Santa Cruz é a ilha onde quase todo mundo que viaja para Galápagos por conta própria acaba montando a base. Puerto Ayora tem hotéis para todos os bolsos, comida barata na rua dos quiosques e um cais de onde saem lanchas e passeios para meia dúzia de ilhas. E sem subir em nenhum barco você já vê muita coisa: lobos-marinhos dormindo nos bancos do cais dos pescadores, iguanas-marinhas na praia e tartarugas-gigantes caminhando entre os pastos da parte alta.
A ilha muda muito em poucos quilômetros. No litoral faz calor, crescem cactos e há praias de areia branca como Bahía Tortuga. Subindo em direção ao Cerro Crocker, o ar fica úmido e aparecem as florestas de escalésia de Los Gemelos e os pastos onde se juntam as tartarugas de El Chato. Em meia hora de carro você passa de uma paisagem quase desértica para outra verde e com neblina, e isso explica boa parte da variedade de animais que você vai cruzar.
Galápagos não é barato: só para entrar custa US$ 100 ou US$ 200 dependendo da sua nacionalidade, mais US$ 20 do cartão de trânsito, e os passeios para outras ilhas saem por mais de US$ 200. Mas Santa Cruz é onde o orçamento rende mais. Muitos dos seus pontos de visita são gratuitos ou custam poucos dólares, dá para chegar a pé ou de bote-táxi, e você pode escolher quais passeios pagar em vez de comprar um cruzeiro completo.
As Galápagos foram descobertas por acaso em 10 de março de 1535 por frei Tomás de Berlanga, que navegava do Panamá ao Peru. Durante séculos foram refúgio de piratas e baleeiros, que batizaram esta ilha com vários nomes: o pirata inglês William Ambrosia Cowley a chamou de Duke of Norfolk's Island em 1684 e os britânicos depois a conheceram como Indefatigable, por causa do navio HMS Indefatigable. O Equador anexou o arquipélago em 12 de fevereiro de 1832, e na troca de nomes de 1892 a ilha passou a se chamar Santa Cruz. Charles Darwin chegou com o Beagle em setembro de 1835 e estudou quatro ilhas do arquipélago. A baía de Puerto Ayora, Academy Bay (Baía da Academia), deve seu nome à escuna Academy, da Academia de Ciências da Califórnia, que a visitou em 1905. Em 1926 chegou um grupo de colonos noruegueses que sonhava com uma fábrica de conservas e uma comunidade agrícola; com eles começou o povoado, que recebeu o nome do presidente Isidro Ayora. Em 1959 o governo de Camilo Ponce Enríquez declarou parque nacional 97% do arquipélago, a primeira área protegida do Equador, e em 1964 inaugurou a Estação Científica Charles Darwin em Puerto Ayora. As Galápagos se tornaram Patrimônio Mundial da Unesco em 1978 e província equatoriana em 18 de fevereiro de 1973. Em 1971 foi encontrado na ilha Pinta o Solitário George, a última tartaruga da sua espécie, que viveu em Santa Cruz até sua morte em 24 de junho de 2012; seu corpo embalsamado é exibido desde 2017 no Centro de Criação Fausto Llerena. Hoje Puerto Ayora é a maior cidade de Galápagos e vive do turismo, da pesca artesanal e do transporte. Em 2024 entraram 279.277 turistas no arquipélago, e 78% escolheram se hospedar em terra
Ler a história completa ↓The enchanted archipelago of the Pacific: a living laboratory of evolution that inspired Charles Darwin, the first Natural World Heritage Site of Unesco (1978) and a National Park since 1959, home to giant tortoises, marine iguanas and blue-footed boobies.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
As ilhas Galápagos — e com elas Santa Cruz — entraram na história escrita por puro acaso. Em 1535, o frade dominicano Tomás de Berlanga, então bispo do Panamá, navegava rumo ao Peru a pedido do rei Carlos I da Espanha para mediar as disputas entre os conquistadores. No meio da viagem, seu navio ficou preso numa calmaria total e foi arrastado pelas correntes marinhas mar adentro, longe da costa, até topar com um grupo de ilhas desabitadas e áridas que ninguém esperava encontrar.
Numa carta que Berlanga escreveu ao rei, ele descreveu com espanto e certa decepção aquelas terras: uma paisagem de lava e rochas onde parecia ter 'chovido pedras', onde era difícil achar água doce, mas habitada por animais estranhamente mansos que não fugiam do homem. Mencionou tartarugas enormes (os 'galápagos', que acabariam dando nome ao arquipélago), iguanas e aves que se deixavam chegar perto e até pegar com a mão. Essa mansidão, fruto de terem evoluído sem predadores humanos, seria séculos depois uma das chaves para a ciência, mas na época só causava estranheza.
Durante muito tempo, as ilhas ficaram registradas como um lugar inóspito e de difícil acesso, sem água e sem valor aparente para a Coroa. Apareceram nas cartas náuticas como as 'Ilhas Encantadas' ('Insulae de los Galopegos'), um nome que aludia tanto às tartarugas quanto à sensação de que as ilhas 'apareciam e desapareciam' entre as neblinas e as fortes correntes que confundiam os navegadores. Santa Cruz, como o resto do arquipélago, continuaria praticamente despovoada por séculos.
Durante mais de dois séculos após a descoberta, as Galápagos não tiveram população fixa, mas sim visitantes frequentes e nada amigáveis com a fauna. A partir do século XVII, as ilhas se tornaram um refúgio estratégico para piratas e corsários — muitos deles ingleses — que atacavam os galeões espanhóis que transportavam riquezas pelo Pacífico. O arquipélago lhes oferecia esconderijos, ancoradouros protegidos e, sobretudo, um recurso valiosíssimo: as tartarugas gigantes.
As tartarugas tinham uma característica que as condenou: conseguiam sobreviver muitos meses sem comer nem beber. Isso as transformou na 'comida viva' ideal para as longas viagens por mar: piratas e, mais tarde, baleeiros e caçadores de focas as levavam às centenas nos porões dos navios como reserva de carne fresca. Calcula-se que, entre os séculos XVII e XIX, foram retiradas dezenas de milhares — provavelmente mais de cem mil — de tartarugas das diferentes ilhas, levando várias populações à beira da extinção ou além dela.
O impacto daqueles visitantes foi duplo e duradouro. De um lado, o saque direto de tartarugas e outros animais; de outro, a introdução — voluntária ou acidental — de espécies exóticas: cabras, porcos, cachorros, gatos, ratos e burros que se tornaram selvagens e devastaram a vegetação nativa, predaram ovos e filhotes e competiram com a fauna local. Essas espécies invasoras são, até hoje, uma das maiores ameaças aos ecossistemas de ilhas como Santa Cruz, e seu controle e erradicação são parte central do trabalho de conservação do Parque Nacional.
O destino político das Galápagos foi selado poucos anos depois de o Equador nascer como país independente. Em 12 de fevereiro de 1832, o governo equatoriano tomou posse formal do arquipélago em nome da jovem República do Equador, que havia se separado da Grã-Colômbia em 1830. A figura-chave dessa anexação foi o general José de Villamil, militar e empresário de origem crioula que impulsionou a incorporação das ilhas e a fundação da primeira colônia.
Nesse ato fundacional, as ilhas receberam o nome oficial de 'Arquipélago do Equador', em alusão à sua localização sobre a linha do Equador, que dá nome ao país (o nome 'Galápagos', no entanto, acabou se impondo no uso). Villamil estabeleceu o primeiro assentamento na ilha Floreana (então chamada Charles ou Santa María), com colonos, soldados e, infelizmente, também condenados e exilados, num experimento de colonização que teve uma vida difícil e conflituosa.
A anexação de 1832 foi decisiva por um motivo que vai além do político: graças a ela, quando três anos depois o HMS Beagle visitou o arquipélago, as ilhas já eram território equatoriano, com um governador e uma colônia incipiente. Essa soberania lançaria as bases para que, mais de um século depois, fosse o próprio Equador a declarar as Galápagos Parque Nacional e a assumir a enorme responsabilidade de proteger um dos patrimônios naturais mais importantes do planeta, incluindo ilhas hoje habitadas como Santa Cruz.
Em setembro de 1835, um jovem naturalista inglês de 26 anos chegou às Galápagos a bordo do HMS Beagle, um navio da Marinha britânica que dava a volta ao mundo numa expedição cartográfica. Aquele naturalista era Charles Darwin, e sua passagem de apenas cinco semanas pelo arquipélago se tornaria, com o tempo, um dos episódios mais célebres da história da ciência. Darwin percorreu várias ilhas, coletou espécimes, fez anotações e ficou intrigado com o que via.
O que chamou sua atenção foi a variação das espécies entre ilhas vizinhas. Ele observou que as tartarugas gigantes eram diferentes de acordo com a ilha de origem — tanto que o vice-governador lhe garantiu ser capaz de dizer de que ilha vinha cada uma pelo formato do casco — e que aves aparentemente parecidas mostravam diferenças notáveis, sobretudo no formato do bico. Esses pássaros, hoje famosos como os 'tentilhões de Darwin', tinham bicos adaptados a alimentos diferentes (sementes, insetos, frutos), como se uma espécie ancestral tivesse se diversificado para ocupar papéis distintos.
Darwin não formulou sua teoria nas ilhas; foi anos depois, refletindo sobre essas e outras observações, que ele desenvolveu a ideia da evolução das espécies por seleção natural, publicada em 1859 em 'A origem das espécies'. As Galápagos se tornaram assim o 'laboratório vivo da evolução', um lugar onde o isolamento de cada ilha permitiu ver a natureza 'experimentando' com a vida. Hoje, a Estação Científica que leva o seu nome, em Santa Cruz, mantém viva essa herança de pesquisa e conservação.
Diferentemente de Floreana ou San Cristóbal, que tiveram assentamentos mais antigos, Santa Cruz só foi colonizada de forma estável no século XX. A ilha, com seu grande tamanho e suas terras altas férteis (onde a umidade da garoa permite a agricultura), atraiu ondas de pioneiros em busca de uma vida nova longe do continente. Entre os primeiros colonos havia equatorianos do continente e também europeus, em especial um grupo de imigrantes noruegueses que chegou nos anos 1920 com a ideia de instalar indústrias de pesca e de conservas.
A vida daqueles primeiros moradores foi duríssima. Muitos projetos fracassaram pela falta de água doce, pelo terreno inóspito, pelo isolamento extremo e pela dificuldade de vender o que produziam. Alguns colonos noruegueses abandonaram a ilha; outros ficaram e criaram raízes. Aos poucos foram se formando os dois núcleos da ilha: Puerto Ayora, na costa sul, que cresceria como porto e centro de serviços, e os povoados agrícolas das terras altas, como Bellavista e Santa Rosa, dedicados à agricultura e à pecuária.
Com o passar das décadas, e sobretudo a partir do boom do turismo na segunda metade do século XX, Puerto Ayora se transformou no centro mais dinâmico de todo o arquipélago. Hoje Santa Cruz é a ilha mais populosa de Galápagos e concentra a maior parte da atividade turística, científica e comercial. Esse crescimento, porém, traz seus próprios desafios: a pressão sobre a água, o lixo, a entrada de novas espécies invasoras e a necessidade de equilibrar o desenvolvimento da população local com a conservação do ambiente único que torna a ilha especial.
Em meados do século XX, o mundo começou a tomar consciência do valor único das Galápagos e das ameaças que pairavam sobre elas. O ano-chave foi 1959: coincidindo com o centenário da publicação de 'A origem das espécies', de Darwin, o governo do Equador declarou Parque Nacional Galápagos cerca de 97% da superfície terrestre do arquipélago, deixando os 3% restantes para as áreas habitadas, como Puerto Ayora. Foi um dos primeiros grandes gestos de proteção desse patrimônio natural.
Poucos anos depois, em 1964, foi inaugurada em Santa Cruz, ao lado de Puerto Ayora, a Estação Científica Charles Darwin, operada pela Fundação Charles Darwin — uma organização internacional criada em 1959 sob os auspícios da Unesco e da UICN. A estação se tornou o centro nevrálgico da pesquisa científica e da assessoria para a conservação nas ilhas, com programas pioneiros como a criação em cativeiro e a repatriação de tartarugas gigantes, que salvaram várias populações da extinção.
O reconhecimento internacional veio em 1978, quando as Galápagos se tornaram o primeiro sítio do mundo inscrito na lista de Patrimônio Mundial Natural da Unesco. Mais tarde, o arquipélago foi declarado também Reserva da Biosfera e foi criada a Reserva Marinha de Galápagos, uma das maiores do planeta. Hoje, ilhas como Santa Cruz vivem o desafio permanente de equilibrar o turismo, o crescimento da população local e a conservação: combater espécies invasoras, regular a entrada de visitantes (com a taxa de entrada no Parque e a Tarjeta de Control de Tránsito) e promover um turismo sustentável que permita que esse tesouro evolutivo continue encantando as próximas gerações.