo e lhe deram direitos de cidade no século XIII. O mercado, os mosteiros e a ponte sobre o Drava a tornaram próspera. Durante séculos esteve sob os Habsburgo, sofreu as incursões otomanas e viveu do vinho e do comércio fluvial. A ferrovia, no século XIX, e depois, no século XX, as duas guerras mundiais e a Iugoslávia de Tito marcaram seu destino, até a independência eslovena, em 1991. Hoje conserva o centro medieval, a tradição vinícola e o carnaval do Kurentovanje. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Slovenian Lower Styria: Ptuj, the country's oldest town, built on Roman Poetovio, and Maribor, wine capital and home of the world's oldest vine, where General Rudolf Maister carried out his daring takeover in 1918.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Ptuj se orgulha, com razão, de ser a cidade documentada mais antiga da Eslovênia, e sua história mergulha na pré-história: há vestígios de povoamento humano na região desde a Idade da Pedra, e na Idade do Ferro existiu aqui uma comunidade ligada às culturas da Europa Central. Mas o grande salto veio com Roma. No vau do rio Drava, ponto-chave das rotas que ligavam a Itália à Panônia e ao Danúbio, os romanos instalaram um acampamento militar que logo virou cidade: Poetovio.
No século I d.C., sob o imperador Trajano, Poetovio recebeu o status de colônia e chegou a ser um dos centros mais importantes da província da Panônia. Calcula-se que, no auge, abrigou dezenas de milhares de habitantes, com legiões aquarteladas, fóruns, templos, termas, oficinas e bairros nas duas margens do Drava. Era uma cidade cosmopolita, ponto de encontro de soldados, comerciantes e funcionários de todo o império.
Daquela Poetovio restam testemunhos extraordinários. O mais famoso é o monumento de Orfeu (Orfejev spomenik), uma grande estela funerária de mármore do século II, com mais de cinco metros de altura, que continua no seu lugar original, na praça principal. E talvez o mais singular sejam os mitreus: santuários subterrâneos dedicados ao deus Mitra, uma divindade de origem oriental cujo culto de mistérios era muito popular entre os soldados romanos. Ptuj conserva vários dos mitreus mais bem preservados desta parte da Europa, com seus altares e relevos, testemunhas de uma religiosidade que competiu com o cristianismo nascente.
O fim do mundo romano chegou com as grandes migrações. Entre os séculos IV e VI, Poetovio sofreu a passagem de povos como os godos, os hunos e outros, e a vida urbana encolheu. Depois, entre os séculos VI e VII, chegaram os eslavos, antepassados dos eslovenos, que repovoaram a região e lhe deram sua língua. O nome romano Poetovio evoluiu, através do eslavo, até a forma Ptuj.
Na Alta Idade Média, a região entrou na órbita do poderoso arcebispado de Salzburgo, uma das grandes instituições eclesiásticas do Sacro Império. Os arcebispos transformaram Ptuj num bastião do seu poder nessas terras de fronteira: no alto da colina que domina o rio, ergueram, já no século XII, o castelo que até hoje reina sobre a cidade, e incentivaram o crescimento do núcleo urbano aos seus pés. Ptuj recebeu direitos de cidade no século XIII (por volta de 1257 já é mencionada como cidade), o que a tornou uma das cidades com foral mais antigas da Eslovênia.
A Ptuj medieval prosperou graças à sua ponte sobre o Drava, ao seu mercado, às suas feiras e à sua posição nas rotas comerciais. Instalaram-se ordens religiosas — dominicanos e minoritas (franciscanos) — que construíram mosteiros que ainda estão de pé, e a cidade se encheu de igrejas, casas nobres e muralhas. Em 1479, a cidade foi tomada por um breve período pelo rei Matias Corvino, da Hungria, no contexto de suas guerras contra os Habsburgo, prova de como essa fronteira era disputada.
Desde o fim da Idade Média e durante séculos, Ptuj e toda a Baixa Estíria ficaram firmemente sob o domínio dos Habsburgo da Áustria, que governavam a partir de Viena e Graz. Foram tempos de luzes e sombras. Por um lado, a cidade vivia do comércio fluvial pelo Drava, das feiras e, muito especialmente, do vinho: as colinas vizinhas de Haloze e Slovenske Gorice, com solo e clima ideais, produzem desde a Antiguidade brancos muito apreciados, e a adega da cidade — a Ptujska klet — tem uma tradição documentada de mais de sete séculos, o que faz dela uma das adegas em atividade mais antigas do país.
Por outro lado, os séculos XV e XVI trouxeram o terror das incursões otomanas. Os exércitos e os bandos de saqueadores do Império Otomano, que havia conquistado os Bálcãs e sitiava Viena, avançavam por essas terras eslovenas devastando o campo, queimando aldeias e levando prisioneiros. Ptuj, com suas muralhas e seu castelo, reforçou as defesas e serviu de refúgio para a população da região. A ameaça turca marcou por gerações a vida e o imaginário local.
À sombra dessas tensões, a cidade preservou seu caráter e sua cultura. A Reforma Protestante teve certo eco na Estíria eslovena antes que a Contrarreforma católica, impulsionada pelos Habsburgo, a revertesse, deixando a paisagem barroca de igrejas e mosteiros que hoje se admira. Ptuj era uma cidade pequena, mas orgulhosa da sua antiguidade, com uma identidade forjada entre o esloveno, o alemão e o panônico.
Entre todas as tradições de Ptuj, nenhuma é tão singular nem tão famosa quanto a dos Kurent (ou Korant), protagonistas do carnaval que hoje é celebrado com o nome de Kurentovanje. Suas raízes se perdem no mundo pré-cristão dos povos eslavos e em ritos agrários de fertilidade e de mudança de estação, embora a tradição como a conhecemos tenha se consolidado nas aldeias da região de Ptuj (o Ptujsko polje e as colinas vizinhas) ao longo dos séculos.
O Kurent é uma figura inconfundível: um homem coberto de pele de ovelha, com uma máscara de chifres, olhos contornados de vermelho, uma longa língua vermelha de couro e grandes chocalhos (zvonci) pendurados na cintura. Nos dias de carnaval, os grupos de Kurent percorrem aldeias e ruas pulando e mexendo os quadris para fazer os chocalhos soarem com estrondo, com a missão simbólica de espantar o inverno e despertar a primavera. A eles se juntam outras máscaras tradicionais — aradores, ursos, bruxas, noivos — num rico teatro popular.
Essa tradição viva, transmitida de geração em geração nas comunidades rurais, foi reconhecida em 2017 pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, dentro das 'rondas de porta em porta' dos Kurent. No século XX, a cidade de Ptuj passou a organizar o Kurentovanje como um grande festival de carnaval que reúne esses grupos e outros de todo o país e do exterior; hoje ele dura cerca de dez dias e é um dos eventos mais importantes da Eslovênia, apontado por publicações internacionais entre os carnavais mais originais do mundo.
O século XIX trouxe a modernização. A chegada da ferrovia ligou Ptuj a Viena, Graz, Zagreb e Budapeste, integrando a cidade às redes do Império Austro-Húngaro e abrindo caminho para o seu vinho e os seus produtos. Ao mesmo tempo, o despertar nacional esloveno também ganhou força aqui, numa cidade onde conviviam a maioria eslovena e uma minoria de língua alemã, com as tensões nacionais típicas da fronteira linguística do império.
O século XX foi turbulento. Com o colapso da Áustria-Hungria em 1918, Ptuj passou a fazer parte do novo Estado dos Eslovenos, Croatas e Sérvios, depois Iugoslávia. A Segunda Guerra Mundial trouxe a ocupação da Alemanha nazista, que anexou a Baixa Estíria ao Reich e impôs uma brutal política de germanização, com deportações, repressão e perseguição da população eslovena; a resistência partisan foi ativa na região. Terminada a guerra, Ptuj foi integrada à Iugoslávia socialista de Tito, dentro da República da Eslovênia, e viveu décadas de industrialização e mudanças sociais, sem perder seu centro histórico.
Com a independência da Eslovênia em 1991 e a entrada do país na União Europeia em 2004, Ptuj se reinventou como destino cultural e turístico. Restaurou seu castelo e seu centro medieval, valorizou sua herança romana e sua tradição vinícola, desenvolveu suas termas e projetou internacionalmente o carnaval dos Kurent. Hoje, essa pequena cidade às margens do Drava oferece ao visitante quase dois mil anos de história contínua: a Poetovio dos legionários e dos santuários de Mitra, a Ptuj dos arcebispos de Salzburgo e das muralhas contra os turcos, as adegas centenárias e as máscaras de inverno que continuam pulando todo mês de fevereiro para chamar a primavera.