Seul é uma daquelas capitais que parecem várias cidades ao mesmo tempo. No mesmo dia você pode atravessar o pátio de um palácio da dinastia Joseon durante a troca da guarda com trajes coloridos, se perder pelas vielas de casas tradicionais hanok de Bukchon, comer tteokbokki apimentado numa barraquinha de Myeongdong e terminar a noite entre neons, karaokês e casas de show em Hongdae. É o berço do K-pop, do cinema coreano e de uma cena gastronômica que vai do churrasco de bairro aos restaurantes com estrela Michelin.
O que mais surpreende é a energia e a eficiência: um metrô impecável que chega no minuto certo, cafés de design em cada esquina, mercados que funcionam de madrugada, montanhas verdes despontando entre os arranha-céus e uma segurança que permite caminhar tranquilo a qualquer hora. E tudo a preços surpreendentemente razoáveis para uma megacidade: come-se muito bem gastando pouco e o transporte é baratíssimo.
Este guia percorre Seul com um olhar prático e acolhedor: como organizar os bairros dos dois lados do rio Han, quais palácios ver e em que ordem, como andar no gigantesco metrô sem estresse, onde comer bem e barato e como dar uma escapada de um dia à DMZ, a Suwon ou a Incheon. Seul assusta no começo, mas com um pouco de método vira uma das experiências de viagem mais viciantes da Ásia.
Seul é habitada há mais de dois mil anos, mas seu grande destino foi selado em 1394, quando o rei Taejo, fundador da dinastia Joseon, a escolheu como capital do seu novo reino e a chamou de Hanyang. Por mais de cinco séculos foi o centro de um Estado confucionista que ergueu palácios como o Gyeongbokgung, muralhas e os portões que ainda marcam a cidade antiga. O século XX foi duro com ela: a ocupação colonial japonesa (1910-1945), a divisão da península e a Guerra da Coreia (1950-1953), que a deixou em ruínas e a fez trocar de mãos quatro vezes. Dessas cinzas, Seul protagonizou o 'milagre do rio Han', uma transformação econômica vertiginosa que a tornou uma das capitais mais modernas do planeta, sede dos Jogos Olímpicos de 1988 e hoje epicentro da onda cultural coreana (hallyu). A história completa, de Hanyang à megacidade do K-pop, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The country's political heart for more than six centuries: capital of the Joseon dynasty and of modern Korea, with its gateway at Incheon and the border with the North.
Ler a história de Seoul and the northwest (capital region) →Um guia que mora no lugar conta em meia hora o que nenhuma placa explica. Nós buscamos na Civitatis: com guia em espanhol e reserva online sem complicação. Em Seul eles têm mais de 10 passeios. E aqui tem free tours: você reserva sem pagar nada e no final dá ao guia o que achar justo, então experimentar não custa nada. Aqui embaixo deixo três para você ver do que se trata: toque em qualquer uma e abrem todas.
Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de virar a megacidade do K-pop, o lugar onde hoje fica Seul já era habitado. Nas margens do rio Han foram encontrados restos de assentamentos pré-históricos, e no século I antes de Cristo a região foi o coração do reino de Baekje, um dos chamados Três Reinos que dividiam a península coreana. Sua primeira capital, Wiryeseong, ficava na área da atual Seul, junto ao rio, num ponto estratégico que controlava a passagem da água e as rotas comerciais. Ainda hoje existem vestígios daquelas fortalezas de terra, como Pungnaptoseong e Mongchontoseong, no sul da cidade.
Durante séculos, o controle do vale do rio Han foi disputado pelos três reinos (Baekje, Goguryeo e Silla) justamente pelo seu valor estratégico: quem dominava o Han dominava o centro da península. Silla acabou se impondo e unificando boa parte do território no século VII. Mais tarde, a região passou para a dinastia Goryeo (de onde vem o nome 'Coreia'), que a transformou numa capital secundária chamada Namgyeong, a 'capital do sul'.
O destino definitivo do lugar chegou no fim do século XIV. Em 1392, um general chamado Yi Seong-gye derrubou a enfraquecida dinastia Goryeo e fundou uma nova, a dinastia Joseon, que governaria a Coreia por mais de cinco séculos. Já como rei Taejo, ele procurou uma nova capital para o seu reino, longe da antiga corte, e em 1394 escolheu este ponto junto ao rio Han, protegido por montanhas, ao qual deu o nome de Hanyang. Nascia, com outro nome, a futura Seul.
Quando o rei Taejo fez de Hanyang a capital de Joseon em 1394, a cidade foi planejada seguindo os rígidos princípios do confucionismo e do feng shui (em coreano, pungsu): cercada por quatro montanhas guardiãs, cortada por riachos e organizada em torno dos símbolos do poder. Foram erguidos os grandes palácios (o principal, o Gyeongbokgung, em 1395), o santuário ancestral de Jongmyo, onde se cultuavam os reis falecidos, e o altar de Sajik. Uma muralha de pedra de cerca de 18 quilômetros, a Hanyangdoseong, fechava a cidade com grandes portões, alguns dos quais, como Namdaemun (Sungnyemun) e Dongdaemun, ainda estão de pé.
Por mais de cinco séculos, Hanyang foi o centro de um Estado profundamente confucionista, com uma burocracia de funcionários letrados (os yangban) selecionados por exames, uma corte cheia de cerimônias e uma vida cultural refinada. Foi também a cidade onde, no século XV, o rei Sejong, o Grande, promoveu a criação do hangul, o engenhoso alfabeto coreano pensado para que o povo comum pudesse ler e escrever, um dos maiores orgulhos da cultura coreana.
Nem tudo foi paz. No fim do século XVI, as invasões japonesas de Hideyoshi (a guerra Imjin, 1592-1598) arrasaram a cidade e queimaram seus palácios, incluindo o Gyeongbokgung, que ficaria em ruínas por quase três séculos. No século XVII vieram ainda as invasões manchus. Mesmo assim, Hanyang foi reconstruída e continuou sendo a capital de uma Coreia que, durante boa parte do período, viveu num isolamento voluntário que lhe rendeu o apelido de 'reino eremita'.
O século XIX pôs fim ao isolamento da Coreia. As potências estrangeiras (Japão, China, Rússia, Estados Unidos) pressionaram para abrir o país ao comércio, e a corte de Joseon ficou dividida entre a reforma e a resistência. Em 1897, numa tentativa de afirmar sua soberania diante dessas potências, o rei Gojong proclamou o Império Coreano e se declarou imperador. Mas já era tarde: o Japão, em plena expansão, já tinha a Coreia na mira. Depois de derrotar a China e a Rússia em duas guerras, impôs primeiro um protetorado e, em 1910, anexou formalmente a Coreia, que virou colônia japonesa.
Durante os 35 anos de domínio colonial (1910-1945), a cidade foi rebatizada de Gyeongseong (Keijo, em japonês) e passou por uma transformação intensa a serviço do império. Os japoneses modernizaram a infraestrutura, mas também reprimiram duramente a cultura e a identidade coreanas: o idioma foi proibido em muitos espaços, as pessoas foram obrigadas a adotar nomes japoneses e a mão de obra e os recursos do país foram explorados. Num gesto carregado de simbolismo, as autoridades coloniais desmontaram parte do palácio Gyeongbokgung e ergueram na frente dele o enorme edifício do Governo-Geral, escondendo de propósito o coração simbólico da antiga dinastia (esse prédio seria demolido pela Coreia nos anos 90).
A resistência coreana não parou. Em 1º de março de 1919 explodiu na cidade e em todo o país o Movimento Primeiro de Março, uma onda de manifestações pacíficas pela independência que foi reprimida com violência e deixou milhares de mortos, mas que se tornou um marco fundador do nacionalismo coreano. A libertação só chegaria em 1945, com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial.
A alegria da libertação de 1945 durou pouco. No fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética dividiram a ocupação da península pelo paralelo 38: os soviéticos ao norte, os americanos ao sul. O que seria uma divisão temporária congelou com a Guerra Fria, e em 1948 nasceram dois Estados rivais: a República da Coreia, ao sul, com capital em Seul, e a República Popular Democrática da Coreia, ao norte, com capital em Pyongyang. A península ficou partida em duas.
A tensão explodiu em 25 de junho de 1950, quando as tropas da Coreia do Norte cruzaram a fronteira e invadiram o sul, dando início à Guerra da Coreia. Seul, por estar perto do paralelo 38, ficou no centro da tempestade e trocou de mãos quatro vezes ao longo do conflito: caiu nas mãos dos norte-coreanos poucos dias depois, foi retomada pelas forças da ONU após o desembarque de Incheon em setembro de 1950, voltou a cair em janeiro de 1951 com a entrada da China na guerra e finalmente foi recuperada pelo sul. Cada troca de lado trouxe combates, bombardeios e destruição.
Quando o armistício foi assinado, em 27 de julho de 1953, a guerra tinha deixado milhões de mortos em toda a península e uma Seul devastada: grande parte de seus prédios, pontes e infraestrutura estava em ruínas, e sua população, dizimada e deslocada. Mas o armistício não foi um tratado de paz: tecnicamente, as duas Coreias continuam em guerra até hoje, separadas pela Zona Desmilitarizada. Seul ficou a apenas 40 ou 50 quilômetros dessa fronteira, uma proximidade que marca a vida da cidade até hoje.
A recuperação de Seul depois da guerra foi tão impressionante que ganhou nome próprio: o 'milagre do rio Han' (Hangang-ui gijeok). Em apenas uma geração, a Coreia do Sul deixou de ser um dos países mais pobres do mundo, com uma capital em ruínas, para se tornar uma potência industrial e tecnológica. Primeiro sob governos autoritários (em especial a longa ditadura do general Park Chung-hee, 1961-1979), o Estado promoveu uma industrialização acelerada, voltada para a exportação, que fez crescer gigantes empresariais (os chaebol) como Samsung, Hyundai e LG, muitos deles com sede em Seul. A cidade se encheu de fábricas, rodovias, pontes sobre o rio Han e conjuntos habitacionais, e sua população disparou com a chegada em massa de gente do interior.
Esse progresso econômico teve um custo político. Durante décadas, Seul foi palco de uma longa luta pela democracia: protestos estudantis, repressão, estados de exceção. A virada veio em junho de 1987, quando enormes manifestações na capital e em todo o país (a 'Revolta Democrática de Junho') obrigaram o regime a aceitar eleições livres. Assim, a Coreia do Sul se tornou uma das democracias mais sólidas da Ásia.
O mundo percebeu o renascimento de Seul em duas grandes vitrines: os Jogos Asiáticos de 1986 e, principalmente, os Jogos Olímpicos de Verão de 1988, que apresentaram ao planeta uma capital moderna, dinâmica e orgulhosa, bem longe da imagem da guerra. Desde então, Seul não parou de crescer e se modernizar: novos distritos como Gangnam, arranha-céus, um dos melhores metrôs do mundo e, na virada do século, a explosão da cultura pop coreana como fenômeno global.
A Seul de hoje é uma das capitais mais vibrantes e modernas do planeta, e o epicentro de um fenômeno cultural que conquistou o mundo: a 'hallyu', ou onda coreana. É daqui que saem o K-pop de grupos como BTS e BLACKPINK, os filmes e séries que ganham Oscars e batem recordes nas plataformas (de 'Parasita' a 'Round 6'), os cosméticos K-beauty e uma gastronomia cada vez mais admirada. Bairros como Gangnam, Hongdae e Seongsu concentram agências de entretenimento, cafés de design, lojas e estúdios que atraem fãs do mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, é uma metrópole de contrastes incríveis: no mesmo dia dá para atravessar o pátio de um palácio de cinco séculos enquanto acontece a troca da guarda com trajes tradicionais e, meia hora depois, subir a um mirante de vidro num dos arranha-céus mais altos da Ásia. Os hanok de Bukchon convivem com as torres de Yeouido; os templos budistas silenciosos, com os neons da vida noturna; os mercados centenários, com os shoppings subterrâneos mais modernos.
A história recente continua viva. Em 2016 e 2017, multidões pacíficas lotaram a praça Gwanghwamun nos 'protestos das velas', que levaram ao impeachment de uma presidente, mais uma prova da saúde da democracia coreana. E sobre tudo isso paira sempre a proximidade da fronteira: Seul leva a vida normalmente a poucas dezenas de quilômetros de uma das fronteiras mais militarizadas do mundo. Percorrer suas ruas é olhar ao mesmo tempo para o passado feudal de Hanyang, para as cicatrizes do século XX e para uma das visões mais futuristas do que pode ser uma grande cidade do século XXI.