Alausí é uma pitoresca cidadezinha ferroviária da província de Chimborazo, na serra central do Equador, a cerca de 2.350 metros de altitude. Suas ruas de casas coloridas com sacadas de madeira, sua igreja e a grande estátua de São Pedro que vigia do alto de um morro lhe dão um charme especial, mas sua fama mundial se deve a algo bem ali do lado: ser o ponto de partida do célebre trem da Nariz del Diablo, uma das obras de engenharia ferroviária mais audaciosas das Américas.
A Nariz del Diablo (Cóndor Puñuna) é um imponente paredão de rocha quase vertical pelo qual a ferrovia equatoriana conseguiu descer, por meio de um sistema de zigue-zagues, vencendo um desnível enorme em pouquíssima distância. O trem turístico que percorre esse trecho, descendo e subindo de marcha a ré pelos trilhos escavados na montanha, é uma das grandes atrações do país.
Este guia percorre o essencial de Alausí: o passeio no trem da Nariz del Diablo (reativado em 2025, embora seja bom verificar a operação, já que o serviço teve interrupções), o charme da própria cidade, os mirantes e caminhadas dos arredores e como chegar a este destino emblemático da rota ferroviária andina do Equador.
Alausí cresceu no ritmo da ferrovia transandina do Equador, cuja construção no começo do século XX precisou resolver a descida pelo escarpado paredão da Nariz del Diablo com um engenhoso sistema de zigue-zagues, uma façanha de engenharia que custou muitas vidas. O trem transformou Alausí em um ponto-chave da linha Quito–Guayaquil e, mais tarde, em um destino turístico. A versão completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of Ecuador's highest volcano and of the point farthest from the center of the Earth: Puruhá land around the ancient Liribamba, cradle of Riobamba —the 'Sultana of the Andes' and seat of the first Constituent Assembly of 1830—, of the Devil's Nose railway and of the vicuña páramo of Chimborazo.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história moderna de Alausí está intimamente ligada à da ferrovia do Equador. No fim do século XIX e começo do XX, o país começou uma obra colossal, sonhada havia muito tempo: construir uma linha férrea que ligasse a capital, Quito, em plena serra, ao principal porto, Guayaquil, no litoral. O projeto ganhou força durante o governo do presidente Eloy Alfaro e queria integrar um país profundamente dividido pela geografia, conectando a serra andina à planície costeira.
O grande desafio era o relevo. A ferrovia precisava subir a abrupta cordilheira dos Andes e vencer desníveis enormes em distâncias curtas, num terreno de cânions, encostas vertiginosas e áreas instáveis. A construção ficou a cargo de engenheiros (muitos deles estrangeiros) e de milhares de trabalhadores. Foi uma empreitada titânica, que enfrentou condições extremas: o clima, as doenças tropicais nas regiões baixas, os desmoronamentos e a dureza do relevo.
Nesse traçado heroico, um ponto virou o símbolo de toda a obra e seu maior desafio: a descida por um paredão de rocha escarpado conhecido como Nariz del Diablo. Descobrir como fazer os trilhos descerem por ali pôs à prova toda a engenhosidade dos construtores e se tornou a página mais famosa (e mais trágica) da história da ferrovia equatoriana.
A Nariz del Diablo é um imponente promontório rochoso, quase vertical, que ficava no caminho da ferrovia. Descer uma parede dessas de trem parecia, em princípio, impossível: nenhuma locomotiva conseguia encarar de frente uma inclinação tão acentuada. A solução, ousada e brilhante, foi construir um sistema de ziguezagues (também chamado de 'switchbacks'): uma série de trechos de via em forma de Z. O trem avança até o fim de um trecho, os operários mudam os desvios e a locomotiva volta de ré pelo trecho seguinte, descendo assim em degraus pela face da montanha.
Escavar esses trilhos na rocha viva do paredão foi um trabalho extremamente perigoso. A construção desse trecho, feita nas primeiras décadas do século XX, custou a vida de muitos trabalhadores, entre eles vários diaristas trazidos para a dura tarefa. A lenda popular (e o nome assustador do lugar) guarda essa mistura de façanha e sacrifício: domar a 'Nariz del Diablo' teve um custo humano altíssimo.
Depois de pronto, o trecho da Nariz del Diablo virou uma maravilha da engenharia ferroviária, admirada no mundo todo, e um símbolo da determinação com que o Equador conseguiu unir sua serra e seu litoral pelos trilhos. Alausí, no alto dessa descida, ficou ligada para sempre a essa façanha.
A chegada da ferrovia transformou Alausí. De mais uma cidadezinha da serra, ela passou a ser uma parada importante da linha Quito–Guayaquil e um centro de atividade ligado ao trem. A estação, os ferroviários e o movimento de passageiros e mercadorias deram vida à cidade, cuja arquitetura de casas coloridas com sacadas de madeira reflete esse período de auge.
Com o passar das décadas, a ferrovia equatoriana entrou em decadência diante do transporte rodoviário, e muitas linhas deixaram de funcionar como meio de transporte regular. Mas o trecho da Nariz del Diablo ganhou uma segunda vida no turismo: o passeio de trem pelos ziguezagues do paredão virou uma das experiências turísticas mais procuradas do Equador e atraiu viajantes do mundo inteiro a Alausí. Em diferentes momentos, a linha foi reabilitada como trem turístico, com a estação de Sibambe adaptada na base.
A operação do trem turístico, porém, tem sido irregular, com períodos de suspensão por motivos econômicos e de gestão, então vale sempre confirmar se ele está funcionando. Além do trem, Alausí mantém o charme de cidade ferroviária, dominada pela estátua de São Pedro e cercada de paisagens andinas, como testemunho vivo da epopeia da ferrovia que um dia uniu a serra e o litoral do Equador.
A fase mais recente da história de Alausí tem sido marcada pela sorte instável do seu trem. Depois da decadência da ferrovia como meio de transporte regular na segunda metade do século XX, o Estado equatoriano apostou, já no século XXI, em reabilitar trechos emblemáticos como atração turística. A empresa pública Ferrocarriles del Ecuador (FEEP) investiu na restauração de estações, locomotivas e vias, e o trecho da Nariz del Diablo virou o carro-chefe dessa rede turística, com a estação de Sibambe adaptada na base do paredão e apresentações culturais das comunidades puruhás.
Na década de 2010, o trem turístico da Nariz del Diablo viveu anos de esplendor, recebendo viajantes do mundo todo e movimentando a economia de Alausí. Em 2020, porém, a empresa Ferrocarriles del Ecuador entrou em liquidação por problemas financeiros, agravados pela pandemia de COVID-19, e o serviço foi suspenso. O fechamento atingiu Alausí em cheio, já que a economia da cidade dependia em boa parte do fluxo de turistas que chegava de trem.
A essa crise somou-se, em março de 2023, uma tragédia sem relação com a ferrovia: um grande deslizamento de terra (um dos maiores desastres recentes do país) atingiu parte do cantão e deixou muitas vítimas, marcando profundamente a comunidade. Nesse contexto difícil, as autoridades nacionais e locais trabalharam na reabilitação do trecho: em 2024, o Ministério de Infraestrutura e Transporte e a prefeitura de Alausí assinaram um convênio para reativar os 12 km de via, e em julho de 2025 o trem voltou a circular. Mesmo assim, a operação continua irregular, com novas suspensões para obras de segurança, o que mostra o desafio de manter um patrimônio tão valioso quanto frágil.