Se existe uma cidade onde a Coreia se saboreia e se toca com as mãos, essa cidade é Jeonju. Aqui fica a maior e mais completa vila de casas tradicionais hanok do país: mais de 700 casas de telhados curvos de telha preta, amontoadas em um labirinto de ruelas onde milhares de visitantes passeiam vestidos de hanbok, o traje tradicional coreano, entrando e saindo de pátios, casas de chá, oficinas de artesanato e templos. É um dos lugares mais fotografados e queridos de toda a Coreia do Sul.
Mas Jeonju é muito mais do que um cartão-postal. É o berço da dinastia Joseon, que governou a Coreia por mais de cinco séculos: daqui era a família real, os Yi, e por isso a cidade guarda o retrato de seu fundador em um santuário próprio. E é, acima de tudo, a capital gastronômica do país: terra do bibimbap, aquela tigela de arroz com legumes, ovo e pasta de pimenta que aqui ganha sua versão mais célebre, e uma cidade tão voltada para a comida que a UNESCO a declarou Cidade Criativa da Gastronomia.
Este guia percorre Jeonju com um olhar prático e guloso: como chegar de trem saindo de Seul, o que ver no bairro hanok e arredores, onde provar o melhor bibimbap e os banchan sem fim da cozinha de Jeolla, como alugar um hanbok e passear como um local, e que história se esconde por trás de seus telhados. É uma das melhores escapadas culturais do país, ideal para um ou dois dias.
Jeonju tem um peso histórico enorme para uma cidade tão pequena. No ano 900, o general Gyeon Hwon a transformou na capital de Hubaekje ('Baekje Posterior'), um dos reinos do turbulento período dos Três Reinos Posteriores, até sua queda em 936. Mas seu grande momento veio séculos depois: Jeonju é o lar ancestral do clã Yi de Jeonju, a família da qual saiu Yi Seong-gye, o general que em 1392 fundou a dinastia Joseon e reinou como rei Taejo. Por isso a cidade guarda no santuário Gyeonggijeon o retrato oficial do fundador e é considerada a 'cidade natal' da dinastia que governou a Coreia por mais de 500 anos. Durante Joseon, foi capital provincial e centro da fértil região de Jeolla, o 'celeiro' do país, o que explica sua riqueza gastronômica. Em 1791, a cidade foi palco da execução de alguns dos primeiros mártires católicos coreanos, lembrados hoje na catedral de Jeondong. A história completa, de Hubaekje à Cidade da Gastronomia, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The cradle of the Joseon dynasty and the country's granary, a land of peasant revolts and the struggle for democracy: from Jeonju to the Gwangju of 1980.
Ler a história de The southwest (Jeolla) →Saem de Daegu, a 131 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Por trás da cidade simpática de casas tradicionais e bibimbap que o viajante conhece hoje, esconde-se uma história surpreendentemente pesada para o seu tamanho. Jeonju é uma dessas cidades coreanas que estiveram, em mais de um momento, no centro do poder do país.
Suas origens remontam à Antiguidade, quando era um povoado conhecido como Wansan, no território do reino de Baekje, um dos Três Reinos que dividiam a península coreana. No ano de 757, sob o reino unificado de Silla, o lugar recebeu o nome que tem até hoje: Jeonju.
O primeiro grande momento de glória chegou no fim do século IX, quando o poder de Silla desmoronava e a península voltava a se fragmentar, no período dos chamados Três Reinos Posteriores. No ano 900, um líder militar ambicioso chamado Gyeon Hwon proclamou o reino de Hubaekje ('Baekje Posterior'), com a intenção de reviver a glória do antigo Baekje, e escolheu Jeonju como capital. Durante algumas décadas, a cidade foi o coração político e militar de um Estado que disputou o domínio da Coreia, até que, em 936, Hubaekje caiu diante de Wang Geon, o fundador da dinastia Goryeo, que reunificou a península.
O segundo grande momento de Jeonju, e o que mais marca a sua identidade, não veio de ela ser capital, mas de ser berço. Jeonju é a terra ancestral do clã Yi (Lee) de Jeonju, uma das linhagens mais importantes da história coreana. Segundo a tradição, um antepassado chamado Yi Han se estabeleceu em Jeonju na época de Silla, e dessa linhagem descenderia, gerações depois, o homem que mudaria o destino do país.
Esse homem foi Yi Seong-gye, um general brilhante do fim da dinastia Goryeo. Em 1392, depois de anos de crise, Yi Seong-gye deu um golpe de Estado, destronou o último rei de Goryeo e fundou uma nova dinastia: Joseon, que governaria a Coreia por mais de cinco séculos, até 1897. Yi Seong-gye reinou como rei Taejo, o 'grande fundador'.
Como Jeonju era a terra de origem da família real, a cidade ganhou um status quase sagrado durante toda a era Joseon. Para honrar esse vínculo, em 1410 foi construído o santuário Gyeonggijeon, destinado a guardar o retrato oficial do rei Taejo: proteger a efígie do fundador equivalia a proteger a própria raiz da dinastia. No mesmo complexo foram guardados depois os Anais da Dinastia Joseon, a monumental crônica oficial hoje reconhecida pela UNESCO. Ser 'a cidade natal da dinastia' transformou Jeonju num lugar de enorme prestígio simbólico.
Durante os séculos da dinastia Joseon, Jeonju não foi apenas um símbolo dinástico: foi a capital administrativa da província de Jeolla, a mais fértil da Coreia. Essa região do sudoeste, de planícies generosas, arrozais e um litoral rico em peixes e frutos do mar, era o grande 'celeiro' do país, o que alimentava boa parte do reino.
Essa fartura agrícola teve uma consequência deliciosa e duradoura: a cozinha de Jeolla se tornou a mais elaborada e variada da Coreia, famosa sobretudo pela enorme quantidade de banchan (os pratinhos de acompanhamento) que cobrem a mesa a cada refeição. Jeonju, como capital da província, concentrou e refinou essa tradição. Foi aqui que o bibimbap ganhou sua forma mais célebre: a tigela de arroz com legumes da estação, ovo, carne e pasta de pimenta que hoje é um dos pratos coreanos mais conhecidos do mundo. Em reconhecimento a esse patrimônio, a UNESCO nomeou Jeonju Cidade Criativa da Gastronomia em 2012.
A história de Jeonju também tem páginas sombrias. Junto ao portão de Pungnammun, em 1791, foram executados alguns dos primeiros católicos coreanos, nas perseguições que a corte de Joseon, de ideologia confucionista, desencadeou contra a nova religião, considerada subversiva; sobre esse local de martírio seria erguida, já no século XX, a bela catedral de Jeondong. E em 1894 a região de Jeolla foi um dos epicentros da Revolução Camponesa de Donghak, um grande levante popular contra a corrupção e a interferência estrangeira que abalou os alicerces do Estado e anunciou o fim da velha Coreia.
Como todo o país, Jeonju viveu com dureza a primeira metade do século XX. Depois da anexação da Coreia pelo Império do Japão, em 1910, a província de Jeolla, por sua riqueza agrícola, foi explorada intensamente: boa parte do arroz que produzia era exportada para o Japão, muitas vezes à custa da fome dos próprios camponeses coreanos. O porto vizinho de Gunsan se tornou uma das saídas desse arroz, e na região se instalaram grandes propriedades e arrozais sob controle japonês. A ocupação, que durou até 1945, deixou uma ferida profunda e alimentou movimentos de resistência.
Depois da libertação de 1945 e da posterior divisão da península, a Coreia mergulhou na Guerra da Coreia (1950-1953), que arrasou o país inteiro. Superada a guerra, a Coreia do Sul iniciou, a partir dos anos 1960, uma industrialização acelerada que transformou a nação. Jeonju, sem ser um grande polo de indústria pesada, cresceu como capital provincial, centro administrativo e de serviços, e manteve seu caráter tradicional em meio à modernização galopante do resto do país.
Esse relativo 'ficar de fora' da grande industrialização trouxe, com o tempo, um prêmio inesperado: enquanto muitas cidades coreanas demoliam seus bairros antigos para erguer torres, Jeonju preservou seu centro histórico de casas hanok. O que na época podia parecer atraso se revelou depois um tesouro.
A Jeonju de hoje vive, em boa medida, de ter sabido cuidar da sua herança e valorizá-la. Desde o começo do século XXI, a cidade apostou forte no seu bairro hanok: restaurou casas, incentivou as casas de chá, as oficinas de artesanato tradicional (o papel hanji, os leques, a produção de bebidas) e os hanok stays, onde o viajante pode dormir numa casa tradicional. O resultado é a maior e mais viva vila de hanok da Coreia, que hoje recebe milhões de visitantes por ano, a maioria coreanos, muitos vestidos com hanbok para passear entre os telhados.
Jeonju também se reinventou como cidade cultural. Seu Festival Internacional de Cinema (Jeonju IFF), criado em 2000, se consolidou como um dos mais prestigiados da Ásia, com foco no cinema independente e experimental. A cidade faz parte, além disso, do movimento internacional 'Slow City' (Cittaslow), que promove um ritmo de vida mais tranquilo, e ostenta o título de Cidade Criativa da Gastronomia da UNESCO.
Assim, a velha Wansan que foi capital de um reino, berço de uma dinastia e celeiro da Coreia é hoje um dos passeios favoritos do país: um lugar onde se viaja ao passado caminhando entre casas de telhas pretas, se prova o bibimbap na sua terra natal e se brinda com makgeolli cercado por uma cascata de pratinhos. Jeonju mostra que, às vezes, o maior patrimônio de uma cidade é ter sabido não perder o que tinha.